Antonio Carlos Egypto
PRIMAVERA. Itália, 2025. Direção: Damiano Michieletto. Elenco: Tecla Insolia, Michele Riondino,
Andrea Pennacchi, Fabrizia Sacchi, Valentina Bellè, Stefano Accorsi. 110 min.
“Primavera”, de Vivaldi, é, talvez, o ponto alto de sua obra clássica
barroca: As Quatro Estações. É também o título do filme italiano,
dirigido por Damiano Michieletto (famoso diretor de óperas) e a música que nos
acompanha ao deixarmos o cinema satisfeitos com o que vimos.
De fato, o filme é bonito, bem realizado, rescende a música por todos os
poros, além de contar uma história interessante, baseada no romance de Tiziano
Scarpa, “Stabat Mater”, de 2008.
É um filme sobre o padre Antônio Vivaldi (1678-1741), papel de Michele Riondino, e seu trabalho como violinista, compositor e regente, durante décadas no Ospedale della Pietà, fundado em Veneza em 1346 e que existe até hoje. Trata-se de um convento/orfanato, dedicado a meninas abandonadas, que procurava desenvolver o talento musical delas, estimulando o estudo de instrumentos e de canto. Lá Vivaldi trabalhou por um tempo e voltou mais tarde, produzindo uma obra não só maravilhosa como profícua. Charles de Brosse, em 1739, diz: “Vi-o gabando-se de escrever um concerto mais rápido do que o copista poderia transcrever”.
Bem, mas o filme “Primavera” não é apenas sobre a trajetória de Vivaldi. Na
verdade, o foco está na personagem Cecília (Tacla Insolia), órfã em que Vivaldi
encontrou grande talento para o violino.
Cecília, para além do interesse pela música, aspirava sair daquele
ambiente em que estava, na prática, em clausura. Até nas exibições musicais, o conjunto tocava
atrás de uma barreira.
Seu destino já estava traçado: um casamento de conveniência para o convento, interessado na grande soma de dinheiro que ele traria para a instituição. O que era, aliás, uma prática comum. Isso punha em confronto o empenho de Vivaldi em desenvolver Cecília para a música, mas o filme mostra a figura do padre compositor como alguém sem coragem para se opor às regras e à força do poder do dinheiro.
“Primavera” acaba significando, nesse caso, a busca da liberdade, tão desejada por Cecília. E a dificuldade de alcançar isso naquela época e naquele ambiente religioso. A música expressa esse sentimento também, além da alegoria com a estação mais florida e festiva do ano.
Os protagonistas Tecla Insolia e Michele Riondino, assim como todo o
elenco de apoio, com destaque para Stefano Accorsi, nos colocam naquele mundo e
naquele período histórico de forma muito convincente, respaldados pela direção
de arte, locações, figurinos. É daqueles
espetáculos que nos transportam para uma outra realidade. O que o cinema consegue fazer e que encanta
gerações, desde o final do século XIX.












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