terça-feira, 5 de agosto de 2014

O MERCADO DE NOTÍCIAS


Antonio Carlos Egypto




O MERCADO DE NOTÍCIAS.  Brasil, 2013.  Direção e roteiro: Jorge Furtado.  Documentário.  94 min.


“O Mercado de Notícias”, o documentário de Jorge Furtado, visa a discutir critérios e práticas jornalísticos, defender o bom jornalismo e o importante papel que tem na consolidação da liberdade de expressão e da democracia e, também, avaliar como a notícia é produzida, manipulada e difundida, enquanto negócio, o seu poder, os riscos que tudo isso envolve e o futuro da profissão.

Contou com a contribuição de treze importantes jornalistas brasileiros, que apresentaram sua visão dessas questões em entrevistas e depoimentos.  São profissionais de grande porte e experiência: Mino Carta, Jânio de Freitas, Luís Nassif, Raimundo Pereira, Paulo Moreira Leite, Bob Fernandes, José Roberto Toledo, Geneton Moraes Neto, Maurício Dias, Leandro Fortes, Cristiana Lôbo, Renata Lo Prete e Fernando Rodrigues.


JÂNIO DE FREITAS


O documentário, porém, não se resume só às falas dos jornalistas e a alguns vídeos esclarecedores de situações tratadas na conversa.  Há, também, o resgate de uma peça de título homônimo, “Mercado de Notícias”, no original, “Staple of News”, escrita por Ben Jonson, em 1625, que teve sua primeira tradução realizada agora, por Jorge Furtado e Liziane Kugland.  Trechos da peça são lidos e encenados, com roupas de época e tudo, e fazem a delícia e a originalidade desse filme. Ben Jonson, grande dramaturgo da renascença inglesa, contemporâneo de William Shakespeare, a escreveu nos primórdios da existência da imprensa e surpreende pelas questões que constata e prevê.  É impressionante a atualidade da peça.



Ela aborda um personagem jovem, Pila Jr., cujo tio Pila lhe deixa uma herança polpuda, desde que ele seja capaz de conquistar a bela e rica Pecúnia, ou seja, o dinheiro e o poder.  A dama é cortejada por muitos e tem como servas Hipoteca, Norma, Promissória e Taxa.  A novidade em Londres é o recém-criado mercado de notícias, um negócio que  parece muito promissor.  Emoções e novidades, que constituem o cerne da notícia, são o objeto de venda.  Custam mais ou menos caro, conforme o interesse do comprador.  As notícias podem ser aumentadas, inventadas, modificadas, se os compradores assim o desejarem.  A venda de fofocas é um sucesso, naturalmente.  E o departamento comercial é criado para ditar o rumo da produção e distribuição das notícias.



Na peça de Ben Jonson, fica evidente a denúncia da mercantilização da informação, num período imediatamente posterior ao nascimento da própria imprensa.  Ali já havia trambicagem, manipulação, venda de notícias por dinheiro e a maquiagem da informação.  Ao mesmo tempo em que mostra a valorização e, portanto, o poder, de quem detém a notícia.  Apresenta a discussão política sobre o interesse constante pelo dinheiro nesse negócio e como ele transforma a informação e relativiza a verdade.  Colocações incrivelmente atuais e que não se esperava que já estivessem tão claras no século XVII.

O filme de Jorge Furtado mostra alguns exemplos contemporâneos e brasileiros dessa manipulação das notícias.  Um caso marcante e já bastante citado é o das “denúncias” de abuso sexual na Escola Base, de Educação Infantil, que destruiu reputações e é emblemático do poder demolidor que pode ter a mídia.

Outro exemplo é o da famosa bolinha de papel que atingiu o então candidato presidencial José Serra e foi noticiada como agressão com um objeto pesado, com direito a ida a um pronto-socorro e realização de exame tomográfico.  Diferentes vídeos de várias emissoras de TV, por ângulos diversos, exibidos no filme, mostram claramente que era mesmo só uma bolinha de papel e levantam dúvidas sobre quem a teria atirado. Sempre estiveram disponíveis, mas essa “investigação” não interessou aos grandes órgãos da mídia naquele momento.



Chega a ser hilário um outro caso relatado: o da presença de um desenho original de Picasso, ornando uma sala do INSS.  Merece atenção e foi pouquíssimo divulgado.

Enfim, o filme “O Mercado de Notícias” é uma excelente oportunidade para refletir sobre o jornalismo e o consumo da notícia na atualidade.  Ajuda-nos a perceber ao que podemos estar expostos numa absorção ingênua da informação manipulada.  Valoriza a busca da informação qualificada, fruto de investigação e verificação, que é fundamental para a vida moderna.  E a separar o que é notícia, necessariamente dependente dos fatos, do que é opinião ou interpretação ideológica dos acontecimentos.  Ou seja, a colocar cada coisa no seu devido lugar.

Mais um ótimo trabalho de Jorge Furtado e da Casa de Cinema de Porto Alegre, que já nos deram filmes como “Ilha das Flores”, curta de 1989, “Houve Uma Vez Dois Verões”, de 2002, “O Homem que Copiava”, de 2003, “Meu Tio Matou um Cara”, de 2004, e “Saneamento Básico, o Filme”, de 2006.


quinta-feira, 31 de julho de 2014

COMO NA CANÇÃO DOS BEATLES: NORWEGIAN WOOD

Antonio Carlos Egypto




COMO NA CANÇÃO DOS BEATLES: NORWEGIAN WOOD (Noruwei no Mori). Japão, 2010.  Direção e roteiro: Tran Ahn Hung.  Com Ken’ichi Matsuyama, Rinko Kikuchi, Kiko Mizuhara, Kengo Kôra.  133 min.


O cineasta vietnamita Tran Ahn Hung realiza um trabalho estético sofisticado no cinema.  Como atestam seus filmes, “O Cheiro do Papaia Verde”, de 1993, e “Luzes de um Verão”, de 2000.  Não é diferente com este “Como na Canção dos Beatles: Norwegian Wood”.  Ele realiza enquadramentos belíssimos, sobretudo em locais de natureza exuberante, ou pequenos espaços que contemplem plantas e objetos marcantes para a trama e passeia sua câmera pelos ambientes e pelas pessoas.  Faz um uso intensivo do close, para mostrar rostos, objetos, detalhes relevantes.  É algo para ser sorvido, apreciado sem pressa, cultivando a beleza.

No filme, a fotografia de Ping Bin Lee, que também trabalhou com Wong Kar Wai, em “Amor à Flor da Pele”, tem uma participação fundamental nessa estética.  As locações, como sempre, são de tirar o fôlego, de tão belas.  Nos filmes anteriores, mostravam belezas do Vietnã, agora, do Japão.  Como a ação se passa parte em Tóquio, parte, no interior, e numa região de montanhas, o verde exuberante, o branco da neve, o pôr-do-sol se destacam na tela, emoldurando um drama de amor baseado no romance de Haruki Murakami.



A questão central colocada pela narrativa indaga sobre o amor verdadeiro e que vicissitudes ele pode suportar.  Esse amor pode resistir ao suicídio da pessoa amada?  Resistirá a uma espera longa, quase infinita?  E à presença de um outro ou outra junto ao ser amado?  Enfrentará o desequilíbrio mental da pessoa amada e suas dificuldades sexuais?

Não são perguntas retóricas.  Elas estão contextualizadas na história de cada personagem, seus desejos, medos e expectativas.  E são expostas de forma clara, como na situação da personagem Naoko (Rinko Kikuchi) que apresenta um quadro de vaginismo associado a outros desequilíbrios emocionais.


 

A morte, sempre presente e interferindo na relação dos amantes, a imperiosidade da escolha, o tempo que decorre, as frustrações que se apresentam, são partes integrantes e determinantes do drama vivido pelo protagonista Watanabe (Ken’ichi Matsuyama) junto a Naoko, namorada do amigo morto Kizuki (Kengo Kôra), que vivem uma complicada paixão.  A isso se junta a relação de Watanabe com Midori (Kiko Mizuhara), que também o ama, mesmo sabendo de sua relação com Naoko.  E que, por outro lado, tem um namorado.  Por aí segue a roda dos amores e dos desejos.

O contexto em que tudo isso se dá é o Japão do final dos anos 1960, a agitação política que tomou conta do mundo e tem sua expressão em grandes cidades, como Tóquio.  Mas esse é apenas o pano de fundo da história, não tem maior peso ou significado nas ações dos personagens.




A trilha sonora inclui a música dos Beatles, incorporada ao título, e tem a autoria de Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead.  Música que serve para acentuar a arte do belo que o filme cultua.

Em São Paulo, ele está sendo exibido no cine Belas Artes, devidamente reformado e reincorporado à vida cultural da cidade, graças a uma campanha popular que teve o apoio da Prefeitura e o patrocínio da Caixa.


terça-feira, 29 de julho de 2014

O HOMEM DAS MULTIDÕES


Antonio Carlos Egypto



O HOMEM DAS MULTIDÕES.  Brasil, 2013.  Direção e roteiro: Cao Guimarães e Marcelo Gomes.  Com Paulo André, Sílvia Lourenço, Jean-Claude Bernadet.  95 min.


“O Homem das Multidões”, ou melhor, o homem solitário em meio à multidão.  Que caminha só, no mar de gente que circula pelas plataformas urbanas de trens.  Que caminha junto aos trens e aos seus trilhos.  Que entra no trem.  Que observa do alto a passagem dos trens.  Sua vida parece se resumir aos trens.

Esse homem é Juvenal (Paulo André), maquinista de metrô em Belo Horizonte.  Vive e mora só e cumpre bem sua função no trabalho.  Relaciona-se na função com Margô (Sílvia Lourenço), controladora do fluxo dos trens.  Há mais silêncios do que contatos verbais nessa relação.



Margô está para se casar, põe convite para seu casamento na oficina de trabalho.  Mas é igualmente uma mulher solitária.  O casamento resultou de um site de relacionamentos na Internet, em que encontrou o perfil ideal para ela.  E, supõe-se, valha o mesmo para o consorte. Relacionamentos virtuais se complicam quando passam para o mundo real.  Coisas prosaicas, como ter um padrinho, podem se tornar um problema, porque aí não valem as categorias utilizadas pelas redes sociais.  Amigos não se obtêm com um toque.

É dessa substância reflexiva - solidão, isolamento, incomunicabilidade, virtualidade - no esgarçado tecido urbano das grandes cidades, que se nutre o filme de Marcelo Gomes e Cao Guimarães.




Há muita beleza nas imagens que eles produzem, nos enquadramentos expressivos, que dizem muito, nos tons esmaecidos, sem vida, que compõem com precisão a forma que relata o que experimentam os personagens.  Mas há outro fator que é ainda mais marcante: a redução intencional da imagem.

Quando a projeção começa, você vê que o filme ocupa pouco mais do que o terço central da tela do cinema.  Quase dois terços estão vazios, há espaço semelhante ao projetado, tanto à direita, quanto à esquerda.  E mais: o tamanho da tela parece pequeno para o que se quer mostrar.  As coisas estão espremidas na imagem, pessoas que interagem ficam fora do quadro, às vezes, ou alguém cobre parte do quadro, como que a mostrar que o resto da tela que não está sendo usado faz falta.  O mundo se apequena, se espreme, se reduz.  As possibilidades humanas de viver estão limitadas pela solidão profunda em meio à multidão.  Isso está na utilização da tela, tanto quanto ou mais do que nas cenas mostradas.



A redução da existência incomoda, prende, limita também o espectador.  O tempo custa a passar, dá vontade de sair dali, respirar com desenvoltura, ocupar o espaço e interagir com os outros.  Sair do sufoco.

Como se pode ver, o filme incomoda porque é muito bem feito, atinge seus objetivos.  Certamente, não diverte.  É um filme experimental, que está buscando outras coisas. E explorando as múltiplas possibilidades da linguagem cinematográfica.




O trabalho do pernambucano Marcelo Gomes e seus parceiros, no caso, aqui, o mineiro Cao Guimarães, tem sido marcado pela busca de renovação dessa linguagem, como atestam filmes como “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de 2005, e “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, de 2009, trabalhos indispensáveis para quem quer apreciar o que de melhor se fez no cinema brasileiro, nos últimos anos.  “Era Uma Vez Eu, Verônica” (veja crítica publicada aqui, em novembro de 2012), embora menos inovador, é um trabalho igualmente denso e consistente.  “O Homem das Multidões” é um filme que merece toda a atenção, embora se dirija a um público restrito, por sua concepção.


terça-feira, 22 de julho de 2014

AMAR, BEBER E CANTAR


Antonio Carlos Egypto



AMAR, BEBER E CANTAR (Aimer, Boire et Chanter).  França, 2013.  Direção: Alain Resnais.  Com Sabine Azéma, Hippolyte Girardot, Caroline Silhol, André Dussolier, Sandrine Kiberlain, Michel Vuilermoz.  112 min.


“Amar, Beber e Cantar” é o último filme do mestre do cinema Alain Resnais, realizado aos 90 anos de idade, um ano antes de sua morte.  É uma pena, e é triste, que seja o último.  A contribuição de Resnais para o cinema é imensa e seu trabalho, sempre inovador, fará muita falta.  Essa contribuição já vem de longe, alcançando seu auge em 1959 e 1961, com os clássicos “O Ano Passado em Marienbad” e “Hiroshima, Mon Amour”, filmes que implodiram a narrativa clássica e abriram novas perspectivas para o uso do tempo no cinema.  Se tivesse feito só isso, já teria deixado uma grande e decisiva marca histórica.  Mas não, ele trabalhou o tempo todo, realizando filmes incríveis e marcantes, década após década.  “Providence”, de 1976, e “Meu Tio da América”, de 1980, estão entre os muitos que eu poderia citar.  Mas eu gostaria de lembrar que seus últimos filmes são grandes realizações também.  O final de sua produção artística, na verdade, foi um novo auge.  A idade avançada pode produzir trabalhos sólidos e espetaculares, como os dele e de Manoel de Oliveira.  “Medos Privados em Lugares Públicos”, de 2006, “Ervas Daninhas”, de 2009, e “Vocês Ainda Não Viram Nada”, de 2012, (todos com críticas publicadas no cinema com recheio) são pérolas de humanismo e humor inteligente e complexo.  “Vocês Ainda Não Viram Nada” é também uma elegia ao teatro, o que se repete em  “Amar, Beber e Cantar”.




Aqui, George, o personagem ausente, está com os dias contados.  O câncer que o acometeu só lhe possibilita poucos meses de vida.  Seus amigos procuram oferecer-lhe o que de melhor puderem, para que esse final lhe seja agradável.  E descobrem que o teatro amador que estão ensaiando poderia incluí-lo e dar-lhe novo alento, a proximidade e a afetividade de amigos de toda uma vida.  O teatro como elemento motivador, salvador. 

Por meio desses amigos e o que vai se passando com eles, vamos conhecendo melhor George.  Descobrimos, por exemplo, que ele é sedutor, mulherengo, desorganizado, impontual, e gosta de dormir até tarde, entre outras coisas.  É notável como isso se revela pelo comportamento dos seres com quem ele se relaciona.  Também podemos avaliar a performance artística dele e dos outros na peça que nunca é mostrada.  Só a decoração de trechos do texto aparece, além de um pequeno ensaio de diálogo que, na verdade, expõe a relação do casal de atores fora da peça.




O teatral está também nos cenários adotados: cortinas na forma de painéis estapam diferentes casas, simples ou suntuosas, o ambiente do campo, o acesso ao teatro.  A mudança de cena se faz por meio de desenhos realizados a partir de construções reais, incluindo os elementos que fazem parte dos cenários utilizados no filme.  Uma estrada cercada de verde, por onde circula um veículo que não é mostrado, também divide as cenas, pontuando os deslocamentos.  Passa pela cidade e suas belas construções em York, na Inglaterra, ou no ambiente campestre.

Os papéis dos personagens da trama são vividos por grandes atores e atrizes franceses, colaboradores habituais do diretor.  Suas atuações, impecáveis como sempre, dispensam maiores comentários.  Nos filmes de Alain Resnais o que não falta é talento interpretativo.  O fato de ele se valer quase sempre dos mesmos atores e atrizes, sobretudo nos filmes da última fase, parece facilitar e garantir isso.  Percebe-se uma relação de confiança e cumplicidade, um caráter de equipe nos desempenhos.  Tudo flui com facilidade.


ALAIN RESNAIS

O humor com que são tratados assuntos aparentemente trágicos, ou pelo menos complicados, como as infidelidades e mágoas passadas, além da morte iminente, torna o filme mais do que sedutor.  Alain Resnais, nesses seus trabalhos mais recentes, incluindo esse último, tem uma leveza profunda, que é uma coisa admirável.  É preciso muito lastro para chegar a um resultado assim.  Que, no entanto, parece tão simples.  Uma lástima que acabe por aqui.  Resta-nos, agora, rever a sua obra excepcional, para lembrar que foi um dos maiores cineastas de todos os tempos.  E que, felizmente, viveu bastante e produziu muito.  O cinema, a arte, a cultura, são gratos a Alain Resnais.



quinta-feira, 10 de julho de 2014

VIVA A LIBERDADE

Antonio Carlos Egypto



VIVA A LIBERDADE (Viva la Libertá).  Itália, 2013.  Direção: Roberto Andò.  Com Toni Servillo, Valerio Mastandrea, Valeria Bruni Tedeschi, Michela Cescon, Anna Bonaiuto. 97 min


Após o sucesso e o prestígio adquiridos com o filme “A Grande Beleza”, de Paolo Sorrentino, o ator Toni Servillo está de volta num filme em que se destaca por dois papéis de protagonista bem diferentes, “Viva a Liberdade”.

O primeiro deles é Enrico Olivieri, político, secretário do principal partido de oposição e candidato que não anda empolgando muito o eleitorado.  Está em baixa nas pesquisas, tem sido contestado em público e dentro de seu próprio partido.  Anda deprimido, sem capacidade de reação.  Na verdade, não tem muito a dizer.  Sua história política é medíocre, burocrática, suas mensagens parecem superadas, sem criatividade.




O outro protagonista do filme é o personagem Giovanni Ernani, irmão gêmeo univitelino do político, que é filósofo brilhante, tem transtorno bipolar, esteve uma temporada no manicômio.  É uma figura alegre, inteligente e inofensiva.  Mas que escapa aos controles, por sua mente ágil e lúcida e sua capacidade de improvisar.

Quando Enrico desaparece sem deixar vestígios, seu assessor e sua esposa saem em sua busca, sem sucesso, e se lembram de procurar por Giovanni, que adorará ocupar o lugar de seu irmão na campanha. Quando o candidato reaparece, repentinamente, para o eleitorado, surpreende pelo que diz e faz, mas sua mudança é aprovada pela opinião pública.  Está posto o imbroglio.



Toni Servillo modula os personagens Enrico e Giovanni de forma bem distinta, ambos inteiramente convincentes.  Enrico, acuado, depressivo, vai em busca de sua liberdade pessoal e encontra caminhos a trilhar distantes do jogo político.  Sua apatia vai se transfigurando em alegria, descobertas e afetividade.  Antigas lembranças amorosas preenchem seus dias, ele vai se transformando.

Enquanto isso, ele faz de Giovanni uma espécie de louco manso, que se compraz em expressar suas verdades de uma forma simbólica, sugerindo mais do que afirmando, fazendo pensar.  O que tem tudo para soar hermético, filosófico, diante do discurso político usual, parece especialmente claro, sincero e verdadeiro.  A mansidão e aparente segurança do orador dão muito bem o tom ao personagem.




Presente em todas as cenas do filme, alternando os dois protagonistas, Toni Servillo mostra do que é capaz um grande ator.  É ele que sustenta toda a narrativa.  A história é boa, o filme é bem dirigido, abre espaço para uma reflexão interessante sobre a realidade política e eleitoral, a comunicação entre candidato e eleitores e os limites da ação dos partidos.  Além disso, discute a dimensão pessoal das realizações humanas, em que poder e felicidade podem estar em desarmonia.  Também possibilita avaliar o poder da palavra, quando empregada no momento apropriado.  Mas o desempenho do ator faz toda a diferença.  Dá uma dimensão maior ao trabalho realizado pelo diretor Roberto Andò.

O momento em que “Viva a Liberdade” está sendo lançado nos cinemas brasileiros é muito apropriado: em ano eleitoral, a poucos meses do pleito nacional,  mostrando bastidores da política eleitoral, mas focalizando o debate por um outro ângulo.


quinta-feira, 3 de julho de 2014

NÃO ACEITAMOS DEVOLUÇÕES

Antonio Carlos Egypto



NÃO ACEITAMOS DEVOLUÇÕES (No Se Aceptan Devoluciones).  México, 2013.  Direção: Eugenio Derbez.  Com Eugenio Derbez, Loreto Peralta, Karla Souza, Jessica Lindsey.  115 min.



A comédia mexicana “Não Aceitamos Devoluções” foi um fenômeno de público em seu país: 18 milhões de mexicanos foram ao cinema ver o filme.  Bem mais gente do que os que foram ver “Tropa de Elite” no Brasil.

O que explica tamanho sucesso?  Difícil dizer.  Trata-se de uma película dirigida por um estreante, que também a protagoniza, o comediante Eugenio Derbez.  O filme tem um bom número de cenas realmente engraçadas, algumas têm um tom dramático e até mesmo meloso.  No geral, a trama prioriza a afetividade e o tom de brincadeira.  O roteiro é muito bom e o desfecho da narrativa surpreende, já que nos encaminha para um lado e o que acontece é o que não se esperava.  Legal, bem bolado.



Há também cenas que exploram clichês, situações manjadas ou improváveis.  A história tem vários desdobramentos e mantém o interesse do espectador.  Enfim, um produto popular de boa qualidade.  Explica tanto sucesso?  Repetirá o mesmo por aqui?  Creio que não, para as duas perguntas.  Mas sucesso é algo insondável e imprevisível, não é?

Bem, e de que trata o filme?  De um cara mulherengo e medroso, que acaba tendo de conviver com seu outro lado, se torna um pai dedicadíssimo para uma filhinha que resultou de um contato sexual bem eventual, mas que acaba entregue a ele, sem volta, pela mãe.  Para dar conta de educar a filha, ele acaba encontrando um emprego bem remunerado, nos Estados Unidos: dublê de cenas de ação em Hollywood.  Algo que exige dele o que ele não tem: coragem.



Ele mima exageradamente a filha, afinal, não sabe ser pai com equilíbrio, mas se torna um herói para ela, por conta de seu trabalho arriscado.  Enquanto isso, ele cria uma narrativa fantástica a respeito da mãe ausente: ela se torna uma super heroína que vive viajando para salvar o mundo de muitas tragédias e escreve lindas cartas para a filha.  Até que ela resolve reaparecer...



O elenco, encabeçado pelo diretor Eugenio Derbez, que explora bem o humor físico, tem na menina Loreto Peralta, que faz a filha Maggie um pouco mais velha, um destaque.  Ela faz com muita graça o seu papel.

Se o filme não tem maior profundidade, também não tem o que o desabone.  Não destila preconceitos, nem abusa de estereótipos, apesar de flertar com alguns deles.  E dá alguns toques interessantes sobre as responsabilidades que temos de assumir, além de respeitar os limites e características pessoais de cada um, diante do que lhe cabe.  E até festeja formas alternativas de encarar os desafios que a vida apresenta a todos.




sexta-feira, 27 de junho de 2014

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE

Antonio Carlos Egypto





O GRANDE HOTEL BUDAPESTE (The Grand Budapest Hotel)Estados Unidos, 2013.  Direção e roteiro: Wes Anderson.  Com Ralph Fiennes, Tony Revolori, F. Murray Abraham, Saroise Ronan, Jude Law, Tilda Swinton.  100 min.



O mundo é um lugar estranho, cheio de figuras bizarras que compõem a fauna humana.  E recheado de histórias esquisitas, surpreendentes e, por isso mesmo, engraçadas.  Sempre foi assim.  Olhando para o passado com espírito crítico, e não apenas nostálgico, e fazendo uso da ironia, podemos entrar no curioso e original universo do cineasta norte-americano Wes Anderson, um dos mais criativos realizadores da atualidade.

“O Grande Hotel Budapeste” é um exemplo bem acabado do talento desse diretor.  É uma aventura cômica sobre uma Europa em mudança vertiginosa, no período entre as guerras mundiais, povoada por personagens que circulavam num daqueles grandes e suntuosos hotéis do passado, em que a hospitalidade e o requinte se destacavam.



O protagonista é Gustave H. (Ralph Fiennes), concierge do hotel, uma figura multifacetada, marcada pela gentileza, refinamento e generosidade.  Ao mesmo tempo, é uma pessoa insegura, carente, meticulosa.  De uma época romântica  em que a amizade, a honra e o cumprimento de promessas são valores a serem cultivados.

Quem também protagoniza essa história é Zero Moustafa (Tony Revolori, quando jovem, F. Murray Abraham, quando velho), mensageiro de confiança de Gustave H., que se torna seu amigo e acaba proprietário do hotel, agora já decadente.



Permeando essa relação, há uma história de amor e envolvimento sexual de Gustave H. com mulheres idosas, na casa dos 80 anos de idade, frequentadoras do hotel. Uma delas lhe deixa de herança um quadro renascentista valiosíssimo, “O Menino e a Maçã”, motivo de grandes confusões e perseguições com a família de Madame D.: Tilda Swinton, incrivelmente envelhecida.

Por aí vai essa deliciosa narrativa, que explora muita coisa: do crime à gastronomia, passando pela política e pelas relações humanas.  Tudo centrado no Grande Hotel que envolve todos os seus estranhos personagens, num país alpino imaginário, Zubrowska.  Os cenários do sofisticado hotel foram desenvolvidos num local que na verdade é uma grande loja, situada num ponto de intersecção da Alemanha, da Polônia e da República Tcheca, locação de rara beleza. 



Os figurinos, excepcionais, ajudam a criar os personagens e até nos fazem esquecer dos grandes atores e atrizes convocados para atuar no filme.  Mas é um elenco impressionante, que inclui, além dos já citados, Mathieu Amalric, Adrien Brody, Edward Norton, Harvey Keitel, Jeff Goldblum, Jude Law, Bill Murray, William Dafoe, Léa Seydoux, Saroise Ronan, Tom Wilkinson, Jason Schwartzman e Owen Wilson.

Wes Anderson tem um humor muito característico, que se vale dessa reconstrução não para nos levar ao realismo, mas para acentuar o inusitado do contexto, da situação histórica e dos personagens bizarros.  A leveza do seu toque nos faz rir, ao mesmo tempo em que lida com temas e situações que nos levam à reflexão e a grandes emoções.  Movimentos de câmera rápidos enfatizam o ambiente, as reações, nos dão uma visão do todo, ampliando a percepção, e criam belas sequências de ação.



“O Grande Hotel Budapeste” é um filme de exceção, não só em relação à produção norte-americana atual, mas pelo estilo e originalidade raramente encontrados nos filmes que têm desaguado no mercado exibidor.  Em especial, quando se trata do gênero comédia, tão sujeito a apelações e grosserias, absolutamente ausentes do cinema inteligente de Wes Anderson 



quinta-feira, 26 de junho de 2014

Uma Juíza Sem Juízo

Tatiana Babadobulos



Uma Juíza Sem Juízo (9 Mois Ferme). França, 2013. Direção e roteiro: Albert Dupontel. Com: Albert Dupontel, Sandrine Kiberlain, Jean Dujardin e Nicolas Marié. 82 minutos

Um dos grandes sucessos na França no ano passado, chega aos cinemas brasileiros a comédia “Uma Juíza Sem Juízo” (“9 Mois Ferme”). O filme, cuja estreia está prevista para quinta, 26, recebeu seis indicações ao César 2014 e venceu em duas: melhor roteiro original e melhor atriz.

Na trama, Ariane Felder (a ganhadora do César Sandrine Kiberlain, de “Mademoiselle Chambon“), 40, é juíza da vara familiar da Corte francesa e, principalmente por conta dos casos que recebe, é convictamente solteira.

Na festa de Ano-Novo, porém, ela bebe demais e as consequências de seus atos daquela noite vão aparecer da pior maneira possível. É na ocasião que a juíza conhece Bob (Albert Dupontel), um fugitivo da polícia que está sendo acusado de comer (literalmente) os olhos do dono da casa que ele efetuou um grande roubo.

As cenas que mostram como supostamente isso pode ter acontecido são hilárias!


Além de atuar, Dupontel também é diretor e roteirista do filme. Ao lado de Sandrine, ele conta ainda com Jean Dujardin (“O Artista“), que faz uma participação especial. Ele faz o papel de intérprete, responsável por traduzir para a língua dos surdos o que diz o telejornal de maneira muito engraçada!

Entre os pontos baixos, o longa é inverossímil, trata-se de uma história boba e não conclui o suspense que ele mesmo criou, como o autor do crime julgado. Os óculos na ponta do nariz da personagem de 40 não combinam.

Mas “Uma Juíza Sem Juízo” tem seus momentos: é despretensioso, ri de si mesmo e, até certo ponto, diverte a plateia que está ali para dar risada.



Parte das cenas se passa na Corte francesa e a produção obteve permissão de filmar no seu interior. No material de divulgação para a imprensa, o diretor conta que “o interior não se parece com nenhum outro lugar no planeta. O paradoxo está no contraste entre a beleza do prédio e os acontecimentos dramáticos que ocorrem lá diariamente… É um lugar muito imponente”.

E os pontos altos continuam: na trilha sonora, a cantora francesa Camille; e são apenas 82 minutos de projeção.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O HOMEM DUPLICADO

 Antonio Carlos Egypto



O HOMEM DUPLICADO (Enemy).  Canadá, 2013.  Direção: Denis Villeneuve.  Com Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah Gadon, Isabella Rossellini.  90 min.



Uma história intrigante, saída de um romance de José Saramago, deu origem ao filme canadense “O Homem Duplicado”.  Uma trama que envolve o espectador, cria suspense, mistério.

Imagine a situação: um homem adulto descobre que tem um clone.  Alguém igualzinho a ele, com a mesma voz.  A mãe garante que ele não tem um irmão gêmeo, univitelino, que ela tenha escondido.  Como explicar esse sósia? De qualquer modo não será possível ignorar sua existência.

O fato é que isso mexe muito com os dois personagens idênticos, que irão procurar encontrar seu duplo e lidar com a estranha situação.  Além deles, suas mulheres terão de se relacionar com os dois, algo inusitado e angustiante, que desestabiliza ambas as relações.



Há aí um mote muito interessante para o desenvolvimento da narrativa.  Cenas que envolvem telefonemas e comportamentos estranhos, perseguições, confrontos, ambiguidades.  Tudo isso faz do filme uma experiência atrativa.

Mas o diretor Denis Villeneuve, do superestimado “Incêndios”, de 2010, complica mais do que seria necessário o tal mistério.  Joga o espectador numa zona cinzenta e faz questão de não sair dela.  Para quê?  Para que o mistério continue sendo mistério.  E por quê?  Não se podem ou não se devem elucidar as questões?  Diante de uma proposta que envolve a questão da perda da identidade numa sociedade que valoriza o individualismo, o assunto fica submerso no mistério. Estranho.  O final deve ficar aberto, mesmo que se pudesse entendê-lo?  Não sei qual é a intenção ou justificativa.  Só posso dizer que não gostei da forma como ele encaminhou a resolução do filme.  Mais parece uma “pegadinha”, embora apresente ares de profundidade artística, obra aberta, essas coisas.  Não convence.



Quem faz o duplo papel do protagonista masculino é Jake Gyllenhaal, bom ator, que tem a oportunidade de viver duas personalidades distintas e até de contracenar consigo mesmo, e o faz com uma interpretação sutil e apropriada.

Um filme bom de se ver, embora fique devendo alguma coisa mais consistente para o espectador.  A bela história do grande Saramago merecia mais



quarta-feira, 11 de junho de 2014

120 FILMES SOBRE CINEMA


Antonio Carlos Egypto


O cinéfilo, ou amante do cinema, costuma ser uma figura vista pelos outros como um pouco estranha.  Conheço gente que vai ao cinema todos os dias, que assiste praticamente a tudo o que passa no circuito comercial, gente que procura todas as oportunidades, descontos, mostras gratuitas, para não deixar de ir ao cinema, mesmo sem dinheiro.  Há quem considere todos os filmes autorais, seja quem for o diretor ou a nacionalidade, imperdíveis.  Monitora-se o que vai ser lançado, com base no que se viu ou divulgou dos festivais internacionais mais importantes, como Cannes, Berlim ou Veneza.

Com o avanço da tecnologia, principalmente das TVs, há também os cinéfilos mais acomodados: aqueles que veem filmes todos os dias, mais de um até, mas em casa, se valendo da programação da TV paga, do DVD, do BluRay, dos filmes disponíveis ou alugáveis on line e de baixar filmes pelo Torrent ou similar.  Seja como for, a paixão continua.  Com menos impacto, mas continua.

Pois bem, desta vez me deparei com um cinéfilo que se deu ao trabalho de listar os filmes sobre cinema, ou seja, que abordam o filme dentro do filme, a criação, a execução ou a difusão do trabalho cinematográfico.  Ou alguma das muitas etapas de sua realização.  Ele se chama Jeferson Araújo Pereira, é assistente administrativo da Prefeitura Municipal de São Paulo.  E publicou sua pesquisa em livro.  Bancado por ele mesmo.




Trata-se do livro “120 Filmes Sobre Cinema”.  Nele, cada filme listado recebe um comentário avaliativo curto, de dez a quinze linhas, que situa o leitor diante da obra.  Os filmes estão apresentados em ordem crescente de data, sendo o primeiro de 1909 e o último, de 2012.  Ao revisar a própria lista, Jeferson se deu conta de que ele disporia de mais 56 filmes para indicar.  Mas seria demais resenhar todos esses também.  A bem dizer, o livro nunca ficaria pronto.  De qualquer modo, os títulos, ano de produção e diretor, estão listados para quem quiser conferir.

Um trabalho legal, de apaixonado.  Pode-se discordar aqui e ali de algum comentário, alguma expressão ou conceito que mereceria mais nuances ou cuidado para não se cometer injustiças, mas isso é o de menos.  O que ele compartilha conosco é a sua paixão, é a sua verdade.  Isso é muito bom e traz informações relevantes.

Quem está lendo esta matéria e se interessou por sua leitura vai, inevitavelmente, perguntar: Como posso obter esse livro, já que é uma produção independente?  O Jeferson me informa que “120 Filmes Sobre Cinema” pode ser encontrado em São Paulo, na livraria Cultura do Conjunto Nacional, na avenida Paulista, ou nas lojas da 2001 Vídeo.  Também pode ser adquirido nos sites das duas organizações. Ou, então, entrando em contato com o autor, pelo e-mail japguitar@uol.com.br

Ah!  Antes que me esqueça: eu também me incluo na categoria de cinéfilo, desde garoto.  O cinema apaixona mesmo, não tem jeito.  E a telona é insuperável!