Antonio Carlos Egypto
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| Minotauro |
MINOTAURO (Minotaur).
França/Alemanha/Letônia 2026.
Direção: Andrey Zvyagintsev.
Elenco: Dimitri Mazourov, Irís Lebedeva, Boris Koudrine, Yuriy
Zavalnyouk. 135 min.
O diretor Andrey Zvyagintsev, de filmes importantes, como”Leviatã”, 2014,
realiza em “Minotauro” uma obra maiúscula.
Ela combina a trama do filme “Mulher Infiel”, de Claude Chabrol
(roteirista e diretor), com a realidade atual da guerra que envolve a Rússia e
a Ucrânia. No interior da Rússia,
exige-se que as grandes empresas designem funcionários para o esforço de guerra
(ou da intervenção, na linguagem russa).
Isso compromete a vida financeira das empresas. O protagonista Gleb
(Dimitri Mazourov) tenta passar ao largo dessas exigências e busca manter o seu
status burguês. Status esse
feito de aparência. Seu casamento com
Galina (Irís Lebedeva), com quem tem um filho adolescente, está há muito
falido. Assim como as amizades que o
casal cultiva (ou ele, ao menos). Ainda
assim, Gleb vai em busca de punir a infidelidade da esposa e aí é que seu mundo
sucumbe e as monstruosidades se revelam.
A violência explode nas relações pessoais, enquanto o papel do Estado
autoritário se impõe de forma destrutiva aos cidadãos. A própria instabilidade do casamento é
indicativa da deterioração social e de amarras de gênero, dos dois lados, que a
guerra faz colapsar. Um mundo marcado
por traição, vingança, desespero, violência de todo tipo, desencanto e
ruptura. Que um grande cineasta
conseguiu transformar num filme inteligente e empolgante, de suspense e
político, que entusiasma.
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| O Homem Mais Solitário da Cidade |
O HOMEM MAIS SOLITÁRIO
DA CIDADE (The Loneliest Man in Town). Áustria, 2026. Direção: Tizza Covi e Rainer Frimmel. Elenco:
Alois Koch, Brigitte Meduna, Alfred Blechinger, Flurina Schneider. 86 min.
Ao contar a história do personagem Al Cook, um homem idoso vivendo na
solidão, mas com um belo passado cultural por trás, de músico e criador, que se
vê diante do desmoronamento literal de sua vida, o filme vai fundo na questão
da velhice. Quem chega a idades
avançadas, acumulando maravilhas que já não valem o que um dia valeram, que vê
seus interesses e valores postos de lado pela sociedade, vive e cultiva
lembranças, memórias. Mas também sonhos
de juventude. Quando seu próprio
apartamento estará brevemente em demolição, como sobreviver agora? Suportando uma Viena conservadora que já não
lhe diz nada ou indo atrás do antigo amor pelo blues, quem sabe mudando-se para os Estados Unidos? Essa é a questão aparente. Mas qual é o sentido da vida na velhice? O que nos move? O que nos sustenta? Quando não há outras pessoas ao lado em que
se possam projetar sonhos e projetos?
Qual é a força motriz interna que nos mantém e como fica a situação
quando as condições externas mudam irremediavelmente? Quando um mundo construído ao longo de tantos
anos parece perder o sentido? Um filme
que mexe com as pessoas que cultivam sua própria sensibilidade, sejam jovens ou
idosos. Trabalha com as emoções e é
cheio de humanidade. Além de contar com
um ator brilhante como protagonista: Alois Koch.
Documentários curtos, mas encantadores, compõem uma das sessões
deliciosas da Mostra 50: “JOY OF JOYS” + “A SOMBRA DE TURIM”.
JOY OF JOYS, do Reino Unido,
dirigido por Jonathan Glazer e Nica Levi, 38 minutos, nos leva aos famosos
estúdios de Abbey Road, em Londres.
Crianças vão lá, ver e filmar o desempenho de músicos em ensaios e
gravações, enquanto filmam a si mesmas, naquele ambiente tão cheio de
equipamentos sofisticados e sons tão marcantes.
Ao mesmo tempo, o doc mostra também crianças filmando em Gaza, na
Ucrânia, no Sudão e no Iêmen, registrando a si mesmas e o ambiente que as
cerca, incluindo os destroços de guerras, fazendo um contraste com a beleza da
música. Mas crianças brincam alegres,
tanto num ambiente quanto nos outros.
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| A Sombra de Turim |
Em A SOMBRA DE TURIM (Du Ling
Zhi Ying), do talentosíssimo diretor chinês Jia Zhang Ke, 32 minutos, é a
cidade italiana de Torino que se destaca.
A cidade é muito bonita e tem um dos mais belos museus de cinema do
mundo. Que está numa torre belíssima e
se destaca em toda a cidade. E que é um
deslumbramento, visto de dentro. Já tive
a oportunidade de fazer essa visita.
Adorei revê-la pelas lentes e enquadramentos de Zhang Ke. Além disso, ele homenageia o cinema em geral,
principalmente o italiano, e o de grandes autores. Lindo de ver.
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| Lorca:A Voz Partida |
LORCA, A VOZ PARTIDA (Lorca: La Voz Quebrada). Espanha, 2026. Direção: Manuel Menchón. 90 minutos.
O documentário “La Voz Quebrada” realiza, com um apuro visual bem
sofisticado, uma abordagem da vida de Federico García Lorca (1898-1936) ainda
não explorada, apesar de tudo o que já se produziu sobre essa que é uma das
maiores figuras da história da cultura espanhola. A partir de documentos inéditos: cartas,
poemas, recordações, o filme conta a tragédia do último amor de García Lorca, o
jovem Juan Ramiro de Lucas. Por 90 anos,
essa relação homossexual proibida e um plano de fuga para o México nunca tinham
vindo à luz. Juan, no entanto, antes que
morresse, queria que sua história finalmente se tornasse pública. O filme dá voz a Juan, para que ele relate
seu relacionamento com Lorca, de quem, segundo diz, nunca deixou de lembrar nem
em um único dia de sua longa vida. O
documentário, porém, vai muito além disso, recuperando imagens da vida de
Lorca, dando voz também a ele por meio do que escreveu e destacando ainda sua
obra e sua batalha humana e política.
Mostra o que veio com a Guerra Civil Espanhola. A opressão, a matança, e toca na destruição
das identidades étnicas. Enfim, a
tragédia que a Espanha viveu, antes mesmo da Segunda Guerra Mundial. A ascensão do nazifascismo, aqui bem
explorada, infelizmente nos remete aos perigos atuais. Como se os anos 1930 estivessem de
volta. Como diria Marx: a história se
repetindo na forma de farsa.
@mostrasp #mostrasp #50mostra




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