segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Faça as suas apostas para o Oscar

Tatiana Babadobulos

Ainda que os fãs de cinema de arte não deem importância ao Oscar, não é possível ignorá-lo. Na semana passada, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anunciou os filmes que irão concorrer ao prêmio que será entregue no dia 22 de fevereiro, direto de Los Angeles.

O filme com mais indicações é “O Curioso Caso de Benjamin Button”, que concorre em 13 categorias (Filme, Ator, Atriz Coadjuvante, Diretor, Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Fotografia, Edição, Direção de Arte, Figurino, Maquiagem, Mixagem de Som, Efeitos Especiais) seguido por “Quem Quer Ser um Milionário”, indicado 10 vezes (Filme, Diretor, Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Canção Original duas vezes, Fotografia, Edição, Mixagem de Som, Edição de Som).

“Batman – O Cavaleiro das Trevas” foi indicado a oito (embora tenha sido esquecido como Filme e Diretor: Coadjuvante, Fotografia, Edição, Direção de Arte, Maquiagem, Mixagem de Som, Edição de Som, Efeitos Especiais) e a animação da Pixar, “Wall-E”, recebeu seis indicações (Filme de Animação, Roteiro Original, Canção Original, Trilha Sonora, Mixagem de Som, Edição de Som).

Ainda não assisti ao filme de Danny Boyle, que é um dos favoritos, mas a contar do filme de David Fincher, o Oscar não deve surpreender. Queria muito que “Wall-E” levasse muitos prêmios, de modo que mostraria que a Academia deixou de ter um leve preconceito contra animação, ainda que o filme merecesse a indicação de Melhor Filme.

Se o Globo de Ouro é considerado um termômetro para o Oscar, vale lembrar que o grande vencedor foi “Quem Quer Ser um Milionário”, que venceu nas principais categorias: Melhor filme dramático, Melhor diretor, roteiro, trilha sonora. Faça a sua aposta.


Melhor Filme
O Curioso Caso de Benjamin Button
Frost/Nixon
Milk: A Voz da Igualdade
The Reader
Quem Quer Ser um Milionário?

Melhor Ator
Richard Jenkins - The Visitor
Frank Langella - Frost/Nixon
Sean Penn - Milk: A Voz da Igualdade
Brad Pitt - O Curioso Caso de Benjamin Button
Mickey Rourke - O Lutador

Melhor Atriz
Anne Hathaway - O Casamento de Rachel
Angelina Jolie - A Troca
Melissa Leo - Rio Congelado
Meryl Streep - Dúvida
Kate Winslet - The Reader

Melhor Ator Coadjuvante
Josh Brolin - Milk: A Voz da Igualdade
Robert Downey Jr. – Trovão Tropical
Philip Seymour Hoffman - Dúvida
Heath Ledger - Batman: O Cavaleiro das Trevas
Michael Shannon - Foi Apenas um Sonho

Melhor Atriz Coadjuvante
Amy Adams - Dúvida
Penélope Cruz - Vicky Cristina Barcelona
Viola Davis - Dúvida
Taraji P. Henson - O Curioso Caso de Benjamin Button
Marisa Tomei - O Lutador

Melhor Diretor
David Fincher - O Curioso Caso de Benjamin Button
Ron Howard - Frost/Nixon
Gus Van Sant - Milk: A Voz da Igualdade
Stephen Daldry - The Reader
Danny Boyle - Quem Quer Ser um Milionário?

Melhor Roteiro Original
Rio Congelado - Courtney Hunt
Simplesmente Feliz- Mike Leigh
Na Mira do Chefe- Martin McDonagh
Milk: A Voz da Igualdade - Dustin Lance Black
Wall-E - Andrew Stanton &, Jim Reardon, baseado em uma história de Andrew Stanton & Pete Docter

Melhor Roteiro Adaptado
O Curioso Caso de Benjamin Button - Eric Roth e Robin Swicord
Dúvida - John Patrick Shanley
Frost/Nixon - Peter Morgan
The Reader - David Hare
Quem Quer Ser um Milionário? - Simon Beaufoy

Melhor Filme Estrangeiro
The Baader Meinhof Complex (Alemanha)
The Class (França)
Departures (Japão)
Revanche (Áustria)
Waltz with Bashir (Israel)

Melhor Curta-Metragem
Auf der Strecke (On the Line)
Manon on the Asphalt
New Boy
The Pig
Spielzeugland (Toyland)

Melhor Filme de Animação – Longa-Metragem
Bolt – Supercão
Kung Fu Panda
WALL-E

Melhor Filme de Animação – Curta-Metragem
La Maison en Petits Cubes
Lavatory – Lovestory
Oktapodi
Presto
This Way Up

Melhor Documentário – Longa-Metragem
The Betrayal (Nerakhoon)
Encounters at the End of the World
The Garden
Man on Wire
Trouble the Water

Melhor Documentário – Curta-Metragem
The Conscience of Nhem En
The Final Inch
Smile Pinki
The Witness

Melhor Canção Original
“Down to Earth” – Wall-E (Peter Gabriel e Thomas Newman)
“Jai Ho” - Quem Quer Ser um Milionário? (A.R. Rahman e Gulzar)
“O Saya” - Quem Quer Ser um Milionário? (A.R. Rahman e Maya Arulpragasam)

Melhor Trilha Sonora
O Curioso Caso de Benjamin Button
Defiance
Milk: A Voz da Igualdade
Quem Quer Ser um Milionário?
WALL-E

Melhor Fotografia
A Troca
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman: O Cavaleiro das Trevas
The Reader
Quem Quer Ser um Milionário?

Melhor Edição
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman: O Cavaleiro das Trevas
Frost/Nixon
Milk: A Voz da Igualdade
Quem Quer Ser um Milionário?

Melhor Direção de Arte
A Troca
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman: O Cavaleiro das Trevas
A Duquesa
Foi Apenas um Sonho

Melhor Figurino
Austrália
O Curioso Caso de Benjamin Button
A Duquesa
Milk: A Voz da Igualdade
Foi Apenas um Sonho

Melhor Maquiagem
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman: O Cavaleiro das Trevas
Hellboy II: O Exército Dourado

Melhor Mixagem de Som
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman: O Cavaleiro das Trevas
Quem Quer Ser um Milionário?
Wall-E =
O Procurado

Melhor Edição de Som
Batman: O Cavaleiro das Trevas
Homem de Ferro
Quem Quer Ser um Milionário?
Wall-E
O Procurado

Melhores Efeitos Especiais
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman: O Cavaleiro das Trevas
Homem de Ferro

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

DESTAQUES CINEMATOGRÁFICOS DO ANO DE 2008


Antonio Carlos Egypto

Repassando os filmes lançados comercialmente nos cinemas de São Paulo, capital, no ano passado, fiz uma lista dos que eu mais gostei, daquilo que me pareceu mais interessante e relevante.
4 meses, 3 semanas e 2 dias -- Cristian Mungiu
Luz silenciosa -- Carlos Reygadas
Paranoid park -- Gus van Saint
Leonera -- Pablo Trapero
Longe dela -- Sarah Polley
Canções de amor -- Christophe Honoré
Lemon tree -- Eran Riklis
Estamos bem, mesmo sem você -- Kim Rossi Stuart
Linha de passe -- Walter Salles e Daniella Thomas
Juno -- Jason Reitman
O maior destaque, no entanto, fica para a permanência em cartaz, no cinema, por cerca de um ano e meio ininterruptos, do brilhante trabalho de Alain Resnais, Medos privados em lugares públicos. O octogenário diretor dos clássicos renovadores Hiroshima, mon amour, de 1959, e O ano passado em Marienbad,de 1961, prova que continua em plena forma.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

MURNAU, O EXPRESSIONISMO ALEMÃO E O CINEMA


Antonio Carlos Egypto


A aventura do cinema tem início em 28 de dezembro de 1895, com a primeira projeção pública, e paga, de filmes realizados pelos irmãos Lumière, no subsolo do Grand Café, Boulevard des Capucines, Paris. Essa primeira sessão do cinematógrafo Lumière coroava os esforços de um grande número de inventores e pesquisadores que, por séculos, buscaram o sonho de reproduzir o movimento por meio de imagens. Entre os muitos que criaram aparelhos que deram origem ao cinema está Thomas Edison, com seu cinetoscópio que, associado ao fonógrafo, quase criou o cinema falado, em 1892, só que isso se dirigia a apenas um espectador por vez.

Se foi difícil tecnicamente encontrar as soluções para criar a fotografia e depois animá-la, o fato é que o cinema uma vez descoberto teve uma evolução muito grande e rápida. Desde "A Chegada do Trem na Estação", de Louis Lumière, ao "Gabinete do Dr. Caligari", de Robert Wiene (e muitos outros criadores), em 1919, só se passaram vinte e quatro anos. Quando o expressionismo estava chegando, com sua originalidade e força criativa, o cinema já havia acumulado muitos trunfos em sua história.

Em 1902, Georges Méliès criava sua famosa "Viagem à Lua", no bojo de produções altamente inventivas e criativas onde a magia, o teatro e os cenários pintados compunham obras de inegável valor artístico. Méliès tinha estado presente à primeira sessão de cinema e incorporou esse invento ao seu teatro de mágicas, descobrindo novos caminhos para sua arte. Com Edwin Porter nos Estados Unidos e o seu "O Grande Roubo do Trem", de 1902, criou-se a história padrão que seria fortemente copiada até os dias atuais. Com Pathé e os filmes de Ferdinand Zecca, o cinema caminha para a indústria, conquistando mais público.

O cinema italiano faria a primeira superprodução histórica em 1914, com "Cabíria", de Giovanni Pastrone. No ano seguinte, nos Estados Unidos, David Wark Griffith sintetizaria a linguagem do cinema no épico "Nascimento de uma Nação", sobre a Guerra de Secessão norte-americana. Em que pese a apologia aberta do racismo que o filme faz, o êxito da empreitada foi total e praticamente criou a narrativa cinematográfica clássica, incluindo a montagem paralela. Em 1916, Griffith fará uma megaprodução de grandes ambições e agora pacifista, para compensar o belicismo anterior, "Intolerância". O filme é um dos grandes marcos da história do cinema, apesar do fracasso comercial e da extensa duração.

Na Suécia, desde 1912, Victor Sjöström já realizava belos filmes silenciosos, com base em adaptações literárias de Henrik Ibsen e Selma Lagerläf. e ao lado de Mauritz Stiller protagonizava a Era de Ouro do cinema sueco. "A Carruagem Fantasma", de Sjöström (1920), foi inspiração do maior cineasta sueco de todos os tempos, Ingmar Bergman, que confessava assistir ao filme pelo menos uma vez por ano.

Nessa mesma época, a comédia muda teve papel fundamental na difusão do cinema como entretenimento e arte. Max Linder, que trabalhava para Charles Pathé, e Mack Sennet, em Hollywood, são precursores do trabalho absolutamente genial que Charles Chaplin legou ao mundo. Os anos 1920 ainda não haviam chegado e Chaplin já havia feito maravilhas, como "O Vagabundo", "Rua da Paz", "Ombro, Armas" e "Vida de Cachorro", para citar só algumas das comédias curtas que estão na memória dos amantes de cinema. Não é pouco o que se pode registrar da história do cinema antes que os anos 1920 trouxessem um grande número de novidades e solidificassem a experiência cinematográfica.

É nesse período que se situa a escola do expressionismo alemão tão bem representada pelo "Gabinete do Dr. Caligari", e que produziu obras muito importantes, além de revelar realizadores do porte de Friedrich Wilhelm Murnau e Fritz Lang.

A Alemanha vivia uma humilhante derrota na Primeira Guerra Mundial, uma crise econômica sem precedentes e buscava reencontrar sua identidade e liderança perdidas. Nessa Alemanha inferiorizada e subjugada, as expressões artísticas teriam de ser intensas, algo lúgubres e inevitavelmente pessimistas. O expressionismo já existia na pintura, na música, na poesia e no teatro. Levado ao cinema, acabou por alcançar um alto grau de sofisticação, deixando uma marca permanente na chamada sétima arte, em seu período silencioso.

Formas pontiagudas, tortas, inclinadas, seres extraordinários, monstros à sombra, a visão deformada do real a partir da subjetividade, são alguns dos elementos constitutivos da arte cinematográfica expressionista. Tratava-se de uma ruptura estética, onde o fantástico assume o primeiro plano e simboliza uma realidade histórica, expressa de forma diferente do naturalismo, que vinha se impondo ao cinema mundial nesse período.

Na concepção nazista de arte que passaria a vigorar com a ascensão de Hitler ao poder, a partir de 1933, o expressionismo seria classificado como arte degenerada, ao lado de outras manifestações artísticas, e inteiramente desqualificado e rejeitado na Alemanha. O documentário de Peter Cohen, de 1992, "Arquitetura da destruição", mostra o processo de imposição da arte ariana, de características clássicas e naturalistas, em oposição aberta à chamada arte degenerada, atribuída principalmente aos judeus. Seres extraordinários, deformados, tortos ou distorcidos, como os utilizados pelo expressionismo, são abertamente condenados pelo Estado e pela figura que o representa naquele momento: Hitler, ele próprio, um artista plástico mediano, porém, cheio de certezas.

Hollywood, ao contrário do nazismo, buscou seus realizadores, recuperou e difundiu as obras do cinema expressionista alemão, prestando um inestimável serviço à arte cinematográfica. Hollywood também ganhou muito ao incorporar essa experiência. A estética do claro-escuro do cinema noir é um nítido exemplo disso, assim como a obra de Orson Welles e de muitos outros cineastas norte-americanos do cinema sonoro, em preto e branco. Fritz Lang, um dos mais destacados cineastas do período expressionista alemão, desenvolveria longa e brilhante carreira, tanto no cinema silencioso como no cinema falado, deixando filmes notáveis, como "Metrópolis", "M – O vampiro de Dusseldorf", "Fúria", "O diabo feito mulher" e a trilogia Mabuse.

Como em todas as escolas e tendências, há aqueles que as superam e as ultrapassam, colocando sua marca pessoal na produção artística. É o caso de Friedrich W. Murnau (1888-1931). Originário do teatro, onde foi assistente de Max Reinhardt, fez filmes como "Satanás" ou "Nosferatu", que se situam claramente na corrente do expressionismo alemão da época. Aliás, "Nosferatu" não só criou escola como permanece um clássico de grande beleza plástica, cujo fruir das imagens encanta em pleno século XXI. Não menos gratificante é a experiência de assistir hoje a "Fausto", uma adaptação do personagem mítico da literatura da obra de Goethe. O filme flui magnificamente, revelando uma tal beleza de imagens que encanta o espectador e nem exige que este tenha uma postura contemplativa, dado o dinamismo da narrativa.

O filme de Murnau da fase alemã que mais me entusiasma, no entanto, é "A Última Gargalhada". Aqui já estamos na concepção do Kammerspiel (peças de câmara), onde o intimismo, o simbolismo e o realismo têm lugar.
O esplendor visual de "A Última Gargalhada" é equivalente aos outros trabalhos de Murnau. Destaque-se a reconstituição em estúdio da rua do hotel, com pedestres na chuva, carros e até um trem passando. Há belas e significativas fusões de imagens. As imagens de sonho e fantasia que povoam a mente da personagem no momento da bebedeira, provocada pelo declínio, mas atribuível ao casamento que se está celebrando, são muito elaboradas. O jogo de luzes e sombras se destaca na caracterização das situações que estão sendo mostradas no filme. Um exemplo: quando ele volta para casa com o uniforme que já não lhe pertence, a sombra mostra antes o seu arquejamento, mas ele se recompõe e agora a sombra antecipa a postura empertigada que o caracterizava perante a sua comunidade.

A sensibilidade com que o filme expõe a decadência do orgulhoso porteiro do hotel e seu vistoso uniforme, que impressionava a comunidade onde ele vivia, é notável para um filme silencioso. Ainda mais se considerarmos que Emil Jannings, o protagonista da ação, se vale de uma interpretação de gestos e expressões exacerbadas que nos parece excessivamente teatral na atualidade. Ela nos leva, porém, ao âmago do sentimento. Expressa a dor da perda do lugar, do status, da respeitabilidade, ao mesmo tempo em que acentua a vergonha e a depressão da personagem. Igualmente importante é a expressão social de sua decadência, o pouco espaço que sobra para a pobreza, especialmente na velhice. O que seria um gesto de aparente solidariedade patronal ao inevitável declínio físico do empregado, que até pode manter seu emprego é, na verdade, uma sentença de morte psíquica. As profundas diferenças entre as classes sociais são expostas ao longo de todo o filme. A ausência de intertítulos integra o filme, tornando mais eficaz o envolvimento emocional com o espectador, num espetáculo que valoriza o aspecto intimista da história.

O final é irônico, ao redimir uma personagem que não teria mesmo nenhuma saída àquela altura. Hoje pode ser vista pelo ridículo dos finais felizes forçados, tal é o artificialismo da solução. Mas o diretor aproveita esse desfecho para revelar o mundo fútil dos ricos, enfatizando a gratidão e o desprendimento, tocantes apesar de ingênuos. Tocante, aliás, é uma boa definição para um filme que lida com o social e o emocional de forma tão simples e tão integrada. É dessa simplicidade com requintes técnicos de bom cinema que se compõe essa obra-prima de Murnau.

O diretor ainda faria quatro filmes nos Estados Unidos, entre eles "Aurora" e "Tabu". "Aurora" é considerado outra obra-prima, mas que não cabe comentar aqui e agora.

O cinema falado estava chegando e Murnau, um diretor extraordinário do cinema silencioso, poderia acrescentar novas e importantes obras ao cinema, não tivesse falecido tão precocemente aos 43 anos, num acidente automobilístico. O cinema deve ter perdido muito com isso.

FILMOGRAFIAA ÚLTIMA GARGALHADA (Der Letzte Mann), Alemanha, 1924.
Direção: Friedrich W. Murnau. Com Emil Jannings, Maly Delschaft, Emilie Kurz. 91 min.

NOSFERATU (Nosferatu), Alemanha, 1922.
Direção: Friedrich W. Murnau. Com Max Schreck, Gustav von Wangenheim, Greta Schroeder. 81 min.

FAUSTO (Faust), Alemanha, 1926.
Direção: Friedrich W. Murnau. Com Emil Jannings, Camilla Horn, Wilhelm Dieterle. 116 min.

O GABINETE DO DR. CALIGARI. (Das Kabinet des Dr. Caligari). Alemanha, 1919.
Direção: Robert Wiene. Com Werner Krauss, Conrad Veidt. 78 min.

O GOLEM (Der Golem), Alemanha, 1920.
Direção: Paul Wegener. Com Paul Wegener, Henrik Galeen. 88 min.

A ARQUITETURA DA DESTRUIÇÃO (Undergägens Arkitektur), Suécia, 1992.
Direção: Peter Cohen. Narração: Bruno Ganz. 121 min.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

FAVORITOS DA MOSTRA

Antonio Carlos Egypto

Neste ano, pude assistir a mais de 70 filmes da 32a. edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, incluindo algumas pré-estréias de filmes que já estão entrando em cartaz nos cinemas e que devem sair também em DVD.

Fiz uma lista do que eu gostei mais. O que fica patente é o valor da diversidade no cinema mundial contemporâneo. O olhar para o outro, para as diversas expressões culturais, os conflitos que se produzem e as respostas que se podem encontrar e também as grandes questões que desafiam a humanidade hoje e cujas respostas ninguém parece ter. Além disso, há o resgate de aspectos históricos e sociais esquecidos, desconhecidos ou que exigem novas reflexões. Tudo isso faz parte dessa cena cinematográfica que chega até nós por meio de festivais, como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

HANAMI - CEREJEIRAS EM FLOR, de Doris Dörrier, Alemanha.
LIÇÕES PARTICULARES, de Joachim Lafosse, Bélgica-França.TULPAN, de Sergey Dvortsevoy, Cazaquistão.LEONERA, de Pablo Trapero, Argentina.O ESTRANHO EM MIM, de Emily Atef, Alemanha.AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO, de Miguel Gomes, Portugal.ALEXANDRA, de Alexander Sokurov, Rússia.
KATYN, de Andrzej Wajda, Polônia.PALERMO SHOOTING, de Wim Wenders, Alemanha.O'HORTEIN, de Bent Hamer, Noruega.CIDADE MARAVILHOSA, de Aditya Assarat, Tailândia.
A FLORESTA DOS LAMENTOS, de Naomi Kawase, Japão.
O SILÊNCIO DE LORNA, de Jean-Pierre e Luc Dardenne, Bélgica.
SONATA DE TÓQUIO, de Kiyoshe Kurosawa, Japão.
NUVEM 9, de Andreas Dresen, Alemanha.
LA BOHEME, de Robert Dornheim, Áustria.
THREE MONKEYS, de Nuri Bilge Ceylan, Turquia.
O MENINO DO PIJAMA LISTRADO, de Mark Herman, Reino Unido.
MACHAN, de Uberto Pasolini, Sri Lanka.
EU QUERO VER, de Khalil Joreige e Joana Hadjithoams, Líbano.

As sessões de cinema mudo, com acompanhamento de pequena orquestra, ao vivo, e composições originais para os filmes O HOMEM QUE RI, de Paul Leni, de 1925, Estados Unidos, e POIL DE CAROTTE, de Julien Duvivier, de 1928, França, foram espetaculares. Mas quem perdeu só pode lamentar, já que foram eventos únicos. Já boa parte dos filmes que citei acima poderão ser vistos oportunamente, ainda que leve um tempo para que isso aconteça.

O CINEMA ALEMÃO SE DESTACA NA 32a. MOSTRA

Antonio Carlos Egypto


Na edição de 2008 da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, destacaram-se alguns representantes do cinema alemão, como o belíssimo HANAMI - CEREJEIRAS EM FLOR, da diretora Doris Dörrier, uma sensível história sobre sonho, envelhecimento e morte, tratada com humanismo, com direito a um mergulho em paisagens e expressões artísticas japonesas. Perfeito para um centenário de imigração japonesa no Brasil, esse talentoso filme alemão.

O vencedor do troféu Bandeira Paulista, destinado aos filmes de novos diretores, coube merecidamente a O ESTRANHO EM MIM, de outra diretora alemã, Emily Atef. O tema, tratado com muita competência, é o da depressão pós-parto. É preciso coragem para lidar com o avesso do estereótipo da maternidade, e talento para nos envolver nesse drama. O filme já foi comprado para exibição no Brasil, aliás, o primeiro país a adquiri-lo, segundo a diretora.

Outra grande surpresa foi NUVEM 9, também alemão, de Andreas Dresen. Trata-se de um triângulo amoroso - e sexual - na velhice. Protagonistas da faixa dos 70 a 80 anos são mostrados vivenciando desejos intensamente, o que inclui cenas de nudez e sexo, que contrariam os padrões estabelecidos de mostrar corpos jovens e sarados nos filmes. A densidade dos sentimentos é também mostrada, com sutileza.

Além disso, ainda alemão, o novo filme de Wim Wenders, PALERMO SHOOTING, é bonito, original, com uma forma cativante e surpreendente, além de revelar as belezas da cidade de Palermo a quem não a conhece, como é o meu caso.

O representante do Cazaquistão, TULPAN, de Sergey Dvortsevoy, nos remete a um universo rural onde as mulheres são mais raras do que as ovelhas. O que fazer quando a única pretendente possível não quer saber do nosso personagem, porque ele tem orelhas grandes demais? Já o representante do Sri Lanka, MACHAN, nos põe em contato com a inexistente seleção de handebol do país, que terá que se apresentar num torneio na Bavária. São filmes que encantam, pela simplicidade e pela diversidade que nos trazem. E também são co-produções alemãs.

É justo, portanto, chamar a atenção para o cinema que está sendo produzido pela Alemanha na atualidade. A amostra que chegou em São Paulo em outubro foi saborosa.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Ainda há tempo

Tatiana Babadobulos

Quem não aproveitou a 32ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, pode aproveitar a repescagem neste final de semana. Confira a programação:
31/10, sexta
“A Hora do Lobo” (“Vargtimmen”), de Ingmar Bergman. Cinemateca, 21h
“Absurdistan”, de Veit Helmer. Cinesesc, 16h
“Aquele Querido Mês de Agosto”, de Miguel Gomes. Cine Bombril, 18h
“As Lágrimas de Minha Mãe - Berlim-Buenos Aires” (“Die Tränen Meiner Mutter”), de Alejandro Cardenas Amelio. Cine Bombril, 14h
“Bode Rei, Cabra Rainha” + Curtas. Cine Bombril, 15h50
“Che”, de Steven Soderbergh. Cinesesc, 18h10
“Crise” (“Kris”), de Ingmar Bergman. Cinemateca, 14h
“Il Divo”, de Paolo Sorrentino. Cine Bombril, 22h30
“Maldeamores”, de Carlitos Ruiz Ruiz e Mariem Perez Riera. Cine Bombril, 20h50
“Música na Noite” (“Musik I Mörker”), de Ingmar Bergman. Cinemateca, 19h10
“Prisão” (“Fängelse”), de Ingmar Bergman. Cinemateca, 15h50
“Sede de Paixões” (“Törst”), de Ingmar Bergman. Cinemateca, 17h30
“Trato é Trato” (“A Deal is a Deal”), de Jonathan Gershfield. Cinesesc, 14h
01/11, sábado
“Conhecendo Andrei Tarkovsky” (“Meeting Andrei Tarkovsky”), de Dmitry Trakovsky. Cinemateca, 14h
“El Regalo de la Pachamama”, de Toshifumi Matsushita. Cinesesc, 20h
“Estranhos” (“Strangers”), de Erez Tadmor e Guy Nattiv. Cine Bombril, 14h
“Fanny e Alexander” (“Fanny Och Alexander”), de Ingmar Bergman. Cinemateca, 19h40
“Formidável” (“Formidable”), de Dominique Standaert. Cine Bombril, 15h40
“Fuera de Carta”, de Nacho Velilla. Cinemateca, 14h
“Fumando Espero”, de Adriana Dutra. Cinesesc, 18h
“Gomorra” (“Gomorrah”), de Matteo Garrone. Cine Bombril, 19h
“Jodhaa Akbar”, de Ashutosh Gowariker. Cinesesc, 22h
“KFZ-1348”, de Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso. Cinemateca, 16h10
“La Boheme”, de Robert Dornhelm. Cinesesc, 15h50
“Loki - Arnaldo Baptista”, de Paulo Henrique Fontenelle. Cine Bombril, 21h30
“Machan”, de Uberto Pasolini. Cinemateca, 21h10
“Mais Sapatos” (“More Shoes”), de Lee Kazimir. Cine Bombril, 17h30
“Mais Tarde Você Entenderá” (“Plus Tard Tu Comprendras”), de Amos Gitai. Cinesesc, 14h
“No Limiar da Vida” (“Nära Livet”), de Ingmar Bergman. Cinemateca, 15h50
“Of All The Things”, de Jody Lambert. Cinemateca, 17h50
“Quando as Mulheres Esperam” (“Kvinnors Väntan”), de Ingmar Bergman. Cinemateca, 17h30
“Só Dez Por Cento É Mentira”, de Pedro Cezar. Cinemateca, 19h30
“Titãs, A Vida Até Parece Uma Festa”, de Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves. Cine Bombril, 23h50
02/11, domingo
“Cinzas do Passado Redux” (“Dongxie Xidu”), de Wong Kar Wai. Cinesesc, 21h30
“Crianças da Pira” (“Children Of The Pyre”), de Rajesh S. Jala. Cinemateca, 17h50
“Formidável” (“Formidable”), de Dominique Standaert. Cinemateca, 21h20
“Harrison Montgomery”, de Daniel Dávila. Cinemateca, 15h50
“Manda o Diabo Para o Inferno” (“Pray The Devil Back To Hell”), de Gini Reticker. Cinemateca, 15h40
“Meu Winnipeg” (“My Winnipeg”), de Guy Maddin. Cine Bombril, 21h20
“O Amigo” (“Der Freund”), de Micha Lewinsky. Cine Bombril, 14h
“O Estranho em Mim” (“Das Fremde In Mir”), de Emily Atef. Cinemateca, 21h20
“O'Horten”, de Bent Hamer. Cine Bombril, 17h20
“Recurso Intangível Número 82” (“Intangible Asset Number 82”), de Emma Franz. Cinemateca, 14h
“Sidney Poitier: Um Estranho em Hollywood” (“Sidney Poitier: Un Outsider À Hollywood”), de Catherine Arnaud. Cine Bombril, 15h50
“Sneakers - Entrando de Sola na Cultura Urbana” + Curtas. Cine Bombril, 19h10
“Sob Controle” (“Surveillance”), de Jennifer Lynch. Cinesesc, 16h10
“The Bluetooth Virgin”, de Russell Brown. Cinemateca, 14h
“Three Monkeys” (“Üç Maymun”), de Nuri Bilge Ceylan. Cinesesc, 14h
“Tulpan”, de Sergey Dvortsevoy. Cinemateca, 19h20
“Verônica”, de Maurício Farias. Cinesesc, 18h10

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

32ª. MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA

Antonio Carlos Egypto

A Mostra Internacional de Cinema, que chega agora à sua 32ª. edição, é o mais importante evento cinematográfico da cidade de São Paulo e tem revelado a cada ano aos cinéfilos paulistanos novos cineastas de todo o mundo. Ao mesmo tempo, traz retrospectivas de grandes diretores de todos os tempos, filmes históricos, resgate até mesmo do cinema silencioso, (este com acompanhamento musical ao vivo). Daí a expectativa que cada Mostra provoca em todos os que gostam do cinema de qualidade e da diversidade de perspectivas e de linguagem.

Na edição deste ano, há destaques na programação de cineastas conhecidos, como o novo filme dos irmãos Dardenne, “O silêncio de Lorna”, com um clima que já se tornou marca registrada deles. O mais recente filme de Alexandre Sokúrov, “Alexandra”, é original na trama e traz a habilidade de captar imagens de rara beleza e adequação ao tema tratado. Em que pese o fato de que Sokúrov é uma espécie de cineasta ahistórico, de direita, que muitas vezes irrita ao tratar de personagens como Lenin ou Hitler, é um talento respeitável.

Lá também se poderá ver o filme de José Padilha, “Garapa”, que ganha especial interesse por tratar em espaço micro do tema da fome, documentalmente, após o êxito estrondoso de “Tropa de Elite” e do não menos brilhante “Ônibus 174”. Por falar nisso, o filme de Bruno Barreto, “Última Parada, 174”, vai ser exibido na Mostra. A conferir. E tem “Che”, de Steven Soderbergh, e mais 400 filmes que abarcam a cinematografia de 75 países.

A competição de novos diretores é uma excitante exploração pelo que de novo se está fazendo mundo afora e sempre traz surpresas agradáveis e, é claro, decepções também. Mas vale muito garimpar essa seleção.

A não perder são os filmes menos vistos, menos conhecidos, de Ingmar Bergman. Tudo o que ele fez desde seu primeiro filme, “Crise”, tem grande interesse agora que, definitivamente, ele se foi. Um mestre como ele não tem substituto, nem nunca terá. E que tal conhecer ou revisitar a obra do cineasta Kihachi Okamoto, que tem sua retrospectiva na 32ª. Mostra?

E quem não viu, na 9ª. Mostra, “Berlin Alexanderplatz”, de Rainer Werner Fassbinder, com suas 15 horas de duração, se puder vê-lo agora, em cópia de 35 mm, vai se fartar de amor ao cinema. É papa fina, mesmo.

Ainda tem o show de encerramento, com Maria de Medeiros, muitos convidados importantes, entre eles, Wim Wenders e Pablo Trapero. O cartaz é de Tomie Ohtake. Como se vê, tem muito a oferecer esta nova edição da Mostra Internacional de Cinema, que Leon Cakoff e Renata de Almeida organizaram uma vez mais. É hora de usufruir desse banho de cultura cinematográfica anual.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

"Blindness"

"Blindness" ("Ensaio Sobre a Cegueira"), e a máscara cai.

Roseli Costa

Filme de Fernando Meirelles, baseado na obra de José Saramago

Mais claro que isso, impossível. O filme nada tem a ver com cegueira física e muito menos retrata o deficiente visual como depravado. Depravados somos nós, que enxergamos e vivemos em completa falta de luz por pura hipocrisia. Este é o filme. Fala sobre o egocentrismo e a degeneração humana provocada por nós em prol de puro narcisismo.

Sempre fui apaixonada por cinema e sou eclética, nada de títulos, patamares, escolas ou outros rótulos, gosto do que gosto. E para os que me conhecem, quando gosto, me apaixono. Uma vez na escuridão das salas de cinema, deixo-me levar pela história e não me permito ser influenciada antecipadamente por opiniões, porque de toda a obra sempre escapa um olhar que pode ser uma verdade. Afinal, Nietzsche já dizia que a verdade não é nada além de um ponto de vista.

Como sempre faço, completamente desarmada de argumentos, sinopses e bagagem histórica fui ao cinema para verificar o filme de Fernando Meirelles, baseado na obra do Nobel José Saramago, “Blindness”, Ensaio sobre a Cegueira. Me fisgou. É um dos filmes mais profundos que já senti. Digo senti, porque tive que vendar todos os meus olhos, físicos e alma, para tentar mergulhar na história, desta vez não como espectadora, mas como ser vivo que procura algo em meio à obscuridade que momentaneamente envolve o planeta. No trocadilho, pela minha visão, pude olhar a obra e o ser sem pudor, subterfúgios, conceitos e outros artifícios que insistentemente utilizamos para explicar nossas atitudes. Essa produção que fala da degeneração humana, da insaciedade humana com relação a vida, a conquistas, a futuro e a desejos.

Em meio a tanta hipocrisia, eu, apenas mais uma na multidão, pude conceber quão imperfeitos todos somos e seremos, porque simplesmente, a perfeição, mesmo que exista, não tem valor.

O quão fúteis e descartáveis são nossos super valorizados preceitos e sem falar no julgamento que é totalmente desprovido de qualquer tentativa de analisar, mas sim, totalmente munido da intenção objetiva de denegrir e piorar o outro diante de nós.

O narcisismo, disfarçado em cada um de nós pelas roupas, títulos, posições, bens e outros tantos alienados conceitos atrelados às nossas vidas em uma tentativa estúpida de encobrir o instinto de sobrevivência que nos move.

“Ensaio sobre a cegueira” mostra pelo excesso de luz o quão somos mais cegos do que os que nasceram sob ou adquiriram uma deficiência visual.

Ditados
antigos que ouvimos desde crianças como “O pior cego é aquele que não quer ver” ou “Em terra de cego quem tem um olho é rei” são retratados no filme de maneira inversa. O primeiro no personagem que é o único cego de nascença que vive no confinamento. Ele se adapta em um mundo onde ele tem que sobreviver sozinho e em constante vantagem. Ele não percebe que a única maneira de sobrevivência entre os seres é a convivência desinteressada e que não há luz para quem caminha sozinho.

O segundo, o velho que já perdera um olho e mesmo com a cegueira momentânea, foi sábio e impediu o movimento de medo gerado pela morte do “rei” de outra ala que propunha entregar aos lobos, a única mulher que enxerga e que por sobrevivência tira a vida do “rei”. Sobrevivência? Ou ego, vaidade, por se sentir massacrada e impotente por um macho que se intitulou dono das alas. Ou apenas por se engrandecer perante a condição de única com visão onde todos dependem dela o que a coloca em um patamar de superioridade.

O filme de Meirelles é uma análise de quanto de degeneração podemos agüentar em prol de sobrevivência e o quanto nos despojamos de integridade, orgulho, vaidade, delicadeza e conceitos quando somos submetidos a provações e desordens que nos tiram do nível de segurança. Como vítimas desta cegueira branca e fictícia se transformam em figuras inseguras e vulneráveis e terminam por seguir qualquer um que lhes estenda uma mão guia, forte, que tome decisões em seus lugares. É a fraqueza humana que retira o ser do seu papel principal e o transforma em figurante, com ou sem fala, submetido à vontade alheia, isento de responsabilidade de qualquer coisa que aconteça em meio a velocidade e proporção que transcendam as modificações.

Fernando Meirelles me emociona em um momento de mudanças cinematográficas no mundo e principalmente no Brasil onde a maturidade e a confiança começam a despontar. Mas ao mesmo tempo, me choca. Pois, a verdade implícita em seu filme é conhecida por todos nós e ainda não consegui vislumbrar, além de discursos bem intencionados, o menor movimento em prol da recuperação do equilíbrio humano rumo ao desenvolvimento.

Como nada é perdido e a luz sempre volta com menos brilho e mais claridade no final, onde alguns, após alguma provação, já começam a imaginar o que poderia ser modificado em nossos intocáveis conceitos. “Ensaio sobre a cegueira” banaliza de vez o velho discurso sobre a ética que na verdade só é respeitada até a página nove que é da nossa temperança; passou daí, afogam-se estes velhos conceitos e entra a lei do mais forte, da sobrevivência, do interesse.

O filme de Meirelles nos coloca em nosso lugar, como um velho quadro na parede, cuja moldura é o antagonismo, ou seja, a necessidade de ser o oposto, contraditório e contraposto de tudo o que nos é apresentado ou oferecido como verdade. O ego não permite a complacência e a abstenção de uma discussão, pois é necessário lutar, nem que seja por banalidades. Essa luta e que nos impulsiona a querer transpor o limite imaginário que nos colocamos a todo o momento na intenção de nos presentearmos com uma magnitude de algo que nos valorize.

A cegueira branca, no final, dá lugar à luz. E a visão da única personagem, dá lugar a impotência gerada pela retirada do santuário a que ela fora colocada. De mera coadjuvante sem grandes atrativos intelectuais ou profissionais, a personagem interpretada com maestria por Juliane Moore, passa a ser arrimo de um grupo completamente diversificado e aleatório com pessoas de todos os níveis, raças e complexidades.

Ela é a maioria de nós, pois não seguimos nossas vidas pautadas nos sonhos e conquistas por diversas razões, e para não nos sentirmos mutilados, nos transformamos em soldados que lutam batalhas alheias apenas para satisfazer o ego.

Este filme me fez lembrar de uma cena em um outro produzido pelo México e Estados Unidos onde um cego pede a uma moça que descreva como está o dia em New York. E ela começa a falar que é aquele é um dia comum na cidade, muitas nuvens, pessoas caminhando rapidamente, uma árvore que começa a florir e ele pergunta a cor das flores e fica admirado com as respostas que para ela não passavam de banais pois o dia era banal, mas para ele era um prêmio e ainda completa com um sorriso e a frase:..puxa, eu adoraria ver isso.

A nossa cegueira é medo que não nos permite ver e valorizar o belo, o comum e o simples, assim como, nos afasta de pequenas batalhas, que apesar de verdadeiras, nos retiraria de tantas ostentações. Quando uma obra cinematográfica é capaz de mudar conceitos, a arte se fez. E em seu papel principal.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

CARLOS REYGADAS, LUZ SILENCIOSA E O CINEMA CONTEMPORÂNEO

Antonio Carlos Egypto













Luz Silenciosa (Stellet Licht), México, França, Holanda, 2007. Direção: Carlos Reygadas. Com: Cornelio Wall Fehr, Miriam Toews e Maria Pankratz. 127 min.

"Luz Silenciosa", o filme do mexicano Carlos Reygadas, é um belo exemplar do que poderíamos chamar de cinema contemplativo. Os primeiros minutos, assim como o tempo final, equivalem a assistir ao pôr do sol, ao anoitecer e ao raiar do dia serenamente no campo. Com o domínio do tempo, que só o cinema pode fazer, pelos recursos de montagem e decupagem, o deslumbramento das imagens toma conta da tela grande e arrebata. Pelo menos, aqueles que não se deixaram viciar pelos ritmos frenéticos hollywoodianos.

Os tempos de "Luz Silenciosa" e sua estrutura narrativa remetem ao clássico dinamarquês de Carl Dreyer, "A Palavra", de 1955. Este filme, assim como a obra de Dreyer como um todo, foi fonte de inspiração para Ingmar Bergman, o maior cineasta sueco de todos os tempos.

"Gritos e Sussurros", de 1972, uma verdadeira obra-prima de Bergman, também dialoga com "A Palavra" e está fortemente presente em "Luz Silenciosa". Reygadas bebeu dessas fontes, procurando refazer o caminho antes trilhado por eles, não em busca de parodiá-los, mas enquanto exercício de estilo, metalingüístico, que pode ser chamado de imitativo, de tão colado que está nessas referências do cinema moderno, que são Dreyer e, sobretudo, Bergman. Por isso mesmo, rigorosamente alinhado ao cinema contemporâneo. O caráter imitativo presente no cinema contemporâneo não é mero plágio, ou repetição. É muitas vezes citação do que merece ser lembrado ou rediscutido, mas também o que merece ser reconstruído, seja enquanto reflexão, seja enquanto linguagem cinematográfica. Ou, ainda, como refacção de outras manifestações artísticas, como a pintura ou o teatro.

Os valores e estilos de vida praticados pelos protestantes, seus conflitos com a realidade e entre eles próprios, são tão caros à visão religiosa de Dreyer quanto ao questionamento de Deus e das religiões de Bergman. Para penetrar neste mundo mais convincentemente nos dias atuais, Reygadas recorreu a uma comunidade protestante, isolada dos valores contemporâneos: os menonitas. Vivendo num mundo à parte, que rejeita o progresso e professa um pacifismo radical, eles estão muito próximos das vivências e conflitos das comunidades focalizadas por Dreyer e das experiências e observações que preencheram a infância de Bergman.

Verdades rígidas em oposição a paixões que escapam ao controle e modificam as pessoas, trazendo sofrimento, mas também avanços, fazem parte da estrutura narrativa da obra, tanto de Reygadas, como dessas grandes referências que ele buscou. A cena da morta que volta à vida é emblemática e entrelaça os três diretores, com sentidos distintos, porém, similares: é uma questão transcendental, de algum modo “espiritual”, que ali está colocada.

É do significado da morte, da relação que estabelecemos com os mortos e do que muda com a partida deles, que se trata. E, ainda, do que aconteceria se houvesse o retorno. A refacção por Reygadas da mesma cena do “milagre” de Dreyer, que inspirou Bergman a realizar uma das cenas mais fortes e tocantes sobre a dor e a incapacidade de viver afetos profundos, mesmo após a morte, é uma referência lingüística que ultrapassa o seu significado.

É o cinema reverenciando o que o cinema já produziu de melhor, mostrando que ser contemporâneo não significa, necessariamente, se opor às tradições, mas comporta até mesmo cultuá-las, a partir das próprias experiências subjetivas (no caso, as de cinéfilo), na busca de um sentido universal, único. Em última análise, em busca do essencial.

Reygadas, ao realizar um filme tão contemplativo, também questiona o cinema frenético e acelerado que se tornou hegemônico, procurando levar o espectador a recuperar uma possível dimensão esquecida, ou pouco experimentada na atualidade.

Não por acaso, o mexicano Carlos Reygadas faz parte da lista dos sessenta cineastas contemporâneos, destacados pelo Cinema Now. Ele, sem dúvida, tem grandes méritos para figurar nesta lista dos cineastas, nascidos após 1950, que realizam um trabalho de peso para a história do cinema contemporâneo, que agora se constrói. Certamente ele faz parte deste cinema que se refaz e se recicla na contemporaneidade. São filmes que aspiram a ser mais do que um simples filme, ou seja, que querem ir além do contar histórias, mesmo que de forma não linear ou em ordem inversa.

Os recursos que o cinema tem hoje permitem muito mais experimentação, relacionamento com outras formas de arte, busca de significados, idéias-força, questionamentos e renovação da sua linguagem. Cada filme contemporâneo poderia ser o germe de uma dessas buscas, ressignificando o próprio cinema, em especial num momento em que a tecnologia digital democratiza o acesso de todos à sua linguagem.

"Luz Silenciosa" é um trabalho artístico respeitável de um cineasta que não chega a alcançar o talento de seus grandes inspiradores. Mas não é pouco oferecer um belo filme contemplativo com base em referências como Dreyer, Bergman (e, também, Tarkovsky), aos cinéfilos da atualidade.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Críticos - Neusa Barbosa

Tatiana Babadobulos

A jornalista, crítica e pesquisadora paulistana Neusa Barbosa, que trabalhou no jornal "Folha de S. Paulo" e na revista "Veja S. Paulo". Atualmente, ela edita o site "Cineweb" (www.cineweb.com.br), especializado em cinema, e colabora com as revistas "Bravo" e "Wish Report".

Especialista em crítica de cinema, a jornalista também costuma participar da cobertura de festivais internacionais, como Cannes e Veneza, e nacionais, como Brasília, Recife e Gramado. Além disso, dedica-se a cursos sobre cinema. Seus livros publicados são: "Gente de Cinema – Woody Allen" (Editora Papagaio, 2002), "John Herbert – Um Gentleman no Palco e na Vida" (Imprensa Oficial SP, 2004), "Rodolfo Nanni – Um Realizador Persistente" (Imprensa Oficial SP, 2004) e "Críticas de Luiz Geraldo de Miranda Leão: Analisando Cinema" (Imprensa Oficial SP, 2006).

Em sua opinião, qual deve ser a formação de um crítico de cinema?
Acredito que um crítico deva ter uma formação universitária e, de preferência, o jornalismo. Entendo que seja válido um outro tipo de reflexão sobre o cinema dentro da universidade, mas, em minha opinião, ela obedece a outros moldes. Acho fundamental que o crítico seja também um jornalista, não um teórico, porque isso pertence a uma esfera diferente (no caso, a universidade ou a docência).

Fora a formação universitária, propriamente dita, o crítico deve certamente acumular uma cultura bem ampla. Não só ver muitos filmes, mas também conhecer profundamente a história do cinema, ler muito, freqüentar exposições de arte, ir ao teatro, assistir a espetáculos de dança. Quanto mais o crítico de cinema tiver uma visão multidirecional, tanto melhor ele vai exercer o seu trabalho – até porque o intercâmbio entre as artes, que sempre existiu, está cada vez maior.

Acho muito importante também que o crítico de cinema seja informado em áreas diferentes, como história, sociologia, psicanálise, filosofia, política etc. Tudo vem somar. Um crítico centrado somente no conhecimento do cinema pode vir a bitolar-se em algum momento. Ou perder de vista novas interpretações do mundo que o ajudarão a exercer melhor seu próprio trabalho.

Qual é a função da crítica cinematográfica?
A crítica é o espaço da reflexão sobre a obra de arte, não meramente um indicador de estrelinhas, como muitas vezes acontece nos meios de comunicação (e não só no Brasil, é bom lembrar). Por “reflexão”, entendo uma interpretação, uma tentativa de ler as idéias, os sentimentos, as intenções, as contribuições que um determinado filme traga à sociedade, naquele momento em que está sendo feito. Fora isso, uma avaliação estética de como ele foi feito é sempre essencial.

Um crítico tem de ter um razoável conhecimento técnico (de roteiro, fotografia, montagem) para poder fazer isso. Acredito que a função crítica cinematográfica também seja uma forma de intercâmbio de idéias com o leitor. Uma visão possível, entre muitas. Não acredito em ditar o que o leitor deve assistir, deve gostar, embora recomendações sejam cabíveis, é claro.

A internet, especialmente, vem se mostrando um bom campo para essa troca. Se bem que ela ainda pode ser mais cordial, mais inteligente, mais fértil, mais produtiva. Muita gente usa a internet para expressar sua raiva, o que é válido, desde que fique dentro dos limites da boa educação. Podemos discordar, até radicalmente, diante de um filme, sem nos ofendermos mutuamente. Um mínimo de civilidade e respeito é preciso.

Quais os critérios que o crítico deve adotar ao exercer a sua profissão?
Ao exercer a profissão, o crítico deve ser atento, informado, conhecer a história do cinema, inclusive do nacional, ver todos os filmes. Esses são os pré-requisitos mínimos. Para se tornar profissional, o gosto do crítico fica em segundo plano. É preciso também despir-se de preconceitos, de idéias pré-concebidas sobre cineastas, atores, gêneros. Não raro somos surpreendidos por mudanças radicais dentro das carreiras das pessoas, para o bem ou para o mal. É preciso também manter os olhos abertos para o novo, sem nos viciarmos em uma espécie de ansiedade, que é muito comum ao crítico, que espera sempre a nova revolução que mudará o cinema a cada filme. Para concluir, o crítico nunca, nunca deve perder a paixão pelo cinema. Se isto acontecer por algum motivo, é melhor mudar de ramo. Parece óbvio dizer isto, mas não é.

O que é cinema?
Cinema é uma arte, um olhar múltiplo para a realidade, um sonho acordado, um caminho de ida e volta entre o imaginário e a razão do cineasta, dos atores e do público. É um ritual de exposição, de comunicação, de troca de emoções. Senão, não é nada.

Qual é a sua opinião a respeito do cinema nacional e suas sugestões para a produção brasileira?
O cinema nacional é muito rico, competente, sensível, diversificado. Somos capazes de uma produção em quantidade e qualidade altamente respeitáveis. Não temos nenhum motivo para ter complexo de inferioridade, muito menos de ficarmos preocupados demais com essa “falta de um Oscar”. Isto é bobagem. No entanto, o cinema nacional precisa ainda preocupar-se mais na formação de seu próprio público de amanhã. Ou seja: fazer mais e melhores filmes infantis, infanto-juvenis e juvenis. É preciso conquistar esse público, que fica muitas vezes cativo de grandes produções internacionais – que são altamente competentes, talvez, mas podemos ganhar uma parte do mercado deles. Para isso, é só encontrar a nossa originalidade, não copiar modelos que funcionam lá fora, em um esquema de produção completamente diferente.

Sobre o que você falou da prática de crítica na internet, o que você poderia acrescentar a respeito da interatividade? Os leitores participam das suas opiniões, costumam expressar os seus sentimentos a respeito daquilo que você escreveu, por exemplo? Tente oferecer alguns exemplos.
Os leitores (de internet, principalmente) sempre querem manifestar seus sentimentos e opiniões – em geral, quando são diferentes da opinião do crítico (e textos na internet favorecem a interatividade). Acho que a reação mais forte de que me lembro foi contra a crítica do filme "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson. Fui bem veemente contra a produção, que considero péssima e manipuladora, desonesta mesmo. Um leitor, certamente ultra-religioso, mandou mensagens me detonando e perguntando se eu tinha lido a Bíblia. O que não vem ao caso. Eu até tenho formação católica, estudei emcolégio de freiras, mas nada disso importa. Eu fiz uma crítica do filme, não da fé. O leitor não entendeu isso. Há pessoas que escrevem também para elogiar uma determinada crítica, manifestar que descobriram um filme por conta de alguma coisa que a gente escreveu. Isso é bem agradável.

Quais são as suas preferências estéticas?
Não sei se tenho preferências estéticas tão rígidas. De escolas de cinema, certamente não. Meus diretores favoritos são muitos: Orson Welles, David Lynch, Stanley Kubrick, Paul Thomas Anderson, Federico Fellini, Emanuele Crialese, Robert Altman, Ken Loach, Billy Wilder, Wim Wenders, Jean Renoir. Dos brasileiros, Walter Salles, Beto Brant, Karim Ainouz, Tata Amaral, Ana Carolina. Estou esquecendo muitos...

Entre as suas preferências estéticas, você mencionou alguns cineastas brasileiros e estrangeiros. No entanto, não citou Woody Allen, um cineasta sobre quem você já escreveu um livro. Embora uma coisa não tenha nada a ver com a outra, eu me lembro que, ao final da exibição de "Ponto Final - Match Point", durante uma cabine destinada a jornalistas, você comentou que já o tinha visto em Cannes e que gostava muito do filme. Lembro até que você falou assim: “É um mestre, né?”. De alguma maneira, ele entraria em sua seleção de melhores diretores?
Listas são injustas porque sempre deixamos de fora alguns nomes essenciais. Woody Allen sempre entra na minha lista dos dez mais, até porque ele é um dos mestres da comédia, autor de algumas das tramas mais originais (aí, não só as cômicas) e de vários dos melhores diálogos da história do cinema. Ele é um mestre (conforme comentário feito após a sessão do filme) e "Ponto Final - Match Point" é uma das provas disso.

No entanto, ele não entrou na lista, como assim ficaram de fora outros dos meus mestres, que aproveito para acrescentar agora: Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Jia Zhang-Ke, Hirokazu Koreeda, Denys Arcand, Jane Campion, Ang Lee e, dos brasileiros, não podem faltar João Moreira Salles e Eduardo Coutinho, dois mestres do documentário mundial (Santiago e Jogo de Cena estão entre os melhores filmes de todos os tempos neste gênero) e, claro, Glauber Rocha. Como esquecer Charles Chaplin? Não dá.

O que você pensa sobre escolas de cinema? Um bom cineasta precisa ter freqüentado a escola?
Em geral, um bom cineasta precisa ter freqüentado a escola. Acho que ela, pra qualquer profissão, dá um mínimo de ferramentas, inclusive um pouco de cultura geral. Sem contar a convivência com um grupo que gosta das mesmas coisas. Esse intercâmbio é fundamental. Até porque o contrário seria um diretor genial, que nascesse pronto magicamente. De maneira geral, isso não existe.

Qual é o papel da imprensa/mídia especializada em cinema?
A mídia especializada em cinema deve oferecer textos inteligentes, bem-escritos, bem-fundamentados, que levem à descoberta dos filmes, que incitem os cineastas a pensar em coisas que não pensaram quando fizeram os filmes, contribuindo, assim, para o aperfeiçoamento da atividade cinematográfica como um todo. Uma coisa que muita gente não lembra é que os críticos vêem muitos filmes, e por isso têm muita bagagem para comparações. Alguns cineastas não podem dizer o mesmo, pois eles mesmos não conhecem tanto os filmes dos colegas como deveriam. Em geral, os bons cineastas são também cinéfilos.

Qual, na sua opinião, deve ser o papel do Estado na atividade cinematográfica?
O Estado deve estimular a produção cinematográfica de todas as maneiras, diretamente, indiretamente, por todos os mecanismos que forem viáveis. Também deve contribuir para a distribuição e exibição, dois pontos críticos no caso do cinema brasileiro. Muito se produz no Brasil, mas os filmes não chegam a todos os espectadores potenciais. Seria preciso haver mais salas populares no Brasil. Só o Estado pode estimular isso, já que as grandes redes internacionais não querem saber disso.

Você poderia selecionar os melhores momentos de filmes e de diretores? Dê alguns exemplos.
No quesito melhores momentos de filmes e de diretores seria outra lista interminável, mas cito alguns poucos: a chuva de sapos de "Magnólia", de Paul Thomas Anderson; a conversa do filho com a mãe “no céu” de "Édipo Arrasado", de Woody Allen, parte de "Contos de Nova York"; a seqüência em que o ator desce na tela em "A Rosa Púrpura do Cairo", também de Woody Allen; as seqüências em que os anjos descem sobre a Berlim dividida sobre o muro no início de "Asas do Desejo", de Wim Wenders; a fala final de "Quanto Mais Quente, Melhor", de Billy Wilder; a dança dos pãezinhos na mesa de "A Corrida do Ouro", de Charles Chaplin.

De acordo com a história do cinema, o que se pode esperar do futuro do cinema nacional e mundial?
Não dá para prever o futuro do cinema mas, tanto para o cinema nacional como internacional, é fato que a revolução tecnológica, como sempre, desde o começo da história do cinema, está produzindo uma grande renovação. Se as pessoas, como parece, vão assistir a filmes em mídias móveis, como palms e celulares, com certeza isto afetará sua estética. Os cineastas vão ter de mudar completamente seu modo de trabalhar. As câmeras digitais já estão propiciando muitas mudanças, especialmente por sua agilidade e redução de custos. Falta agora os cineastas se ligarem num fato: nem tudo é estética. Tem de haver uma boa história para contar e contá-la de maneira original. É a velha história da câmera na mão e da idéia (aliás, muitas idéias) na cabeça.

Qual é, na sua opinião, o papel do circuito de cinema? E das produções alternativas?
As mídias digitais vieram para ficar, não tenho dúvida disto. E, com elas, a pirataria, infelizmente, também ficou mais fácil. De um lado, sou realista – acho que não há como evitar algum nível de pirataria. Mas ela pode ser reduzida se as empresas produtoras e distribuidoras criarem mecanismos mais eficientes para download pago (a preço bem acessível), legal e controlado em seus sites, por exemplo. Sem contar medidas mais duras contra os piratas. Isto cabe a governos e à polícia. O “circuito de cinema” é a produção que sustenta a própria idéia do cinema como indústria. Isso existe desde sempre e é um tremendo desafio. Criar produções que falem com todos os públicos e de todos os países é uma ambição imensa e cara. Depende de uniformização das informações e do gosto, o que Hollywood tem feito com muita agressividade, usando inclusive mecanismos políticos do governo americano para impor o seu “padrão de qualidade”.

O domínio mundial de Hollywood cria algumas distorções – em prejuízo dos filmes locais. Alguns países se dão melhor nesse enfrentamento, criando leis locais de proteção (França, Coréia, Índia). Mas não é fácil. O Brasil ainda não encontrou um modelo para essa grande produção comercial fora das novelas – esse sim, nosso grande produtor de entretenimento comercial que deu muito certo e é, inclusive, exportado. Acho que o nosso cinema não pode viver disso, pois o modelo televisivo é empobrecedor. Precisamos, no entanto, criar novos modelos de comunicação com o público, comédias (não deu certo com a Atlântida nos anos 1940?), musicais e filmes infanto-juvenis – é preciso criar platéias para o cinema nacional desde pequenas...

As “produções alternativas” são aquelas de menor porte – mas não necessariamente de menor criatividade –, que rompem o cerco da indústria dominante (sempre é Hollywood, exceto em países que conseguiram dominar seu mercado interno, caso da Índia). Elas são fundamentais até para oxigenar o mercado, que se enche rapidamente de filmes que procuram imitar o padrão que fez sucesso algum dia, o que fatalmente leva a uma estagnação. Pode-se ver que Hollywood está sempre comprando os direitos para refilmar alguns sucessos, especialmente franceses. Há uma desesperada busca de novas idéias no grande mercado competitivo mundial.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Ensaio Sobre a Cegueira

Tatiana Babadobulos

"Ensaio Sobre a Cegueira", livro escrito pelo português José Saramago, traz uma história comovente e ao mesmo tempo incômoda, pois trata-se de uma epidemia de uma cegueira que atingiu uma cidade inteira. Ao decorrer dos dias, conforme as pessoas vão "pegando", é possível conhecer as reações humanas. Para o cinema, o diretor Fernando Meirelles aceitou a empreitada de filmar a história que, na versão original (em inglês, já que é a origem dos produtores), chama-se "Blindness".
No início, em uma movimentada metrópole, um homem (Yoshino Kimura) está dirigindo e, de repente, não consegue avançar o semáforo porque ficou cego, de uma cegueira branca, leitosa. Quando consegue chegar em casa, vai com a esposa ao médico, que afirma não ter nada. Daí em diante, muitas pessoas passam a não ver e seguem para um local determinado pelo governo, onde ficarão em quarentena.
E é a partir daí que começa a segunda parte da trama, ainda mais incômoda, com imagens densas que desafiam a dignidade do ser humano, quando os obriga, cegos, a viverem com outras pessoas também cegas, que nunca conheceram na vida. E eles sofrem com a falta de comida e de medicamento, andam nus pelos corredores (afinal, apenas o espectador e um personagem podem ver - a Mulher do Médico, vivida por Julianne Moore). Ainda assim, ela não conta aos demais (exceto ao marido, personagem de Mark Ruffalo), que pode enxergar. Assim como no livro, os personagens não têm nomes.
Com roteiro escrito pelo canadense Don McKellar, o longa-metragem mostra em detalhes o sofrimento das pessoas, situa o espectador no local onde eles ficam "internados", principalmente por conta da sujeira proveniente das fezes, da urina, além dos corpos daqueles que morrem que vão ficando pelo chão, e da violência dos estupros, em cenas fortes, mas que não chocam o espectador pois apenas induz. Essa seqüência, aliás, conforme disse Meirelles em entrevista, foi cortada após os "screening tests", mas poderá ser vista no DVD.
Com fotografia de César Charlone, o mesmo que acompanhou Meirelles em "Cidade de Deus", o espectador quase pode ver tal como o personagem, já que o excesso de branco e a falta de foco dão essa impressão. Como foi filmado em diversas cidades, o filme não conta ao espectador onde a narrativa se passa, mas as imagens possuem orientação urbana. No início, as imagens, que lembram videoclipe (uma característica de Meirelles que pode ser conferida tanto em "Cidade de Deus" como em "O Jardineiro Fiel"), mostram o caos no trânsito, o barulho nas ruas. No entanto, é possível identificar que as cenas externas são filmadas em São Paulo. É fácil reconhecer a Avenida Paulista, a Ponte Estaiada antes de ficar pronta, a Marginal do Pinheiros, mas ao mesmo tempo agride o espectador porque as placas dos carros são maquiadas e a viatura da "Police" possui chapa de três letras e quatro números (exatamente como as brasileiras).
Ao mesmo tempo em que os personagens são estranhos, pelo fato de estarem sendo testados, o espectador consegue eleger um para o qual torcer. E boas interpretações, aliás, não faltam. Nisso, há de se dar todo o mérito a Meirelles, que pecou na direção de arte (que mostra, por exemplo, televisores antigos e carros modernos), mas deu um banho em fotografia e direção de atores.
No elenco, também está Alice Braga, que trabalhou com Meirelles em "Cidade de Deus" e interpreta a Mulher dos Óculos Escuros. Um dos destaques, porém, é o personagem Rei da Ala 3, interpretado por Gael García Bernal. Isso porque ele é apresentado como Barman do hotel, mas depois, quando vai para a quarentena, passa a controlar a comida e a exigir jóias e mulheres em troca. Um dos momentos engraçados é quando ele pinta as unhas e imita Steve Wonder cantando "I just call to say I love you".
Além de São Paulo, o longa foi filmado no Canadá (em uma prisão desativada) e nas ruas de Montevidéu, no Uruguai.
Sobre o cineasta
Fernando Meirelles começou no cinema comercial em 1999, quando dirigiu ao lado de Fabrízia Pinto, "Menino Maluquinho 2 - A Aventura". Nesta época, o cinema brasileiro vivia o ciclo da Retomada, iniciado em 1993. O primeiro filme que marca esta época é "Carlota Joaquina", dirigido por Carla Camurati. O diretor nasceu em São Paulo, no dia 11 de setembro de 1955. Sua infância foi dividida entre sua casa, que ficava próxima ao que hoje é a Praça Pan-Americana, no Alto de Pinheiros, e o interior, onde moravam os seus avós. Terceiro filho de quatro ao todo, Fernando Meirelles morou um ano nos Estados Unidos, quando tinha 11 anos de idade, pois seu pai foi fazer uma especialização na Universidade da Califórnia, Los Angeles (Ucla). Lá ele aprendeu a falar inglês fluentemente.

Meirelles não se lembra qual foi o primeiro filme a que assistiu, mas se lembra que seu pai filmava com câmera 8 mm e costumava projetá-los na parede. Mas foi aos 13 anos que começou a fazer filmes domésticos em Super-8. Quando começou a freqüentar a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, porém, Meirelles também realizou trabalhos em Super-8, como o "Arquitetura Animada". Seu trabalho de conclusão foi entregue em vídeo, mas lhe valeu apenas a nota mínima para aprovação.

Estudou francês em Paris e em Aix en Provence, na França, e tinha a intenção de estudar Biologia e Oceanografia na Sorbonne, mas desistiu antes mesmo de fazer a matrícula e tratou de voltar para o Brasil após um passeio por outros países. Foi a partir daí que começou a cursar arquitetura na FAU. Embora gostasse da profissão, Fernando Meirelles nunca chegou a trabalhar na área. Na verdade, seu primeiro trabalho remunerado foi para um professor da Universidade que encomendou fotografias para documentação na beira do Rio Paraná. Foi a partir de então que começou a trabalhar por prazer, e a receber por isso. Junto com outros colegas, Paulo Morelli e Dario Vizeu, fundou a Aruanã Filmes. Foi esta produtora que deu forma às animações em 35mm, usando umacâmera da Escola de Comunicações e Arte da USP.

Q sofreu um acidente de moto e ficou seis meses preso à cama e a uma cadeira-de-rodas que Fernando Meirelles leu sem parar clássicos da literatura e terminou a faculdade entregando o trabalho final em vídeo. Na USP, aproveitava para assistir ao filmes que eram projetados ali, principalmente o cinema alemão, além de freqüentar cinemas da cidade, onde desenvolveu seu gosto pela sétima arte e admiração por diretores, como Terrence Malick, Martin Scorsese, Coppola e Robert Altman, além dos clássicos Akira Kurosawa, Satyajit Ray, Ingmar Bergman e Gillo Pontecorvo. Entre os ingleses, Mike Leigh, Ken Loach. Entre os brasileiros, gosta de obras dirigidas por Rogério Sganzerla, Júlio Bressane, Nelson Pereira dos Santos, Sérgio Person, Arnaldo Jabor, Roberto Farias, Hector Babenco, Walter Lima Jr., entre outros.

A partir daí já tinha fundado a produtora independente Olhar Eletrônico ao lado de Paulo Morelli, Marcelo Machado, Dario Vizeu e Beto Salatini, onde começou a produzir vídeos para a TV em uma casa localizada na Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, onde havia uma ilha de edição onde seria a sala. Os quartos no fundo eram usados para eles mesmos dormirem. Tudo foi intuitivo e os rapazes aprenderam sozinhos. Seus primeiros filmes foram "Marly Normal", "Garotos do Subúrbio", "Do Outro Lado da Sua Casa". A partir desses trabalhos eles foram convidados para trabalhar na TV, no programa 23ª Hora, a convite do jornalista Gourlat de Andrade. Fizeram também o programa Antenas e criaram o repórter Ernesto Varela, interpretado por Marcelo Tas, que se incorporou pouco tempo depois. Foi por conta deste repórter que a produtora foi convidada a produzir vídeos para a Abril Vídeo, onde produziram quadros para o programa "Olho Mágico". Outro programa criado para esta empresa foi o Crig-Rá, com assuntos de variedades, destinado a adolescentes. Na seqüência, fizeram programas políticos para o PT, mas não deu certo. Segundo depoimento de Fernando Meirelles à jornalista Maria do Rosário Caetano, para a sua Biografia Prematura, da Coleção Aplauso, "a Olhar Eletrônico foi dando certo não porque fazíamos TV bem feita, mas porque fazíamos diferente". Ele conta que o trabalho não era bem acabado, mas era original.

Antes de fazer sucesso com a série infantil "Rá-Tim-Bum", na TV Cultura, a partir de 1988, a Olhar Eletrônico passou ainda a fazer quadros para a TV Bandeirantes (Vídeo Surf), quadros para o Fantástico, da TV Globo, e para aextinta TV Manchete. Meirelles também dirigiu o "TV Mix" na TV Gazeta, de onde saiu muita gente que foi para a MTV, assim que ela foi implantada no Brasil.

Durante cinco anos seguidos recebeu o prêmio de Melhor Diretor de Publicidade Brasileiro pela revista Meio e Mensagem, além de vários Leões em Cannes, Clio Awards etc. A convite de Roberto Oliveira, Fernando Meirelles deixou os comerciais de lado por um tempo para criar 180 episódios, de meia hora cada um, do infantil "Rá-Tim-Bum".

Com a ida de muita gente embora para tocar outros projetos, a Olhar Eletrônico fechou e em 1990 Fernando Meirelles e o sócio Paulo Morelli criaram a O2 Filmes, no Alto de Pinheiros, em São Paulo. Ao lado de Nando Olival, o cineasta dirigiu os curtas-metragens "Bom Coração", em 1996, e "E no Meio Passa um Trem", em 1998. Como forma de um ensaio para "Cidade de Deus", dirigiu ao lado de Kátia Lund o curta "Palace II", que ganhou, entre os prêmios, o de Melhor Curta-metragem no Melbourne International Film Festival (2002 - Austrália); Best Interncaional Short - Festival de Brasília (2001 - Brasil); 30º Festival Internacional de Cinema do Algarve (Portugal).

Seu primeiro longa-metragem foi "Menino Maluquinho 2 - A Aventura", em1998, com direção ao lado de Fabrízia Alves Pinto, filha de Ziraldo, autor do livro. Em 2001, ao lado de Nando Olival, dirigiu "Domésticas - O Filme", baseado em peça teatral homônima, sobre o universo das empregadas domésticas. Meirelles, então, iniciou outro projeto, embora já estivesse mergulhado no universo de "Cidade de Deus" desde 1998, quando comprou os direitos do livro escrito por Paulo Lins.

Ao lado de Bráulio Mantovani, Meirelles recorreu a elenco não conhecido para formar os atores e atrizes do longa-metragem que o projetaria internacionalmente e conquistaria diversos prêmios, incluindo quatro indicações ao Oscar. Seu penúltimo filme lançado foi "O Jardineiro Fiel", produção internacional, com elenco igualmente estrangeiro, e que se passa em Londres e em cidades do Quênia, na África. Neste ano, foi lançado "Blindness", filme baseado em romance do escritor português José Saramago, "Ensaio Sobre a Cegueira". O longa-metragem começou a ser rodado em julho de 2007 em estúdios do Canadá. De acordo com o blog publicado na internet sobre o filme, Meirelles já havia lido o livro assim que ele foi lançado no Brasil, em 1997 ou 1998. Ele conta, no primeiro post, que tentou comprar os direitos do filme, mas não houve interesse por parte do autor. Foi aí que resolveu se aprofundar em "Cidade de Deus". O convite aconteceu em meados de 2006, quando recebeu um e-mail do produtor canadense Niv Fichman perguntando se conhecia o livro de Saramago. Ao receber o roteiro pelo correio, Meirelles acenou positivamente e recomeçou o trabalho. Para aceitar o convite, Meirelles sugeriu a equipe que confia, César Charlone na fotografia e Daniel Rezende na montagem, além de ser uma co-produção brasileira.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

LINHA DE PASSE

Antonio Carlos Egypto


LINHA DE PASSE.  Brasil, 2008.  Direção: Walter Salles e Daniela Thomas.  Com Sandra Corveloni, Vinicius de Oliveira, Kaique de Jesus Santos, João Baldasserini, José Geraldo Rodrigues.  113 min.

“Linha de passe”, de Walter Salles e Daniela Thomas, é um retrato sem retoques do momento social brasileiro, visto a partir daqueles que têm menos esperanças para alimentar e que, no entanto, encontram meios de sobreviver.

Assim como a maioria das famílias brasileiras, é Cleusa, uma mulher sozinha, quem cuida de sua prole de quatro filhos, cujos pais estão ausentes e não são os mesmos. Ela, empregada doméstica, tem grandes dificuldades de tocar a casa, educar e acompanhar a vida dos filhos. São todos homens e, no entanto, é da presença masculina que ela sente falta, diante da pia entupida que nunca se conserta.

Ela não tem mesmo muita vocação para mãe, mas amplia suas agruras engravidando de novo, de alguém que não aparece na fita. Os outros são pálidas lembranças fotográficas, uma rasgada ao meio, para excluir o gerador do caçula, Reginaldo: aquele que vive perambulando de ônibus, sumindo de casa à procura do pai, ou de um pai.

Os outros filhos de Cleusa são jovens em idade de trabalhar e produzir. Dênis, o mais velho, já pai, é um motoboy e, por meio dele, vivemos tanto as experiências perigosas quanto as transgressoras, que podem fazer parte desse meio, emblemático de uma cidade enorme, agitada e que tem pressa, como São Paulo.

Dinho trabalha num posto de gasolina, mas o que o define como personagem é ser evangélico, um garoto que acolheu Jesus, assim como uma parcela cada vez maior da população brasileira.
O futebol tem sido uma saída para alguns jovens carentes superarem as barreiras da miséria e da falta de perspectivas. Esse é o caminho que vai trilhar Dario, depois de conhecer, e praticar, as safadezas associadas às “peneiras”, que buscam novos talentos para os clubes.

Uma cena pouca trabalhada, mas importante, remete ao mundo das drogas, outra opção para os que estão à margem. “Linha de passe” não se detém nisso, já muito mostrado pelo cinema brasileiro. Como não fixa o seu olhar na favela ou na violência. Tudo está lá, de alguma forma, porque faz parte dessa história. Assim como o outro lado, o das classes média e alta, assaltadas e acuadas.

O que interessa é investigar como viver nessas condições e eventualmente superá-las. O retrato que o filme nos apresenta é muito representativo de uma realidade, detectada por estudos e pesquisas, que se faz humana pela linguagem do cinema. Não há maniqueísmos, nem idealização na composição de nenhum dos personagens, e esse é um dos maiores méritos do filme.

Destaque para o desempenho do elenco, plenamente convincente nos diferentes papéis vividos pelos atores, entre eles, o Dario, de Vinicius de Oliveira, de “Central do Brasil”, o ótimo Reginaldo, do garoto Kaíque de Jesus Santos e, naturalmente, de Sandra Corveloni, que faz Cleusa, merecidamente premiada em Cannes por sua atuação em “Linha de Passe”.