Antonio Carlos Egypto
FJORD. Romênia, Noruega, 2026. Direção de Cristian Mungiu. Elenco: Sebastian Stan, Renate Reinsve, Lisa
Carlehed, Ellen Dorrit Petersen. 146 min.
O cinema de Cristian Mungiu (de “4 meses, 3 semanas e 2 dias”, de 2007, e
“Além das Montanhas”, de 2012) é de um realismo complexo e aberto a questões
polêmicas. A construção da sua narrativa
cinematográfica é minuciosa, vai mostrando aos poucos o que está por trás do
que se diz e se faz e as implicações éticas e morais decorrentes disso. Em “Fjord”, referindo-se aos fiordes
noruegueses, perto de onde vive uma família romena, numa pequena comunidade da
Noruega, há uma série de confrontos entre tradição e modernidade, diferenças
culturais e dilemas morais. Há, por
exemplo, a diferença de valores, costumes, leis e tratamento do Estado frente
aos cidadãos. Um Departamento do Estado
norueguês que pretende proteger as crianças de abusos e violências tem uma
força política imensa, que lhe permite agir até de forma autoritária, em nome
do maior avanço no respeito aos valores e à diversidade na sociedade. Se isso acontece, onde está o problema? Como se chegou a isso? Outra questão é a da laicidade do
Estado. Como conviver com uma família
que revela um tanto de fanatismo em suas crenças religiosas numa escola pública
que rejeita qualquer direcionamento religioso?
Como fica a liberdade de pensamento e expressão nesse caso? Os limites entre valores sociais cultivados
pelo Estado e os valores familiares podem conviver em harmonia? Em alguns casos, como o explorado no filme, é
bem difícil. Acompanhar a trama de
“Fjord” nos leva, inevitavelmente, a pensar nos dilemas envolvidos nessas
escolhas e em outras, similares. Exige
de nós, espectadores, reflexões importantes.
Um grande e poderoso filme, que levou merecidamente a Palma de Ouro em
Cannes.
AMOR POSSÍVEL (Ganeunghan Sarang). Coreia do Sul, 2026. Direção: Lee Chang-dong. Elenco: Jeon Do-yeon, Sul Kyujng-go, Zo
In-sung, Cheo Yeo-jeong. 164 min.
Um filme muito bem conduzido sobre a dinâmica de dois casais de classes
sociais muito diferentes. De um lado, um
operário recém demitido de uma fábrica importante e destacada, que atua em
greves e na luta sindical, com sua mulher e seu filho pequeno. Gente que passa muitas dificuldades
financeiras e privações. De outro, um
casal abastado, ele, um charmoso milionário, investidor financeiro e operador
da Bolsa, com um estilo de vida luxuoso, e sua mulher, que atua como
documentarista e se interessa por conhecer e registrar essa questão social dos
demitidos, quando ocorre uma morte. O
encontro dos casais, o conflito latente, os desejos muitos distintos de um lado
e de outro, o que os aproxima e gera ruído e como questões materiais e existenciais
se conectam, são elementos centrais de “Amor Possível”. A filmagem da cineasta entrando na vida do
casal pobre, que acaba tendo visão e acesso a coisas impensáveis, movimenta
tudo em diversos sentidos. O filme
trabalha as relações humanas em contexto social e sua inevitável imbricação com
a situação coletiva, mas o faz a partir dos elementos da intimidade que a
reflete. A trama, muito bem urdida, e o
trabalho dos atores e atrizes são pontos fortes do filme de Lee Chang-dong. Produção Netflix.
LOOK BACK. Japão, 2026.
Direção de Hirokezu Kore-eda. Elenco: Natsuki Deguchi, Aju Makita, Furi
Nanase, Kayo Noro. 100 min.
Kore-eda é o principal cineasta japonês da atualidade. Já tem uma vasta
obra de grandes filmes. Tem muita capacidade de lidar com os afetos por meio de
personagens sempre atraentes e marcantes.
Não é diferente com as meninas Fujino e Kyomoto, adolescentes talentosas
como desenhistas e criadoras de mangás.
Fujino é autoconfiante, extrovertida e muito ativa. Kyomoto, ao contrário, é embutida e
reclusa. Ambas acabarão se encontrando a
partir de publicações escolares de seus mangás e vão caminhar juntas rumo à
profissionalização. O filme é terno,
delicado e com belos enquadramentos, além de sequências visualmente
irreparáveis, vinculadas à trama. Nos
primeiros filmes que vi de Kore-eda me incomodava um pouco a sem-cerimônia com
que ele cria situações inverossímeis dentro da narrativa, para explorar o tema
que lhe interessa. Ele faz isso aqui
também quando Kyomoto faz vários anos do que seria o nosso ensino fundamental
sem sair de seu quarto, nem para receber o diploma (obtido on line?). Não importa, era
só o mote de que ele precisava para juntar as duas personagens. Todo o resto flui magnificamente bem.
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Eu já abordei vários filmes que considerei destaques nas postagens
anteriores sobre a Mostra 50, lembrando que alguns daqueles destaques já
estarão em cartaz nos próximos dias nos cinemas, como o excelente “Na Terra de
Meu Pai” e “Minotauro”. A Mostra ainda
estará exibindo uma repescagem até o dia 04 de novembro.
@mostrasp #mostrasp #50mostra



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