Antonio Carlos Egypto
A NOITE DE
ALAÍDE. Brasil, 2026. Direção: Liliane Mutti. Documentário.
100 min.
Alaíde Costa
é uma das cantoras mais importantes da história da música brasileira, por sua
interpretação e estilo marcantes, uma voz afinada, melodiosa e macia,
inconfundível. Fez parte do movimento da
bossa nova desde o começo. Conviveu
muito de perto com João Gilberto, Johnny Alf, Tom Jobim e Vinícius de Moraes,
de quem recebeu o piano como herança.
São agora 90 anos de vida, 7 décadas de carreira e um belo filme que
resgata a história de sua vida, contada por ela mesma, dirigido por Liliane
Mutti: “A Noite de Alaíde”.
O filme,
além de muita música, arquivos inéditos e uma abordagem poética da memória, usa
a técnica do live action, com atores e ambientes reais, apresentados em
animação por meio de desenhos e pinturas por cima de filmagens reais, o que é
também conhecido como rotoscopia.
Alaíde
Costa, apesar de sua brilhante história e pioneirismo, não recebeu as
homenagens merecidas por sua atuação na bossa nova. Na verdade, ela foi escanteada do famoso
espetáculo que apresentou a bossa ao mundo, no Carnegie Hall em Nova
Yorque, em 1962. Que levou um grande
número de artistas, inclusive alguns que nada tinham a ver com a bossa nova, e
não chamou Alaíde Costa nem Johnny Alf.
Absurdo, só explicável por um preconceito racial intolerável.
Alaíde
sofreu por muitos anos uma discriminação por parte de produtoras e
gravadoras. Uma mulher negra com tamanho
realce e talento devia incomodar. Mesmo
sendo tímida. Mas foi sempre firme nas
suas convicções musicais e não fez concessões.
Ou melhor, só pequenas concessões.
Nunca concordou com a ideia, explicitada inclusive, de que cantoras e
cantores negros devem cantar samba, pagode, música animada, batuque e coisas
desse gênero. Não era a dela, que sempre
buscou cantar o que gostava e sentia e, principalmente, o que combinava com o
seu jeito de cantar e de se expressar.
Tornou-se também compositora e suas canções refletem esse estilo. Infelizmente, tiveram pouca difusão.
O tempo
passa e a cada dia Alaíde Costa segue constantemente redescoberta. Um tesouro não poderia ficar escondido por
muito tempo. Há anos tem sido cada vez
mais requisitada, nacional e internacionalmente.
O máximo foi
o reconhecimento e a aclamação proporcionados por sua apresentação no Carnegie
Hall, NY, em 2023, corrigindo o erro histórico de 1962.
Eu fui ver
Alaíde Costa ao vivo em shows, pelo menos quatro vezes nos últimos dois ou três
anos, sempre entusiasticamente aplaudida e festejada. Sempre gostei muito dela como cantora e acho
uma maravilha todo esse reconhecimento que ela tem recebido, com todos os
méritos, já em idade avançada. O filme
“A Noite de Alaíde”, de Liliane Mutti, lançado agora, simultaneamente em
Portugal e no Brasil, é o coroamento dessa vida artística tão especial.


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