quinta-feira, 29 de outubro de 2026

FAVORITOS DA MOSTRA 50

Antonio Carlos Egypto

 


FJORD.  Romênia, Noruega, 2026.  Direção de Cristian Mungiu.  Elenco: Sebastian Stan, Renate Reinsve, Lisa Carlehed, Ellen Dorrit Petersen. 146 min.

 

O cinema de Cristian Mungiu (de “4 meses, 3 semanas e 2 dias”, de 2007, e “Além das Montanhas”, de 2012) é de um realismo complexo e aberto a questões polêmicas.  A construção da sua narrativa cinematográfica é minuciosa, vai mostrando aos poucos o que está por trás do que se diz e se faz e as implicações éticas e morais decorrentes disso.  Em “Fjord”, referindo-se aos fiordes noruegueses, perto de onde vive uma família romena, numa pequena comunidade da Noruega, há uma série de confrontos entre tradição e modernidade, diferenças culturais e dilemas morais.  Há, por exemplo, a diferença de valores, costumes, leis e tratamento do Estado frente aos cidadãos.  Um Departamento do Estado norueguês que pretende proteger as crianças de abusos e violências tem uma força política imensa, que lhe permite agir até de forma autoritária, em nome do maior avanço no respeito aos valores e à diversidade na sociedade.  Se isso acontece, onde está o problema?  Como se chegou a isso?  Outra questão é a da laicidade do Estado.  Como conviver com uma família que revela um tanto de fanatismo em suas crenças religiosas numa escola pública que rejeita qualquer direcionamento religioso?  Como fica a liberdade de pensamento e expressão nesse caso?  Os limites entre valores sociais cultivados pelo Estado e os valores familiares podem conviver em harmonia?  Em alguns casos, como o explorado no filme, é bem difícil.  Acompanhar a trama de “Fjord” nos leva, inevitavelmente, a pensar nos dilemas envolvidos nessas escolhas e em outras, similares.  Exige de nós, espectadores, reflexões importantes.  Um grande e poderoso filme, que levou merecidamente a Palma de Ouro em Cannes.

 


AMOR POSSÍVEL (Ganeunghan Sarang).  Coreia do Sul, 2026.  Direção: Lee Chang-dong.  Elenco: Jeon Do-yeon, Sul Kyujng-go, Zo In-sung, Cheo Yeo-jeong.  164 min.

 

Um filme muito bem conduzido sobre a dinâmica de dois casais de classes sociais muito diferentes.  De um lado, um operário recém demitido de uma fábrica importante e destacada, que atua em greves e na luta sindical, com sua mulher e seu filho pequeno.  Gente que passa muitas dificuldades financeiras e privações.  De outro, um casal abastado, ele, um charmoso milionário, investidor financeiro e operador da Bolsa, com um estilo de vida luxuoso, e sua mulher, que atua como documentarista e se interessa por conhecer e registrar essa questão social dos demitidos, quando ocorre uma morte.  O encontro dos casais, o conflito latente, os desejos muitos distintos de um lado e de outro, o que os aproxima e gera ruído e como questões materiais e existenciais se conectam, são elementos centrais de “Amor Possível”.  A filmagem da cineasta entrando na vida do casal pobre, que acaba tendo visão e acesso a coisas impensáveis, movimenta tudo em diversos sentidos.  O filme trabalha as relações humanas em contexto social e sua inevitável imbricação com a situação coletiva, mas o faz a partir dos elementos da intimidade que a reflete.  A trama, muito bem urdida, e o trabalho dos atores e atrizes são pontos fortes do filme de Lee Chang-dong.  Produção Netflix.

 


LOOK BACK.  Japão, 2026.  Direção de Hirokezu Kore-eda. Elenco: Natsuki Deguchi, Aju Makita, Furi Nanase, Kayo Noro.  100 min.

 

Kore-eda é o principal cineasta japonês da atualidade. Já tem uma vasta obra de grandes filmes. Tem muita capacidade de lidar com os afetos por meio de personagens sempre atraentes e marcantes.  Não é diferente com as meninas Fujino e Kyomoto, adolescentes talentosas como desenhistas e criadoras de mangás.  Fujino é autoconfiante, extrovertida e muito ativa.  Kyomoto, ao contrário, é embutida e reclusa.  Ambas acabarão se encontrando a partir de publicações escolares de seus mangás e vão caminhar juntas rumo à profissionalização.  O filme é terno, delicado e com belos enquadramentos, além de sequências visualmente irreparáveis, vinculadas à trama.  Nos primeiros filmes que vi de Kore-eda me incomodava um pouco a sem-cerimônia com que ele cria situações inverossímeis dentro da narrativa, para explorar o tema que lhe interessa.  Ele faz isso aqui também quando Kyomoto faz vários anos do que seria o nosso ensino fundamental sem sair de seu quarto, nem para receber o diploma (obtido on line?).  Não importa, era só o mote de que ele precisava para juntar as duas personagens.  Todo o resto flui magnificamente bem.

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Eu já abordei vários filmes que considerei destaques nas postagens anteriores sobre a Mostra 50, lembrando que alguns daqueles destaques já estarão em cartaz nos próximos dias nos cinemas, como o excelente “Na Terra de Meu Pai” e “Minotauro”.  A Mostra ainda estará exibindo uma repescagem até o dia 04 de novembro.

 

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