Antonio Carlos Egypto
FRANZ (Franz). República Tcheca/Polônia, 2025. Direção: Agnieszka Holland. Elenco: Idan Weiss, Peter Kurth, Jenovéfa
Boková, Ivan Trojan, Katharina Stark.
127 min.
Fazer uma cinebiografia de uma figura tão extraordinária e complexa como
o escritor Franz Kafka (1883-1924) é uma tarefa desafiadora. É preciso encontrar um caminho viável que
possa dar conta das muitas facetas de um personagem estranho, contraditório e, claro,
genial. Trabalhar a obra literária e a
figura humana em suas relações com a realidade, o mundo, a guerra (a Primeira
Guerra Mundial, no caso), o amor e a vida.
Quem encarou esse fantástico desafio foi a grande cineasta polonesa
Agnieszka Holland. E o caminho que ela
trilhou foi, segundo a sinopse divulgada para o lançamento do filme, o mosaico
caleidoscópico. O pôster adotado para o
lançamento enfatiza isso ao mostrar o rosto do ator Idan Weiss, que encarna Franz
Kafka, dividido em pedaços que se deslocam para um lado e para o outro para
manter a unidade. De fato, o filme vai
acoplando tudo o que diz respeito ao escritor, sem ordená-lo nem temporalmente,
nem didaticamente.
O filme junta pedaços, mistura situações diversas, desde infância, juventude,
vida adulta, atividade profissional rotineira, como funcionário público, e o
escritor compulsivo que escrevia mais por necessidade do que para se
comunicar.
“Franz”, tratado aqui com intimidade, para ressaltar o lado pessoal,
amava as palavras, via nelas a razão de ser de tudo, cultivava, com desespero
até, o silêncio. Aquele silêncio que lhe
foi negado em família, marcado principalmente pelos gritos e imposições do
pai. O isolamento era algo que ele
valorizava, buscava. A impaciência e a
indiferença estão na origem de todos os males segundo ele.
É impossível falar de Kafka sem se reportar ao que ele significa no mundo
de hoje. Ele queria destruir toda sua
obra e pediu isso a um amigo, às vésperas da morte. Felizmente, isso não aconteceu e até suas
preciosas cartas sobreviveram, para nosso deleite. Mas ele também virou mito e sua vida é
esquadrinhada e sorvida com grande apelo turístico na belíssima cidade de
Praga. A diretora incorporou esse
material documental à trama, misturando-o com as lembranças, fatos passados
encenados como ficção, em várias etapas de sua vida, sem perder de vista a obra
literária. Suas frases, ideias,
citações, estão integradas à narrativa e bastante valorizadas.
Ou seja, o caleidoscópio funciona.
Incorpora e mescla um monte de coisas de Franz e do Kafka, amalgamando
tudo de um modo artisticamente muito bem realizado e consistente.
O problema é que não é fácil juntar e elaborar tudo isso e o espectador
pode ter alguma dificuldade para acompanhar a biografia, se não tiver as
informações básicas necessárias sobre a vida e a obra de Franz Kafka. O desafio a quem for ver o filme é pesquisar,
informar-se um pouco, antes e depois de vê-lo.
Quem vir com atenção, vai desejar fazer isso depois, vai ser estimulado
a isso. E mais: a ler e conhecer melhor
a obra literária instigante e maravilhosa do autor de "A Metamorfose”, “O
Processo”, “O Castelo”, “Carta ao Pai”, “Cartas a Milena” e outros trabalhos,
que estão entre o que há de melhor na literatura do século XX.
Para quem não se lembra da obra cinematográfica de Agnieszka Holland, eu
destacaria pelo menos dois belos filmes: “Filhos da Guerra”, de 1990, e “Zona
de Exclusão”, de 2023.


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