terça-feira, 19 de maio de 2009

SIMONAL, O DOCUMENTÁRIO



Antonio Carlos Egypto

SIMONAL, NINGUÉM SABE O DURO QUE DEI. Brasil, 2008. Direção: Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal. Documentário. 84 min.

Wilson Simonal foi um dos maiores cantores de toda a história da música popular brasileira. Quem viveu e acompanhou com atenção os anos 1960/70 sabe muito bem do que eu estou falando. E sabe que não há nenhum exagero na frase anterior.

Poucas vezes se viu um intérprete que era um verdadeiro músico cantando, assim como uma colega daqueles tempos, a fantástica Elis Regina. Simonal tinha uma musicalidade fora do comum e um estilo de cantar inconfundível, moleque, pilantra, como ele mesmo chamava. Era “o rei do swing”, que mobilizava verdadeiras multidões para cantar com ele. Multidões que ele regia como se fosse um grande coral. Fazia tudo isso com boas músicas, porém, mais despretensiosas do que a maioria do que se produzia naquele período em que a MPB resistia ao regime militar de todas as formas que podia. Antes desse período, Simonal já brilhava com suas divisões originais, cantando bossa-nova em clubes, boates e teatros. Ele fazia o que queria com a voz e com a música.

Seus discos vendiam muito e ele chegava a fazer tantos shows por ano que praticamente ocupava todos os dias do calendário. Um talento indiscutível e um sucesso que rivalizava até com Roberto Carlos não é coisa que se possa esquecer facilmente. No entanto, Simonal morreu para a história, nas quase duas décadas em que viveu após todo esse êxito. Como é possível?

Convencido de que seu contador o roubava e essa seria a razão para os problemas econômicos que estavam surpreendentemente acontecendo, procurou intimidá-lo e forçá-lo a uma confissão, depois que este entrou com um processo contra o cantor, já que havia sido demitido sumariamente. Para isso, se valeu de pessoas que seqüestraram e levaram o contador até as dependências do DOPS, a polícia política do regime militar, onde ele apanhou e foi torturado. Como se não bastasse, Simonal, na época, declarou à imprensa que era mesmo amigo dos homens do poder. Talvez para mostrar que ele podia fazer tudo aquilo, quem sabe?

O momento era de radicalização política e a maioria da classe artística, assim como a maioria da imprensa, lutavam contra a ditadura e pelo restabelecimento da democracia no país, com os recursos de que dispunham, apesar da censura.

Era intolerável que Wilson Simonal convivesse ou tivesse amigos justo no DOPS. Acusado de dedo-duro (o que nunca foi provado), seu trabalho foi boicotado e varrido da própria história da música popular brasileira.
Simonal era mascarado, arrogante, pretensioso, mas, pelo jeito, era também muito ingênuo e desinformado, para se comportar dessa maneira, sem avaliar onde estava se metendo. O fato é que sua carreira artística desapareceu e só agora se procura reavaliá-la e reinseri-la na história, trinta e seis anos após o ocorrido.

O documentário “Simonal, ninguém sabe o duro que dei” busca resgatar essa história e esses dois momentos da vida de Simonal: o sucesso absoluto e o ostracismo total. Para isso, buscou imagens da famosa época dos festivais e dos programas de auditório da TV Record, que divulgavam a MPB de alta qualidade que então se fazia. Por sinal, um desses programas era comandado por Simonal.

Ouviu, pela primeira vez, o contador objeto de toda essa história e a turma do Pasquim – Ziraldo e Jaguar – que foi inflexível com Simonal, à época. Obteve ainda depoimentos de pessoas importantes com muita coisa a dizer sobre o cantor, como Nelson Motta, Miele, Chico Anysio, Pelé, Ricardo Cravo Albin, Toni Tornado e, naturalmente, seus filhos, também artistas, Simoninha e Max de Castro.

As conclusões, é claro, ficam por conta de cada um. Mas é positiva a retomada desses fatos e, principalmente, se faz mesmo necessário o resgate da obra artística de Wilson Simonal, que não pode ser varrida da história, independentemente da personalidade, do caráter, dos erros ou crimes cometidos pela pessoa. Radicalizando isso: já imaginaram se o mundo resolvesse apagar o trabalho de Frank Sinatra, na história da música popular, porque ele tinha ligações com a máfia?

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