quinta-feira, 18 de junho de 2009

A Mulher Invisível

Tatiana Babadobulos

“A Mulher Invisível”
, comédia dirigida por Cláudio Torres (“Redentor”), estreou no dia 5 de junho e, em sua segunda semana de exibição (12 a 14/06), atingiu o primeiro lugar do ranking de bilheterias do final de semana. Nesses três dias, mais de 276 mil pessoas foram assistir ao filme estrelado por Selton Mello e Luana Piovani, que soma quase 800 mil espectadores.

Além de dirigir o longa-metragem, Cláudio Torres também é responsável pelo roteiro e pela produção. Sendo assim, ele escreveu a personagem que dá nome ao filme, a tal mulher invisível, pensando na atriz Luana Piovani. Na trama ela é Amanda, vizinha de Pedro (Selton), que começa a fazer parte de sua vida, assim que sua esposa (Maria Luiza Mendonça) o deixa e viaja com um alemão.

A partir de então, ele passa a viver a vida de solteiro indo a festas raves, alternando a companhia na cama, de modo que a cada noite uma mulher nova ocupa o espaço deixado. Até que, depois de se isolar (dar "um tempo do mundo", como ele diz em uma passagem), bate a sua porta a mulher próxima ao ideal (ou seja, faz parte de sua ideia): bela, dedicada, adora futebol e não tem crise de ciúme. No entanto, como não é mistério, já que é o mote do filme, ela simplesmente não existe, é fruto da imaginação do rapaz que está desolado por conta da perda da esposa, uma vez que ele tinha o sonho de passar a vida toda com ela, ter filhos etc. Amanda passa a cuidar dele, os dois se apaixonam e vivem a vida de casal.

Então, seu amigo e colega no trabalho (ambos trabalham como controladores de trânsito), Carlos (Vladimir Brichita), começa a desconfiar da paixão, pois ainda não a viu. Cético com relação ao amor, Carlos conhece a vizinha de Pedro, Vitória (Maria Manoella), que acabara de ficar viúva, mas é apaixonada pelo vizinho. Os personagens estão no Rio de Janeiro, mas a história poderia acontecer em qualquer lugar do mundo, uma vez que a maior parte das cenas acontece no apartamento de Pedro, em restaurantes, cinemas etc.

Selton Mello, como já é conhecido do público, vive o personagem de maneira intensa, com senso de humor que lhe é peculiar, timing perfeito para comédia e sempre se destaca quando em cena. Aqui, assim como em "Meu Nome não é Johnny", quando Selton vive o protagonista que se envolve com drogas se tornando um traficante internacional, cortam a luz do seu apartamento (e ele passa a usar luz de velas), assim como cortam o telefone por falta de pagamento. É como se o ator conseguisse lidar muito bem com esses episódios.

Luana utiliza mais os seus atributos físicos para viver esta personagem, uma vez que na maior parte das cenas ela aparece vestindo lingeries (a maioria das peças é dela mesma): um perfeito desfile de calcinha e sutiã, ora comportado, ora ousado, incluindo cinta-liga e corpete. Um dos momentos de destaque do filme é com a participação de Fernanda Torres, que vai à casa de sua irmã, Vitória, para também ouvir a conversa do vizinho através da parede com ajuda de um copo. E Maria Manoella, aliás, é a tal mulher real, de carne e osso, com defeitos, como uma gordurinha aqui, outra ali, com ataque de ciúme.

No longa-metragem "A Garota Ideal" (que será lançado em DVD em julho), o protagonista se apaixona por uma boneca que encomendou pela internet, e de fato acredita que ela é real, fazendo com que o espectador se sinta um pouco constrangido com as cenas em que os dois dialogam. No filme de Cláudio Torres, porém, o protagonista também dialoga com algo irreal, mas o espectador, ao contrário do outro filme, fica mais confortável, uma vez que a personagem, vez ou outra aparece, conversa com o rapaz e faz parecer que é real.

Destaque também para a trilha sonora, que acompanha o estado de espírito dos personagens: música incidental fúnebre quando ele está triste tentando retomar as atividades cotidianas, e rock and roll quando vai dançar, se divertir etc., principalmente músicas de Ramones, Janes Joplin, Lobão.

Embora "A Mulher Invisível" seja um filme previsível e sem grandes aprofundamentos, é possível que conquiste o espectador que vai correr às salas de cinema para acompanhar o novo trabalho de Selton Mello que, de fato, está bem, embora não seja a sua melhor interpretação; as belas curvas de Luana Piovani e a certeza que a tal mulher ideal não existe.

Seja como for, "A Mulher Invisível" é um filme de qualidade, que vale a pena ser conferido, ainda que seja para homenagear o cinema brasileiro ou apenas dar duas ou três gargalhadas com as poucas piadas que de fato são engraçadas e fazem pensar.

terça-feira, 2 de junho de 2009

A PARTIDA



Antonio Carlos Egypto


A PARTIDA (Okuribito). Japão, 2008. Direção: Yojiro Takita. Com: Masahiro Motoki, Ryoko Hirosue e Tsutomi Yamazaki. 131 min.

O filme japonês “A Partida”, vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 2008, surpreendeu ao derrotar favoritos de peso, como o israelense “Valsa com Bashir”. Do ponto de vista da técnica cinematográfica, pode-se dizer que o israelense inova mais, ao fazer uma animação não só adulta e seríssima, mas também pelo seu caráter questionador e pacifista, tão importante para o momento atual do Oriente Médio. Meu favorito seria “Entre os muros da escola”, em que a educação como processo se revela por inteiro. (vide postagem anterior).

“A Partida”, no entanto, é uma película notável, sob muitos aspectos. Antes de mais nada, pela forma simples, direta e, ao mesmo tempo, sutil e sensível de tratar do tema da morte. Mais do que tratar, enfrentar o tabu da morte, não apenas como algo simbólico, mas também como algo muito concreto.

Os corpos devem ser cuidados e preparados para serem colocados no caixão e, depois, cremados, como acontece no filme. Esse preparo supõe um ritual cuidadoso e profissional que alguém tem de fazer. E que no Japão, ao que parece, costuma ser realizado na presença dos familiares e amigos. Em todas as classes sociais? Parece que não, pelo que aparece numa cena significativa do final da trama.

O fato é que tal trabalho, justamente por mexer no tabu da morte concreta, pode ser muito mal visto ou mal interpretado. Um músico – violoncelista – com sua habilidade para lidar com o instrumento, poderia ser um desses profissionais da morte? Tocando, limpando, arrumando e maquiando corpos, não tocando seu instrumento nos funerais. O talento artístico aproxima uma coisa da outra, embora a admiração pelo músico seja incondicional, ao passo que a admiração pelo profissional dos funerais só se revela diante da delicadeza dedicada ao sofrimento e à dor da perda, quando se cuida de um corpo que já perdeu a vida. Cenas tocantes e que emocionam, porque colocam a morte concreta diante de todos. Tudo aquilo que a gente não está costumada a ver, nunca viu ou não quer ver.

Trata-se, portanto, de um filme pesado, difícil de assistir? Na realidade, não. A desmistificação e o cuidado com a morte, mostrados em “A Partida”, emocionam e, ao mesmo tempo, nos remetem à reflexão. Mas há espaço até para o humor, principalmente na primeira parte do filme. A conquista de um emprego tão especial como esse, passa por situações engraçadas, na medida em que o não dito, o suposto, o escamoteado, dão margem a interpretações duvidosas e conclusões equivocadas. É nesses momentos bem humorados que o tabu da morte concreta fica mais evidente.

A trama é contada de forma quase linear. O início se explica ao final mas não há grandes saltos, inversões ou mistérios a desvendar, no modo como ela se desenvolve. O mistério está na forma como encaramos a morte e nos relacionamos com ela e está nos medos que nos afastam de sua realidade concreta, na tentativa de negar a única certeza que acompanha a vida, produzindo uma interdição – um tabu.

As cenas do violoncelista em plano geral, destacando-se na natureza, enquanto as imagens da vida do personagem se inserem na sequência, são muito bonitas.

No filme, há espaço para os muitos climas que cercam o trabalho com a morte e com a música. O relacionamento com o pai, tão problemático pelo abandono, e o papel da mãe na formação do personagem principal são mostrados pela intensidade dos sentimentos. A relação com a mulher, tão companheira, revela a afetividade, mas também o distanciamento, em momentos chaves da vida. O clima da volta às origens e o reencontro com figuras que haviam ficado no passado, e que, no entanto, preservaram tradições importantes, é outro elemento relevante da história. E tem, ainda, a relação com a comida, o cheiro, o nojo, as coisas simples da vida que, de um modo ou de outro, importam para todos.

O filme é denso e rico em imagens e assuntos que povoam a vida das pessoas. Especialmente daquelas que se aproximam da morte como algo real e concreto. O que esse trabalho de Yojiro Takita faz, notavelmente, com todos os espectadores.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

OS FALSÁRIOS



Antonio Carlos Egypto


OS FALSÁRIOS (Die Fälscher). Áustria, 2007. Direção: Stefan Ruzowitzky.
Com: Karl Markovics, Augusto Diehl, Devid Striesow e Martin Brambach. 98 min.


O nazismo e o holocausto parecem um tema absolutamente inesgotável, tantos e tão variados filmes já foram feitos sobre o assunto, assim como toneladas de coisas foram escritas, que a sensação que a gente poderia ter é de que não há mais nada a dizer, documental ou ficcionalmente, que já não tenha sido dito.

No cinema, a guerra, e o holocausto em particular, chegam a se constituir num gênero, com a previsibilidade de personagens e situações que costumam caracterizar os gêneros cinematográficos. No entanto, parece que há sempre algo de novo ou original, ou pelo menos algum ângulo novo que ainda merece ser mostrado. Filmes como “O Leitor” e “O menino do pijama listrado” são exemplos de tramas criativas e que abordam o tema do holocausto sob aspectos incomuns, e justificam plenamente a sua existência como películas capazes de estimular o nosso espírito crítico e a nossa sensibilidade. Já a refacção de “Operação Valquíria” é um exemplo frágil da abordagem do assunto, sem acrescentar nada de novo,

Chega até nós, agora “Os Falsários”, filme austríaco de 2007 que venceu o Oscar de Filme Estrangeiro do ano. E novamente um aspecto inusitado, mas relevante do período nazista na Segunda Guerra Mundial, aparece. A história de um falsificador de dinheiro, judeu, que acaba num campo de concentração e lá concorda em participar de uma operação de falsificação que pretendia financiar esforços de guerra nazistas, além de minar as economias dos aliados. Isto em troca de ter sua vida preservada, além do acesso a alguns confortos inimagináveis naquelas circunstâncias, como camas com colchões macios.

A “Operação Bernhard”, como foi chamada a verdadeira oficina de falsificação montada com a ajuda de prisioneiros selecionados de outros campos para compor uma equipe técnica e tecnologicamente evoluída, sob o comando do personagem central Salomon Sorowitsch (Karl Markovics), é uma coisa espantosa, difícil de conceber, naquele momento e naquele lugar.

A história é muito boa, não importando até onde ela é fiel aos fatos reais que a teriam inspirado. Como ela coloca uma questão limite, dá margem a muitos questionamentos éticos. Por exemplo: Como posso me sentir protegido e tranquilo, quando tudo à minha volta é horror e morte? Até onde vale a pena colaborar para salvar a vida? Até onde se pode ir para preservar a própria vida? Qual o limite que, se ultrapassado, já não valeria mais a pena viver? O que pode ser heróico numa situação dessas? Ou como se sustenta uma postura de enfrentamento heróico, como a mostrada em um dos personagens? Nesse sentido, as questões que podemos nos colocar a partir do que o filme traz ultrapassam o contexto concreto em que estão inseridas.

A trama, porém, nos coloca novamente em contato com o nazismo e o holocausto. Não será um assunto muito batido, já esgotado? Vejamos o que diz o diretor Stefan Ruzowitzky, respondendo à questão: “Você tem um interesse especial pela Era Nazista?

A resposta: “Quando você vive num país como a Áustria, onde os partidos de direita FPÖ e BZÖ, com a sua aproximação intolerável com a ideologia nazista, que constantemente conseguem abocanhar 20% dos votos e ainda têm o direito de participar da administração do governo do país, o que já seria intolerável – você simplesmente tem necessidades urgentes de confrontar esses assuntos agora e sempre”.

Claro, é por aí mesmo. Que tudo isto tenha existido e possa voltar a existir, por mais remota que seja essa chance, credencia essa filmografia séria que trata do assunto. E que ele continue a ser abordado, para que ninguém possa se esquecer desses horrores. E, pelo jeito, ainda haverá muita trama criativa a ser engendrada a partir de tudo isso que a humanidade não deveria ter vivido, mas, infelizmente, viveu.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

BUDAPESTE, O LIVRO E O FILME

Antonio Carlos Egypto





Quando li o romance “Budapeste”, de Chico Buarque, admirei muito sua escrita e o intrigante jogo do ser e não ser do escritor / ghost-writer. Encontrar-se e perder-se entre as mulheres, enfrentando o desconhecido, muito bem representado pelo húngaro, “a única língua que o diabo respeita”, é o drama do nosso protagonista, o José Costa, que em Budapeste vira Zsoze Kósta. A admiração pelo idioma húngaro, com seus desafios e sonoridade surpreendentes, encontra eco no amor ao idioma português, ofício do escritor e por meio do qual o ghost-writer vive sua experiência anônima. Ele a viverá também em húngaro. É, portanto, um livro sobre a dualidade da experiência e da vivência da língua e de sua cultura.

A Budapeste, onde desembarca o personagem, é também dual – é mistério, imaginação e realidade que se apresentam. Para o autor Chico Buarque, o mistério prosseguiria, era uma cidade que ele não conhecia até escrever o romance, embora tivesse colhido informações e imagens sobre ela. Era, portanto, uma Budapeste etérea aquela que o personagem experimenta ao longo do livro. O que é real ou imaginado se confunde todo o tempo, na realidade da mente do personagem.

Já no filme “Budapeste”, dirigido por Walter Carvalho, com base no livro de Chico Buarque, ainda que a fotografia possa produzir imagens mais indefinidas ou enevoadas, é na Budapeste real que estamos e tudo o que se passa tem existência física: as casas, os interiores, os amores, a chuva. É inevitável, portanto, que uma parte do clima sempre intrigante do livro se perca no filme. E a tentativa de pôr na tela a interação desejo/fato acaba deixando a trama um tanto truncada.

Trata-se, porém, de uma bela produção que envolveu Brasil, Hungria e Portugal, com um elenco que tem Leonardo Medeiros, Giovanna Antonelli, Paola Oliveira e a bela atriz húngara Gabriela Hãmori, com direito a uma ponta até do próprio Chico Buarque.

O filme é bonito, elegante, e Leonardo Medeiros deixa em aberto a figura do protagonista, ele é difuso, disperso e indefinido, o que se coaduna com a trama desenvolvida. As mulheres que povoam seu universo estão bem representadas no filme e o embate/encanto do encontro das culturas também está satisfatoriamente apresentado. De modo que o resultado, se não chega a impactar, como faz o livro, tem seus méritos.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Anjos e Demônios

Carolina do Couto Rosa

Mais uma vez, a união de Dan Brown e Ron Howard dá o que falar no mundo cinematográfico. Depois de "O Código Da Vinci", filme que levantou suspeitas sobre Maria Madalena ter uma filha com Jesus Cristo, chega agora "Anjos e Demônios" ao cinema e provoca a Igreja católica em uma fascinante historia sobre ciência e religião.

Tom Hanks é novamente o protagonista da historia fazendo o professor Dr. Robert Langdon e se torna o responsável em salvar os cardeais sequestrados e evitar que o fanático da seita dos Iluminati bombardeie toda a cidade do Vaticano.

A Igreja recusou o filme antes mesmo de ele estrear no cinema e não facilitou em nada a produção do mesmo. As cenas não foram rodadas no Vaticano e em nenhuma Igreja de Roma. Conseguiram permissão, apenas por poucas horas, para gravar em frente a uma Igreja na Piazza del Popolo, onde no dia da filmagem estava acontecendo um casamento. Tom Hanks, muito simpático, conseguiu liberar a passagem para a noiva levando-a até a porta da igreja. As pessoas em volta aplaudiram e Tom Hanks se mostrou divertido e brincalhão em meio a tantos conflitos nas filmagens de "Anjos e Demônios". Este acontecimento não deixa de ser uma cena típica de filmes Hollywoodianos.

Falando da adaptação dos livros, Ron Howard consegue com este filme melhor resultado que em "O Código Da Vinci". No filme anterior, a história era recheada de detalhes, fazendo do livro muito mais interessante que o filme, que não consegue esclarecer todos os mistérios e deixa o espectador perdido diante de tanta informação. Já em "Anjos e Demônios" o resultado é excelente, tanto livro quanto filme conseguem prender o espectador e fazê-lo sofrer com o suspense da trama.

Um bom entretenimento, que diverte e distrai.

terça-feira, 19 de maio de 2009

SIMONAL, O DOCUMENTÁRIO


Antonio Carlos Egypto


SIMONAL, NINGUÉM SABE O DURO QUE DEI. Brasil, 2008. Direção: Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal. Documentário. 84 min.


Wilson Simonal foi um dos maiores cantores de toda a história da música popular brasileira. Quem viveu e acompanhou com atenção os anos 1960/70 sabe muito bem do que eu estou falando. E sabe que não há nenhum exagero na frase anterior.

Poucas vezes se viu um intérprete que era um verdadeiro músico cantando, assim como uma colega daqueles tempos, a fantástica Elis Regina. Simonal tinha uma musicalidade fora do comum e um estilo de cantar inconfundível, moleque, pilantra, como ele mesmo chamava. Era “o rei do swing”, que mobilizava verdadeiras multidões para cantar com ele. Multidões que ele regia como se fosse um grande coral. Fazia tudo isso com boas músicas, porém, mais despretensiosas do que a maioria do que se produzia naquele período em que a MPB resistia ao regime militar de todas as formas que podia. Antes desse período, Simonal já brilhava com suas divisões originais, cantando bossa-nova em clubes, boates e teatros. Ele fazia o que queria com a voz e com a música.

Seus discos vendiam muito e ele chegava a fazer tantos shows por ano que praticamente ocupava todos os dias do calendário. Um talento indiscutível e um sucesso que rivalizava até com Roberto Carlos não é coisa que se possa esquecer facilmente. No entanto, Simonal morreu para a história, nas quase duas décadas em que viveu após todo esse êxito. Como é possível?

Convencido de que seu contador o roubava e essa seria a razão para os problemas econômicos que estavam surpreendentemente acontecendo, procurou intimidá-lo e forçá-lo a uma confissão, depois que este entrou com um processo contra o cantor, já que havia sido demitido sumariamente. Para isso, se valeu de pessoas que seqüestraram e levaram o contador até as dependências do DOPS, a polícia política do regime militar, onde ele apanhou e foi torturado. Como se não bastasse, Simonal, na época, declarou à imprensa que era mesmo amigo dos homens do poder. Talvez para mostrar que ele podia fazer tudo aquilo, quem sabe?

O momento era de radicalização política e a maioria da classe artística, assim como a maioria da imprensa, lutavam contra a ditadura e pelo restabelecimento da democracia no país, com os recursos de que dispunham, apesar da censura.

Era intolerável que Wilson Simonal convivesse ou tivesse amigos justo no DOPS. Acusado de dedo-duro (o que nunca foi provado), seu trabalho foi boicotado e varrido da própria história da música popular brasileira.
Simonal era mascarado, arrogante, pretensioso, mas, pelo jeito, era também muito ingênuo e desinformado, para se comportar dessa maneira, sem avaliar onde estava se metendo. O fato é que sua carreira artística desapareceu e só agora se procura reavaliá-la e reinseri-la na história, trinta e seis anos após o ocorrido.

O documentário “Simonal, ninguém sabe o duro que dei” busca resgatar essa história e esses dois momentos da vida de Simonal: o sucesso absoluto e o ostracismo total. Para isso, buscou imagens da famosa época dos festivais e dos programas de auditório da TV Record, que divulgavam a MPB de alta qualidade que então se fazia. Por sinal, um desses programas era comandado por Simonal.

Ouviu, pela primeira vez, o contador objeto de toda essa história e a turma do Pasquim – Ziraldo e Jaguar – que foi inflexível com Simonal, à época. Obteve ainda depoimentos de pessoas importantes com muita coisa a dizer sobre o cantor, como Nelson Motta, Miele, Chico Anysio, Pelé, Ricardo Cravo Albin, Toni Tornado e, naturalmente, seus filhos, também artistas, Simoninha e Max de Castro.

As conclusões, é claro, ficam por conta de cada um. Mas é positiva a retomada desses fatos e, principalmente, se faz mesmo necessário o resgate da obra artística de Wilson Simonal, que não pode ser varrida da história, independentemente da personalidade, do caráter, dos erros ou crimes cometidos pela pessoa. Radicalizando isso: já imaginaram se o mundo resolvesse apagar o trabalho de Frank Sinatra, na história da música popular, porque ele tinha ligações com a máfia?




segunda-feira, 11 de maio de 2009

DESEJO E PERIGO


 Antonio Carlos Egypto

Desejo e perigo (Lust, Caution) – China, Taiwan. Hong Kong, EUA, 2007.
Direção: Ang Lee. Com Tony Leung, Wei Tang, Joan Chen e Lee-Hom Wang. 157 min.

Segunda Guerra Mundial, 1941. A cidade de Xangai está nas mãos dos japoneses, que integram o Eixo, com a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini. Há um governo chinês colaboracionista e, naturalmente, se organizam as forças de resistência.

De um grupo teatral sai uma célula de resistência que vai atacar colaboracionistas importantes. A atriz Wong Chia Chi (Wei Tang) viverá o papel da elegante senhora Mai Tai Tai para se infiltrar nas hostes inimigas. Isso dá ensejo a uma dupla e talentosa representação da jovem Wei Tang, que brilha no filme. Tanto quanto o já veterano Tony Leung (conhecido principalmente pelos filmes de Wong Kar Wai), no papel do Sr. Yee, um político com alto posto no governo colaboracionista chinês junto aos japoneses.

Uma história de desejo, amor e traição será vivida por eles. Parece banal? Aparentemente sim, mas não é. A trama evolui, gerando muitos lances surpreendentes, questões éticas, enquanto se mostram os modos de vida, comportamentos e valores, em meio a uma cuidadosa reconstituição de época. O filme envolve e encanta, enquanto a trama nos prende, e o tempo passa sem que se perceba. A agilidade da filmagem que, sem jogar areia nos olhos do espectador, mostra, sob os mais variados ângulos, climas e cores, o que se passa no interior dos personagens e no seu contexto externo. A sutileza das interpretações vai revelando os sentimentos e as ambiguidades, sem deixar de alimentar expectativas e segredos até o final da película.

Eu destacaria, em especial, uma cena: a do assassinato de um colaboracionista que descobre o que não poderia. Ali se mostra como uma morte não é uma coisa simples, nem fácil de acontecer. Não se morre facilmente, não basta uma facada, nem duas. Não estamos no terreno dos tiros certeiros que matavam índios às dúzias, como nos westerns tradicionais. Essa cena de “Desejo e perigo” nos remete a uma outra famosa cena de Hitchcock, em “Cortina rasgada”, quando uma morte demora a se consumar, com direito a cabeça metida em forno quente. Há também cenas de sexo muito belas, tomadas alternadamente por todos os planos e ângulos, percorrendo todo o ambiente onde se dá o relacionamento sexual, revelando o algo mais que existia ali, para além do planejado ou esperado.

Ang Lee, depois dos êxitos de “O segredo de Brokeback Mountain” e “O tigre e o dragão”, se volta para as suas origens chinesas para revisitar a história, valendo-se de um conto tão belo quanto cheio de dor e crueldade, de Eileen Chang. O resultado é cinema de qualidade e que deve obter boa comunicação com a platéia brasileira, além de trazer algumas informações que ajudam a esclarecer o lado oriental da Segunda Grande Guerra, menos conhecido por aqui.

A versatilidade do diretor é notável. Basta lembrar alguns de seus primeiros filmes, como “Comer, beber e viver” ou “Banquete de casamento”, que focalizam aspectos culturais da China (Hong Kong e Taiwan), dialogando com o mundo ocidental, até o já citado “Brokeback Mountain”, um faroeste gay bem norte-americano ou o tipicamente inglês “Razão e sensibilidade” ou ainda o drama intimista “Tempestade de gelo” , em contraste com o espadachim de “O tigre e o dragão”, para perceber que Ang Lee se move com desenvoltura pelos mais diversos universos cinematográficos. E, geralmente, se sai muito bem, como é o caso desse “Desejo e perigo”.

domingo, 26 de abril de 2009

Divã

Tatiana Babadobulos

Adaptação do livro de Martha Medeiros, que já foi adaptado no teatro, "Divã" agora estreia nos cinemas com Lília Cabral no papel principal. Dirigido por José Alvarenga Jr., o mesmo responsável por "Os Normais - O Filme". Além dela, completam o elenco José Mayer, Reynaldo Gianecchini e Cauã Reymond.

"Divã" trata da história Mercedes, uma carioca de 40 anos (ou talvez mais), que está passando pela crise da idade, e resolve procurar um analista para ver se algo está errado em sua vida.

O filme começa exatamente neste ponto. Quando ela entra no consultório do dr. Lopes (que não aparece, está sempre de costas, apenas fazendo gestos com a cabeça). Os diálogos, que na verdade são monólogos, são feitos pela protagonista que adivinha e informa ao espectador o que o especialista está dizendo/pensando.

Intercalando imagens do consultório com a própria vida, o filme vai mostrando aos poucos quem é Mercedes, o que ela faz, com o que trabalha, como vive e o que a perturba. No decorrer da fita, o espectador vai descobrir que ela é casada com o personagem interpretado por José Mayer, que geralmente não lhe dá atenção, uma vez que suas "crises acontecem sempre nas finais do futebol". O casal está junto há mais de vinte anos e tem dois filhos. Professora de matemática, Mercedes dá aulas particulares e, nas horas vagas, se dedica às artes plásticas, sua atual vocação.
Filosofando a respeito dos desejos que tem, informa que pinta aquilo que lhe falta. Na terapia, ela também trata da morte da mãe que aconteceu quando tinha apenas oito anos. E depois ela parte para o ataque, para acabar com aquilo que lhe traz infelicidade.

Nem tudo é drama, porém. Embora o longa trate das dores de se ter 40 anos, de ter tantos anos de casada, a personagem aproveita esses percalços para fazer graça, para se livrar de alguns preconceitos e de coisas convencionais. Ao contrário. Mercedes é fora do comum. Ao lado da amiga Mônica (Alexandra Richter), as duas comentam sobre como lidar com os respectivos maridos, por exemplo, quando eles arrumam uma amante. E é a partir dessas conversas que ocorre o desenrolar da história, que vai acompanhar a vida das duas que possuem personalidades opostas.

Um dos momentos que tenta ser engraçado (mas não consegue ser o tanto quanto deveriam) é a passagem que acontece no salão de cabeleireiros e o profissional praticamente defende uma tese do motivo pelo qual a cliente lhe pediu para repicar o cabelo. A tentativa da explicação é boa, mas faltava um pouco mais.

Outra cena que não atinge a expectativa é a cena da boate, quando ela vai para a balada com o garotão e começa a dançar, falar gírias sem parar, de modo que ambos pareçam ter a mesma idade. Um pouco mais adiante há uma cena dantesca que se passa no banheiro e chega a ser risível.

Alvarenga peca em alguns momentos, mas principalmente porque ele pincela demais, e não se aprofunda em nenhuma situação. O mesmo acontece quando Mercedes conhece Theo (Gianecchini) e Murilo (Reymond). E esse é um dos problemas do filme, que não prende a atenção do espectador.

"Divã" é uma história caricata, feita de maneira convencional, com personagens previsíveis. Lília Cabral consegue segurar a trama quando está em cena, empresta sua personalidade e sua experiência a Mercedes, mais ainda assim lhe falta algo que não foi inserido no contexto para dar a liga perfeita.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Um Louco Apaixonado


Tatiana Babadobulos

Na bilheteria, “Um Louco Apaixonado” (“How to Lose Friends & Alienate People”) não foi nada bem. Estreou em 27 de março e, menos de um mês depois, ele já saiu de cartaz. O problema, em minha opinião, não é porque o filme é ruim. Ao contrário. Gosto do humor inglês interpretado pelo protagonista Sidney Young (Simon Pegg). No filme, ele faz um jornalista da revista Post Modern Reviews, cujo esporte favorito é ironizar e flagrar gente famosa em atos obscenos. A redação funciona em uma sala bagunçada. No entanto, sua sorte começa a mudar quando o editor de uma revista de grande circulação em Nova York o convida para trabalhar e levar o seu humor ácido junto.

Daí pra frente já dá para imaginar o que vai acontecer, mas o mais interessante são os diálogos engraçados, o bom humor presente quando está em cena, as confusões que causa com sua musa Sophie Maes (Megan Fox). Mas é com a jornalista Alison Olsen (Kirsten Dunst) que ele aprende a lidar com as celebridades norte-americanas e a correr atrás do seu verdadeiro sonho.

Dirigido por Robert B. Weide, que praticamente está estreando no cinema, uma vez que ele havia feito séries de televisão e apenas um filme, que na verdade foi um documentário em preto e branco, um dos problemas de “Um Louco Apaixonado”, em primeiro lugar, foi a troca do título.

Não me canso de perguntar por que a distribuidora brasileira não optou pelo título literal, uma vez que a fita é baseada em um livro que também foi publicado no Brasil sob o título “Como Fazer Inimigos e Alienar Pessoas”, de Toby Young (Editora Record, 384 páginas, R$ 41)?

Não li o livro ainda (ele está na mesa de cabeceira), mas o filme tem um final piegas. Durante o tempo todo ele vai bem, mas no final escancara a pieguice na tela. Ainda assim, é um filme divertido, bom para rir das trapalhadas do personagem que tira sarro das celebridades, usa o humor sarcástico para debochar de Hollywood e das revistas de fofoca. Pena que o público não entendeu e, portanto, não prestigiou a produção.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

SINÉDOQUE – NOVA YORQUE



Antonio Carlos Egypto

Se a vida, como se costuma dizer, é uma representação e se desempenhamos papéis continuamente, que tal transformá-la numa grande peça de teatro, que se amplia sempre e ocorre em paralelo à própria vivência? É o que se propõe o diretor teatral Caden Cotard, vivido pelo ator Philip Seymour Hoffman, no filme “Sinédoque – Nova Yorque”, de Charlie Kaufman, de 2009.
Sua peça-vida extrapola qualquer limite, embaralha atores e personagens, uns interferindo nos outros, quem sabe em busca de um sentido. O fato é que a transitoriedade da vida nos leva a tentar desesperadamente entender a morte e o papel que desempenhamos enquanto estamos vivos. E é humano pensar em produzir algo grandioso que possa marcar a passagem de cada um por essa vida, com todos os riscos aí implicados. É disso que se trata.
O primeiro filme dirigido por Charlie Kaufman (roteirista de “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”, de 2004, e “Quero ser John Malkovich”, de 1999, entre outros) é intrigante o suficiente para nos fazer pensar na existência, seu sentido e sua finitude. É, portanto, um produto aberto à reflexão. Com efeito, sua trama dispensa o realismo, mas não a verossimilhança com as vivências humanas. Não é um sonho ou um delírio, embora haja elementos tanto oníricos quanto delirantes na sua expressão. Conta uma história, na medida em que a vida de qualquer um, seus percalços, indecisões, medos e dúvidas, acaba sendo sempre uma história. Ainda que comporte diferentes visões, compreensões, percepções, e possa ser o relato das omissões, do que se pretendeu fazer e não se fez, do que se imaginou, se desejou ou se confundiu.
Uma galeria de mulheres frequenta a vida e a peça de Caden e seus problemas de relacionamento, dando margem a papéis femininos muito curiosos e variados. Catherine Keener, Samantha Morton, Michelle Williams, Emily Watson, Diane West, Jennifer Jason Leigh e Hope Davis são as atrizes que dão vida, e competentemente, a esses personagens.
E, afinal, por que sinédoque? Uma figura de linguagem que joga com a idéia do todo pela parte ou vice-versa, ou que faz a comparação de coisas que ocorrem simultaneamente, como a peça e a vida. A peça pela vida ou a vida pela peça. Está claro? Também não é necessário que fique claro, já que o próprio diretor espera que cada espectador faça sua leitura do filme e conclua as coisas mais diversas. Ele tem razão e isso dá a dimensão das possibilidades desta película muito estimulante e que ultrapassa as medidas do mero entretenimento.

quinta-feira, 12 de março de 2009

ENTRE OS MUROS DA ESCOLA


Antonio Carlos Egypto


O filme de Laurent Cantet “Entre os muros da escola” (Entre les murs), França, 2008, se insere na tendência da atualidade cinematográfica que borra as fronteiras entre ficção e documentário. Algo que o cinema iraniano explorou bem e que teve um ponto alto em “Jogo de Cena”, de Eduardo Coutinho. Afinal, o que estamos vendo é real ou representação?

O texto foi escrito por um educador (François Bégaudeau), que é o protagonista do filme, um professor tarimbado. Seus colegas de trabalho e sobretudo seus alunos são tão verdadeiros e tão facilmente reconhecíveis que nos fazem crer que a realidade está lá, sem produção ou disfarce. Como se fosse possível filmar sem alterar os comportamentos das pessoas.

Quem trabalha, ou trabalhou, em escola e se envolveu genuinamente com o ato de aprender e ensinar imediatamente se identifica com o filme. E com a escola como instituição, suas possibilidades, seus limites, suas decepções e sua vitalidade.

A tarefa educativa é complexa, cheia de meandros e, por mais consciência que se tenha do processo, domínio de si mesmo e a melhor das intenções, é fácil escorregar e arriscar pôr muita coisa a perder. O que é justo e ético comporta frequentemente grandes questionamentos no dia-a-dia escolar. Qual o limite entre o acolhimento, a compreensão, o investimento no crescimento do educando e o descumprimento de normas, o enfrentamento, a agressividade e o descomprometimento de alguns alunos? Com um complicador a mais: o trabalho é coletivo, não individual. Muitas vezes, a decisão do grupo pode estar equivocada. E como saber qual seria a melhor alternativa, quando as há?

Tudo isso e muito mais está presente, e com muita força, no filme de Cantet. Situações muito bem colocadas, diálogos ótimos, conflitos apenas esboçados ou claramente explicitados, o manejo delicado de cada momento exposto em cada cena, compõem um conjunto que nos leva a vivenciar o que é realmente a educação. Mostrar a grandeza desse trabalho no cotidiano, sem se valer de verdades estabelecidas nem pregações de nenhuma espécie, produz o que é a essência do processo educativo: o fazer pensar, a reflexão. O que o professor protagonista realiza todo o tempo na sua sala de aula é o que o filme constrói para o espectador.

Bem, mas e as especificidades da situação francesa, a diversidade de culturas e etnias que se vê ali, naquela sala de aula que, segundo o diretor do filme, é um microcosmo da sociedade? Esse é também um aspecto importante da película, mas a revelação do processo educativo, tal como ele se dá, quando há empenho e dedicação nessa atividade, não apenas interesses comerciais ou falta de opções, é o que faz o filme ser tão convincente e o que dá a dimensão maior do trabalho cinematográfico aqui realizado.

Africanos, chineses, antilhanos, árabes, judeus, muçulmanos e toda a diversidade possível que encontramos enriquecendo a convivência social, apesar de todos os conflitos que podem produzir, acabam por se equiparar no cotidiano educativo às infinitas variações que encontramos em cada aluno ou aluna, ainda que possam pertencer ao mesmo extrato cultural ou econômico. O desafio de lidar com a diversidade está na essência da ação de cada educador. Assim como as frustrações pelos inevitáveis insucessos. Quem não suporta frustrações ou quer resultados imediatos não consegue ser educador. O processo é longo e demorado. Penoso e desanimador, tantas vezes. Mas é aí que está a chave para a promoção do desenvolvimento humano e a conquista de uma vida melhor, numa sociedade mais harmônica e equilibrada.

Em “Ser e Ter” (Être et Avoir), de Nicolas Philibert, de 2002, vimos um documentário que mostrava o encanto de educar, com um método inovador e um professor especialmente hábil para lidar com grandes diferenças de idade, conhecimento e vivências, ensinando as mais variadas matérias. Estávamos numa escola rural, de classe única, com professor polivalente. Ali havia uma proposta a ser entendida e, talvez, avaliada. Em “Entre os muros da escola”, de Laurent Cantet, não há propriamente uma proposta ou um método. O que se vê é a essência do fazer educativo numa boa escola, parecida com todas as suas congêneres pelo mundo, onde os professores enfrentam inevitavelmente os problemas de sempre. Não há respostas nem soluções definitivas, mas há uma profunda crença no ato cotidiano de educar.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Sexualidade e Transgressão no Cinema de Almodóvar

Tatiana Babadobulos

Cinéfilo desde sempre, frequentador assíduo da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, pós-graduado em Crítica de Cinema pela Faap e um dos autores do blog Cinema com Recheio, Antonio Carlos Egypto será o professor responsável pelo curso “Sexualidade e Transgressão no Cinema de Almodóvar”, que acontecerá no Planeta Tela, de 18 de março a 20 de maio.

Psicólogo educacional e clínico e sociólogo, Egypto conta, em entrevista, um pouco sobre o curso indicado “a todas as pessoas que gostem de cinema, especialmente do cinema do espanhol Pedro Almodóvar”, autor de filmes como “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, “Má Educação”, “Fale com Ela”, “Tudo Sobre Minha Mãe”.

Mais informações sobre o curso podem ser encontradas no site do Planeta Tela.


Como surgiu a ideia do curso sobre a sexualidade e a transgressão na obra de Pedro Almodóvar?
Foi em decorrência de dois anos de estudos sobre o cinema de Pedro Almodóvar, que é um grande autor da contemporaneidade cinematográfica e que sempre me interessou muito. Esse estudo resultou na monografia de conclusão do curso de pós-graduação em “Crítica de Cinema”, na Faap, e pretendo publicá-la em livro, assim que encontrar editora.

Como será o curso?
Tratará da obra cinematográfica de Almodóvar em todos os longas-metragens do diretor lançados comercialmente, focalizando a sexualidade e a transgressão no seu cinema, por meio da apresentação e debate de cenas de seus filmes, distribuídas em 10 aulas semanais, às quartas-feiras, à noite.

Quais os filmes serão estudados?
Trataremos de toda a sua filmografia, enquanto isso ainda é possível, já que são 16 filmes e outro está a caminho. Acredito que o trabalho dele é absolutamente coerente, desde os primeiros, produzidos na efervescência do movimento cultural da movida madrilenha que se seguiu à morte de Franco, até hoje.

Por meio de personagens surpreendentes, tramas improváveis e misturando gêneros cinematográficos, ele celebra a diversidade sexual e humana, combate tabus e preconceitos e descarta todos os tipos de moralismo, com muito humor e uma perspectiva positiva diante da vida, sem ingenuidade e com consciência clara dos problemas a enfrentar. Sua postura ideológica permanece ao longo de toda a sua obra, que amadurece, se sofistica e ganha em ternura e profundidade. Mas pretendo mostrar que o autor Almodóvar de “Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón” ou “Labirinto de Paixões” tem a mesma visão de mundo do autor de “Tudo Sobre Minha Mãe” ou “Volver”. Só que com a idade a gente enxerga outras coisas, avalia melhor o peso que as coisas têm e isso acaba produzindo um trabalho mais maduro e com mais densidade.

Além de sexualidade e transgressão, você também aponta a relação entre a obra de Almodóvar e o franquismo. Por quê?
Na verdade, a transgressão almodovariana é filha do franquismo, foi gestada como reação radical e absoluta ao obscurantismo e à opressão que o ditador impôs à Espanha durante 36 anos. Para entender bem o cinema de Almodóvar, é preciso compreender o que foi o regime de Franco e tudo o que ele produziu de consequências, que ainda estão lá, na Espanha democrática e pluralista de nossos dias, cuja história ainda está se buscando resgatar e envolve milhares de mortos sem sepultura.

A quem o curso é destinado?
A todas as pessoas que gostem de cinema, especialmente do cinema de Pedro Almodóvar. E que gostem de conversar e trocar ideias sobre cinema, sem necessitar de conhecimentos específicos prévios. Pretendo que o curso seja bem participativo, não algo meramente expositivo. É dessa troca que acho que podem sair coisas boas, reflexões interessantes.

Vamos tratar também da metalinguagem, ou seja, o cinema dentro do cinema em Almodóvar. Essas cenas também serão objetos de análise no curso.