quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

O MELHOR ESTÁ POR VIR

Antonio Carlos Egypto

 


O MELHOR ESTÁ POR VIR (Il Sol Dell’Avvenire). Itália, 2023.  Direção: Nanni Moretti.  Elenco: Nanni Moretti, Marguerita Buy, Mathieu Amalric, Silvio Orlando, Barbara Bobulova. 95 min.

 

 “O Melhor Está Por Vir”, título do novo trabalho cinematográfico de Nanni Moretti, é também um bom lema: sempre esperar pelo melhor e trabalhar por isso.

 

Moretti, como ele mesmo se define, é um homem da classe média romana, de esquerda, acostumado a fazer a crítica do cotidiano, do mundo e de si mesmo.  Ele pertence a essa geração forjada na ideia de transformar as coisas para melhor e militar por isso.  Não por acaso, seu filme aborda um diretor de cinema, Giovanni , (ele próprio como ator), que faz um filme sobre o Partido Comunista Italiano (PCI), na Roma dos anos 1950.  Justamente no período da invasão soviética na Hungria, que colocava numa saia justa o PCI.  Diante da opressão e dos crimes stalinistas, seria necessário romper o vínculo umbilical com a União Soviética e assumir um posicionamento independente.  Está aí o conflito político.

 

“O Melhor Está Por Vir” é também um filme sobre o cinema.  As dificuldades da produção, orçamento apertado, contestações sobre a abordagem cinematográfica diante do mercado, de uma visão pessimista e trágica do realizador e de uma postura radical dele frente, por exemplo, à violência explorada no cinema, sem qualquer substância, só pelo caça-níqueis.  Ele tem razão, mas sua obsessividade incomoda todo mundo, sem limites, e aí fica complicado.

 

Há muitas outras coisas em questão, como o próprio casamento de Giovanni com a mulher, produtora de todos os seus filmes, e que agora também trabalha para alguém que tem concepções opostas às dele.  Em suma, ele não quer ver, mas seu casamento está em colapso e seu cinema, em cheque.  Além disso, a jovem filha deles encontrou um namorado por quem se apaixonou, que tem muita idade, é uma escolha inesperada que mexe com eles.

 


Enquanto o cineasta tenta realizar o filme que discute as posições da esquerda nos anos 1950, a realidade transforma o filme, ao mesmo tempo em que o filme reconfigura a realidade, reconstruindo o sonho por meio de uma visão crítica sobre o passado.  Além disso, as questões pessoais e profissionais atuais entram na trama do filme, modificando-o também.  Moretti adota uma visão dialética do mundo, tendo a mudança, a transformação, como a base das coisas.

 

Este é basicamente o recheio de uma comédia que provoca, faz pensar, remete à autoanálise tão necessária, não só ao nosso cineasta, mas a qualquer um de nós.

 

O resultado é muito bom, engraçado, denso, revelador da natureza humana e da importância do contexto político da vida, embora hoje tudo pareça tão diferente, estranho, para quem não perdeu a característica de querer tornar o sonho de um mundo melhor possível. Se a realidade atual decepciona, incomoda, existe o cinema para vender o sonho. Nanni Moretti remete ao povo a solução da encruzilhada em que nos metemos. Só assim o sonho ganha entusiasmo e uma força admirável.

 

Um elenco de primeira sustenta essa trama meio complicada, em que as questões existenciais são políticas e as questões políticas são filosóficas, existenciais. Atores e atrizes que primam pela sutileza, pela ambiguidade, pela dúvida, no desempenho de seus papéis criam personagens reais, facilmente identificáveis e falíveis, como todos nós.  Vale a pena conhecê-los.

 

“O Melhor Está Por Vir” tem estreia marcada para o início de janeiro de 2024 nos cinemas.

 

 

                              FELIZ ANO NOVO !





quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

A MENINA SILENCIOSA

Antonio Carlos Egypto

 

 


A MENINA SILENCIOSA (An Cailín Ciúin).  Irlanda, 2023.  Direção e roteiro: Colm Bairéad.  Elenco: Catherine Clinch, Carrie Crowley, Andrew Bennett, Michael Patric.  96 min.

 

O diretor e roteirista irlandês Colm Bairéad fez um filme bonito, sensível, emocionante: “A Menina Silenciosa”.  Passa-se na zona rural em que vive essa menina de 9 anos de idade, Cáit, num desempenho magnífico de Catherine Clinch, de 11 anos à época da filmagem.  O que ela vive, percebe, conclui, como reage ou não, é tudo o que sabemos. É por meio dela que acompanhamos os acontecimentos.

 

Ela fala pouco, só o necessário, mas o ritmo do filme nos permite apreciar calmamente as coisas, ir sentindo o que ela provavelmente sente.  Não é possível ficar alheio ao que se vê, tanto no abandono, descaso ou rejeição, quanto na acolhida, na ternura e no afeto. 

 

Cáit vive numa família grande e pobre, em que um novo bebê vem a caminho.  Acaba sendo levada para passar um tempo num local longínquo somente com um casal de meia-idade, parentes distantes, que ela desconhece. 

 

O pai a leva de carro, mas esquece de pegar a mala dela e parte, deixando-a só com a roupa do corpo.  Isso dará margem a que fatos dolorosos e complexos acabem por vir à tona, com o tempo. Nesse filme tudo tem seu tempo.

 

Enquanto isso, vamos apreciando as locações do campo, a natureza, os animais e lances de beleza nas pequenas coisas.  Por exemplo, numa caneca que pega água num poço profundo que abastece a casa.

 

Uma questão que a narrativa do filme coloca é sobre o que significa ser pai ou mãe, o papel da biologia, do acolhimento e do afeto, nessa história.  Além do desejo de ter e cuidar de filhos.

 

A trama de “A Menina Silenciosa” é uma adaptação de um conto, Foster, de Claire Keegan, co-roteirista no filme, publicado em 2010.

 

Além do título irlandês, em gaélico, “An Cailín Ciúin”, foi lançado internacionalmente com os títulos de “The Quiet Girl” e “Les Trois Lumières”, na França.  Está indicado ao Oscar de filme internacional pela Irlanda.

 

BOAS FESTAS

Para você que está lendo meu texto agora, meu desejo de Boas Festas, num fim-de-ano mais tranquilo e com esperanças para o futuro.  Saudações cinéfilas.  Grande abraço.




terça-feira, 12 de dezembro de 2023

DOIS FILMES

     Antonio Carlos Egypto

 

 


A SOCIEDADE DA NEVE (La Sociedad de la Nieve), Espanha, 2023.  Direção: J. A. Bayona.  Elenco: Enzo Vogrincic, Simon Hempe, Augustín Pardella, Matias Recalt, Rafael Federman. 145 min.

 

“A Sociedade da Neve” retoma a história do trágico acidente que envolveu o voo 571 da Força Aérea Uruguaia, que levava a seleção uruguaia de rúgbi ao Chile, em 1972.  O acidente ficou famoso na época pelas circunstâncias trágicas que o cercaram e pela sobrevivência quase impossível daqueles jovens, entre outros passageiros, que com a queda do avião foram forçados a viver num dos ambientes mais inóspitos e isolados do mundo, a Cordilheira dos Andes, na neve.  A retomada dessa história real se dá agora, a partir do livro escrito por Pablo Vierci, em 2008, com o mesmo título do filme.  Dos 45 passageiros, somente 29 sobreviveram de imediato.  Ao longo dos meses passados, surpreendentemente, 16 ainda conseguiam sobreviver, até que pudesse ocorrer o resgate.  O que tiveram que fazer para se manterem vivos, quem não sabe do caso, pode imaginar.  O filme narra a sequência do longo período em que esse grupo sobrevivente, que ia perdendo elementos também, se manteve, suas ações, decisões, desespero dentro do que restou do avião e frente às tempestades de gelo e tudo o mais.  O filme explora também o relacionamento que se dá entre eles nessa situação extrema, a sociedade que se estabelece ali.  É o que se denomina de filme catástrofe.  Mas pretendendo-se rigorosamente real.  Um dos sobreviventes verdadeiros até representou o papel de seu próprio pai no filme, no caso, Carlitos Páez.  O que havia para mostrar era também inevitavelmente escandaloso e arrasador.  O filme consegue, no entanto, fazer isso com sutileza, pelos menos, até certo ponto.  Era difícil, reconheço, contar os fatos sem cair no sensacionalismo e sem moralismos.  O resultado pode não ser agradável, claro, mas é palatável.  E coloca questões claramente em discussão, questões obviamente de vida e de morte, o tempo todo.  Sobreviver, em algumas circunstâncias, é um desafio sobre-humano, que tem um alto custo.  Isso o filme explora corretamente, eu diria, até minuciosamente, mas com cuidado.  Do contrário, não daria para aguentar.  Seria um produto de horror puro e simples.  Uma curiosidade: o filme se vale de um narrador, um dos personagens, que vai relatando o que se faz e como ele vê e participa dos fatos, seus próprios sentimentos, medos, dúvidas e sua deterioração física.  Ele morre um pouco antes de que o filme termine.  O final, portanto, é necessariamente coletivo.  Uma solução, embora estranha, razoável.  “A Sociedade da Neve” é uma produção Netflix que tem seu lançamento nos cinemas agora.

 


ALMAS GÊMEAS (Les Âmes Soeurs), França, 2023. Direção: André Téchiné.  Elenco: Noémie Merlant, Benjamin Voisin, Audrey Dana, André Marcon.  100 min.

 

A narrativa do novo filme de André Téchiné ( de “Rosas Selvagens”, 1994 e “As Testemunhas”, 2007), “Almas Gêmeas”, discute o papel da amnésia na vida de um personagem jovem.  David (Benjamin Voisin), um tenente do exército francês no Mali, é seriamente ferido, mas o que resta lesionado, depois de um duro tratamento e da acolhida emocional da irmã nesse período, é a amnésia.  Que parece resistir por muito tempo.  Ele vive uma nova vida, dispensando o passado, sem querer saber dele, incomodando-se com isso.  Apenas a retomada de algumas habilidades, como nadar e andar de moto, lhe parecem atraentes.  E o dia-a-dia ao lado da irmã, num belo lugar de natureza, um tanto isolado, parece contentá-lo.  Jeanne (Noémie Merlant) demonstra uma dedicação excepcional ao irmão, parecendo ocupar o lugar da mãe que eles não têm.  No entanto, ela se empenha em trazê-lo de volta, incorporando o passado que ele rejeita.  Ela busca um relacionamento mais profundo e verdadeiro, que não pode dispensar a memória.  Sentimentos reprimidos virão à tona, na medida em que os fatos sejam recordados.  Algo que ficou intocado terá de ser encarado.  Os personagens vão se desvelando em cena e é muito fácil para o espectador se envolver na história, não só pelo enigma, mas pela própria questão do que significa a ausência de memória, a negação do passado.  O que somos nós sem identidade, sem passado, ainda que o presente possa parecer suficiente?  Isso vale o filme.  Muito bem conduzido com delicadeza e sutileza, contando com uma atriz e um ator jovens muito talentosos, que valorizam seus personagens e transmitem as nuances de suas vivências de forma muito convincente.  O filme foi exibido no Festival Varilux do Cinema Francês, antes de entrar no circuito comercial.




quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

ROBERTO FARIAS, MEMÓRIAS DE UM CINEASTA

Antonio Carlos Egypto 

 



ROBERTO FARIAS, MEMÓRIAS DE UM CINEASTA.  Brasil, 2023.  Direção: Marise Farias.  Documentário.  90 min.

 

A filha mais nova do cineasta Roberto Farias (1932-2018), Marise Farias, realizou um importante documentário sobre a relação de seu pai com o cinema, sua obra e suas motivações em defesa do cinema brasileiro.  Além do registro de seu trabalho no cinema e na TV bastante conhecido e de sucesso, ela encontrou um livro de memórias que ele deixou para a posteridade, numa pasta do seu computador.  Essas memórias, narradas ao longo do filme pelo ator e irmão Reginaldo Faria, vão compondo uma história de amor pelo cinema e uma visão de quem se expressa pelo vínculo audiovisual sempre buscando alcançar o público.  Para isso, se vale de uma narrativa mais direta, capaz de ser compreendida e assimilada pelos espectadores.

 

Depois de passar pela chamada chanchada, realizando, por exemplo, “Rico Ri à Toa”, 1957, enveredou por um caminho mais autoral e social, com “Cidade Ameaçada”, 1960, “Assalto ao Trem Pagador”, 1962, e “Selva Trágica”, 1963.  Com a eclosão da ditadura militar, em 1964, aliada ao fracasso econômico de “Selva Trágica”, dedica-se ao cinema de entretenimento, com muita qualidade.  Realizou “Toda Donzela Tem um Pai que é Uma Fera”, 1966, e o grande sucesso da trilogia com Roberto Carlos como protagonista, em grandes produções: “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura”, 1968, “R C e o Diamante Cor-de-Rosa”, 1970, e “R C a 300 kms por hora”, 1971.  Voltaria ao gênero com “Os Trapalhões no Auto da Compadecida” 1986.  Mas antes deixaria como marca de sua carreira “Prá Frente, Brasil”, 1982, que explora os espaços de distensão e o declínio da ditadura, para abordar corajosamente a questão da tortura e desaparecimentos no Brasil, numa narrativa ficcional.

 


O documentário também mostra o papel do cineasta quando foi indicado e assumiu a Embrafilme, entre 1974 e 1978, quando em plena ditadura a produção brasileira de cinema cresceu e ganhou grande público, por meio também do incremento das cotas de tela.  Foi um período áureo do nosso cinema nesse sentido.  Os méritos de Roberto Farias parecem hoje inegáveis, mas havia contestação e oposição ao seu trabalho, na época.

 

O foco do documentário está no amor ao cinema, que Roberto Farias demonstrou com sua atuação e trabalhos, seu depoimento e como o descreveu no seu livro de memórias.  Destaca o profissional apaixonado, que envolveu toda a família com o cinema, com ideias muito claras sobre como realizar e promover o cinema brasileiro, conquistando o público e disputando o mercado com o produto estrangeiro.  Alcançou bastante êxito em seus objetivos, embora a situação tenha se revertido e hoje essa batalha seja ainda mais difícil e complicada do que foi naquele período passado, em que Roberto Farias atuava com intensidade.

 

24ª. EDIÇÃO DA RETROSPECTIVA DO CINEMA BRASILEIRO

Já começou a tradicional Mostra Retrospectiva dos filmes recentes do cinema brasileiro, para quem não pôde vê-los ou quer rever algum.  De hoje, 07 de dezembro de 2023, até 10 de janeiro de 2024, no Cinesesc, em São Paulo, rua Augusta, 2075. Veja a programação no site do Cinesesc.



terça-feira, 5 de dezembro de 2023

PUAN

Antonio Carlos Egypto

 

 


PUAN (Puan), Argentina, 2023.  Direção: Maria Alché e Benjamin Naishtat.  Elenco: Marcelo Subiotto, Leonardo Sbaraglia, Julieta Zylberberg, Alejandra Flechner.  109 min.

 

“Puan” nos coloca no ambiente acadêmico, da Universidade de Buenos Aires, em que a morte inesperada do chefe do Departamento de Filosofia engendra uma disputa de poder entre dois docentes. 

 

O primeiro, e personagem central do filme, é Marcelo (Marcelo Subiotto), que trabalhou muitos anos ao lado do antigo e respeitado chefe Caselli e espera ser seu sucessor no cargo.

 

O segundo é um professor que volta da Europa, da Alemanha, e para surpresa de Marcelo disputa o cargo.  É Rafael (Leonardo Sbaraglia), que esbanja extroversão e charme, enquanto Marcelo é preparado, mas tímido.

 

Nessa disputa de poder, entram Rousseau, Hobbes, Platão, Spinoza e outros mais.  Mas entra também um fator totalmente alheio à academia (ou assim se esperava que fosse), Rafael conquistou uma bela e famosa atriz de cinema, Vera Motta (Lali Espósito) e isso lhe dá um status especial.  É o moderno, o que vem para mudar.

 

Enquanto isso se desenvolve, o país entra em colapso com seus problemas econômicos (inflação, fuga de dólares, etc.) e a Universidade sente as consequências.  Os estudantes lutam com as suas possibilidades e isso é evidenciado pelo que se vê no campus e na própria sala-de-aula.

 


A disputa acadêmica terá de ser confrontada com a realidade que invade o mundo universitário.  Mas o filme não se furta de mostrar ideias e frases dos filósofos, que orientam o método pedagógico das aulas dos professores, ilustrando a beleza do conhecimento e da razão.  Já a práxis parece um pouco distante.

 

É uma narrativa interessante, inteligente, que se vale de dois grandes atores nos desempenhos principais.  Marcelo Subiotto, perfeito na caracterização e tipologia de seu papel.  O ótimo Leonardo Sbaraglia, no entanto, me parece inadequado enquanto figura, ele não sugere o charme e o encanto que o personagem precisa ter.  Sua interpretação é muito boa, mas sua aparência não casa bem com o personagem.  É preciso desviar disso para embarcar na história.

 

O filme é dirigido por Maria Alché e por Benjamin Naishtat, que é o realizador de “Vermelho Sol”, de 2018, um belo trabalho.  “Puan” foi exibido na 47ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e entra agora em cartaz no circuito comercial.  Mais um bom produto do cinema argentino, tão bem recebido pelos brasileiros e pelo mundo, e que corre sérios riscos de perder força diante do novo governo eleito pelos hermanos, que não pretende dar nenhum apoio à cultura.  Deve deixá-la à sua própria sorte ou se entendendo com os interesses da chamada iniciativa privada.




quinta-feira, 30 de novembro de 2023

FOLHAS DE OUTONO e +

Antonio Carlos Egypto

 

 

Há uma profusão de lançamentos nos cinemas.  Algo que acaba soterrando alguns filmes que mereceriam atenção.  Já comentei aqui na semana passada sobre “Monster”, que é um excelente trabalho do cineasta japonês Kore-Eda.  Agora, gostaria de destacar “Folhas de Outono” e comentar mais dois filmes.

 



FOLHAS DE OUTONO (Kuolleet Lehdet), Finlândia, 2023.  Direção: Aki Kaurismaki.  Elenco: Alma Pöysti, Jussi Vatanen.  81 min.

 

A canção Fallen Leaves dá nome e serve de inspiração ao filme “Folhas de Outono”. A direção é do experiente e talentoso Aki Kaurismaki, que já teve filmes exibidos na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em pelo menos 15 edições diferentes.  Ele e seu irmão Mika puseram a Finlândia no mapa do cinema. Neste filme, como em tantos outros anteriores, os deserdados da sorte ocupam o primeiro plano.  São solitários, desajeitados, estranhos, invariavelmente há abuso de álcool, falta de dinheiro e de emprego decente.  No entanto, o clima não é dramático, é tragicômico.  A gente ri, tem pena, dá raiva da imbecilidade de alguém ou algo nos surpreende.  As múltiplas referências ao cinema e a filmes significativos para sua história fazem a alegria e a distração dos cinéfilos.  O humor e a leveza no trato das situações, muitas vezes dramáticas, dão o tom de “Folhas de Outono”.  O clima de profunda estranheza e atitudes inusitadas é uma marca característica do cineasta.  A gente sai do cinema em alto astral. 

 


PEDÁGIO, Brasil, 2023.  Direção: Carolina Markowicz.  Elenco: Maeve Jinkings, Kauan Alvarenga, Thomas Aquino, Aline Marta Maia, Isac Graça.  101 min.

 

No ano passado, vimos “Carvão”, primeiro longa de Carolina Markowicz, que era um trabalho bastante instigante, bem construído e bem realizado.  Agora, ela nos apresenta “Pedágio”, que combina vários elementos, como a canalhice da tal cura gay, realizada por pastores, no caso, um estrangeiro, a um custo alto, e metodologia risível e inócua.  Até porque se propõe a fazer algo impossível.  O filme mostra isso bem, mas associa à falta de dinheiro e às condições miseráveis da trabalhadora do pedágio, Suellen (Maeve Jinkings), o que a leva a se envolver com atos criminosos.  Assim se caminha para o gênero policial e de suspense.  Com isso, o foco do filme se dispersa e os elementos que o constituem perdem um pouco da força.  Há problemas também na edição, linear, que mantém a funcionária, que estaria demitida, nas cenas seguintes agindo no trabalho.  Nem por isso o filme deixa de ter interesse, até porque tem um belo elenco e cenas bem realizadas.  Só não tem a mesma força do filme anterior da diretora.

 


SOFTIE, França, 2021.  Direção: Samuel Theis.  Elenco: Aliocha Reinent, Antoine Reinartz, Mélissa Oleka, Izia Higelin.  93 min.

 

Johnny (Aliocha Reinent), um menino de 10 anos, de aparência andrógina, está em busca de entender o mundo dos adultos, especialmente o de sua mãe, e aquilo que já começa a se passar com ele.  Ao encontrar num professor aceitação e estímulo ao autodesenvolvimento, ele projeta nele uma paixão, apesar dos cuidados que o mestre toma nesses contatos.  Johnny estará se descobrindo a partir daí.  A narrativa segue os parâmetros dos relacionamentos aluno-professor, em que a fantasia das crianças ou pré-adolescentes se dirige aos educadores como paixão.  No caso, aqui, no terreno homoafetivo.  Sem muita novidade. Vale pelo desempenho do ator mirim, escolhido a dedo, que se sai muito bem no papel e, com sua imagem e desempenho, contribui para dar veracidade à trama.  E tem um bom elenco ao lado dele.  O diretor Samuel Theis explica que a história se baseia na sua infância, tem muitos elementos autobiográficos, ao lado de alguma ficção.


quarta-feira, 29 de novembro de 2023

FILME HISTÓRICO

Antonio Carlos Egypto

 


Foi descoberto um documentário brasileiro histórico, realizado entre 1918 e 1920, numa época em que o próprio conceito de documentário não estava firmado.  Claro que os filmes que deram início ao cinema, realizados pelos irmãos Lumière na França, datados de 1895, são documentais.  Como classificar “A Chegada do Trem na Estação” e “A Saída dos Operários da Fábrica Lumière” de outra forma?  Eram filmes só com 50 segundos de duração cada um, conquanto haja mais de 1000 filmes desses. 

 

Enfim, o documentário em questão é AMAZONAS, O MAIOR RIO DO MUNDO, realizado por Silvino Santos (1886-1970), cineasta luso-brasileiro, e tem 66 minutos de duração.  Esse filme estava desaparecido, considerado como perdido, desde meados dos anos 1930.  Surpreendentemente, foi reencontrado, com título alterado, como se fosse norte-americano, pelo Arquivo Nacional de Cinema da República Tcheca.  Imagine só. Foi lá que foi identificado e suas imagens disponibilizadas para a Cinemateca Brasileira, por Klára Trsková, que fala português (de Portugal) e esteve presente em vídeo ao debate realizado após o filme, aqui na Cinemateca, em 22 de novembro de 2023, com Eduardo Morettin, Sávio Luís Stoco, mediado por Giuliana de Toledo.

 


O desaparecimento se explica também porque um colega de Silvino, Propério de Mello Saraiva, levou o filme para comercializar na Europa, mudou o título e o vendeu como se fosse dele.  O próprio Silvino “refez”, refilmou o seu trabalho, e com o título de “No Paiz das Amazonas” obteve êxito em 1922.

 

AMAZONAS, O MAIOR RIO DO MUNDO é muito bem realizado, mostra enfaticamente a beleza da natureza, em exuberante fotografia em preto e branco, restaurada.  É bastante didático, ao mostrar festas populares, povos indígenas e, principalmente, as possibilidades produtivas da Amazônia, com a extração e comercialização de borracha, da castanha do Pará, do algodão, dos peixes, da mandioca, etc.. Na verdade, prega a exploração desses recursos sem questionar as consequências para o meio ambiente.  Seria pedir muito naquele tempo?  Talvez, mas os interesses industriais e comerciais já eram bastante claros, então.

 

De qualquer modo, a redescoberta do filme ajusta os ponteiros para a história do cinema brasileiro e mundial.  Basta dizer que o primeiro grande documentário conhecido e com destaque na história do cinema é o franco-estadunidense “Nanook, o Esquimó” (Nanook of the North), de Robert Flaherty, com 83 min., de 1922. 

 

A Cinemateca Brasileira seguirá realizando exibições do filme, não só em São Paulo, mas em diversas cidades brasileiras.  Quem tiver a chance de vê-lo vai gostar.  Originalmente mudo, foi exibido com uma trilha sonora original, composta pelo compositor Luiz Henrique Xavier, que quebra a expectativa da grandiloquência das imagens com muita eficiência.  Os intertítulos em tcheco estão traduzidos.

 

 

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

MONSTER

Antonio Carlos Egypto

 

 


MONSTER (Kaibutsu).  Japão, 2023.  Direção: Hirokazu Kore-Eda.  Elenco: Sakura Ando, Eita Nagayama, Soya Kurokawa, Hirata Hiragi.  126 min.

 

Kore-Eda é o mais criativo e autoral cineasta japonês em atividade.  Seu mais recente trabalho, “Monster”, recebeu o prêmio de melhor roteiro, de Sakamoto Yuji, em Cannes. O filme também marcou o último trabalho musical de Ryuichi Sakamoto, falecido em março último.

 

E, afinal, quem é o monstro?  Pergunta cantada e reiterada ao longo da narrativa do filme, especialmente pelas crianças.  Tratada com muita dificuldade, como tema sério, pelos adultos.  Monstruosidades são percebidas pelos outros, por nós mesmos, pelo contexto que as cria e alimenta.  Mas essa não é verdadeiramente a questão.  É só o invólucro de um conjunto de coisas muito maior. Que envolve um grande número de emoções, diversas e conflitantes, que vão da rejeição à violência, passando pela ternura, pela amizade, pelo desejo que surge e também pela incapacidade quanto ao enfrentamento dos problemas.

 

Duas crianças, dois meninos, com destaque para o desempenho de Soya Kurokawa como Minato, protagonizam uma história que inclui bullying e violência na escola fundamental, mexe com a mãe de um deles e as acusações que são lançadas contra um professor. Há histórias pessoais estranhas que envolvem a diretora do estabelecimento escolar.

 

A forma como essas coisas são apresentadas em reuniões do colégio, em que professores, a diretora e a mãe, estão conectados nos revela um grande problema. Não há enfrentamento das questões, apenas desculpas e reverências, para que tudo fique como está.  Ou seja, curvar-se e pedir desculpas formalmente, sem admitir e muito menos tentar resolver o problema.

 


Enquanto isso, as crianças se estranham, se provocam e rejeitam umas às outras, ao mesmo tempo em que se aproximam, se tornam amigas, mesmo tendo de esconder essa amizade.  E exploram seus medos e suas fantasias, entre elas as das perdas e da morte.

 

É dentro de um clima que exala sensibilidade, ternura, compaixão e esperança, que circulam as crianças, numa narrativa poética e humanista.  Um filme para fruir, se deixar levar pelo cotidiano desse universo escolar, que os personagens infantis transcendem, e os personagens adultos acabarão por se entender também, de algum modo.

 

Sem esquematismos, sem soluções fáceis, mas também sem investir no drama insolúvel ou na tragédia, “Monster” tem leveza e frescura ao falar das monstruosidades que nos assustam e que estão logo ali, ao virar a esquina.  Mais um grande filme de Kore-Eda, que já nos deu “O Que Eu Mais Desejo” de 2011, “Pais e Filhos”, de 2013, “Nossa Irmã Mais Nova”, de 2015, “Depois da Tempestade’, de 2016, “Assunto de Família”, de 2018, “Broker, Uma Nova Chance”, de 2022, entre outros.  Uma filmografia notável.



domingo, 12 de novembro de 2023

CINEMA PARA TODO LADO

            Antonio Carlos Egypto

 

 


O 31º. MIX BRASIL, maior festival LGBT+ da América Latina, já está em andamento e os filmes podem ser vistos até 19 de novembro, com entrada gratuita, no Cinesesc, Centro Cultural São Paulo, Spcine Olido, Museu da Imagem e do Som e Instituto Moreira Salles.  Além de filmes, várias outras atividades estão previstas.  Veja em mixbrasil.org.br  Alguns títulos podem ser vistos on line  no Sesc Digital e em www.spcineplay.com.br

 

O FESTIVAL DE CINEMA ITALIANO pode ser acompanhado on line e gratuitamente em https://festivalcinemaitaliano.com  Há uma mostra de filmes inéditos e outra, retrospectiva de clássicos, até 09 de dezembro de 2023.

 

A 8ª. MOSTRA DE CINEMA CHINÊS on line  “Em Busca da Luz”, promovida pelo Instituto Confúcio e pelo Centro Cultural São Paulo, disponibiliza 8 longas-metragens de produção chinesa recentes.  Os filmes podem ser acessados gratuitamente em https://mostracinema.institutoconfucio.com.br e na plataforma www.spcineplay.com.br, de 15 a 30 de novembro de 2023.

 

Em evento realizado pelo Instituto Goethe, Midiativa, Spcine, ESPM e outros, acontece o SCIENCE FILM FESTIVAL BR  2023 on line  e gratuito, que disponibiliza 48 filmes de 21 países, sobre Ativismo Infanto-Juvenil, Povos Originais e Comunidades Tradicionais.  Os filmes podem ser acessados e também levados à sala de aula, até 20 de dezembro, por meio de Youtube FF BR ou do site do SFF.

 


E, ainda, de 09 a 22 de novembro, está no complexo de cinemas Cinépolis, em 13 cidades brasileiras, o FESTIVAL VARILUX DE CINEMA FRANCÊS 2023.  Os filmes são pré-estreias do que entrará em circuito comercial em breve, mas inclui alguns clássicos restaurados. 

 

Com tanta coisa para ver nos cinemas e em casa, não dá para se queixar.  Só se for do excesso de ofertas.

 

 

 

terça-feira, 7 de novembro de 2023

MEU BALANÇO DA # 47 MOSTRA

Antonio Carlos Egypto

 

O primeiro aspecto a ser ressaltado é a própria existência da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, já em seu 47º. Ano.  É uma vitória e tanto essa continuidade, passando por todo o período de censura da ditadura militar, a dificuldade de obter apoio publicitário nos primeiros anos, os tempos recentes da extrema direita atacando a cultura, a pandemia.

 

Voltamos à Mostra presencial, após o período da pandemia, em que o evento sobreviveu on line, total ou parcialmente.  Foi bom ver que o público cinéfilo voltou.  As sessões noturnas e de fim de semana cheias, vários filmes tiveram ingressos esgotados, deixando alguns espectadores sem conseguir assisti-los.

 


Houve mudanças nos cinemas que exibiram a Mostra.  Alguns saíram, como o Belas Artes e o Marquise, no Conjunto Nacional, justamente onde fica a Central da Mostra.  Em compensação, vimos a Cinemateca Brasileira em grande atividade durante o evento, não só nas sessões de cinema, como nos debates e lançamentos de livros.  E lá também a inauguração do Espaço Petrobrás, agora uma ampla área coberta. O cinema Sato, na Liberdade, que exibiu filmes orientais da Mostra, teve também muito público.  O Frei Caneca, com 4 salas, recebeu público com intensidade, como de costume. Eu vi o Reserva Cultural com o saguão completamente lotado, numa terça-feira, às 17:30 h.  O Cinesesc, o Itaú Augusta e o Anexo, também tiveram bom público.  Enfim, o cinema voltou a reunir e entusiasmar as pessoas.  Os encontros, conversas, debates sobre os filmes e sobre a programação, correram soltos e isso tudo fluiu muito bem.  Foi uma grande notícia a ampliação dos patrocínios para este ano, com a volta da Petrobrás para o seu papel indispensável de promoção da cultura.  E outros apoios mais.

Também houve problemas: cancelamento de sessões à última hora, atrasos, cinema com projeção escurecida, como o Itaú Augusta, sala 1, ajustes sonoros muito ruins em sessões do Frei Caneca.  Vou citar duas: na sessão do filme “Não Espere Muito do Fim do Mundo”, parecia que o fim do mundo estava mesmo à espreita, tal o volume alto em que o filme foi exibido.  Foi uma das piores experiências que tive, o filme mais barulhento a que já assisti.  Ele até que não seria ruim, não fosse exibido assim.  Em outro dia, também no Frei Caneca, tive que assistir ao belo “Folhas de Outono” com som muito baixo.  O que terá acontecido por lá?  Bem, as outras sessões a que assisti estava tudo OK.  O Cinesesc esteve impecável em termos de projeção e som, mas também teve sessão interrompida por falta de luz.

 

Tudo isso faz parte.  Afinal, é um evento grandioso, que supõe muita organização, é impossível esperar que tudo funcione perfeitamente.  A boa vontade dos monitores e coordenadores de equipe é ótima.  É gente que se desdobra para que tudo funcione. Muitos são novos e não conhecem a rotina da Mostra, não sabem informar muita coisa.  Mas são acessíveis e gentis. 

 

Da cor e da tinta

Quanto aos filmes a que assisti, foram mais de 50.  Já abordei os que me pareceram mais importantes.  Mas tem algumas descobertas tardias, que vale comentar rapidamente, e também uma decepção.  Começando pela decepção, veio com muita expectativa positiva o filme O MAESTRO, de Bradley Cooper, sobre a trajetória de Leonard Bernstein (1918-1991), compositor e maestro consagrado.  Falhou, no entanto, ao privilegiar a vida pessoal em detrimento da obra maiúscula do retratado.  Afinal, por que motivo uma cinebiografia senão pela sua arte?

 

O que vale a pena destacar aqui são três magníficos documentários sobre artes plásticas.  DA COR E DA TINTA, da cineasta chinesa Weimin Zhang, abordou a trajetória do grande pintor chinês Chang-Dai-Chien (1899-1983), que circulou pelo mundo com seu trabalho e morou vinte anos no Brasil, em Mogi das Cruzes. 

 

Anselm, o barulho do tempo

No maravilhoso ANSELM - O BARULHO DO TEMPO (Das Rouschen Der Zeit), do grande cineasta alemão Wim Wenders, foi o trabalho do pintor e escultor moderno Anselm Kiefer que ocupou a tela. Pinturas, esculturas, instalações, grandes projetos de amplo espaço, ao longo de 50 anos de carreira, discutem a existência humana, o movimento cíclico da história, incorporando literatura, poesia, ciência e religião, num filme plasticamente muito bonito, que reflete a obra retratada.

 

O documentário francês RICARDO E A PINTURA, do realizador suíço Barbet Schroeder, retrata e focaliza o trabalho, que envolve grandes painéis, do pintor argentino Ricardo Cavallo.  Além da própria obra, Cavallo dá uma verdadeira aula de história da pintura, comentando trabalhos clássicos. 

 

Ricardo e a pintura

São filmes que vi ao final da Mostra, ou já na repescagem, que me encantaram.  Também gostei da ficção italiana LA CHIMERA, de Alice Rohwacher, a da Mongólia, SE EU PUDESSE HIBERNAR, de Zoljargal Purevdash, do filme belga QUANDO DERRETER, de Veerle Baetens, do da Lituânia, DEVAGAR, de Marija Kavteradze, e, ainda, de ZONA CRÍTICA, do cineasta iraniano Ali Ahmadzadeh.  Espero que todos eles cheguem ao circuito exibidor, para que mais gente possa apreciá-los.

@mostrasp