sábado, 25 de julho de 2026

A NOITE DE ALAÍDE



        Antonio Carlos Egypto




A NOITE DE ALAÍDE.  Brasil, 2026.  Direção: Liliane Mutti.  Documentário.  100 min.

 

Alaíde Costa é uma das cantoras mais importantes da história da música brasileira, por sua interpretação e estilo marcantes, uma voz afinada, melodiosa e macia, inconfundível.  Fez parte do movimento da bossa nova desde o começo.  Conviveu muito de perto com João Gilberto, Johnny Alf, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, de quem recebeu o piano como herança.  São agora 90 anos de vida, 7 décadas de carreira e um belo filme que resgata a história de sua vida, contada por ela mesma, dirigido por Liliane Mutti: “A Noite de Alaíde”.

 

O filme, além de muita música, arquivos inéditos e uma abordagem poética da memória, usa a técnica do live action, com atores e ambientes reais, apresentados em animação por meio de desenhos e pinturas por cima de filmagens reais, o que é também conhecido como rotoscopia.

 

Alaíde Costa, apesar de sua brilhante história e pioneirismo, não recebeu as homenagens merecidas por sua atuação na bossa nova.  Na verdade, ela foi escanteada do famoso espetáculo que apresentou a bossa ao mundo, no Carnegie Hall em Nova Yorque, em 1962.  Que levou um grande número de artistas, inclusive alguns que nada tinham a ver com a bossa nova, e não chamou Alaíde Costa nem Johnny Alf.  Absurdo, só explicável por um preconceito racial intolerável.

 




Alaíde sofreu por muitos anos uma discriminação por parte de produtoras e gravadoras.  Uma mulher negra com tamanho realce e talento devia incomodar.  Mesmo sendo tímida.  Mas foi sempre firme nas suas convicções musicais e não fez concessões.  Ou melhor, só pequenas concessões.  Nunca concordou com a ideia, explicitada inclusive, de que cantoras e cantores negros devem cantar samba, pagode, música animada, batuque e coisas desse gênero.  Não era a dela, que sempre buscou cantar o que gostava e sentia e, principalmente, o que combinava com o seu jeito de cantar e de se expressar.  Tornou-se também compositora e suas canções refletem esse estilo.  Infelizmente, tiveram pouca difusão.

 

O tempo passa e a cada dia Alaíde Costa segue constantemente redescoberta.  Um tesouro não poderia ficar escondido por muito tempo.  Há anos tem sido cada vez mais requisitada, nacional e internacionalmente.

 

O máximo foi o reconhecimento e a aclamação proporcionados por sua apresentação no Carnegie Hall, NY, em 2023, corrigindo o erro histórico de 1962.

 

Eu fui ver Alaíde Costa ao vivo em shows, pelo menos quatro vezes nos últimos dois ou três anos, sempre entusiasticamente aplaudida e festejada.  Sempre gostei muito dela como cantora e acho uma maravilha todo esse reconhecimento que ela tem recebido, com todos os méritos, já em idade avançada.  O filme “A Noite de Alaíde”, de Liliane Mutti, lançado agora, simultaneamente em Portugal e no Brasil, é o coroamento dessa vida artística tão especial.



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