quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

O OSCAR DE PARASITA

                             
Antonio Carlos Egypto


Bong Joon-ho


Assistir à cerimônia de entrega do Oscar nem sempre é uma experiência interessante.  Além dos excessos e cafonices do evento, é comum trazer frustração para quem quer ver reconhecido o que o cinema produz de melhor em todo o mundo. 

Aí começa o problema.  Para o Oscar, existe o cinema falado em língua inglesa, principalmente o dos Estados Unidos, e os filmes estrangeiros, ou seja, o resto do mundo.  Nunca houve real reconhecimento da qualidade e diversidade da produção cinematográfica mundial, na premiação do Oscar.  Já há algum tempo, pode-se constatar que, entre os melhores filmes lançados a cada ano, há uma maioria de filmes que não são falados em inglês. 

Pois bem, parece que, finalmente, o Oscar teve de reconhecer essa realidade.  Em 2020, muita coisa já mudou.  E a festa consagrou o grande filme do ano de 2019, “Parasita”, de Bong Joon-ho, da Coreia do Sul.  A começar pelas indicações, foram 6 para o filme, o que é incomum.  O prêmio, que se chamava melhor filme estrangeiro, mudou para melhor filme internacional.  Isso muda a perspectiva.  “Parasita” foi indicado não só a melhor filme internacional, como a melhor filme, apesar de falado em coreano.  O mais incrível é que venceu nas duas categorias, um atestado de sua superioridade incontestável.  Mais do que isso, venceu na categoria de melhor roteiro original, muito importante no conjunto da premiação.  E, ainda, Bong Joon-ho venceu como melhor diretor, o que é outra grande surpresa e reconhecimento.

O diretor coreano, simpático e comunicativo, quando recebeu o Oscar de roteiro comemorou o primeiro prêmio na história para o cinema da Coreia do Sul e avisou que iria beber para comemorar o dia todo.  Quando recebeu o prêmio de filme internacional, brincou que dobraria a promessa.  Mas ficou pasmo ao ver que venceu também como diretor, e a ninguém menos do que Martin Scorsese, seu mestre inspirador e de quem ele estudou os filmes para se aperfeiçoar.  Manifestou isso, homenageou Scorsese e também os outros concorrentes, Tarantino, Sam Mendes e Todd Phillips.

Ao final do evento, a surpresa maior da escolha de melhor filme coroou a 92ª. edição do Oscar como histórica e sinal de novos e mais abertos ares.  Apesar de que os prêmios ainda privilegiam claramente os homens brancos, mas algo já está mudando,  pelo menos na cerimônia, as mulheres e os negros tiveram participação destacada.  Sem falar, é claro, dos orientais, os grandes vencedores.


Equipe de PARASITA


A vitória tão ampla de “Parasita” não possibilitou que “Honeyland”, indicado como melhor documentário e melhor filme, tivesse alguma chance e “Dor e Glória”, de Pedro Almodóvar, ficou para trás e também não levou com Antonio Banderas como ator.

O nosso representante, “Democracia em Vertigem”, documentário de Petra Costa, não levou o prêmio, ficou para “American Factory”, um favorito com a chancela de Obama.  Mas foi notável a sua indicação entre os 5 melhores documentários realizados no ano passado em todo o mundo.

Lamentei a ausência de “O Irlandês”, de Scorsese, e de “Dois Papas”, de Fernando Meirelles, entre os premiados.  Foram trabalhos que mereciam maior reconhecimento.  Principalmente no caso de roteiro adaptado, em que o vencedor foi o medíocre “Jojo Rabbit”, uma bem intencionada, mas fraca, esculhambação dos absurdos das ideias nazistas, operando na cabeça de um menino que tem Hitler como amigo imaginário.

Antes da cerimônia, muitos apregoavam que “1917”, de Sam Mendes, estaria muito bem cotado para vencer.  Esse vaticínio me preocupou.  Afinal, “1917” não passa de um bom filme de guerra, que nos leva a viver junto com dois soldados a missão um tanto suicida que eles recebem.  Como Sam Mendes optou por longos planos-sequência que passam a sensação de um filme sem cortes e isso exige muito preparo, planejamento e um trabalho insano, é o que poderia ser premiado.  Acontece que “1917” está longe de ser um dos grandes filmes do ano, apesar do esforço.  Os prêmios técnicos para efeitos visuais, mixagem de som e fotografia, estão de bom tamanho para o filme.

O ótimo “Coringa”, outro que de início frequentou a lista de favoritos levou 2 Oscars, trilha sonora e melhor ator para o grande desempenho de Joaquin Phoenix.  Parece pouco, para um filme que “causou”, como se diz por aí.  “Era uma Vez em Hollywood”, do badalado e por vezes superestimado Quentin Tarantino, ganhou o prêmio de design de produção e o de ator coadjuvante para Brad Pitt.  OK. Um filme que não vi, “Ford vs Ferrari”, sobre automobilismo, conquistou um importante prêmio de montagem e o de edição de som.  A conferir.



De resto, houve uma pulverização de prêmios que alcançou vários filmes.  Elton John ganhou pela canção original do filme “Rocketman”, que não concorria, mesmo, em outras categorias.  Achei merecido.  “Judy, Muito Além do Arco-Íris” valeu o prestigiado prêmio de atriz para Renée Zellweger, que faz Judy Garland com muita força e mergulhando na figura e nos conflitos e problemas da sua decadência, que é o que o filme focaliza.  Seu desempenho é o que “Judy” tem de melhor.  É um produto convencional, que se vale da emoção para ganhar as plateias, sobretudo as que acompanharam a carreira daquela grande estrela.  Para atriz coadjuvante, o Oscar escolheu Laura Dern, de “História de um Casamento”, uma veterana grande atriz, sem dúvida.

“Adoráveis Mulheres”, de Greta Gerwig, uma bela produção, ficou com o prêmio de figurino, realmente muito bonito e caprichado.  Para “O Escândalo” foi o Oscar de cabelo e maquiage e “Toy Story 4” foi escolhido a melhor animação.

Espero que as mudanças no Oscar prossigam, de modo a abranger realmente a diversidade e os quesitos artísticos, tanto quanto os quesitos comerciais, que conhecemos. 






terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

AÇUCAR

Antonio Carlos Egypto





AÇÚCAR.  Brasil, 2017.  Direção: Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira.  Com Maeve Jinkings, Magali Biff, Dandara de Morais, Zé Maria.  90 min.


“Açúcar”, produção pernambucana, dirigida por Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, vale-se do realismo fantástico para abordar o ancestral conflito entre a casa grande e a senzala.  Por meio da personagem Maria Bethânia, vivida por Maeve Jinkings, em grande atuação, um antigo e abandonado engenho de açúcar da família Wanderley volta à cena quando ela, herdeira da família, resolve retomar a velha e decadente casa grande, que ainda traz sinais do luxo e opulência do passado.  Mas a situação agora é outra: parte das terras pertence aos antigos empregados que lá desenvolveram um centro popular de arte e resistência.  E lá estão também as marcas indeléveis da escravidão, as opressões não reparadas, a reivindicação da terra, as contas a pagar, a necessidade de vingança, enfim, a luta de classes.  Dos dois lados, como se diz, é preciso conhecer o inimigo.  O clima é permanentemente tenso.  O presente, o passado e o futuro estão sob ameaça.

O fantástico aparece não só pela presença de criaturas e rituais estranhos, mas também pela entrada e saída de cena de um barco a vela, que “navega” entre as plantações, sem água.  O contemporâneo e o ancestral, o moderno e o arcaico, convivem e se trombam num país predominantemente negro, que tinge os cabelos de louro, como a própria protagonista.  Um país que não se reconhece, nega a própria história e identidade, está à beira do rompimento, da explosão.  A impossível volta às origens pretendida por Bethânia e a necessidade de encarar a imensa desigualdade histórica e atual do país colocam uma espécie de dilema insolúvel para cada um e para todos, num momento extremamente difícil, que o filme, de 2017, não chegou a captar por inteiro, mas intuiu, de alguma forma.




OSCAR À VISTA
09 de fevereiro é o dia da transmissão da festa de entrega do Oscar 2020.  Um evento importante porque global, atinge milhões de pessoas ao redor do mundo.  Quem gosta de cinema torce sempre para que a qualidade receba o destaque que merece, em relação aos interesses comerciais óbvios que estão em jogo.  De minha parte, espero que filmes como “Coringa”, de Todd Philips, e “O Irlandês”, de Martin Scorsese, recebam o devido destaque, assim como as produções internacionais “Parasita”, de Bong Joon-ho, e “Dor e Glória”, de Pedro Almodóvar, saiam com prêmios do evento. Porque merecem e muito.

O que exige a maior atenção e torcida de nossa parte é o documentário “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, que está entre os cinco indicados de todo o mundo, o que não é pouca coisa.  Enfrentará pesos pesados, como “American Factory” e “Honeyland”, mas tudo é possível.  Remete ao impeachment de Dilma Rousseff, que deu origem a todo o retrocesso que vivemos hoje no Brasil. Está, portanto, na contramão do Brasil oficial atual.  Por conta disso, incomodou muita gente, inclusive jornalistas do campo cultural, que deveriam estar celebrando essa grande conquista.

FESTIVAL DO RIO EM SÃO PAULO
De 06 a 12 de fevereiro, o Cinesesc São Paulo apresentará uma seleção de 21 filmes exibidos no Festival do Rio 2019.  Os cinéfilos que não foram ao Rio em dezembro não vão querer perder essa excelente oportunidade de conferir bons filmes de todo o mundo e trabalhos de grandes diretores, como Ken Loach, Sergei Loznitsa, Alain Cavalier, Abel Ferrara, entre outros, além de produções brasileiras e documentários que foram destaque por lá e ainda não chegaram por aqui.



terça-feira, 21 de janeiro de 2020

OS MELHORES DO ANO

Antonio Carlos Egypto


2019 foi um ano muito pródigo em termos de qualidade cinematográfica, tanto para o cinema mundial como para o cinema brasileiro (e o latino-americano).  Não foi fácil escolher os 10 melhores do cinema nacional e internacional.
Como toda lista, as que apresento a seguir representam, antes de mais nada, meu gosto pessoal.  Há, no entanto, algumas quase unanimidades críticas entre os filmes escolhidos.  Alguns deles já figuraram na minha lista de melhores da Mostra Internacional de Cinema, tendo sido lançados comercialmente agora, ao final do ano.
Considerei apenas os lançamentos que puderam ser vistos no cinema, ao longo do ano de 2019.  Os que estiveram presentes somente em mostras e festivais não foram levados em conta.  Muitos deles só são lançados um bom tempo depois de participarem desses eventos, outros, nunca aparecem nos cinemas do circuito comercial.  Os filmes que foram lançados exclusivamente em streaming, ou DVD, também não foram considerados elegíveis.
É bom lembrar, ainda, que boa parte dos filmes aqui apresentados continua em cartaz nos cinemas.  Chance para quem não viu no lançamento.  E há as outras opções: streaming, TV paga, DVD.  Afinal, o cinema está em toda parte.  E é bom que seja assim.


BACURAU

LONGAS NACIONAIS – 2019

1. BACURAU, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. 
2. A VIDA INVISÍVEL, de Karim Aïnouz.
3. RAIVA, de Sérgio Tréfaut (coprodução com Portugal).
4. PASTOR CLÁUDIO, de Beth Formaggini.
5. ESTOU-ME GUARDANDO PARA QUANDO O CARNAVAL CHEGAR, de Marcelo
    Gomes.
6. LOS SILENCIOS, de Beatriz Seigner (coprodução com Colômbia).
7. AMAZONIA GROOVE, de Bruno Murtinho.
8. LEGALIDADE, de Zeca Brito.
9. CHUVA É CANTORIA NA ALDEIA DOS MORTOS, de João Salaviza e Renée
    Nader Messora.
10. O JUÍZO, de Andrucha Waddington.



O PARAÍSO DEVE SER AQUI


LONGAS INTERNACIONAIS – 2019

1. O PARAÍSO DEVE SER AQUI, de Elia Suleiman.  Palestina.
2. PARASITA, de Bong Joon-ho.  Coreia do Sul.
3. DOR E GLÓRIA, de Pedro Almodóvar.  Espanha.
4. A ÁRVORE DOS FRUTOS SELVAGENS, de Nuri Bilge Ceylan.  Turquia.
5. CORINGA, de Todd Philips.  Estados Unidos
6. VARDA POR AGNÈS, de Agnès Varda.  França.
7. PÁSSAROS DE VERÃO, de Cristina Gallego e Ciro Guerra.  Colômbia.
8. DOGMAN, de Mateo Garrone.  Itália.
9. O IRLANDÊS, de Martin Scorsese.  Estados Unidos.
10. SANTIAGO, ITÁLIA, de Nanni Moretti.  Itália.






sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O DESPERTAR DAS FORMIGAS

Antonio Carlos Egypto





O DESPERTAR DAS FORMIGAS (El Despertar de las Hormigas).  Costa Rica, 2019.  Direção e roteiro: Antonella Sudassi Furnis.  Com Daniela Valenciano, Leynar Gómez, Isabella Moscoso, Abril Alpizar.  94 min.


Em “O Despertar das Formigas”, filme de Antonella Sudassi Furnis, da Costa Rica, assiste-se ao que se poderia chamar de opressão do cotidiano, que recai sobre a mulher numa estrutura tradicional patriarcal. O que se dá é uma naturalização da existência, em que as relações de gênero e seus respectivos papéis e responsabilidades nunca são postos em dúvida, nem mesmo pelas vítimas mais evidentes do processo.

A opressão não está nas pessoas, que apenas repetem o que aprenderam e viveram, mas no contexto social que produziu e solidificou as regras e os valores em vigor.  O controle social se expressa nas falas, expressões, expectativas, cobranças, piadas, críticas, fofocas e eventualmente na ação das autoridades.

No filme “O Despertar das Formigas” tudo isso está exposto, visível no dia-a-dia de Isabel (Daniela Valenciano), seu marido Alcides (Leynar Gómez) e duas filhas, vivendo em aparente harmonia e equilíbrio familiar, mesmo numa situação de pobreza, no interior da Costa Rica, zona rural.  As cenas em que Isabel leva uma lâmpada de um ponto para outro da casa porque não pode comprar mais uma e o momento em que essa lâmpada se quebra falam por si.  Apesar disso, uma moradia digna e a alimentação estão garantidas. As relações afetivas entre os membros da família são boas.

O que não se percebe nesse contexto é o quanto a carga pesa sobre os ombros da mulher.  Isabel cuida das crianças e da casa, cozinha, faz doces para as festinhas, ajuda na lição das crianças e ainda costura para receber algum dinheiro para pôr na casa.  Um agravante simbólico é o cuidado que precisa ter com os cabelos longos, dela e das duas filhas, um padrão estético apreciado pelos homens e estimulado pelas mulheres.




Isabel leva tudo isso bem, encarando esse peso todo como natural.  O que acaba por produzir um despertar das formigas é uma expectativa reiterada pelo marido e pela sociedade por mais um filho, agora um menino, objeto de desejo até das duas filhas do casal.  Isabel percebe que não dará conta disso também e aí fica claro para ela a insanidade dessa exigência.

A mudança do meio social é muito difícil sem uma ação coordenada de luta feminina por igualdade de direitos, mas o filme mostra que, no terreno das relações pessoais, algo também pode ser feito, desde que com firmeza e assertividade.  Como diz um provérbio chinês, se você mostra que sabe o caminho que quer, os outros lhe dão passagem.

“O Despertar das Formigas”, indicação da Costa Rica, que  concorreu ao Oscar de filme internacional, é uma produção modesta, de baixo orçamento, mas muito bem realizada, com um ótimo elenco encabeçado por Daniela Valenciano e que tem nas duas meninas, Isabella Moscoso e Abril Alpizar, um atrativo à parte.




domingo, 12 de janeiro de 2020

RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS


  Antonio Carlos Egypto




RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS (Portrait de la Jeune Fille em Feu).  França, 2019.  Direção: Céline Sciamma.  Com Noémi Merlant, Adèle Haenel, Luána Bajrami, Valeria Golino.  121 min.


“Retrato de Uma Jovem em Chamas” é um filme que vem recomendado pela conquista de melhor roteiro e Palma Queer do Festival de Cannes, indicação ao Globo de Ouro de filme estrangeiro e boa recepção do público nos festivais do Rio e Mix Brasil.  Sua diretora, Céline Sciamma, já nos deu, pelo menos, um filme muito inteligente e sensível: “Tomboy”, em 2011.

Este trabalho, que respira feminilidade por todos os poros, mostra-se de uma sutileza, delicadeza e refinamento, que merece atenção.  Além do talento da diretora, um elenco de mulheres sensacional dá força incomum a uma narrativa que envolve oposição, contraste e aproximação, amor.

Adèle Haenel, no papel de Héloise, uma mulher da segunda metade do século XVIII, que sai do convento para um casamento arranjado, sem conhecer o pretendente nem saber nada da vida afetiva, amorosa ou de obrigações matrimoniais.  Um retrato dela deve ser pintado para ser enviado a seu futuro marido, mas uma tentativa com um pintor fracassou. É aí que entra em cena Noémi Merlant, no papel de Marianne, uma pintora firme, decidida e livre, tanto quanto isso era possível na época para as mulheres.

Do contraste entre uma mulher que luta para conquistar um espaço próprio na vida e a que está oprimida nos limites determinados ao feminino na época, estabelece-se um clima, uma tensão sutil.




Do insucesso do pintor anterior deriva a situação de que Marianne deve pintar Héloise sem que ela saiba que é essa sua verdadeira função e sem que ela pose, obviamente.  Essa situação acaba fazendo com que Marianne se valha de olhares furtivos e observações cuidadosas do rosto, das mãos, do corpo e dos movimentos de sua retratada.  Daí para um flerte, uma aproximação afetiva maior e a eclosão do amor é um caminho que Céline Sciamma explora em clima suave e delicado, quase silencioso.  O filme trata muito de arte, mas praticamente não usa música.

A caracterização de época se vale não só das vestimentas múltiplas, pesadas e enfeitadas, sem exageros, mas do ambiente de uma ilha isolada, aonde só se chega de barco, e de um castelo preservado, que nunca chegou a ser habitado, nem restaurado, segundo a diretora.  Essa locação bela e isolada contribui muito para o clima da história.

A questão artística da pintura, que era o meio de produzir retratos, põe em relevo o que se pode captar da figura humana, como reproduzi-la fielmente e o que seria isso.  Ver não é compreender, não é possível enxergar sem interagir, sem captar o que vai pelo psiquismo, por melhor que seja a técnica empregada.  É na relação que se constrói a verdade de cada uma e se dissolvem as diferenças do modo de estar no mundo.  Da troca resulta sempre algo novo, possível ou não de se desenvolver e de subsistir.  A natureza está também em transformação, como as pessoas.  Da terra que sustenta, do ar que dá a respiração para viver.  Do mar, que leva e traz ondas vivas, para onde se pode correr ou morrer e do fogo que queima em desejo.




segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

A MELHOR JUVENTUDE

Antonio Carlos Egypto


Será exibido nos cinemas em duas partes o grande filme de Marco Tullio Giordana, de 2003, A MELHOR JUVENTUDE  (La Meglio Giuventú).  Uma família em que dois irmãos vivem juntos e separados em momentos da história recente da Itália, dos anos 1960 aos 2000.  Vão a Roma, passam pelas origens em Ravena, estudam em Bolonha, se encontram em Florença em plena cheia que castigou a cidade, em eventos de radicalismo político e repressão em Turim, nos julgamentos de Milão, na máfia siciliana, em Palermo, onde também se dá o assassinato do juiz Giovanni Falcone e outros, no tempo da Brigada Vermelha, e por todos os cantos, ao longo desse período contemporâneo italiano. Uma jovem com problemas mentais compõe o trio de protagonistas, o que permite discutir o descalabro dos hospitais psiquiátricos e a revolução promovida por Basaglia no mundo, a partir da Itália.




A costura dos fatos e personagens é muito bem feita, a filmagem exala humanidade, afeto e compreensão, em meio aos inevitáveis conflitos da vida, desencontros amorosos e familiares.  Recheada por ótimos atores de um elenco jovem e música da mais alta qualidade, e não só italiana.  Vai de Dinah Washington a Cesária Évora.  Todos perseguem seus sonhos, se iludem, se magoam e seguem em frente, na busca incessante por uma vida que possa ser melhor.

É um dos grandes filmes do cinema italiano de todos os tempos.  Grande na qualidade, mas também no tamanho.  São 6 horas de duração, por isso as sessões são divididas em dois dias, de 3 horas cada um.  Talvez você diga: nem pensar!  E não tente.  Se você disser: vou ver só a primeira parte para conferir como é, eu lhe garanto, você não vai querer perder a segunda parte, por nada desse mundo.  E se chegar ao final da saga vai sentir um gosto de que ainda queria mais.


sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

BOAS FESTAS!


     


Desejo a todos que acompanharam minhas críticas de cinema ao longo do ano, aqui no cinema com recheio, Boas Festas. Ouso sonhar com um novo ano em que todos nós cultivemos atitudes civilizadas, superando o obscurantismo.  Que ofereçamos apoio à democracia e à liberdade, reconhecendo, respeitando e celebrando a diversidade humana.  Que tenhamos atenção e cuidado conosco, com os outros e com o planeta em perigo.  Que priorizemos a educação, a ciência e a cultura, em busca de sermos melhores como país e como povo.  E que cada um possa alimentar seus projetos e propósitos, alcançando bons momentos de felicidade.

Um grande abraço a todos,

Antonio Carlos Egypto



quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

E ENTÃO NÓS DANÇAMOS

Antonio Carlos Egypto






E ENTÃO NÓS DANÇAMOS (And Then We Danced).  Suécia/Geórgia, 2019.  Direção e roteiro: Levan Akin.  Com Levan Gelbakhiani, Bachi Valishvili, Ana Javakishvili.  106 min.


A Geórgia (ex-União Soviética) tem entre suas principais tradições a dança.  Uma dança tradicional, com marcações fortes, firmes e intensas, que remetem a uma ideia de masculinidade.  Ou a um conceito algo rígido e preconceituoso do que seja a masculinidade.  O fato é que gestos leves, trejeitos, sorrisos de alegria e encantamento, são solenemente repreendidos, nos ensaios com os bailarinos, como se vê em algumas sequências de “E Então Nós Dançamos”.  O filme, roteirizado e dirigido por Levan Akin, georgiano, radicado na Suécia há muito tempo, é uma retomada por parte dele da arte das tradições de seu país de origem.  E representou a Suécia na indicação ao Oscar de filme internacional.

Se é preciso respeitar e valorizar tradições, em especial expressões artísticas consagradas, também é preciso avançar e superar preconceitos.  Do embate entre essas questões se alimenta o filme de Levan Akin.  Na história, é pela ótica de um bailarino jovem, Merab, vivido por Levan Gelbakhiani, que temos acesso ao cotidiano de alguém que aspira a esse caminho artístico, enquanto faz trabalhos pesados e mal remunerados para tentar sobreviver.  Acompanhamos seu esforço diário, sua paixão pela dança, conhecemos a jovem bailarina Mary (Ana Javakishvili), que é sua parceira constante nessa atividade, percebemos o que ela sente por ele, sem ser correspondida para além da dança.  E o vemos conhecendo e se envolvendo com o bailarino Irakli (Bachi Valishvili), com quem aprende técnicas, rivaliza e acaba por desenvolver um desejo homoerótico.

Na família, com um irmão prestes a se casar ou na dança que cultiva, Merab percebe que não há espaço para o reconhecimento do seu desejo e torna-se bastante complicado compatibilizar as coisas.  Por aí vai o drama que o filme explora, enquanto nos brinda com um musical, em que a dança tradicional georgiana se destaca.



O diretor tem claramente a intenção de valorizar essa tradição da dança e outras mais.  Por exemplo, nos mostra os rituais do casamento no país.  Mas coloca em questão, também, a necessidade de questionar e superar os ranços autoritários e os preconceitos que ajudam a sustentar essas tradições.  Até onde vale a pena ir na preservação da cultura local e quando é preciso mudá-la ou mesmo implodi-la, se for o caso?  Como os jovens podem se inserir nesse contexto cultural pós-União Soviética, com os elementos da globalização, da cultura pop e das mudanças comportamentais que os distinguem da velha geração?

O diretor fala, numa entrevista, da situação frágil da Geórgia e dos antigos países soviéticos, com suas singularidades, em contato com os valores da situação atual.  Como preservar a identidade cultural, como a língua, o alfabeto, a cultura do vinho e da gastronomia, ao mesmo tempo em que é imperioso se abrir para o mundo novo, em constante transformação? E dá um exemplo importante.  Quando trabalhava na concepção do filme, buscou a ajuda do famoso Balé Nacional da Geórgia, inclusive querendo contar com a participação de alguns de seus bailarinos.  O que lhe foi negado peremptoriamente, alegando que não existia homossexualidade na dança, na Geórgia.  E teve de conviver com uma grande sabotagem contra o trabalho que estava realizando.

Uma atitude como essa é a demonstração mais cabal de que não se pode, simplesmente, ficar cultivando uma tradição cultural sem nunca colocá-la em questão ou em dúvida.  Se é preciso negar a realidade para mantê-la como está, chegou a hora de revisá-la, reformá-la ou revolucioná-la.  Assim como não faz sentido destruir tradições culturais importantes, também não faz sentido mantê-las a qualquer preço, gerando sofrimento inútil e desnecessário às pessoas.




LEMBRETE
Já entrou em cartaz nos cinemas O PARAÍSO DEVE SER AQUI, de Elia Suleiman, o filme que mais me agradou na 43ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e que, mesmo sendo exibido nos estertores do ano, está seguramente entre os melhores de 2019.  Espero que as festas de fim de ano e as férias escolares não impeçam as pessoas de usufruir desse belo trabalho cinematográfico.  Veja crítica e comentários sobre o filme aqui, no cinema com recheio, postados em 25 de outubro e em 08 de novembro de 2019.





quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

UMA MULHER ALTA

Antonio Carlos Egypto





UMA MULHER ALTA (Dylda).  Rússia, 2019.  Direção: Kantemir Balagov.  Com Viktoria Miroshnichenko, Vasiliva Perelygina, Andrey Bykov, Igor Shirokov.  137 min.


“Uma Mulher Alta” é um drama humano que remete a questões femininas, como a reprodução, num contexto de guerra, em que as mulheres estão mutiladas, abaladas psicologicamente, sofrendo as consequências do conflito que recém terminou.  No caso, trata-se de Leningrado (hoje, São Petersburgo), em 1945, com o final da Segunda Guerra Mundial, em que a cidade sofreu um dos piores cercos da história.

O olhar do filme, inspirado no livro “A Guerra não Tem Rosto de Mulher”, de Svetlana Aleksiévitch, é justamente sobre as consequências que a guerra deixa na vida e no corpo das mulheres.  Um enfoque de gênero muito apropriado, já que o que conhecemos mais é o efeito bélico que destrói os homens, sempre vistos como protagonistas, os principais atores da trama.

No evento abordado em “Uma Mulher Alta” reconhece-se também uma situação que envolveu mais intensamente as mulheres no contexto de guerra na resistência russa.




As personagens que representam essas mulheres são Iya (Viktoria Miroshnichenko), a grandona desajeitada que inspira o título brasileiro, e Masha (Vasilisa Perelygina).  Figuras heroicas pelo que fizeram e continuam fazendo pelos mutilados e mutiladas de guerra, como elas próprias.  Tentam reconstruir suas vidas, como todos, mas esbarram em barreiras pessoais que remetem de forma direta à guerra que tiveram de vivenciar.  E, ao tentarem se desvencilhar ou contornar suas limitações, acabam por gerar novos dramas e problemas, ao invés de superá-los ou vencê-los.

Tudo isso é mostrado numa narrativa que enfatiza os sentimentos, a frustração e o desespero, em especial, numa caracterização de época feita com muito cuidado e delicadeza. A paleta de cores em que dominam o verde e o ocre dá destaque a esse drama e o calor dos sentimentos.  Os veículos e os objetos de cena são em grande parte autênticos da época, cedidos por museus, como o dos transportes.  As recriações e o figurino procuram respeitar com fidelidade os ambientes e as pessoas, sem exagerar no sentido passadista.  Há uma intenção de tomar aquele momento e situação passados como fontes de reflexão para o presente, em sintonia com uma visão feminista atual.

Duas ótimas jovens atrizes protagonizam o trabalho, oferecendo força e consistência psicológica a suas personagens.  Os homens e as outras mulheres com quem elas contracenam complementam e valorizam esse bom desempenho de Viktoria Miroshnichenko e Vasilisa Perelygina.

O diretor, Kantemir Balagov, em seu segundo longa, após “Tesnota”, de 2017, realiza um trabalho com a câmera que produz envolvimento e tensão, enquadramentos que nos aproximam da personalidade daquelas mulheres e nos põem dentro do forte drama que elas vivem.

“Uma Mulher Alta” é a indicação russa para concorrer ao Oscar de filme internacional, já passou por vários festivais internacionais, tendo alcançado premiações em Cannes: melhor direção e prêmio da Crítica do Un Certain Regard, e também em Genebra, Montreal e Estocolmo




quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

O JUÍZO

Antonio Carlos Egypto


                                                                                     Suzana Tierie



O JUÍZO.  Brasil, 2019.  Direção: Andrucha Waddington.  Com Felipe Camargo, Carol Castro, Criolo, Joaquim Torres Waddington, Fernanda Montenegro, Lima Duarte.  90 min.


“O Juízo” é uma incursão do cinema brasileiro no gênero suspense, terror.  Assim como outras tentativas bem sucedidas realizadas anteriormente, ele contribui para ampliar o alcance do nosso cinema para além dos documentários, comédias e dramas que têm marcado nossa produção crescente.

Considerado um suspense sobrenatural, é, na verdade, um filme que crava na trama as marcas da nossa história, do extrativismo à escravidão, que deixaram uma dívida que remonta a séculos e está na construção da vergonhosa desigualdade, preconceito e racismo, que vivemos até hoje.  Mérito, claro, do talento de escritora da roteirista Fernanda Torres que, infelizmente, não participa do filme de seu marido, Andrucha Waddington, como atriz.  Em compensação, Fernanda Montenegro, sua mãe, está lá, brilhante, como sempre.  O filme tem mesmo uma característica familiar.  Joaquim Torres Waddington, filho do diretor e da roteirista, estreia no cinema como ator neste filme.  Para além das relações familiares, o elenco tem Felipe Camargo, Carol Castro e Criolo, em papeis centrais e o grande Lima Duarte em participação especial.




O que mais me entusiasmou em “O Juízo” nem foi a sua história, muito boa, ou seu superelenco, mas seu apuro visual.  Enquadramentos belíssimos, do alto, na água, nos caminhos molhados (o filme é quase todo passado na chuva), nos ambientes de uma fazenda, supostamente mineira, na verdade filmada no Estado do Rio.  Uma fotografia esmaecida, esfumaçada, escurecida, concretiza uma narrativa que remete a trevas, com grande beleza e explora também com eficiência a luminosidade do fogo.  Ótimo trabalho do diretor de fotografia Azul Serra.  Destaque também para a direção de arte de Rafael Targat.  Um trabalho de equipe muito bem coordenado por Andrucha Waddington.

O enredo remete a uma família, Augusto (Felipe Camargo), Tereza (Carol Castro) e o filho Marinho (Joaquim Torres Waddington), que vão em busca de colocar a vida em ordem, resolvendo problemas econômicos e do alcoolismo de Augusto, assumindo morar numa fazenda isolada e abandonada, herdada do avô.  A propriedade, porém, traz o carma de uma traição, envolvendo um homem escravizado, Couraça (Criolo) e sua filha, uma dívida ancestral.  Diamantes estão envolvidos na história, colocando a cobiça como parte integrante e trágica da narrativa.  Mais suspense que terror, fantasmagórico, mas realista e indutor de reflexão, um filme que se vê com prazer, com destaque para o esmero visual, que merece ser apreciado com atenção.

                                                                                                             Dan Behr


FESTIVAL DE CINEMA RUSSO
De 04 a 11 de dezembro, chega a São Paulo a 6ª. edição da Mostra Mosfilm, de filmes clássicos, russos e soviéticos, realização do CPC – UMES, Spcine e Itaú Cinemas.  12 longas serão exibidos nos cines Itaú Augusta e Olido, a preços bem populares.  Destaque para as cópias restauradas de “A Balada do Soldado”, de Grigori Chukhay, “Stalker”, de Tarkovsky, e “A Prisioneira do Cáucaso”, de Leonid Gayday.  Outra novidade é a exibição de "Spartacus", com o Balé Bolshoi, em filme de Yury Grigorovich, de 1975.  O filme mais recente a ser exibido é “Aluga-se uma casa com todos os inconvenientes”, de Vera Storozheva, de 2016.  No Olido, exposição de matryoskhas e comidas, bebidas e artesanato típico do Leste Europeu.

FESTIVAL DO RIO
Para quem está no Rio de Janeiro, a grande pedida é a nova edição do tradicional Festival do Rio, repleto de atrações, que neste ano ocorre em data não habitual, de 09 a 19 de dezembro, em 15 cinemas da cidade.  Foi uma batalha, mas o Festival saiu e com cerca de 100 filmes estrangeiros e uma enorme janela de produções brasileiras na seção Premiére Brasil.