terça-feira, 19 de maio de 2009

SIMONAL, O DOCUMENTÁRIO


Antonio Carlos Egypto


SIMONAL, NINGUÉM SABE O DURO QUE DEI. Brasil, 2008. Direção: Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal. Documentário. 84 min.


Wilson Simonal foi um dos maiores cantores de toda a história da música popular brasileira. Quem viveu e acompanhou com atenção os anos 1960/70 sabe muito bem do que eu estou falando. E sabe que não há nenhum exagero na frase anterior.

Poucas vezes se viu um intérprete que era um verdadeiro músico cantando, assim como uma colega daqueles tempos, a fantástica Elis Regina. Simonal tinha uma musicalidade fora do comum e um estilo de cantar inconfundível, moleque, pilantra, como ele mesmo chamava. Era “o rei do swing”, que mobilizava verdadeiras multidões para cantar com ele. Multidões que ele regia como se fosse um grande coral. Fazia tudo isso com boas músicas, porém, mais despretensiosas do que a maioria do que se produzia naquele período em que a MPB resistia ao regime militar de todas as formas que podia. Antes desse período, Simonal já brilhava com suas divisões originais, cantando bossa-nova em clubes, boates e teatros. Ele fazia o que queria com a voz e com a música.

Seus discos vendiam muito e ele chegava a fazer tantos shows por ano que praticamente ocupava todos os dias do calendário. Um talento indiscutível e um sucesso que rivalizava até com Roberto Carlos não é coisa que se possa esquecer facilmente. No entanto, Simonal morreu para a história, nas quase duas décadas em que viveu após todo esse êxito. Como é possível?

Convencido de que seu contador o roubava e essa seria a razão para os problemas econômicos que estavam surpreendentemente acontecendo, procurou intimidá-lo e forçá-lo a uma confissão, depois que este entrou com um processo contra o cantor, já que havia sido demitido sumariamente. Para isso, se valeu de pessoas que seqüestraram e levaram o contador até as dependências do DOPS, a polícia política do regime militar, onde ele apanhou e foi torturado. Como se não bastasse, Simonal, na época, declarou à imprensa que era mesmo amigo dos homens do poder. Talvez para mostrar que ele podia fazer tudo aquilo, quem sabe?

O momento era de radicalização política e a maioria da classe artística, assim como a maioria da imprensa, lutavam contra a ditadura e pelo restabelecimento da democracia no país, com os recursos de que dispunham, apesar da censura.

Era intolerável que Wilson Simonal convivesse ou tivesse amigos justo no DOPS. Acusado de dedo-duro (o que nunca foi provado), seu trabalho foi boicotado e varrido da própria história da música popular brasileira.
Simonal era mascarado, arrogante, pretensioso, mas, pelo jeito, era também muito ingênuo e desinformado, para se comportar dessa maneira, sem avaliar onde estava se metendo. O fato é que sua carreira artística desapareceu e só agora se procura reavaliá-la e reinseri-la na história, trinta e seis anos após o ocorrido.

O documentário “Simonal, ninguém sabe o duro que dei” busca resgatar essa história e esses dois momentos da vida de Simonal: o sucesso absoluto e o ostracismo total. Para isso, buscou imagens da famosa época dos festivais e dos programas de auditório da TV Record, que divulgavam a MPB de alta qualidade que então se fazia. Por sinal, um desses programas era comandado por Simonal.

Ouviu, pela primeira vez, o contador objeto de toda essa história e a turma do Pasquim – Ziraldo e Jaguar – que foi inflexível com Simonal, à época. Obteve ainda depoimentos de pessoas importantes com muita coisa a dizer sobre o cantor, como Nelson Motta, Miele, Chico Anysio, Pelé, Ricardo Cravo Albin, Toni Tornado e, naturalmente, seus filhos, também artistas, Simoninha e Max de Castro.

As conclusões, é claro, ficam por conta de cada um. Mas é positiva a retomada desses fatos e, principalmente, se faz mesmo necessário o resgate da obra artística de Wilson Simonal, que não pode ser varrida da história, independentemente da personalidade, do caráter, dos erros ou crimes cometidos pela pessoa. Radicalizando isso: já imaginaram se o mundo resolvesse apagar o trabalho de Frank Sinatra, na história da música popular, porque ele tinha ligações com a máfia?




segunda-feira, 11 de maio de 2009

DESEJO E PERIGO


 Antonio Carlos Egypto

Desejo e perigo (Lust, Caution) – China, Taiwan. Hong Kong, EUA, 2007.
Direção: Ang Lee. Com Tony Leung, Wei Tang, Joan Chen e Lee-Hom Wang. 157 min.

Segunda Guerra Mundial, 1941. A cidade de Xangai está nas mãos dos japoneses, que integram o Eixo, com a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini. Há um governo chinês colaboracionista e, naturalmente, se organizam as forças de resistência.

De um grupo teatral sai uma célula de resistência que vai atacar colaboracionistas importantes. A atriz Wong Chia Chi (Wei Tang) viverá o papel da elegante senhora Mai Tai Tai para se infiltrar nas hostes inimigas. Isso dá ensejo a uma dupla e talentosa representação da jovem Wei Tang, que brilha no filme. Tanto quanto o já veterano Tony Leung (conhecido principalmente pelos filmes de Wong Kar Wai), no papel do Sr. Yee, um político com alto posto no governo colaboracionista chinês junto aos japoneses.

Uma história de desejo, amor e traição será vivida por eles. Parece banal? Aparentemente sim, mas não é. A trama evolui, gerando muitos lances surpreendentes, questões éticas, enquanto se mostram os modos de vida, comportamentos e valores, em meio a uma cuidadosa reconstituição de época. O filme envolve e encanta, enquanto a trama nos prende, e o tempo passa sem que se perceba. A agilidade da filmagem que, sem jogar areia nos olhos do espectador, mostra, sob os mais variados ângulos, climas e cores, o que se passa no interior dos personagens e no seu contexto externo. A sutileza das interpretações vai revelando os sentimentos e as ambiguidades, sem deixar de alimentar expectativas e segredos até o final da película.

Eu destacaria, em especial, uma cena: a do assassinato de um colaboracionista que descobre o que não poderia. Ali se mostra como uma morte não é uma coisa simples, nem fácil de acontecer. Não se morre facilmente, não basta uma facada, nem duas. Não estamos no terreno dos tiros certeiros que matavam índios às dúzias, como nos westerns tradicionais. Essa cena de “Desejo e perigo” nos remete a uma outra famosa cena de Hitchcock, em “Cortina rasgada”, quando uma morte demora a se consumar, com direito a cabeça metida em forno quente. Há também cenas de sexo muito belas, tomadas alternadamente por todos os planos e ângulos, percorrendo todo o ambiente onde se dá o relacionamento sexual, revelando o algo mais que existia ali, para além do planejado ou esperado.

Ang Lee, depois dos êxitos de “O segredo de Brokeback Mountain” e “O tigre e o dragão”, se volta para as suas origens chinesas para revisitar a história, valendo-se de um conto tão belo quanto cheio de dor e crueldade, de Eileen Chang. O resultado é cinema de qualidade e que deve obter boa comunicação com a platéia brasileira, além de trazer algumas informações que ajudam a esclarecer o lado oriental da Segunda Grande Guerra, menos conhecido por aqui.

A versatilidade do diretor é notável. Basta lembrar alguns de seus primeiros filmes, como “Comer, beber e viver” ou “Banquete de casamento”, que focalizam aspectos culturais da China (Hong Kong e Taiwan), dialogando com o mundo ocidental, até o já citado “Brokeback Mountain”, um faroeste gay bem norte-americano ou o tipicamente inglês “Razão e sensibilidade” ou ainda o drama intimista “Tempestade de gelo” , em contraste com o espadachim de “O tigre e o dragão”, para perceber que Ang Lee se move com desenvoltura pelos mais diversos universos cinematográficos. E, geralmente, se sai muito bem, como é o caso desse “Desejo e perigo”.

domingo, 26 de abril de 2009

Divã

Tatiana Babadobulos

Adaptação do livro de Martha Medeiros, que já foi adaptado no teatro, "Divã" agora estreia nos cinemas com Lília Cabral no papel principal. Dirigido por José Alvarenga Jr., o mesmo responsável por "Os Normais - O Filme". Além dela, completam o elenco José Mayer, Reynaldo Gianecchini e Cauã Reymond.

"Divã" trata da história Mercedes, uma carioca de 40 anos (ou talvez mais), que está passando pela crise da idade, e resolve procurar um analista para ver se algo está errado em sua vida.

O filme começa exatamente neste ponto. Quando ela entra no consultório do dr. Lopes (que não aparece, está sempre de costas, apenas fazendo gestos com a cabeça). Os diálogos, que na verdade são monólogos, são feitos pela protagonista que adivinha e informa ao espectador o que o especialista está dizendo/pensando.

Intercalando imagens do consultório com a própria vida, o filme vai mostrando aos poucos quem é Mercedes, o que ela faz, com o que trabalha, como vive e o que a perturba. No decorrer da fita, o espectador vai descobrir que ela é casada com o personagem interpretado por José Mayer, que geralmente não lhe dá atenção, uma vez que suas "crises acontecem sempre nas finais do futebol". O casal está junto há mais de vinte anos e tem dois filhos. Professora de matemática, Mercedes dá aulas particulares e, nas horas vagas, se dedica às artes plásticas, sua atual vocação.
Filosofando a respeito dos desejos que tem, informa que pinta aquilo que lhe falta. Na terapia, ela também trata da morte da mãe que aconteceu quando tinha apenas oito anos. E depois ela parte para o ataque, para acabar com aquilo que lhe traz infelicidade.

Nem tudo é drama, porém. Embora o longa trate das dores de se ter 40 anos, de ter tantos anos de casada, a personagem aproveita esses percalços para fazer graça, para se livrar de alguns preconceitos e de coisas convencionais. Ao contrário. Mercedes é fora do comum. Ao lado da amiga Mônica (Alexandra Richter), as duas comentam sobre como lidar com os respectivos maridos, por exemplo, quando eles arrumam uma amante. E é a partir dessas conversas que ocorre o desenrolar da história, que vai acompanhar a vida das duas que possuem personalidades opostas.

Um dos momentos que tenta ser engraçado (mas não consegue ser o tanto quanto deveriam) é a passagem que acontece no salão de cabeleireiros e o profissional praticamente defende uma tese do motivo pelo qual a cliente lhe pediu para repicar o cabelo. A tentativa da explicação é boa, mas faltava um pouco mais.

Outra cena que não atinge a expectativa é a cena da boate, quando ela vai para a balada com o garotão e começa a dançar, falar gírias sem parar, de modo que ambos pareçam ter a mesma idade. Um pouco mais adiante há uma cena dantesca que se passa no banheiro e chega a ser risível.

Alvarenga peca em alguns momentos, mas principalmente porque ele pincela demais, e não se aprofunda em nenhuma situação. O mesmo acontece quando Mercedes conhece Theo (Gianecchini) e Murilo (Reymond). E esse é um dos problemas do filme, que não prende a atenção do espectador.

"Divã" é uma história caricata, feita de maneira convencional, com personagens previsíveis. Lília Cabral consegue segurar a trama quando está em cena, empresta sua personalidade e sua experiência a Mercedes, mais ainda assim lhe falta algo que não foi inserido no contexto para dar a liga perfeita.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Um Louco Apaixonado


Tatiana Babadobulos

Na bilheteria, “Um Louco Apaixonado” (“How to Lose Friends & Alienate People”) não foi nada bem. Estreou em 27 de março e, menos de um mês depois, ele já saiu de cartaz. O problema, em minha opinião, não é porque o filme é ruim. Ao contrário. Gosto do humor inglês interpretado pelo protagonista Sidney Young (Simon Pegg). No filme, ele faz um jornalista da revista Post Modern Reviews, cujo esporte favorito é ironizar e flagrar gente famosa em atos obscenos. A redação funciona em uma sala bagunçada. No entanto, sua sorte começa a mudar quando o editor de uma revista de grande circulação em Nova York o convida para trabalhar e levar o seu humor ácido junto.

Daí pra frente já dá para imaginar o que vai acontecer, mas o mais interessante são os diálogos engraçados, o bom humor presente quando está em cena, as confusões que causa com sua musa Sophie Maes (Megan Fox). Mas é com a jornalista Alison Olsen (Kirsten Dunst) que ele aprende a lidar com as celebridades norte-americanas e a correr atrás do seu verdadeiro sonho.

Dirigido por Robert B. Weide, que praticamente está estreando no cinema, uma vez que ele havia feito séries de televisão e apenas um filme, que na verdade foi um documentário em preto e branco, um dos problemas de “Um Louco Apaixonado”, em primeiro lugar, foi a troca do título.

Não me canso de perguntar por que a distribuidora brasileira não optou pelo título literal, uma vez que a fita é baseada em um livro que também foi publicado no Brasil sob o título “Como Fazer Inimigos e Alienar Pessoas”, de Toby Young (Editora Record, 384 páginas, R$ 41)?

Não li o livro ainda (ele está na mesa de cabeceira), mas o filme tem um final piegas. Durante o tempo todo ele vai bem, mas no final escancara a pieguice na tela. Ainda assim, é um filme divertido, bom para rir das trapalhadas do personagem que tira sarro das celebridades, usa o humor sarcástico para debochar de Hollywood e das revistas de fofoca. Pena que o público não entendeu e, portanto, não prestigiou a produção.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

SINÉDOQUE – NOVA YORQUE



Antonio Carlos Egypto

Se a vida, como se costuma dizer, é uma representação e se desempenhamos papéis continuamente, que tal transformá-la numa grande peça de teatro, que se amplia sempre e ocorre em paralelo à própria vivência? É o que se propõe o diretor teatral Caden Cotard, vivido pelo ator Philip Seymour Hoffman, no filme “Sinédoque – Nova Yorque”, de Charlie Kaufman, de 2009.
Sua peça-vida extrapola qualquer limite, embaralha atores e personagens, uns interferindo nos outros, quem sabe em busca de um sentido. O fato é que a transitoriedade da vida nos leva a tentar desesperadamente entender a morte e o papel que desempenhamos enquanto estamos vivos. E é humano pensar em produzir algo grandioso que possa marcar a passagem de cada um por essa vida, com todos os riscos aí implicados. É disso que se trata.
O primeiro filme dirigido por Charlie Kaufman (roteirista de “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”, de 2004, e “Quero ser John Malkovich”, de 1999, entre outros) é intrigante o suficiente para nos fazer pensar na existência, seu sentido e sua finitude. É, portanto, um produto aberto à reflexão. Com efeito, sua trama dispensa o realismo, mas não a verossimilhança com as vivências humanas. Não é um sonho ou um delírio, embora haja elementos tanto oníricos quanto delirantes na sua expressão. Conta uma história, na medida em que a vida de qualquer um, seus percalços, indecisões, medos e dúvidas, acaba sendo sempre uma história. Ainda que comporte diferentes visões, compreensões, percepções, e possa ser o relato das omissões, do que se pretendeu fazer e não se fez, do que se imaginou, se desejou ou se confundiu.
Uma galeria de mulheres frequenta a vida e a peça de Caden e seus problemas de relacionamento, dando margem a papéis femininos muito curiosos e variados. Catherine Keener, Samantha Morton, Michelle Williams, Emily Watson, Diane West, Jennifer Jason Leigh e Hope Davis são as atrizes que dão vida, e competentemente, a esses personagens.
E, afinal, por que sinédoque? Uma figura de linguagem que joga com a idéia do todo pela parte ou vice-versa, ou que faz a comparação de coisas que ocorrem simultaneamente, como a peça e a vida. A peça pela vida ou a vida pela peça. Está claro? Também não é necessário que fique claro, já que o próprio diretor espera que cada espectador faça sua leitura do filme e conclua as coisas mais diversas. Ele tem razão e isso dá a dimensão das possibilidades desta película muito estimulante e que ultrapassa as medidas do mero entretenimento.

quinta-feira, 12 de março de 2009

ENTRE OS MUROS DA ESCOLA


Antonio Carlos Egypto


O filme de Laurent Cantet “Entre os muros da escola” (Entre les murs), França, 2008, se insere na tendência da atualidade cinematográfica que borra as fronteiras entre ficção e documentário. Algo que o cinema iraniano explorou bem e que teve um ponto alto em “Jogo de Cena”, de Eduardo Coutinho. Afinal, o que estamos vendo é real ou representação?

O texto foi escrito por um educador (François Bégaudeau), que é o protagonista do filme, um professor tarimbado. Seus colegas de trabalho e sobretudo seus alunos são tão verdadeiros e tão facilmente reconhecíveis que nos fazem crer que a realidade está lá, sem produção ou disfarce. Como se fosse possível filmar sem alterar os comportamentos das pessoas.

Quem trabalha, ou trabalhou, em escola e se envolveu genuinamente com o ato de aprender e ensinar imediatamente se identifica com o filme. E com a escola como instituição, suas possibilidades, seus limites, suas decepções e sua vitalidade.

A tarefa educativa é complexa, cheia de meandros e, por mais consciência que se tenha do processo, domínio de si mesmo e a melhor das intenções, é fácil escorregar e arriscar pôr muita coisa a perder. O que é justo e ético comporta frequentemente grandes questionamentos no dia-a-dia escolar. Qual o limite entre o acolhimento, a compreensão, o investimento no crescimento do educando e o descumprimento de normas, o enfrentamento, a agressividade e o descomprometimento de alguns alunos? Com um complicador a mais: o trabalho é coletivo, não individual. Muitas vezes, a decisão do grupo pode estar equivocada. E como saber qual seria a melhor alternativa, quando as há?

Tudo isso e muito mais está presente, e com muita força, no filme de Cantet. Situações muito bem colocadas, diálogos ótimos, conflitos apenas esboçados ou claramente explicitados, o manejo delicado de cada momento exposto em cada cena, compõem um conjunto que nos leva a vivenciar o que é realmente a educação. Mostrar a grandeza desse trabalho no cotidiano, sem se valer de verdades estabelecidas nem pregações de nenhuma espécie, produz o que é a essência do processo educativo: o fazer pensar, a reflexão. O que o professor protagonista realiza todo o tempo na sua sala de aula é o que o filme constrói para o espectador.

Bem, mas e as especificidades da situação francesa, a diversidade de culturas e etnias que se vê ali, naquela sala de aula que, segundo o diretor do filme, é um microcosmo da sociedade? Esse é também um aspecto importante da película, mas a revelação do processo educativo, tal como ele se dá, quando há empenho e dedicação nessa atividade, não apenas interesses comerciais ou falta de opções, é o que faz o filme ser tão convincente e o que dá a dimensão maior do trabalho cinematográfico aqui realizado.

Africanos, chineses, antilhanos, árabes, judeus, muçulmanos e toda a diversidade possível que encontramos enriquecendo a convivência social, apesar de todos os conflitos que podem produzir, acabam por se equiparar no cotidiano educativo às infinitas variações que encontramos em cada aluno ou aluna, ainda que possam pertencer ao mesmo extrato cultural ou econômico. O desafio de lidar com a diversidade está na essência da ação de cada educador. Assim como as frustrações pelos inevitáveis insucessos. Quem não suporta frustrações ou quer resultados imediatos não consegue ser educador. O processo é longo e demorado. Penoso e desanimador, tantas vezes. Mas é aí que está a chave para a promoção do desenvolvimento humano e a conquista de uma vida melhor, numa sociedade mais harmônica e equilibrada.

Em “Ser e Ter” (Être et Avoir), de Nicolas Philibert, de 2002, vimos um documentário que mostrava o encanto de educar, com um método inovador e um professor especialmente hábil para lidar com grandes diferenças de idade, conhecimento e vivências, ensinando as mais variadas matérias. Estávamos numa escola rural, de classe única, com professor polivalente. Ali havia uma proposta a ser entendida e, talvez, avaliada. Em “Entre os muros da escola”, de Laurent Cantet, não há propriamente uma proposta ou um método. O que se vê é a essência do fazer educativo numa boa escola, parecida com todas as suas congêneres pelo mundo, onde os professores enfrentam inevitavelmente os problemas de sempre. Não há respostas nem soluções definitivas, mas há uma profunda crença no ato cotidiano de educar.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Sexualidade e Transgressão no Cinema de Almodóvar

Tatiana Babadobulos

Cinéfilo desde sempre, frequentador assíduo da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, pós-graduado em Crítica de Cinema pela Faap e um dos autores do blog Cinema com Recheio, Antonio Carlos Egypto será o professor responsável pelo curso “Sexualidade e Transgressão no Cinema de Almodóvar”, que acontecerá no Planeta Tela, de 18 de março a 20 de maio.

Psicólogo educacional e clínico e sociólogo, Egypto conta, em entrevista, um pouco sobre o curso indicado “a todas as pessoas que gostem de cinema, especialmente do cinema do espanhol Pedro Almodóvar”, autor de filmes como “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, “Má Educação”, “Fale com Ela”, “Tudo Sobre Minha Mãe”.

Mais informações sobre o curso podem ser encontradas no site do Planeta Tela.


Como surgiu a ideia do curso sobre a sexualidade e a transgressão na obra de Pedro Almodóvar?
Foi em decorrência de dois anos de estudos sobre o cinema de Pedro Almodóvar, que é um grande autor da contemporaneidade cinematográfica e que sempre me interessou muito. Esse estudo resultou na monografia de conclusão do curso de pós-graduação em “Crítica de Cinema”, na Faap, e pretendo publicá-la em livro, assim que encontrar editora.

Como será o curso?
Tratará da obra cinematográfica de Almodóvar em todos os longas-metragens do diretor lançados comercialmente, focalizando a sexualidade e a transgressão no seu cinema, por meio da apresentação e debate de cenas de seus filmes, distribuídas em 10 aulas semanais, às quartas-feiras, à noite.

Quais os filmes serão estudados?
Trataremos de toda a sua filmografia, enquanto isso ainda é possível, já que são 16 filmes e outro está a caminho. Acredito que o trabalho dele é absolutamente coerente, desde os primeiros, produzidos na efervescência do movimento cultural da movida madrilenha que se seguiu à morte de Franco, até hoje.

Por meio de personagens surpreendentes, tramas improváveis e misturando gêneros cinematográficos, ele celebra a diversidade sexual e humana, combate tabus e preconceitos e descarta todos os tipos de moralismo, com muito humor e uma perspectiva positiva diante da vida, sem ingenuidade e com consciência clara dos problemas a enfrentar. Sua postura ideológica permanece ao longo de toda a sua obra, que amadurece, se sofistica e ganha em ternura e profundidade. Mas pretendo mostrar que o autor Almodóvar de “Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón” ou “Labirinto de Paixões” tem a mesma visão de mundo do autor de “Tudo Sobre Minha Mãe” ou “Volver”. Só que com a idade a gente enxerga outras coisas, avalia melhor o peso que as coisas têm e isso acaba produzindo um trabalho mais maduro e com mais densidade.

Além de sexualidade e transgressão, você também aponta a relação entre a obra de Almodóvar e o franquismo. Por quê?
Na verdade, a transgressão almodovariana é filha do franquismo, foi gestada como reação radical e absoluta ao obscurantismo e à opressão que o ditador impôs à Espanha durante 36 anos. Para entender bem o cinema de Almodóvar, é preciso compreender o que foi o regime de Franco e tudo o que ele produziu de consequências, que ainda estão lá, na Espanha democrática e pluralista de nossos dias, cuja história ainda está se buscando resgatar e envolve milhares de mortos sem sepultura.

A quem o curso é destinado?
A todas as pessoas que gostem de cinema, especialmente do cinema de Pedro Almodóvar. E que gostem de conversar e trocar ideias sobre cinema, sem necessitar de conhecimentos específicos prévios. Pretendo que o curso seja bem participativo, não algo meramente expositivo. É dessa troca que acho que podem sair coisas boas, reflexões interessantes.

Vamos tratar também da metalinguagem, ou seja, o cinema dentro do cinema em Almodóvar. Essas cenas também serão objetos de análise no curso.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Faça as suas apostas para o Oscar

Tatiana Babadobulos

Ainda que os fãs de cinema de arte não deem importância ao Oscar, não é possível ignorá-lo. Na semana passada, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anunciou os filmes que irão concorrer ao prêmio que será entregue no dia 22 de fevereiro, direto de Los Angeles.

O filme com mais indicações é “O Curioso Caso de Benjamin Button”, que concorre em 13 categorias (Filme, Ator, Atriz Coadjuvante, Diretor, Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Fotografia, Edição, Direção de Arte, Figurino, Maquiagem, Mixagem de Som, Efeitos Especiais) seguido por “Quem Quer Ser um Milionário”, indicado 10 vezes (Filme, Diretor, Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Canção Original duas vezes, Fotografia, Edição, Mixagem de Som, Edição de Som).

“Batman – O Cavaleiro das Trevas” foi indicado a oito (embora tenha sido esquecido como Filme e Diretor: Coadjuvante, Fotografia, Edição, Direção de Arte, Maquiagem, Mixagem de Som, Edição de Som, Efeitos Especiais) e a animação da Pixar, “Wall-E”, recebeu seis indicações (Filme de Animação, Roteiro Original, Canção Original, Trilha Sonora, Mixagem de Som, Edição de Som).

Ainda não assisti ao filme de Danny Boyle, que é um dos favoritos, mas a contar do filme de David Fincher, o Oscar não deve surpreender. Queria muito que “Wall-E” levasse muitos prêmios, de modo que mostraria que a Academia deixou de ter um leve preconceito contra animação, ainda que o filme merecesse a indicação de Melhor Filme.

Se o Globo de Ouro é considerado um termômetro para o Oscar, vale lembrar que o grande vencedor foi “Quem Quer Ser um Milionário”, que venceu nas principais categorias: Melhor filme dramático, Melhor diretor, roteiro, trilha sonora. Faça a sua aposta.


Melhor Filme
O Curioso Caso de Benjamin Button
Frost/Nixon
Milk: A Voz da Igualdade
The Reader
Quem Quer Ser um Milionário?

Melhor Ator
Richard Jenkins - The Visitor
Frank Langella - Frost/Nixon
Sean Penn - Milk: A Voz da Igualdade
Brad Pitt - O Curioso Caso de Benjamin Button
Mickey Rourke - O Lutador

Melhor Atriz
Anne Hathaway - O Casamento de Rachel
Angelina Jolie - A Troca
Melissa Leo - Rio Congelado
Meryl Streep - Dúvida
Kate Winslet - The Reader

Melhor Ator Coadjuvante
Josh Brolin - Milk: A Voz da Igualdade
Robert Downey Jr. – Trovão Tropical
Philip Seymour Hoffman - Dúvida
Heath Ledger - Batman: O Cavaleiro das Trevas
Michael Shannon - Foi Apenas um Sonho

Melhor Atriz Coadjuvante
Amy Adams - Dúvida
Penélope Cruz - Vicky Cristina Barcelona
Viola Davis - Dúvida
Taraji P. Henson - O Curioso Caso de Benjamin Button
Marisa Tomei - O Lutador

Melhor Diretor
David Fincher - O Curioso Caso de Benjamin Button
Ron Howard - Frost/Nixon
Gus Van Sant - Milk: A Voz da Igualdade
Stephen Daldry - The Reader
Danny Boyle - Quem Quer Ser um Milionário?

Melhor Roteiro Original
Rio Congelado - Courtney Hunt
Simplesmente Feliz- Mike Leigh
Na Mira do Chefe- Martin McDonagh
Milk: A Voz da Igualdade - Dustin Lance Black
Wall-E - Andrew Stanton &, Jim Reardon, baseado em uma história de Andrew Stanton & Pete Docter

Melhor Roteiro Adaptado
O Curioso Caso de Benjamin Button - Eric Roth e Robin Swicord
Dúvida - John Patrick Shanley
Frost/Nixon - Peter Morgan
The Reader - David Hare
Quem Quer Ser um Milionário? - Simon Beaufoy

Melhor Filme Estrangeiro
The Baader Meinhof Complex (Alemanha)
The Class (França)
Departures (Japão)
Revanche (Áustria)
Waltz with Bashir (Israel)

Melhor Curta-Metragem
Auf der Strecke (On the Line)
Manon on the Asphalt
New Boy
The Pig
Spielzeugland (Toyland)

Melhor Filme de Animação – Longa-Metragem
Bolt – Supercão
Kung Fu Panda
WALL-E

Melhor Filme de Animação – Curta-Metragem
La Maison en Petits Cubes
Lavatory – Lovestory
Oktapodi
Presto
This Way Up

Melhor Documentário – Longa-Metragem
The Betrayal (Nerakhoon)
Encounters at the End of the World
The Garden
Man on Wire
Trouble the Water

Melhor Documentário – Curta-Metragem
The Conscience of Nhem En
The Final Inch
Smile Pinki
The Witness

Melhor Canção Original
“Down to Earth” – Wall-E (Peter Gabriel e Thomas Newman)
“Jai Ho” - Quem Quer Ser um Milionário? (A.R. Rahman e Gulzar)
“O Saya” - Quem Quer Ser um Milionário? (A.R. Rahman e Maya Arulpragasam)

Melhor Trilha Sonora
O Curioso Caso de Benjamin Button
Defiance
Milk: A Voz da Igualdade
Quem Quer Ser um Milionário?
WALL-E

Melhor Fotografia
A Troca
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman: O Cavaleiro das Trevas
The Reader
Quem Quer Ser um Milionário?

Melhor Edição
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman: O Cavaleiro das Trevas
Frost/Nixon
Milk: A Voz da Igualdade
Quem Quer Ser um Milionário?

Melhor Direção de Arte
A Troca
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman: O Cavaleiro das Trevas
A Duquesa
Foi Apenas um Sonho

Melhor Figurino
Austrália
O Curioso Caso de Benjamin Button
A Duquesa
Milk: A Voz da Igualdade
Foi Apenas um Sonho

Melhor Maquiagem
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman: O Cavaleiro das Trevas
Hellboy II: O Exército Dourado

Melhor Mixagem de Som
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman: O Cavaleiro das Trevas
Quem Quer Ser um Milionário?
Wall-E =
O Procurado

Melhor Edição de Som
Batman: O Cavaleiro das Trevas
Homem de Ferro
Quem Quer Ser um Milionário?
Wall-E
O Procurado

Melhores Efeitos Especiais
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman: O Cavaleiro das Trevas
Homem de Ferro

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

DESTAQUES CINEMATOGRÁFICOS DO ANO DE 2008


Antonio Carlos Egypto

Repassando os filmes lançados comercialmente nos cinemas de São Paulo, capital, no ano passado, fiz uma lista dos que eu mais gostei, daquilo que me pareceu mais interessante e relevante.
4 meses, 3 semanas e 2 dias -- Cristian Mungiu
Luz silenciosa -- Carlos Reygadas
Paranoid park -- Gus van Saint
Leonera -- Pablo Trapero
Longe dela -- Sarah Polley
Canções de amor -- Christophe Honoré
Lemon tree -- Eran Riklis
Estamos bem, mesmo sem você -- Kim Rossi Stuart
Linha de passe -- Walter Salles e Daniella Thomas
Juno -- Jason Reitman
O maior destaque, no entanto, fica para a permanência em cartaz, no cinema, por cerca de um ano e meio ininterruptos, do brilhante trabalho de Alain Resnais, Medos privados em lugares públicos. O octogenário diretor dos clássicos renovadores Hiroshima, mon amour, de 1959, e O ano passado em Marienbad,de 1961, prova que continua em plena forma.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

MURNAU, O EXPRESSIONISMO ALEMÃO E O CINEMA


Antonio Carlos Egypto


A aventura do cinema tem início em 28 de dezembro de 1895, com a primeira projeção pública, e paga, de filmes realizados pelos irmãos Lumière, no subsolo do Grand Café, Boulevard des Capucines, Paris. Essa primeira sessão do cinematógrafo Lumière coroava os esforços de um grande número de inventores e pesquisadores que, por séculos, buscaram o sonho de reproduzir o movimento por meio de imagens. Entre os muitos que criaram aparelhos que deram origem ao cinema está Thomas Edison, com seu cinetoscópio que, associado ao fonógrafo, quase criou o cinema falado, em 1892, só que isso se dirigia a apenas um espectador por vez.

Se foi difícil tecnicamente encontrar as soluções para criar a fotografia e depois animá-la, o fato é que o cinema uma vez descoberto teve uma evolução muito grande e rápida. Desde "A Chegada do Trem na Estação", de Louis Lumière, ao "Gabinete do Dr. Caligari", de Robert Wiene (e muitos outros criadores), em 1919, só se passaram vinte e quatro anos. Quando o expressionismo estava chegando, com sua originalidade e força criativa, o cinema já havia acumulado muitos trunfos em sua história.

Em 1902, Georges Méliès criava sua famosa "Viagem à Lua", no bojo de produções altamente inventivas e criativas onde a magia, o teatro e os cenários pintados compunham obras de inegável valor artístico. Méliès tinha estado presente à primeira sessão de cinema e incorporou esse invento ao seu teatro de mágicas, descobrindo novos caminhos para sua arte. Com Edwin Porter nos Estados Unidos e o seu "O Grande Roubo do Trem", de 1902, criou-se a história padrão que seria fortemente copiada até os dias atuais. Com Pathé e os filmes de Ferdinand Zecca, o cinema caminha para a indústria, conquistando mais público.

O cinema italiano faria a primeira superprodução histórica em 1914, com "Cabíria", de Giovanni Pastrone. No ano seguinte, nos Estados Unidos, David Wark Griffith sintetizaria a linguagem do cinema no épico "Nascimento de uma Nação", sobre a Guerra de Secessão norte-americana. Em que pese a apologia aberta do racismo que o filme faz, o êxito da empreitada foi total e praticamente criou a narrativa cinematográfica clássica, incluindo a montagem paralela. Em 1916, Griffith fará uma megaprodução de grandes ambições e agora pacifista, para compensar o belicismo anterior, "Intolerância". O filme é um dos grandes marcos da história do cinema, apesar do fracasso comercial e da extensa duração.

Na Suécia, desde 1912, Victor Sjöström já realizava belos filmes silenciosos, com base em adaptações literárias de Henrik Ibsen e Selma Lagerläf. e ao lado de Mauritz Stiller protagonizava a Era de Ouro do cinema sueco. "A Carruagem Fantasma", de Sjöström (1920), foi inspiração do maior cineasta sueco de todos os tempos, Ingmar Bergman, que confessava assistir ao filme pelo menos uma vez por ano.

Nessa mesma época, a comédia muda teve papel fundamental na difusão do cinema como entretenimento e arte. Max Linder, que trabalhava para Charles Pathé, e Mack Sennet, em Hollywood, são precursores do trabalho absolutamente genial que Charles Chaplin legou ao mundo. Os anos 1920 ainda não haviam chegado e Chaplin já havia feito maravilhas, como "O Vagabundo", "Rua da Paz", "Ombro, Armas" e "Vida de Cachorro", para citar só algumas das comédias curtas que estão na memória dos amantes de cinema. Não é pouco o que se pode registrar da história do cinema antes que os anos 1920 trouxessem um grande número de novidades e solidificassem a experiência cinematográfica.

É nesse período que se situa a escola do expressionismo alemão tão bem representada pelo "Gabinete do Dr. Caligari", e que produziu obras muito importantes, além de revelar realizadores do porte de Friedrich Wilhelm Murnau e Fritz Lang.

A Alemanha vivia uma humilhante derrota na Primeira Guerra Mundial, uma crise econômica sem precedentes e buscava reencontrar sua identidade e liderança perdidas. Nessa Alemanha inferiorizada e subjugada, as expressões artísticas teriam de ser intensas, algo lúgubres e inevitavelmente pessimistas. O expressionismo já existia na pintura, na música, na poesia e no teatro. Levado ao cinema, acabou por alcançar um alto grau de sofisticação, deixando uma marca permanente na chamada sétima arte, em seu período silencioso.

Formas pontiagudas, tortas, inclinadas, seres extraordinários, monstros à sombra, a visão deformada do real a partir da subjetividade, são alguns dos elementos constitutivos da arte cinematográfica expressionista. Tratava-se de uma ruptura estética, onde o fantástico assume o primeiro plano e simboliza uma realidade histórica, expressa de forma diferente do naturalismo, que vinha se impondo ao cinema mundial nesse período.

Na concepção nazista de arte que passaria a vigorar com a ascensão de Hitler ao poder, a partir de 1933, o expressionismo seria classificado como arte degenerada, ao lado de outras manifestações artísticas, e inteiramente desqualificado e rejeitado na Alemanha. O documentário de Peter Cohen, de 1992, "Arquitetura da destruição", mostra o processo de imposição da arte ariana, de características clássicas e naturalistas, em oposição aberta à chamada arte degenerada, atribuída principalmente aos judeus. Seres extraordinários, deformados, tortos ou distorcidos, como os utilizados pelo expressionismo, são abertamente condenados pelo Estado e pela figura que o representa naquele momento: Hitler, ele próprio, um artista plástico mediano, porém, cheio de certezas.

Hollywood, ao contrário do nazismo, buscou seus realizadores, recuperou e difundiu as obras do cinema expressionista alemão, prestando um inestimável serviço à arte cinematográfica. Hollywood também ganhou muito ao incorporar essa experiência. A estética do claro-escuro do cinema noir é um nítido exemplo disso, assim como a obra de Orson Welles e de muitos outros cineastas norte-americanos do cinema sonoro, em preto e branco. Fritz Lang, um dos mais destacados cineastas do período expressionista alemão, desenvolveria longa e brilhante carreira, tanto no cinema silencioso como no cinema falado, deixando filmes notáveis, como "Metrópolis", "M – O vampiro de Dusseldorf", "Fúria", "O diabo feito mulher" e a trilogia Mabuse.

Como em todas as escolas e tendências, há aqueles que as superam e as ultrapassam, colocando sua marca pessoal na produção artística. É o caso de Friedrich W. Murnau (1888-1931). Originário do teatro, onde foi assistente de Max Reinhardt, fez filmes como "Satanás" ou "Nosferatu", que se situam claramente na corrente do expressionismo alemão da época. Aliás, "Nosferatu" não só criou escola como permanece um clássico de grande beleza plástica, cujo fruir das imagens encanta em pleno século XXI. Não menos gratificante é a experiência de assistir hoje a "Fausto", uma adaptação do personagem mítico da literatura da obra de Goethe. O filme flui magnificamente, revelando uma tal beleza de imagens que encanta o espectador e nem exige que este tenha uma postura contemplativa, dado o dinamismo da narrativa.

O filme de Murnau da fase alemã que mais me entusiasma, no entanto, é "A Última Gargalhada". Aqui já estamos na concepção do Kammerspiel (peças de câmara), onde o intimismo, o simbolismo e o realismo têm lugar.
O esplendor visual de "A Última Gargalhada" é equivalente aos outros trabalhos de Murnau. Destaque-se a reconstituição em estúdio da rua do hotel, com pedestres na chuva, carros e até um trem passando. Há belas e significativas fusões de imagens. As imagens de sonho e fantasia que povoam a mente da personagem no momento da bebedeira, provocada pelo declínio, mas atribuível ao casamento que se está celebrando, são muito elaboradas. O jogo de luzes e sombras se destaca na caracterização das situações que estão sendo mostradas no filme. Um exemplo: quando ele volta para casa com o uniforme que já não lhe pertence, a sombra mostra antes o seu arquejamento, mas ele se recompõe e agora a sombra antecipa a postura empertigada que o caracterizava perante a sua comunidade.

A sensibilidade com que o filme expõe a decadência do orgulhoso porteiro do hotel e seu vistoso uniforme, que impressionava a comunidade onde ele vivia, é notável para um filme silencioso. Ainda mais se considerarmos que Emil Jannings, o protagonista da ação, se vale de uma interpretação de gestos e expressões exacerbadas que nos parece excessivamente teatral na atualidade. Ela nos leva, porém, ao âmago do sentimento. Expressa a dor da perda do lugar, do status, da respeitabilidade, ao mesmo tempo em que acentua a vergonha e a depressão da personagem. Igualmente importante é a expressão social de sua decadência, o pouco espaço que sobra para a pobreza, especialmente na velhice. O que seria um gesto de aparente solidariedade patronal ao inevitável declínio físico do empregado, que até pode manter seu emprego é, na verdade, uma sentença de morte psíquica. As profundas diferenças entre as classes sociais são expostas ao longo de todo o filme. A ausência de intertítulos integra o filme, tornando mais eficaz o envolvimento emocional com o espectador, num espetáculo que valoriza o aspecto intimista da história.

O final é irônico, ao redimir uma personagem que não teria mesmo nenhuma saída àquela altura. Hoje pode ser vista pelo ridículo dos finais felizes forçados, tal é o artificialismo da solução. Mas o diretor aproveita esse desfecho para revelar o mundo fútil dos ricos, enfatizando a gratidão e o desprendimento, tocantes apesar de ingênuos. Tocante, aliás, é uma boa definição para um filme que lida com o social e o emocional de forma tão simples e tão integrada. É dessa simplicidade com requintes técnicos de bom cinema que se compõe essa obra-prima de Murnau.

O diretor ainda faria quatro filmes nos Estados Unidos, entre eles "Aurora" e "Tabu". "Aurora" é considerado outra obra-prima, mas que não cabe comentar aqui e agora.

O cinema falado estava chegando e Murnau, um diretor extraordinário do cinema silencioso, poderia acrescentar novas e importantes obras ao cinema, não tivesse falecido tão precocemente aos 43 anos, num acidente automobilístico. O cinema deve ter perdido muito com isso.

FILMOGRAFIAA ÚLTIMA GARGALHADA (Der Letzte Mann), Alemanha, 1924.
Direção: Friedrich W. Murnau. Com Emil Jannings, Maly Delschaft, Emilie Kurz. 91 min.

NOSFERATU (Nosferatu), Alemanha, 1922.
Direção: Friedrich W. Murnau. Com Max Schreck, Gustav von Wangenheim, Greta Schroeder. 81 min.

FAUSTO (Faust), Alemanha, 1926.
Direção: Friedrich W. Murnau. Com Emil Jannings, Camilla Horn, Wilhelm Dieterle. 116 min.

O GABINETE DO DR. CALIGARI. (Das Kabinet des Dr. Caligari). Alemanha, 1919.
Direção: Robert Wiene. Com Werner Krauss, Conrad Veidt. 78 min.

O GOLEM (Der Golem), Alemanha, 1920.
Direção: Paul Wegener. Com Paul Wegener, Henrik Galeen. 88 min.

A ARQUITETURA DA DESTRUIÇÃO (Undergägens Arkitektur), Suécia, 1992.
Direção: Peter Cohen. Narração: Bruno Ganz. 121 min.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

FAVORITOS DA MOSTRA

Antonio Carlos Egypto

Neste ano, pude assistir a mais de 70 filmes da 32a. edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, incluindo algumas pré-estréias de filmes que já estão entrando em cartaz nos cinemas e que devem sair também em DVD.

Fiz uma lista do que eu gostei mais. O que fica patente é o valor da diversidade no cinema mundial contemporâneo. O olhar para o outro, para as diversas expressões culturais, os conflitos que se produzem e as respostas que se podem encontrar e também as grandes questões que desafiam a humanidade hoje e cujas respostas ninguém parece ter. Além disso, há o resgate de aspectos históricos e sociais esquecidos, desconhecidos ou que exigem novas reflexões. Tudo isso faz parte dessa cena cinematográfica que chega até nós por meio de festivais, como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

HANAMI - CEREJEIRAS EM FLOR, de Doris Dörrier, Alemanha.
LIÇÕES PARTICULARES, de Joachim Lafosse, Bélgica-França.TULPAN, de Sergey Dvortsevoy, Cazaquistão.LEONERA, de Pablo Trapero, Argentina.O ESTRANHO EM MIM, de Emily Atef, Alemanha.AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO, de Miguel Gomes, Portugal.ALEXANDRA, de Alexander Sokurov, Rússia.
KATYN, de Andrzej Wajda, Polônia.PALERMO SHOOTING, de Wim Wenders, Alemanha.O'HORTEIN, de Bent Hamer, Noruega.CIDADE MARAVILHOSA, de Aditya Assarat, Tailândia.
A FLORESTA DOS LAMENTOS, de Naomi Kawase, Japão.
O SILÊNCIO DE LORNA, de Jean-Pierre e Luc Dardenne, Bélgica.
SONATA DE TÓQUIO, de Kiyoshe Kurosawa, Japão.
NUVEM 9, de Andreas Dresen, Alemanha.
LA BOHEME, de Robert Dornheim, Áustria.
THREE MONKEYS, de Nuri Bilge Ceylan, Turquia.
O MENINO DO PIJAMA LISTRADO, de Mark Herman, Reino Unido.
MACHAN, de Uberto Pasolini, Sri Lanka.
EU QUERO VER, de Khalil Joreige e Joana Hadjithoams, Líbano.

As sessões de cinema mudo, com acompanhamento de pequena orquestra, ao vivo, e composições originais para os filmes O HOMEM QUE RI, de Paul Leni, de 1925, Estados Unidos, e POIL DE CAROTTE, de Julien Duvivier, de 1928, França, foram espetaculares. Mas quem perdeu só pode lamentar, já que foram eventos únicos. Já boa parte dos filmes que citei acima poderão ser vistos oportunamente, ainda que leve um tempo para que isso aconteça.

O CINEMA ALEMÃO SE DESTACA NA 32a. MOSTRA

Antonio Carlos Egypto


Na edição de 2008 da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, destacaram-se alguns representantes do cinema alemão, como o belíssimo HANAMI - CEREJEIRAS EM FLOR, da diretora Doris Dörrier, uma sensível história sobre sonho, envelhecimento e morte, tratada com humanismo, com direito a um mergulho em paisagens e expressões artísticas japonesas. Perfeito para um centenário de imigração japonesa no Brasil, esse talentoso filme alemão.

O vencedor do troféu Bandeira Paulista, destinado aos filmes de novos diretores, coube merecidamente a O ESTRANHO EM MIM, de outra diretora alemã, Emily Atef. O tema, tratado com muita competência, é o da depressão pós-parto. É preciso coragem para lidar com o avesso do estereótipo da maternidade, e talento para nos envolver nesse drama. O filme já foi comprado para exibição no Brasil, aliás, o primeiro país a adquiri-lo, segundo a diretora.

Outra grande surpresa foi NUVEM 9, também alemão, de Andreas Dresen. Trata-se de um triângulo amoroso - e sexual - na velhice. Protagonistas da faixa dos 70 a 80 anos são mostrados vivenciando desejos intensamente, o que inclui cenas de nudez e sexo, que contrariam os padrões estabelecidos de mostrar corpos jovens e sarados nos filmes. A densidade dos sentimentos é também mostrada, com sutileza.

Além disso, ainda alemão, o novo filme de Wim Wenders, PALERMO SHOOTING, é bonito, original, com uma forma cativante e surpreendente, além de revelar as belezas da cidade de Palermo a quem não a conhece, como é o meu caso.

O representante do Cazaquistão, TULPAN, de Sergey Dvortsevoy, nos remete a um universo rural onde as mulheres são mais raras do que as ovelhas. O que fazer quando a única pretendente possível não quer saber do nosso personagem, porque ele tem orelhas grandes demais? Já o representante do Sri Lanka, MACHAN, nos põe em contato com a inexistente seleção de handebol do país, que terá que se apresentar num torneio na Bavária. São filmes que encantam, pela simplicidade e pela diversidade que nos trazem. E também são co-produções alemãs.

É justo, portanto, chamar a atenção para o cinema que está sendo produzido pela Alemanha na atualidade. A amostra que chegou em São Paulo em outubro foi saborosa.