Antonio Carlos Egypto
A TERRA DO MEU PAI (Fatherland). Direção: Pawel Pawlikowski. Elenco: Hanns Zischler, Sandra Hüller, August
Diehl, Devid Striesow, Joachim Meyerhoff.
O filme do diretor polonês Pawel Pawlikowski (de “Ida”, 2014), é um
belíssimo trabalho em preto e branco, com uma fotografia brilhante,
enquadramentos preciosos que nos remetem à Alemanha dividida do pós-guerra, em
1949. O personagem em questão é o
escritor alemão Thomas Mann (1875-1955), autor de obras seminais, como “A
Montanha Mágica”, “Morte em Veneza e “Doutor Fausto”, e sua filha Erika,
sofisticada e intelectual. O escritor
foi convidado para palestrar em homenagem a Goethe (1749-1832), um dos
representantes máximos da cultura alemã.
O convite a essa homenagem implicava não só o retorno à terra natal após
anos de exílio nos Estados Unidos em função da guerra, incluindo a adoção da
cidadania americana, como um fio da navalha ideológico. Frankfurt, na Alemanha Ocidental, e Weimar,
na Oriental, cidade natal de Goethe, foram as cidades sedes desses
eventos. Situadas em campos opostos e
numa competição que tinha ainda o sentido do reerguimento da sociedade alemã em
frangalhos. Uma tragédia familiar também
imiscui-se nessa situação já tão difícil.
Por meio dela, muito será revelado sobre as personalidades em ação. Não só isso: temas e discussões muito
relevantes perpassarão essa narrativa. O
que ela tem de brilhante é a forma como condensa as questões em frases ou cenas
marcantes, que dizem tudo sem ter de explicar, nem esticar a trama. O que o filme tem de melhor é ser profundo e
sintético, méritos muito pouco encontrados no cinema mundial atual. 82 minutos.
Distribuído no Brasil pela Imovision/MUBI.
MEMÓRIAS DO
CÁRCERE. Direção: Sérgio
Graciano. Elenco: Albano Jerónimo, Maria
João Bastos, Paulo Pires, Afonso Pimentel, João Pedro Vaz.
Camilo Castelo Branco (1825-1890), um dos maiores escritores portugueses do século XIX e da história da
literatura, é o foco do grande filme do cineasta português Sérgio
Graciano. Grande, antes de mais nada,
pela duração, 167 minutos. Mas grande
também pelo estilo clássico, que é muito bem explorado, pelas locações, pelo
figurino, pelo clima romântico muito adequado à narrativa. A história adapta o livro “Memórias do
Cárcere”, juntando a situação pessoal do escritor preso em função de um
processo de adultério e o que ele escreveu sobre o que viu e ouviu na prisão:
uma coleção de situações existenciais que envolvem falsários, parricidas,
infanticidas e até um rei, que preenchem o filme de interesse e
variedades. A trama nos remete à própria
história do Brasil e é bastante explícita ao revelar a imensa distância entre
as classes sociais na prisão. Enquanto
prisioneiros pobres já se acumulavam nas celas, os grandes tinham acesso a
celas tão espaçosas e bem-dotadas, onde cabiam pianos, belas escrivaninhas,
trocas e visitas entre eles e as autoridades e até visitantes ilustres, como o
próprio rei. Ainda mais do que isso,
eventos amorosos e sexuais entre o escritor e sua amante, presa em cela ao
lado. Enfim, um filme para se sorver e
curtir com atenção na sua beleza, nas informações e reflexões que traz, em
ambiente calmo e devidamente pausado.
Sem correrias ou excessos. Mas
recheado de boas histórias.
A VIOLÊNCIA DE NINGUÉM
(Violence du Corps de l’autre).
Direção: Denis Coté. Elenco: Larissa Corriveau, Philippe Rebbot, Xavier
Bergeron, Gabrielle Lazure, Pierrette Robitaille.
O novo filme do diretor canadense, de Quebec, Denis Coté, tem aspectos
pesados desde o seu início, centrado na figura de Mira, uma mulher solitária e
de poucas palavras. Com cores esmaecidas
e imagens granuladas, passado em período invernal canadense, com muita neve e
ambientes escurecidos, é o tédio e o desencontro da personagem o que mais se
destaca. Ela flerta com a morte, mas
também vive de auxiliar as pessoas à beira da morte. Curiosamente, ela encontra a vida em outros
personagens que movimentam a narrativa.
São estranhas, mas atraentes figuras: Madeleine e Ludo, pessoas
descoladas, hedonistas, que vivem no coração da floresta e um jovem, com quem
Mira se envolve, que é o seu oposto.
Louco, falante, dançante, exibicionista, disposto a todo tipo de
experiências. De outro modo, ele também
flerta com a morte. Onde está a
violência do título do filme? No corpo dos outros, na alma de Mira? 118 minutos.
NÃO ME LARGUE (Kpáta me). Direção: Myrsini Aristidou. Elenco: Christos Passalis, Maria
Petrova.
Da competição “Novos Diretores”, vale destacar este filme, uma produção
que envolve Chipre, Dinamarca e Grécia.
A diretora cipriota Myrsini Aristidou, em seu primeiro filme, mostra com
talento o que acontece com uma criança de 11 anos que é deixada por sua conta e
risco. Durante o verão, Íris, a menina, cujo pai havia desaparecido e volta,
mas sem retornar à casa, e a mãe, que viaja de férias com o novo namorado, fica
só com o irmão maior, adolescente, algum dinheiro e comida em casa. Nada mais.
O irmão está mais interessado em sair com a namorada do que em cuidar
dela. Ou seja, ninguém está nem aí para
ela. Íris convive com uma amiga bem mais
velha do que ela, que é seu vínculo afetivo.
E só. O filme explora, então, o
que acontece numa situação dessas. O que
ela vai buscar, explorar, e que confusões pode armar. No caso, a abordagem se refere a uma menina
com vida de classe média. O abandono não
é o mesmo das pessoas mais vulneráveis economicamente ou que estão em situação
de rua, por exemplo. Porém, onde não há
educação tudo pode acontecer. E com uma
menina inteligente e destemida quem guiará seus caminhos é ela mesma. Parafraseando Noel Rosa: Com que roupa? E no que isso vai dar? 102 minutos.
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