quinta-feira, 9 de julho de 2026

PRIMAVERA

Antonio Carlos Egypto

   




PRIMAVERA.  Itália, 2025.  Direção: Damiano Michieletto.  Elenco: Tecla Insolia, Michele Riondino, Andrea Pennacchi, Fabrizia Sacchi, Valentina Bellè, Stefano Accorsi.  110 min.

 

“Primavera”, de Vivaldi, é, talvez, o ponto alto de sua obra clássica barroca: As Quatro Estações.  É também o título do filme italiano, dirigido por Damiano Michieletto (famoso diretor de óperas) e a música que nos acompanha ao deixarmos o cinema satisfeitos com o que vimos.

 

De fato, o filme é bonito, bem realizado, rescende a música por todos os poros, além de contar uma história interessante, baseada no romance de Tiziano Scarpa, “Stabat Mater”, de 2008. 

 

É um filme sobre o padre Antônio Vivaldi (1678-1741), papel de Michele Riondino, e seu trabalho como violinista, compositor e regente, durante décadas no Ospedale della Pietàfundado em Veneza em 1346 e que existe até hoje.  Trata-se de um convento/orfanato, dedicado a meninas abandonadas, que procurava desenvolver o talento musical delas, estimulando o estudo de instrumentos e de canto.  Lá Vivaldi trabalhou por um tempo e voltou mais tarde, produzindo uma obra não só maravilhosa como profícua.  Charles de Brosse, em 1739, diz: “Vi-o gabando-se de escrever um concerto mais rápido do que o copista poderia transcrever”. 

 


Bem, mas o filme “Primavera” não é apenas sobre a trajetória de Vivaldi.   Na verdade, o foco está na personagem Cecília (Tacla Insolia), órfã em que Vivaldi encontrou grande talento para o violino.  Cecília, para além do interesse pela música, aspirava sair daquele ambiente em que estava, na prática, em clausura.  Até nas exibições musicais, o conjunto tocava atrás de uma barreira.

 

Seu destino já estava traçado: um casamento de conveniência para o convento, interessado na grande soma de dinheiro que ele traria para a instituição.  O que era, aliás, uma prática comum.  Isso punha em confronto o empenho de Vivaldi em desenvolver Cecília para a música, mas o filme mostra a figura do padre compositor como alguém sem coragem para se opor às regras e à força do poder do dinheiro. 


“Primavera” acaba significando, nesse caso, a busca da liberdade, tão desejada por Cecília.  E a dificuldade de alcançar isso naquela época e naquele ambiente religioso.  A música expressa esse sentimento também, além da alegoria com a estação mais florida e festiva do ano.

 

Os protagonistas Tecla Insolia e Michele Riondino, assim como todo o elenco de apoio, com destaque para Stefano Accorsi, nos colocam naquele mundo e naquele período histórico de forma muito convincente, respaldados pela direção de arte, locações, figurinos.  É daqueles espetáculos que nos transportam para uma outra realidade.  O que o cinema consegue fazer e que encanta gerações, desde o final do século XIX.

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário