domingo, 16 de janeiro de 2011

O PRIMEIRO QUE DISSE

                                                      Antonio Carlos Egypto
O PRIMEIRO QUE DISSE (Mine Vaganti).  Itália, 2010.  Direção: Ferzan Ozpetek.  Com Riccardo Scamarcio, Nicole Grimaudo, Alessandro Preziosi, Ennio Fantastichini, Ilaria Occhini.  110 min.

Uma família tradicional italiana, da Toscana, dona de uma indústria de macarrão, tem papel de destaque na cidade.  Vincenzo (Ennio Fantastichini) é o patriarca, preocupado com a continuidade dos negócios da família.  Ele tem a seu lado o filho Antonio (Alessandro Preziosi) e espera contar também com seu outro filho, Tommaso (Riccardo Scamarcio).
Tommaso, no entanto, tem outros planos.  Acaba de retornar de Roma, onde cursou Letras, enquanto a família pensa que estudou Administração. Lá, já estabeleceu um vínculo amoroso forte com Marco, por quem é apaixonado.  Seu interesse agora é fixar-se em Roma e se livrar das obrigações familiares que o esperam. Resolve, então, sair do armário, ou seja, declarar sua homossexualidade, numa refeição familiar, certo de que será expulso de casa e, então, ficará livre para viver sua vida.
Mas as coisas não acontecem como o planejado.  E não é que seu irmão Antonio se antecipa e se declara gay antes dele?  O que fazer agora, já que Antonio foi, conforme o título brasileiro do filme, “o primeiro que disse”?
Esse é o mote de uma comédia que busca explorar as confusões, contradições, desinformações e preconceitos que cercam o tema da homossexualidade.  E acaba por descobrir que nem tudo é tão nebuloso assim.  Quem está menos centrado em si mesmo, observa, percebe e pode entender o que se passa.  Bem, não é o caso do pai Vincenzo, que combinará sofrimento real com muita teatralização, para tentar lidar com o assunto no plano pessoal, familiar e nas relações com a comunidade.
A questão não é só a da homossexualidade posta em evidência, mas a dos desejos não realizados, dos sonhos abafados, do jogo de aparências.  E, brincando, a trama do filme vai mexendo nesses pontos sensíveis da experiência humana. 
É quando um personagem que nem nome tem, a avó, vivida por Ilaria Occhini, emerge como a figura mais densa e humana de toda a história.  Ela, que viveu toda uma vida, trabalhando ao lado de seu amado, mas casada com o irmão dele, entende de desejos sufocados, sublimados, deslocados.  E sabe o valor que tem um sonho a ser perseguido.
Se Tommaso pode contar com alguém, é com ela, não só para viver o seu amor proibido, mas para realizar o seu imenso desejo de ser um escritor, e com romance publicado.  Para ela, o macarrão, que aprendeu e ensinou a fabricar, foi um objeto de puro amor, mas ela entende que Tommaso rejeite o macarrão para ser escritor.  Cada um com seus amores.
“O Primeiro que Disse” resulta sendo um filme bem construído, com cenas bem elaboradas, que conseguem imprimir um espírito libertário e humanista à trama e aos seus personagens.
O elenco é muito bom e dá bem conta do recado, com destaque para Ilaria Occhini: a avó que ela cria é um primor de interpretação.  Ricardo Scamarcio transmite bem os sentimentos de Tommaso, num registro sutil e convincente.  Nicole Grimaudo é Alba, a tentação feminina ao lado de Tommaso, na fábrica.  E que tentação: é uma mulher lindíssima, de rosto perfeito.  E também boa atriz.  Alessandro Preziosi e Ennio Fantastichini também estão bem nos seus respectivos papéis, o primeiro, mais discreto e contido, como convinha ao personagem, enquanto o pai se apresenta histriônico, já que o personagem pedia muita teatralidade.
Isso tudo dá ao filme o clima de que ele precisa para fazer rir, fazer pensar.  Sem ser uma comédia que produza intensas gargalhadas, nem ser um filme que alcance grande densidade ou profundidade, o resultado é bom e o filme, simpático.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

DESENROLA

                    Antonio Carlos Egypto



DESENROLA. Brasil, 2010. Direção: Rosane Svartman. Com Olívia Torres, Kayky Brito, Lucas Salles, Daniel Passi, Juliana Paiva. Participações especiais de Pedro Bial, Juliana Paes, Cláudia Ohana. 88 min.

A primeira vez, ou a virgindade das meninas na adolescência, sempre foi um tema palpitante e polêmico. Antigamente, porque era uma obrigação social e religiosa preservá-la até o casamento. E que dificuldade! Cabia à mulher não só controlar-se como controlar os rapazes. Esses, ávidos por sexo, buscando as brechas para conseguir o seu intento ou se valendo das prostitutas, que acabavam sendo as que garantiam a virgindade das moças. Isso ainda existe, mas hoje é posição minoritária. Mesmo porque a Aids, a partir dos anos 1980, mudou esse quadro.

De qualquer modo, as adolescentes imaginam, fantasiam, fazem planos para esse momento especial. Há muitas expectativas na cabeça delas. Como, onde, com quem será? E será que engravida? Tem de usar camisinha? E muitas questões mais.

“Desenrola” é uma comédia romântica, adolescente, centrada nesse tema e nos assuntos a ele relacionados, como o relacionamento com os meninos, a competição entre as amigas e a participação dos adultos na história.

Tudo começa quando Priscila (Olívia Torres), de 16 anos, tem a primeira experiência de ficar sozinha em casa, por vinte dias, em função de uma viagem da mãe. Será o período em que tudo acontecerá e a vida dela mudará. Pelo menos, no terreno amoroso e sexual. Mas a verdade é que, para os adolescentes, isso muda quase todo o resto.

Priscila buscará em Rafa (Kayky Brito) seu objeto de desejo, enquanto Boca (Lucas Salles) a deseja. Tize (Juliana Paiva), irmã de Rafa, funciona como facilitadora ou dificultadora da relação Priscila-Rafa e será, de um lado, rival, de outro, amiga e confidente. Caco (Daniel Passi) é o amigo algo misterioso, que está sempre com Priscila e não a vê como possível namorada.

A participação da música e do esporte nesse jogo de atração e desejo está lá. Assim como a preocupação com corpos sarados perpassa as artimanhas das conquistas. E a inevitável mentira dos meninos quanto ao sexo, como era de se esperar nos dias de hoje, acaba na Internet.

Outras coisas ficaram de fora, porque o filme está focado na sexualidade dos adolescentes. Mas a sensação que fica é justamente a de que falta algo. É uma geração saudável, que não se liga em droga, não abusa da bebida alcoólica, não é sacana, nem maldosa. Pelo menos, não além de certos limites toleráveis nessa faixa de idade.

Não que fosse necessário fazer uma trama pesada ou pessimista, a respeito dos jovens. Mas sabemos que as questões podem ser maiores ou mais complexas do que as que aqui são mostradas. O foco da trama talvez tenha se fechado mais do que deveria. Acabou dando uma sensação de artificialidade ao universo adolescente de uma certa classe média que tem na escola particular e na praia os seus principais pontos de encontro.

É um filme que possibilita a discussão com os adolescentes sobre a tal “primeira vez” e as diferenças entre os gêneros, o que já é interessante. É uma fita simpática e sem maiores pretensões. Ao tratar do momento enrolado da sexualidade adolescente com cuidado, acaba justificando o título um tanto estranho que escolheu para abordar o tema da virgindade.

O Mágico

Tatiana Babadobulos


O Mágico (L'Illusionniste). França e Reino Unido, 2010. Direção: Sylvain Chomet. Roteiro: Jacques Tati. 90 minutos.

Em tempos nos quais reinam as animações feitas por computador e os efeitos especiais de ponta, também há espaço para a animação tradicional. Essa, aliás, foi a utilizada por Walt Disney, quando lançou “Branca de Neve e os Sete Anões”, em 1939. Mas, a partir de 1994, quando a Pixar mostrou ao mundo “Toy Story”, pouco se fez com lápis e papel. 

Nem “Tron: O Legado” nem “Enrolados”, ambos da Disney. Assisti à animação francesa “O Mágico” (“L'illusionniste”) assim que ela estreou naquele país, enquanto eu estava em férias por lá, em junho do ano passado. No Brasil, a fita estreia nesta sexta, 14, e é dirigida por Sylvain Chomet, o mesmo de “As Bicicletas de Belleville”. 

Um dos seus diferenciais, além da arte tradicional, é claro, é o roteiro, escrito pelo francês Jacques Tati no final dos anos 1950. Na época, ele escreveu para sua filha Sophie Tatischeff, e a história  foi encontrada nos arquivos do CNC (Centro Nacional da Cinematografia) sob o apelido de “Film Tati N° 4”. Tati morreu em 1982 e deixou um legado de filmes cômicos, como “Meu Tio”, de 1958, no qual atuou e dirigiu, além de outras obras, como “As Férias do Sr. Hulot”, “Tempo de Diversão”, “As Aventuras do Sr. Hulot no Trânsito Louco”.

Após meio século, a história sensível e delicada criada por Tati chega aos cinemas trazendo magia e emoção. Na trama, o mágico é um artista já velho e é forçado a andar em diversos lugares à procura de um palco para apresentar seus números a fim de ganhar dinheiro. Até que conhece Alice, uma garota simples, que mal conhece a energia elétrica, mas que se faz de mulher.

Entre mentiras de ambos os lados, os dois vão se encontrar em Edimburgo, na Escócia, on­de ele fará uma apresentação e ela o segue a partir de Londres. Então, passam a dividir a sopa e o apartamento. Ele se encanta pela jovialidade dela, e ela, pela sabedoria e pelos truques de mágica dele. Mas também pelos presentes caros que ele lhe dá, e que acredita serem truques mágicos.

Praticamente sem utilizar diálogos (e, quando há, são em francês), o longa apresenta a mudança de comportamento dos personagens de maneira delicada e sensível, principalmente porque o relacionamento dos dois vai entusiasmando, e o amor vai crescendo com o tempo, ainda que vivam muitas vezes em meio à mentira.  


Os traços dos desenhos comprovam que o diretor é o mesmo de “As Bicicletas de Belleville”, já que ambos são muito parecidos. E foi enquanto fazia o filme, em 2003, que Sylvain Chomet entrou em contato com a filha de Tati para pedir autorização de exibição de um trecho de sua obra “Há Festa na Aldeia”, para uma cena na qual as trigêmeas estão assistindo televisão na cama. “Achei que seria divertido as personagens visualizarem um clipe de filme parecido em sentimento à história ciclística do Tour de France.”

Na ocasião, segundo o material de divulgação à imprensa, ela mencionou ao produtor Didier Brunner um roteiro não filmado de seu pai e deu a entender que o desenho se adequaria a ele. Infelizmente, Sophie morreu quatro meses após o primeiro contato, mas os parentes que assumiram o espólio concordaram com a decisão dela.

No roteiro há lamentações melancólicas, sentimento que quase não se vê em filmes de Tati, uma vez que ele sempre preferiu os pastelões. “O Mágico”, com sua história, aproveita para fazer o espectador refletir sobre sua própria vida, sobre o que tem feito de seu trabalho, suas ambições e conquistas, sempre envolvido em imagens lindas, bem feitas e com um senso de humor sofisticado, como só Tati e Chomet poderiam fazer.

A fita já ganhou alguns prêmios em 2010, paricipou da Seleção Oficial do Festival de Berlim e foi nomeado ao Globo de Ouro 2011, na categoria Melhor Longa-Metragem de Animação, quando concorre com “Meu Malvado Favorito”, “Como Treinar o Seu Dragão”, “Enrolados” e “Toy Story 3”.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Enrolados


Tatiana Babadobulos

Enrolados (Tangled). Estados Unidos, 2010. Direção: Nathan Greno e Byron Howard. Roteiro: Dan Fogelman. 92 minutos

"Enrolados" é o que poderíamos chamar de uma releitura da clássica história de Rapunzel, escrita pelos Irmãos Grimm, sobre a menina de longos cabelos loiros que vive isolada pela "mãe" em uma torre.

Depois de contar uma breve história (narrada pelo apresentador Luciano Huck) sobre a menina que fora tirada do berço da casa de seus pais por uma velha, já que ela tinha os cabelos mágicos, é a vez de o ladrão Flynn Rider (voz de Huck) roubar a coroa da rainha e sair fugindo. Até que encontra a tal torre e conhece Rapunzel.

Entre celtas e vikings no meio do bar imundo, os dois vão partir por vários locais antes de chegarem ao reino, local de onde são lançadas as lanternas todos os anos em comemoração ao aniversário da princesa perdida.

Assim como em todo o filme produzido pela Disney, neste também não houve trégua para aquelas pausas nas quais a personagem de repente começa a cantar e dançar... E, ainda que duble o vilão, quando começa a cantar, não é a voz de Huck. Ótimo por um lado, pois sabemos que desafinaria facilmente, mas não há como negar o quão bizarro isso fica.

A exibição é em 3D e, como manda o figurino no final "todos felizes para sempre", Flynn acaba se tornando o príncipe que chegou para salvar a princesa montado em seu cavalo branco, o engraçado Máximos!

Outro recurso para divertir a história é o camaleão Pascal, um bichinho que conversa com Rapunzel a seu modo, fazendo caras e bocas e mudando de cor. Um destaque que faz as crianças caírem na gargalhada!

Não dá para negar que após a direção criativa da Disney passar às mãos de John Lasseter, diretor de "Toy Story", os filmes melhoraram, e muito, em qualidade. Já começou com "Bolt - O Sulpercão" e foi confirmado em "A Princesa e o Sapo".

E a magia da princesa da Disney renasce quando reconta, de maneira atual e engraçada, a história da menina que joga as tranças para a mãe subir na torre e todo o encantamento do conto de fadas em cores e em três dimensões!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Além da Vida


Tatiana Babadobulos

Além da Vida (Hereafter). Estados Unidos, 2010. Direção: Clint Eastwood. Roteiro: Peter Morgan. Com: Matt Damon, Cécile de France, Bryce Dallas Howard. 129 minutos.

Clint Eastwood é daqueles diretores esperados pelo seu público cativo, assim como Woody Allen, Pedro Almodóvar, Martin Scorsese. Quando vai lançar um longa-metragem, não importa o assunto ou o elenco; o cinéfilo estará lá para conferir se ele continua em boa forma ou se seria melhor fazer outra coisa da vida.

A partir de sexta, dia 7 de janeiro chega aos cinemas “Além da Vida” (“Hereafter”). Sim, mais um longa sobre vida após a morte, se o leitor quer saber logo de cara. E já na primeira sequência, Eastwood provoca o espectador a ponto de lhe tirar o fôlego. Sem dizer onde está a francesa Marie Lelay (a atriz belga Cécile de France), uma grande onda, que ficou conhecida como tsunami, arrasa a praia onde ela se encontra. E, a partir de então, a jornalista muda um pouco o rumo da sua vida profissional e afetiva.

A vida de muitas pessoas acaba mudando e é exatamente o que mostra o longa que tem roteiro escrito por Peter Morgan (o mesmo de “Frost/Nixon”, “A Rainha”). A fita se passa na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos, onde vive o protagonista vivido por Matt Damon. O ator faz o papel de George, um vidente que deixou de fazer previsões por achar que não se trata de um dom, mas uma maldição.

Nos primeiros 15 minutos de exibição, Eastwood faz as apresentações dos personagens de cada lugar, ou seja, Marie que está em férias na Tailândia e depois retorna para a emissora onde trabalha, em Paris; dos gêmeos ingleses Marcus e Jacob (George e Frankie McLaren), que tentam fazer com que a mãe não perca a guarda deles, já que vive drogada, e os assistentes sociais estão atrás dela. Além, é claro, do médium.

Embora os três personagens sejam bastante diferentes entre si (um garoto, uma jornalista e um vidente), o que faz sentido na história toda é um denominador comum: o fato de todos terem tido re­cente ligação com a morte e, por algum motivo, precisam aprender a viver o agora. E, para não fugir do final clichê e previsível, os três, de alguma maneira e em algum lugar, vão se encontrar.

Embora não atue no filme, tal como fez em longas anteriores, como “Gran Torino”, “Menina de Ouro”, entre outros, Clint Eastwood é também produtor do filme (juntamente com Steven Spielberg) e responsável por duas canções que compõem a trilha sonora, que, aliás, é belíssima.

Depois de fazerem “Invictus”, filme que contou a história da equipe de rúgbi da África do Sul de Nelson Mandela, Matt Damon e o diretor retornam a parceria de sucesso. Os dois mostram a cumplicidade de ator e diretor e quem apro­veita é a plateia.

Se a sequência mais marcante é a do início, principalmente pela grande produção, ou seja, a do tsunami (que na verdade fora filmada no Havaí e não na Tailândia, como sugere a história), a mais cativante é uma próxima ao final, que envolve o espectador e mostra a ele que é hora de se emocionar...

Um dos pontos altos de “Além da Vida” é que, apesar de falar sobre aquilo que desconhecemos, ainda que o personagem de Damon diga o que está ouvindo dos mortos, o filme não explora demais o lado espírita, tal como os filmes “Chico Xavier” ou “Nosso Lar”, duas produções brasileiras. Como disse Clint Eastwood no material de divulgação para a imprensa, “não sabemos o que acontece do lado de lá, mas, do lado de cá, tudo acaba”.

“Além da Vida” é desses filmes para sair do cinema e continuar pensando sobre a mensagem transmitida, principalmente se o espectador já teve, em algum momento, contato com a morte. E que destino, apesar de parecer surreal, pode ser mais convencional do que imaginamos. 

A propósito: sim, Eastwood continua em plena forma! 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Francis Ford Coppola

Tatiana Babadobulos

Qual é o primeiro filme que lhe vem à cabeça quando se fala em Francis Ford Coppola? Se for "O Poderoso Chefão", saiba que não é o único. A trilogia, que começou em 1972, rendeu ao diretor fama, dinheiro, prêmios e a lembrança de milhares de pessoas ao redor do mundo, mesmo mais de 38 anos depois.

Além da trilogia, Coppola é autor de outras obras igualmente importantes, como "Apocalypse Now". Hoje, aos 71 anos, ele nem pensa em se aposentar. No início de dezembro, o cineasta esteve em São Paulo e no Rio de Janeiro para lançamento de sua mais nova obra: "Tetro". O longa-metragem tem roteiro original de sua autoria e é o primeiro desde "A Conversação" ("The Conversation"), de 1974. A trama se passa na Argentina e conta a história de dois irmãos: Bennie (Alden Ehreinreich), de 17 anos, e Tetro (Vincent Gallo). A bordo de um navio, Bennie chega a Buenos Aires com o objetivo de encontrar seu irmão mais velho, que está desaparecido há mais de uma década.

A família dos rapazes, de sobrenome Tetroccini (daí o nome Tetro), se mudou da Itália para a Argentina quando eles ainda eram crianças mas, graças ao sucesso do pai (Klaus Maria Brandauer) como maestro, logo foram viver em Nova York. E depois Tetro, que na verdade nasceu Angelo, voltou para a América do Sul, onde se casou com Miranda (Maribel Verdú), médica que conheceu enquanto estava no manicômio. Mas quando Bennie encontra o irmão, não é quem esperava. Isso porque Tetro tornou-se um poeta melancólico, bem diferente da pessoa que Bennie se lembrava.

Qualquer semelhança com a sua vida real e com o longa-metragem "O Selvagem da Motocicleta" ("Rumble Fish"), lançado em 1983, com Matt Dillon no elenco, não terão sido meras coincidências. E quem atesta é o próprio Coppola, durante a entrevista coletiva realizada no auditório da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado), em São Paulo. A começar de seus pais que foram da Itália para os Estados Unidos.

"Tetro" marca um retorno para as histórias familiares. Como lembra Stéphane Delrome, autor da edição "Master of Cinema", dos Cahiers du Cinéma, o papel de Bennie seria de Matt Dillon, sugerindo que Rusty James, de "Rumble Fish", pode ter se tornado um desiludido garoto da motocicleta.

Francis tem um irmão cinco anos mais velho e queria ser como ele. Daí o tema central de "Tetro": irmão que vai atrás do outro e o admira. No filme, aliás, o mais novo também se torna escritor. Dono de vinícolas no estado da Califórnia, Coppola hoje em dia usa o dinheiro que ganha com a venda de seus vinhos para financiar os seus filmes e, assim, não precisa de outros produtores, principalmente porque faz filmes de baixo orçamento e sempre com a intenção de aprender alguma coisa. “Quero fazer filmes que explorem minha vida, pois você acaba aprendendo sobre você mesmo e entendo sobre a minha família coisas que eu não entendia. O grande prazer da vida é aprender”, afirma.

Ele conta também que seria um presente se acordasse de manhã com um assunto e pudesse fazer um filme. “Eu não faço filmes para ganhar dinheiro ou ficar famoso, mas para aprender a fazer cinema e aprender sobre mim mesmo. Se você come muito, fica gordo. Se corre atrás de belas garotas, deixa sua mulher furiosa. Aprender não é só uma alegria, mas faz bem para você.” 

Durante a coletiva, Coppola aproveitou para elogiar o trabalho da filha, Sofia (autora de "Encontros e Desencontros", "Maria Antonieta" e de "Um Lugar Qualquer", ganhador do Leão de Ouro em Veneza, e ainda sem data de estreia no Brasil) e falou sobre um dos momentos mais impactantes de "Tetro": quando o pai fala para o filho que "só há lugar para um gênio" na família. "A frase não foi dita por mim nem para mim, embora seja muito dolorosa."

Em "Tetro", há uma crítica de teatro, Alone, que é interpretada por Carmen Maura. Ele conta que o papel foi inspirado na obra "Noturno do Chile", do chileno Roberto Bolaño, no qual há um personagem que é um crítico. “No Chile, há um crítico chamado Alone. Javier Barden faria este papel, mas depois do Oscar ele não pôde. Eu ia usar outro nome para o personagem, mas como é uma mulher que fez o papel, resolvi manter o nome do crítico verdadeiro.”

Coppola diz também que acha saudável se inspirar em outro artista. “Meu pai, que é músico, tem um slogan: 'roube sempre dos melhores'. Músicos estão sempre roubando. Quando eu estudava teatro, admirava Tenessee Williams, Elia Kazan e Marlon Brando. Só agora tive a chance de colocar isso nos meus filmes."

O cineasta este à vontade durante a entrevista e disse, assim que chegou, que estava sonolento, então que os jornalistas o perdoassem se estivesse esquecendo os nomes. No entanto, ignorou o apelo das assessoras de imprensa quando pediu para terminar a entrevista e ele ainda deu oportunidade para que mais quatro perguntas fossem feitas pelos repórteres. De bom humor e com modéstia extrema, ele afirma que, no geral, as pessoas são generosas com ele, de modo que olham os filmes que fez há 30 anos, como a trilogia de "O Poderoso Chefão", e os admiram. Mas ele brinca quando diz que não vai estar aqui em 30 anos para saber o que as pessoas acham dos filmes que fez agora.

Sobre o futuro do cinema, Coppola afirma não gosta muito da tecnologia 3D, principalmente porque não gosta de usar os óculos necessários. Segundo ele, "o cinema é feito de roteiro e atuação”. “O meu novo filme tem duas cenas em 3D. Uma no meio e uma no final. Mas o 3D é o menos importante." 

Na época do colorido, imagens que extrapolam a tela, Francis Ford Coppola resolve lançar um filme em preto e branco e é elogiado. “Eu queria fazer 'Tetro' em preto e branco porque acho bonito. O preto e o branco têm diferentes tons de cinza e os fotógrafos expressam melhor as luzes e as sombras. Fiz preto e branco tal como fiz 'O Selvagem da Motocicleta' ('Rumble Fish')”, explica. E o colorido em algumas cenas foi usado para diferenciar as imagens em flashback de um modo que as pessoas pudessem entender que se tratava do passado.

O diretor ainda comentou sobre a escolha de atores não muito consagrados, às vezes até desconhecidos, e atores jovens. Ele conta que gosta de trabalhar com todas as idades e que prefere os desconhecidos porque é o que pode pagar. Sobre possível dificuldade de trabalhar com Vicent Gallo, ele conta que não teve nenhum problema, nem com com o Val Kilmer, que vai estrelar sua próxima obra, 'Twixt Now and Sunrise', também pessoal, mas em cor.

Biografia
Nascido em Detroit, nos Estados Unidos, dia 7 de abril de 1939, Coppola teve sua primeira nomeação para o Globo de Ouro de Melhor Atriz com a versão para cinema do musical da Broadway, "Finian's Rainbow", protagonizado por Petula Clark e pelo veterano Fred Astaire.

Em 1971, o cineasta ganhou um Oscar pelo seu roteiro em "Patton". Em seguida, foi indicado como roteirista e diretor de "O Poderoso Chefão", assim como para "O Poderoso Chefão II", em 1974, quando ganhou de Melhor Filme.

Após o sucesso dos dois longas-metragens, Coppola dedicou-se a "Apocalypse Now", baseado em "Heart of Darkness", de Joseph Conrad. A realização do filme foi marcada por inúmeros problemas, desde tufões e abuso de drogas, até o ataque de coração de Martin Sheen e à aparência inchada de Marlon Brando, que Coppola tentou esconder, filmando-o na sombra. O filme foi adiado tantas vezes, que chegou a ser alcunhado de "Apocalypse Whenever".

Somente em 1982 é que Francis voltou à realização, com o filme "One From the Heart", um grande fracasso, quando contraiu uma dívida de US$ 30 milhões. Isso, somado a falência de seu estúdio, o American Zoetrope, fez com que o diretor entrasse em um período conturbado e teve que aceitar dirigir e associar seu nome a diversos trabalhos encomendados.

Em 1990, completou a série de "O Poderoso Chefão" que, apesar de não ter sido tão aclamado pela crítica como os anteriores, foi um grande sucesso de bilheteira. Em 1992, ganhou um Leão de Ouro concedido pela sua carreira.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

72 HORAS

Antonio Carlos Egypto


72 HORAS (The Next Three Days). Estados Unidos, 2010. Direção e roteiro: Paul Haggis. Com Russel Crowe, Elizabeth Banks, Liam Neeson, Olivia Wilde. 113 min.

John (Russel Crowe) é o que se pode chamar de um homem pacato e feliz. Tem uma esposa jovem, bonita, a quem ele ama e deseja intensamente: Laura (Elizabeth Banks). E um filho pequeno, de 6 anos de idade, vivo e inteligente. Tem, ainda, um bom padrão de vida, o que inclui uma boa casa e um carro novo e ecologicamente correto.

O melhor dos mundos, porém, pode desabar a qualquer momento. Laura é presa, acusada de assassinar sua chefe, com quem tinha visíveis problemas de relacionamento. Como John poderia assimilar uma coisa dessas no seu mundo tão bem ajeitado? Mais do que saber se ela é culpada ou inocente, se sua apelação vai ser aceita ou não, a questão é como viver sem ela e com o filho abalado por sua ausência. Mesmo contando com avós colaboradores, a barra pesa. Demais, para ele.

Partindo de questionamentos como esses, “72 Horas” constrói um espetáculo do gênero policial suspense, bastante envolvente, e que deixa o público tenso e em expectativa pelo que pode vir por aí. Com direito a algumas cenas de perder o fôlego, para não decepcionar os aficionados por filmes de ação.

A transformação de John é o centro da narrativa. Como é possível que esse homem seja capaz de tudo, para reencontrar o equilíbrio perdido? Mesmo com tão pouco domínio daquilo que está fazendo agora?

A chamada publicitária do filme tem uma frase marcante: “não há nada mais perigoso do que um homem com tudo a perder”. É verdade. Não se pode explicar assim o surgimento de feras humanas? Afinal, não são tipos extraordinários, mas, geralmente, gente comum, que não soube elaborar suas perdas, seus fracassos ou reveses. e acabou atravessando a linha que separa a sanidade da loucura.

O personagem vivido por Russel Crowe é bem interessante. Rico, matizado, racional e louco, calculista e destemperado. Um papel em que o ator convence pela sutileza da interpretação e veracidade que empresta ao personagem.
Por outro lado, o plano de fuga é elaborado demais, supõe controles impossíveis, é coisa que só pode acontecer desse jeito no cinema. A atuação policial, então, supõe uma dedicação sem limites, concentrada e absoluta, a um único caso, como se nada mais acontecesse, na cidade, no país ou no mundo. É coisa só de cinema, também.

Não importa. Esqueça todo o resto e deixe-se levar pela trama, por fantasiosa que seja. Fazendo assim, o entretenimento estará garantido. Um belo passatempo, apropriado para a época de festas, férias, em que está sendo lançado o filme. Só não espere nada mais do que isso.

domingo, 19 de dezembro de 2010

TRABALHO SUJO

                                                          Antonio Carlos Egypto



TRABALHO SUJO (Sunshine Cleaning). Estados Unidos, 2010. Direção: Christine Jeffs. Com Amy Adams, Emily Blunt, Alan Arkin, Jason Spevack. 91 min.


A família Norkowski, de classe média baixa, está em dificuldades financeiras para atender às suas necessidades. Rose (Amy Adams) tinha fama como chefe de torcida na escola, aspira ser corretora de imóveis, mas vive mesmo é de diarista, limpando casas. Um emprego bem melhor remunerado nos Estados Unidos do que no Brasil. Mas insuficiente para o que ela precisa. Sua necessidade mais imediata agora é poder pagar escola particular para seu filho Oscar (Jason Spevack), de 8 anos, que está sendo expulso da escola pública por seus comportamentos bizarros. Comportamentos que, por sinal, têm uma das fontes claras no jeito destrambelhado e descompromissado de Norah (Emily Blunt), sua tia e irmã de Rose.

Norah acabou de perder mais um emprego sem grandes perspectivas, num restaurante, e sua vida tem se resumido a transas eventuais e muita maconha. Ela mora com o pai, Joe (Alan Arkin), que vive em busca de ganhar dinheiro rápido, fazendo negócios de ocasião, como comprar camarões frescos a bom preço e revendê-los aos restaurantes. Quando consegue, bem entendido.

A luta pela sobrevivência já é difícil quando há competência e persistência. Com medo de se lançar, acomodação ou fantasia, fica tudo pior.

É quando surge para Rose a ideia de fazer de seu trabalho de faxineira uma profissão rentável. Ela descobre os caminhos que a levam a limpar casas ou locais onde aconteceu algum crime ou suicídio. Por esse tipo de limpeza, se paga muito bem. Ela leva Norah a trabalhar com ela e abre uma firma para isso: a Sunshine Cleaning, do título original. Esse é realmente um trabalho sujo, nojento, que exige estômago, mas dá dinheiro.

Uma atividade como essa não é algo simples de se lidar, também pelo lado emocional. Os objetos, as fotos, as lembranças, o estado das casas dos mortos, tudo isso acaba tocando-as bastante, Norah, especialmente. E é por esse lado que o filme vai mostrando a sujeira que costuma ser colocada em baixo do tapete e que acaba por exigir que se olhe para onde não se quer olhar, na vida pessoal e familiar.

Tendo que olhar e limpar o sangue e os detritos dos outros, é quase impossível não pensar em limpar sua própria sujeira escondida e resolver as coisas que estão incomodando. E por aí vai a trama, até que algumas confusões acabam entornando o caldo, exigindo novas escolhas e, talvez, novos caminhos.

A ideia é boa e o filme flui com alguma desenvoltura, mas sem conseguir aprofundar a questão. O registro de comédia acaba sendo um fator de dificuldades, já que a pretensão é de obter sorrisos e possibilitar reflexão. Mas para tentar fazer rir o filme se utiliza de situações-clichê e de cenas que transtornam a narrativa e que acabam não possibilitando uma abordagem mais rica do tema escolhido.

O próprio assunto – limpeza de locais onde se deu um crime ou suicídio – não se presta facilmente à comicidade. Encontrar o tom adequado é difícil. “Trabalho Sujo” não desanda, mas também não brilha. Fica no meio do caminho.

A produção é boa, o desempenho do elenco, também, há cenas bem construídas, que dão bem para curtir, mas o conjunto do trabalho é apenas mediano.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A REDE SOCIAL

                                                                                             Antonio Carlos Egypto




A REDE SOCIAL (The Social Network). Estados Unidos, 2010. Direção: David Fincher. Com Jesse Eisenberg, Justin Timberlake, Andrew Garfield. 120 min.


Não há coisa mais “da hora”, como diria a galera antenada, do que as redes sociais que se espalham pela Internet. A maior delas, o Facebook, conta com 500 milhões de pessoas, em 207 países. Um fenômeno espantoso!

O criador dessa rede social, Mark Zuckerberg, é o mais jovem bilionário do mundo e acaba de ser eleito pela revista Time como a personalidade do ano, escolha justificada pelo fato de que o seu trabalho alterou a forma de as pessoas se relacionarem, conforme notícia publicada pela Folha de São Paulo, em 16/12/10.

O filme “A Rede Social” conta a história do surgimento do Facebook e da projeção de Mark Zuckerberg, a partir dos processos movidos contra ele e dos flash-backs que ilustram os fatos e as acusações. Por ali se vê um gênio da Informática, estilo nerd, que não tem maiores escrúpulos e faz da capacidade de controlar emoções uma arma para conseguir o que bem entende. Não que as coisas não o abalem, mas ele dissimula e as transforma em ações vingativas, se necessário. Sem compaixão por ninguém, nem mesmo pelo melhor (único?) amigo. Sem meias palavras: um gênio que é mau caráter. É isso que o filme mostra.

Essa história garante uma trama atraente e incrivelmente atual. É o que dá força ao filme. Para quem não é tão versado em informática, algumas informações podem soar grego ou simplesmente ficarem algo confusas. Mas não é isso o que conta. São os relacionamentos do personagem, como ele lida com as coisas que vão lhe acontecendo e de que forma ele viabiliza seus planos, que vão se tornando cada vez mais mirabolantes. E, ainda, como essa fortuna vai se acumulando a partir de um início em que, segundo o filme, o interesse dele era muito pouco voltado para o dinheiro. Curioso, não?

Pertencer a grupos de elite no ambiente competitivo da Universidade de Harvard e vingar-se da namorada, que rejeitou seu jeito de ser, parecem ter sido motivações iniciais muito mais fortes. O reconhecimento do talento em escala cada vez maior e o poder sobre as pessoas foram sempre grandes objetivos.

Chamou minha atenção o fato de essa película estar sendo indicada para os mais badalados prêmios mundiais da indústria do cinema: Oscar, Globo de Ouro, entre outros. Não vejo nada que a destaque ou justifique a importância que estão lhe dando. Exceto o assunto de que trata. Se o Facebook é uma das coisas mais inteligentes e inovadoras do mundo da computação, o cinema que “A Rede Social” apresenta é bem feito, mas convencional. Vale também pela crítica ao personagem que ele enfatiza. Ou seja, não é um produto chapa branca. Dá para ver com interesse. Mas não empolga.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

TETRO

                                                             Antonio Carlos Egypto



TETRO (Tetro).  Estados Unidos, 2009.  Direção e roteiro de Francis Ford Coppola.  Com Vicent Gallo, Maribel Verdú, Aldren Ehrenreich, Klaus Maria Brandauer, Carmen Maura.  127 min.


Francis Ford Coppola volta à direção de cinema, depois de alguns anos, com sua nova produção e um roteiro original dele mesmo: “Tetro”.

À medida em que eu via as imagens de “Tetro” sendo projetadas, sua magnífica estética em preto e branco me remetia a alguns dos melhores filmes do chamado “cinema de arte” dos anos 1960 e 1970, em que as cores ainda não haviam enterrado a fotografia tradicional da história do cinema.  As diversas tonalidades de cinza, o branco luminoso, as sombras, os ambientes escurecidos, exibindo contrastes belíssimos, seduziam o olhar. E me remeteu, também, a outro filme de Coppola, com as mesmas características: “O Selvagem da Motocicleta”, ou, no original, “Rumble Fish”, de 1982.

Já naquele momento, o cineasta retomava a estética em preto e branco das décadas anteriores e contava uma história de relacionamentos familiares e convívio com o impulso para a violência, sempre que a frustração se impusesse. 

O centro da narrativa era a relação entre dois irmãos, o mais velho, uma figura lendária, um tanto misteriosa e flertando com a loucura, numa aparente mansidão que, no entanto, se transformava instantaneamente em violência eficiente.  O irmão menor, com cerca de 18 anos, tentava mimetizar o outro, sem o mesmo talento, maturidade ou conhecimento do terreno em que pisava.  O irmão mais velho havia sumido e agora estava de volta, mas, na verdade, o mais novo não o conhecia. O colorido praticamente só aparecia quando entravam em cena os “peixes de briga”, vermelhos ou azuis, que representavam simbolicamente os personagens do filme.  Havia uma cena colorida já ao final

Aqui também é de uma relação de irmãos que se trata.  Um, mais velho e experiente, Tetro (Vicent Gallo), o outro, menor e um tanto ingênuo, em busca de reencontrar e conhecer o primogênito, Bennie (Aldren Ehrenreich), de 17 anos, que vai ao encontro do irmão que sumiu e que ele mal conhece.  Misterioso, enlouquecido, Tetro esteve num manicômio, se apaixonou por uma médica de lá,  se apartou da família.  Bennie tenta encontrar-se e à sua origem familiar, aproximando-se do irmão e seguindo seus passos, mas recebe de volta distanciamento e rejeição de Tetro.  Não de sua mulher, que o acolhe. A partir daí, se desenvolverá a trama que inclui abandono materno e paterno, modelos a serem seguidos, ou, por impossibilidade de sucesso, rejeitados ou odiados.  É de modelos que falava também “Rumble Fish”.  

A inovação da cor para mostrar cenas do passado, invertendo a lógica habitual, em que o passado é costumeiramente visto em preto e branco, tem sua correspondência nos peixes coloridos do filme anterior.  Aquele, um roteiro adaptado, aqui, um roteiro original, do diretor, o primeiro desde “A Conversação”, de 1974, um clássico que antecipava as atuais discussões sobre a questão da privacidade.

Não sei se terá sido esta a intenção de Coppola, mas ele retomou seu filme “O Selvagem da Motocicleta” na mesma proposta estética, ampliando  e tornando mais complexa a história.  Partiu também dos mesmos elementos constitutivos e características básicas dos personagens principais.

A grande saga dos três filmes de “O Poderoso Chefão” ou o épico delirante e grandiloquente de “Apocalipse Now”, sem dúvida grandes filmes do diretor, pouco ou nada têm a ver com o atual “Tetro”.  Mais nostalgia do que superprodução, o filme trata de conflitos pessoais e familiares que vivem se repetindo em todos os lugares e épocas.  Com as características próprias de cada momento e valorações diversas em cada tempo, mas com uma essência que os torna algo permanentes.  Coisas que qualquer filme de Ingmar Bergman é capaz de alcançar, em que pesem seus vínculos históricos e geográficos tão específicos.

Francis Ford Coppola se sai muito bem nesta nova empreitada, fazendo um belo filme que também busca essa essência das coisas.  Seu ar nostálgico nos remete à grande arte dos clássicos inovadores em preto e branco, que fizeram a cabeça de muitos cinéfilos e que parecem insuperáveis.

Ao aproximar-se dessa vertente, com “Tetro”, Coppola só faz reafirmar que é um dos grandes mestres do cinema norte-americano de todos os tempos, com versatilidade suficiente para brilhar em diferentes registros dessa cinematografia.  Não que ele não tenha tido fracassos.  Teve vários, incluindo falência.  Mas a obra que construiu até aqui é notável e alguns desses fracassos merecem ser reavaliados.  E, é claro, fracassos comerciais podem ser êxitos artísticos.  O tempo muitas vezes acaba por resgatar pérolas que passaram despercebidas em sua época ou foram rejeitadas até por estarem avançadas em relação a seu tempo.  Ou, ainda, porque se arriscaram a sair do esperado, em busca daquilo que pode inovar ou surpreender.

domingo, 28 de novembro de 2010

ABUTRES



    Antonio Carlos Egypto



ABUTRES (Carancho). Argentina, 2010. Direção: Pablo Trapero. Com Ricardo Darín e Martina Gusman. 107 min.

“Abutres”, de Pablo Trapero, nos apresenta alguns dados estatísticos que serviram de base para a história que se desenvolverá no filme. Na Argentina, anualmente, 8 mil pessoas morrem em acidentes de trânsito, 22 por dia e 120 mil ficam feridas. 100 mil foram mortas na última década.

O dinheiro necessário para atender os gastos médicos, as questões legais, as indenizações das seguradoras, geram negócios atraentes para muitos que não se pautam exatamente pela ética ou por terem escrúpulos.

Os “caranchos” do título original são os advogados que procuram vítimas de trânsito para tirar a maior indenização possível das seguradoras e ficar com uma gorda comissão. Lembrando que muitos acidentes podem ser forjados. É de se supor que essa história toda envolva, por exemplo, suborno a guardas de hospitais, funcionários de emergências, médicos. A coisa vai longe.

Dessa realidade, triste e sórdida, se alimenta a ficção de “Abutres”. Trata-se da história do envolvimento amoroso de um desses advogados, Sosa (Ricardo Darín) com uma jovem médica que atende no cotidiano difícil de um desses hospitais. A personagem é Luzán (Martina Gusman, mulher do diretor). Ela mal consegue dormir, depois de passar por plantões desgastantes e carregados de sangue. E ainda terá de se defrontar com a corrupção envolvida nos seus atendimentos médicos.

Uma denúncia e tanto é o que faz o filme de Trapero, com muita lucidez política. Entende o povo sofrido, a médica e a máfia que envolve o carancho, além dele próprio, aliás, brilhantemente vivido por Ricardo Darín. Onde há miséria, a lei é frágil e há alternativas atraentes, o universo mostrado pelo filme se torna inteiramente compreensível. Mas não se percebe de imediato o que está acontecendo. O filme vai nos revelar o funcionamento do “negócio”, pouco a pouco, nos imergindo numa realidade que nos custa ver, que nos repugna. Isso dá muita força à narrativa, que nos coloca no centro do furacão. E não alivia.

Para chegar a esse resultado, Trapero se utiliza de uma mise-en-scène que expõe a desgraça sem disfarce, com muita dor, muito sangue e uma violência enorme. Não aquela dos brinquedinhos de Quentin Tarantino, mas a de um realismo cru e cruel, da mais evidente veracidade, difícil de aguentar. E a gente fica se perguntando: Essa história não podia ser contada de modo menos violento, um pouco mais sutil? Talvez, mas provavelmente o efeito do “soco no estômago” do espectador, para tentar conscientizá-lo, não seria alcançado. Por outro lado, com tanta violência realista, é filme para um público restrito, provavelmente.

O cinema de Pablo Trapero, um dos mais talentosos diretores do cinema argentino contemporâneo, sempre foi um trabalho pouco ou nada comercial, sem concessões, e muito ligado às questões sociais do seu país. Ele costuma tomar uma parte singular e específica da realidade para permitir uma compreensão de algo maior e mais complexo. Como fez em “Leonera”, de 2008, ao abordar os presídios femininos, onde mães vivem com seus bebês e filhos pequenos, num mundo estranho, à parte, onde há espaço para que crianças cresçam e se desenvolvam, apesar de tudo.

“Família Rodante”, de 2004, tem uma pegada mais satírica. Ele narra a trajetória de uma família que atravessa o país até a fronteira com o Brasil, para ir a um casamento de um membro distante. Tudo acontece nesse road-movie argentino, em que as coisas mudam, se agregam, se desintegram, e personagens vão se revelando, um após o outro. O clima lembra o posterior “Pequena Miss Sunshine”, que deve ter se inspirado em “Família Rodante”. Vejam os dois filmes e me digam se não tenho razão.

Sair de uma realidade pessoal, dura, em busca de uma espécie de fuga geográfica, é o mote de outro filme do diretor, “Nascido e Criado”, de 2006, em que as paisagens da Patagônia ganham destaque e a vastidão do território engole as pessoas, mais do que apazigua.

A obra de Pablo Trapero é bastante sólida e relevante e vai se ampliando a cada novo trabalho, como este “Abutres”. Mas nunca tinha sido tão violenta como agora. Sinal dos tempos?

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1


Tatiana Babadobulos 

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1 (Harry Potter and the Deathly Hallows – Part 1). Estados Unidos e Reino Unido, 2010. Direção: David Yates. Roteiro: Steve Kloves. Com Daniel Radcliffe, Ralph Fiennes, Rupert Grint, Emma Watson, Helena Bonham Carter. 146 min.


Quando os produtores de Harry Potter decidiram dividir o sétimo e último livro de J.K. Rowling em duas partes, boa coisa não era. O motivo para isso é, obvia­mente, estender por mais um ano os lucros de uma das fran­­quias mais rentáveis de todos os tempos. Mas o maior problema dessa decisão é não condensar a his­tória e fazer com que, no ci­nema, ela perca a agilidade que os ou­tros longas-metragens da série tinham, e se torne arrastado.

“Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1” estreou na sexta, 19, e registrou, em seu final de semana de estreia, o recorde de maior abertura da história da Warner Bros. Pictures no Brasil. Ao todo, 1,3 milhão de pessoas foram aos cinemas assistir ao filme, fazendo com que ele assumisse a liderança de mais visto em três dias de abertura, superando os cinco primeiros filmes -- só ficando atrás do sexto, "Harry Potter e o Enigma do Príncipe", que registrou 1,8 milhão de espectadores.

No início da fita, a manchete do jornal avisa: “Marca Negra espalha terror”. A partir de então, as ima­gens fazem as apresentações dos personagens de maneira a situar o espectador. Como é início de ano letivo, os alunos de Hogwarts estão em casa com suas famílias. Harry Potter (Daniel Radcliffe), que há muito deixou de ser um bruxinho ingênuo, está sendo procurado por Lord Vol­demort (Ralph Fiennes) e, por isso, seus amigos vão resgatá-lo em casa para fazer a transferência em segurança.

Durante uma festa, Harry, Ron Weasley (Rupert Grint) e Hermione Granger (Emma Watson), que repetem seus papéis, saem à francesa com a missão de encontrar e destruir o segredo da imortalidade de Voldemort: as tais Horcruxes. A partir de então, eles começam a fugir, se disfarçar e burlar os Comensais da Morte, que tomaram conta do Ministério da Magia, já que no filme passado Alvo Dumbledore foi morto.

Neste longa, o destaque vai para os três garotos, uma vez que os outros personagens pouco se envolvem na trama – estão guar­dando o clímax maior para o epi­sódio final. Entre as interpreta­ções marcantes está Helena Bonham Carter, como a Comensal da Morte Belatriz Lestrange.

A direção novamente está sob a batuta de David Yates, que também foi o responsável por "Harry Potter e a Ordem da Fênix" e "Harry Potter e o Enigma do Príncipe", todos com roteiros escritos por Steve Kloves. Com sua câmera, ele respeita as linhas de Rowling e leva o espectador para dentro do filme já no início em travelling perfeito.

Embora nos dois primeiros filmes da franquia as histórias fossem voltadas para as crianças, com a mistura de magia e fantasia, a cada ano os livros ficaram mais densos e sombrios e o público foi acompanhando o crescimento dos atores. Sobretudo nes­te longa-metragem, é possível confirmar a afirmação já na pri­meira meia hora de projeção, quando os Comensais da Morte se reúnem com o Lorde das Tre­vas que, após matar uma mulher com sua varinha, usando o fa­moso feitiço Avadra Kedavra, oferece o corpo como jantar para a gigante cobra que está por ali. Além de, digamos, uma cena assustadora, é também horrível por conta da frieza com que Voldemort trata esse tipo de situação. A mesma cobra, aliás, prota­goniza outra cena cheia de sustos em outra sequência muito bem filmada.

Outro detalhe que o longa apre­senta são as brigas dos adolescentes, uma vez que os três vão passar muito tempo juntos e, uma hora ou outra, Ron vai sentir ciú­me de Harry com sua namorada, Hermione. Os beijinhos, po­rém, ficaram de fora da tela. Eles apenas trocam olhares e se apro­vei­tam de um bom-humor contido pa­ra desfa­zer a tensão e fazer a plateia gargalhar. Outras sequências engraçadas são quando utilizam, mais de uma vez, a poção polis­suco.

À medida que procuram pistas em suas andanças, os três des­cobrem uma lenda antiga: as Re­líquias da Morte, que é re­pre­sentada por um símbolo formado pela pedra da ressurreição, pela capa de invisibilidade e pela va­rinha. E, sabendo disso, vão continuar a busca (mas só no outro filme).

Os efeitos especiais estão por toda parte, mas, ao invés de utili­zarem o cenário sempre muito explorado nos outros fimes, como o castelo onde estudam, agora eles vão filmar cada vez mais em loca­ções, como praia, campo e até ruas da capital inglesa. Efeito especial também está presente nas animações, como quando Her­mione explica “Os Contos de Beedle, o Bardo” e na volta dos elfos Dobby e Mons­tro.

Tal como em “Os Senhor dos Anéis: As Duas Torres”, filme intermediário daquela trilogia, “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1” é cansativo, arrastado e bastante longo, uma vez que possui mais de duas horas de dura­ção. No entanto, quem acompa­nha a série desde o início, não pode perder. Ao final, quando as luzes do cinema se acendem, fica a pergunta: quando será a batalha final? A qualquer hora, se você preferir ler o livro, ou a partir de 15 de julho de 2011, nos cinemas.