Antonio Carlos Egypto
O BOLO DO PRESIDENTE (Mamlaket
Al-Qasab). Iraque, 2025. Direção: Hasan Hadi. Elenco: Baneen Ahmed Nayef, Sajad Mohamad
Qasen, Waheed Thabet Khreibat, Rahin AlHaj.
102 min.
UMA INFÂNCIA ALEMÃ (Umrum). Alemanha, 2025. Direção: Fatih Akin. Elenco: Jasper Billerbeck, Laura Tonke,
Detlev Buk, Luisa Hagmeister, Diane Kruger.
93 min.
Dois filmes recentes, para adultos, com questões sérias, importantes, que
envolvem aspectos políticos, sociais e econômicos são protagonizados por
crianças, atores mirins. Um deles já
está em cartaz nos cinemas e passou na 49ª. Mostra Internacional de Cinema em
São Paulo: “O Bolo do Presidente”, do Iraque, dirigido por Hasan Hadi, tem a
atriz Baneen Ahmed Nayef, no papel de Lamia, de 9 anos de idade. O outro filme, que entra em cartaz ainda
neste mês de junho de 2026, é “Uma Infância Alemã”, produção alemã, dirigida
por Fatih Akin, protagonizada por Jasper Billerbeck, que interpreta o menino
Nanning, de 12 anos de idade.
Nos dois casos, os filmes giram em torno da criança protagonista, que é
quem conduz a trama onde a história se desenvolve. Claro que, entre um filme que se situa na
Alemanha, nos dias finais da Segunda Guerra Mundial, em 1945, e outro, que se
situa no Iraque, nos anos 1990, há diferenças evidentes. Porém, eles têm inúmeros pontos em comum.
Ambos se passam em locais dominados por regimes políticos autoritários,
ditatoriais. De um lado, Adolf Hitler,
de outro, Sadam Hussein. Ambos impõem
seus valores de forma arbitrária, que não permite contestações e exigem sacrifícios
de seu povo.
É por conta disso que Lamia, sorteada na escola por um professor, fica
obrigada a fazer o bolo de aniversário do presidente e que a escola está também
obrigada a festejar a data. Assim, Lamia
busca desesperadamente os ingredientes para fazer o bolo. E por que isso é difícil? Pela penúria da situação do Iraque e do
eminente declínio de Hussein, que precisa das festas de aniversários
recorrentes para encobrir o que não lhe interessa resolver, além de envolver o
povo no assunto. O filme se centra
especialmente nessa luta insana de Lamia para cumprir essa obrigação absurda,
nesse contexto social e político decadente.
Faltam os ingredientes, os preços são inalcançáveis para ela e sua
família. Há coisas que demandam muito
trabalho para conseguir ou exigem uma tal criatividade para ser alcançada no
tempo necessário que parece impossível a uma criança. Mas ela nunca desiste.
Enquanto isso, Nanning, o garoto que vive na ilha de Umrum, na Alemanha,
que vai perdendo a guerra, luta incessantemente para prover comida a sua
família. Preocupado especialmente com a
mãe, que amargura a queda de Hitler e não quer comer nada a não ser pão branco,
com manteiga e mel. Uma exigência quase
impossível naquela situação de absoluta carência e privação a que estavam
submetidos. Conseguir os ingredientes
para esse lanche aparentemente frugal é uma batalha muito custosa, quase
impossível. Farinha de trigo não existe
há tempos o açúcar, o mel e a manteiga, racionados. Mas ele se sente obrigado a atender à
necessidade materna a qualquer custo e não desiste, enquanto tenta por seus
parcos meios entender a guerra e os conflitos que atingem sua pequena
comunidade.
Impossível assistir a um filme sem lembrar do outro, pela similaridade da
situação que sustenta a história. E também
pelos atores mirins que os protagonizam.
Ambos muito verdadeiros nos seus desempenhos. Sem excessos, muito bem trabalhados. Eu vi agora “Uma Infância Alemã” e tinha
visto “O Bolo do Presidente” em outubro passado (não o revi agora). Mas as tramas são mesmo muito similares, nem
o tempo decorrido me fez deixar de notar isso.
Não é um demérito para nenhum dos filmes, que têm outros aspectos a
destacar também. Por exemplo, “O Bolo do
Presidente” nos mostra o Iraque visto de dentro, pelos artistas do país, o que
diferencia a visão que temos do contexto opressivo interno. E nos acrescenta informações complementares
importantes.
“Uma Infância Alemã” tem uma pegada mais artística, sequências
cuidadosamente concebidas, ainda que nem sempre compondo um todo orgânico, mas
muito bonitas de se apreciar. Conta com
uma fotografia reluzente e bela.
Se as histórias são parecidas, a forma de contá-las é diferente. Vale conferir.


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