sexta-feira, 30 de julho de 2010

Salt

Tatiana Babadobulos

Salt (Salt). Estados Unidos, 2010. Direção: Phillip Noyce. Roteiro: Kurt Wimmer. Com: Angelina Jolie, Liev Schreiber, Chiwetel Ejiofor , Daniel Olbrychski , August Diehl. 100 min.

Desde “Garota, Interrompida”, filme de 1999 que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz, Angelina Jolie não saiu mais do foco, seja no assunto do cinema, seja em sua vida pessoal, uma vez que faz trabalhos huma­nitários principalmente na África.

Embora o papel tenha sido bastante dramático, dali pra frente é nos de ação que ela tem se destacado, como em “Lara Croft: Tomb Raider”, “Sr. & Sra. Smith” (no qual atuou ao lado do marido Brad Pitt), “O Procurado”. Sexta-feira, dia 30 de julho, ela chega aos cinemas em mais uma superprodução: “Salt”.

No thriller, ela é Evelyn Salt, uma agente da CIA que é acusada de ser uma espiã russa e que foi designada para matar o presi­dente daquele país durante sua visita em Nova York. A partir de então ela precisa proteger o marido, convencer os colegas da agência de que é inocente, mas, sobretudo, colocar em ação suas crenças e promessas sobre sempre proteger o seu país.

Depois das apresentações dos personagens, quando o espectador vai conhecer um pouco da rotina da protagonista, o diretor Phillip Noyce (“O Colecionador de Ossos”) aponta as suas lentes para a correria sem fim, explosões e o armamento para ne­nhum filme de ação botar defeito. Aliás, cenas capazes de fazer inveja a super-heróis como Ho­mem-Aranha, já que ela sobe em prédios, salta entre carros, se joga do helicóptero etc.

Escrito por Brian Helgeland (“Sobre Meninos e Lobos”), o longa-metragem leva a espio­nagem a sério, diferentemente, por exem­plo, de “Encontro Explosivo” (“Knight and Day”), no qual o astro Tom Cruise é um agente secreto e conta com ajuda de June (Cameron Diaz) para a missão. Cheio de trapalhadas, encontros românticos e bom-humor, “Encontro Explosivo” só se parece com “Salt” em uma questão: cenas forçadas, daquelas que o espectador percebe que, de fato, está na pol­trona do cinema e não envolvido com o filme. A trilha sonora alta e incessante durante os 100 minutos do longa também incomoda o espectador.

Uma curiosidade: o filme, na verdade, fora escrito para Tom Cruise, mas Angelina Jolie teve de substituí-lo pois ele teve pro­blemas na agenda e também ficou com medo de o protagonista ser muito parecido com Ethan Hunt, de “Missão Impossível”, série que deve ganhar, em breve, a quarta parte.

Se em “Encontro Explosivo” há apelo tanto para o público mas­culino quanto feminino (por conta, é claro, dos atores principais e por lembrar uma comédia romântica), “Salt” é muito mais um filme indicado aos rapazes, já que reúne ação, explosões e, claro, a bela e sexy Angelina Jolie.

Nas bilheterias norte-americanas, praça onde o filme estreou no último final de semana, porém, a abertura não foi tão bem assim. Isso porque ficou em segundo lugar, atrás de “A Origem” (“Inception”), longa que estreia dia 6 de agosto no país.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

UMA NOITE EM 67


Antonio Carlos Egypto

UMA NOITE EM 67. Brasil, 2010. Direção: Renato Terra e Ricardo Calil. Documentário. 85 min.

“Uma Noite em 67”, documentário dirigido por Renato Terra e pelo crítico de cinema Ricardo Calil , resgata um dos períodos históricos mais ricos e criativos da música popular brasileira.

O final dos anos 1950 e o início dos anos 1960 trouxeram à MPB a revolução musical capitaneada pelo gênio de Tom Jobim e suas surpreendentes harmonias que, aliadas à poética inovadora do grande Vinícius de Moraes e à voz e o violão absolutamente originais de João Gilberto, fizeram a bossa nova, uma transformação tão fundamental que mudaria tudo o que viria depois dela. Eram os tempos do desenvolvimentismo de JK e do otimismo de um Brasil grande que se construía, em que louvar “o amor, o sorriso, a flor” em “barquinhos pelo mar, que deslizam sem parar” era maravilhoso.

Foi o sopro de mudança da bossa nova que pôs muita gente a estudar, tocar e cantar aquela música espantosamente moderna e gerou grandes talentos de compositores, que desaguariam nos famosos festivais de música brasileira da TV Record, da TV Excelsior e também nos Festivais Internacionais da Canção, da TV Globo. Entre eles: Chico Buarque, Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, Sérgio Ricardo, Milton Nascimento. Por outro lado, a revolução no rock internacional que viria dos Beatles resultaria na Jovem Guarda, de Roberto Carlos, Erasmo e Vanderléa, de enorme sucesso e boa qualidade.

Mas os tempos já eram outros, a ditadura militar se instalara, as liberdades iam sendo suprimidas cada vez mais, a partir de 1964, até a chegada do golpe final do Ato Institucional n○ 5, em 1968, e o mergulho nas trevas. 1967 foi um ano de inflexão desse processo. Os novos compositores já enfrentavam o desafio de burlar a censura e lutar pelas liberdades democráticas e o Estado de Direito. Era preciso, ainda, olhar para o povo oprimido, resgatar as expressões culturais do nordeste brasileiro, promover a música dos morros cariocas e daí por diante. “O sol, o sal e o mar” já não bastavam.

Com tanta coisa em jogo, a música tinha uma importância enorme e um espaço na mídia que jamais voltaria a obter. Geralmente música sofisticada, de alta qualidade, não combina com programas populares de TV, regidos por pesquisas de audiência. Mas nessa época combinavam. Tanto que uma linha de shows comandados por Elis Regina e Jair Rodrigues, Elizeth Cardoso e Ciro Monteiro, Chico Buarque e Nara Leão, Wilson Simonal, Caetano, Gil e Gal figuravam entre as atrações televisivas de maior audiência no horário nobre. Os festivais eram os momentos geradores desses programas e das músicas que viravam grandes êxitos populares, repetidas à exaustão.

O festival de 1967 da Record, em sua noite final, que é o objeto do documentário, trouxe a música altamente elaborada do ”Ponteio”, de Edu Lobo, de raiz nordestina e confecção erudita, que venceu a competição. E trouxe Caetano Veloso, com “Alegria, Alegria”, e Gilberto Gil, com a cinematográfica “Domingo no Parque”, lançando as bases do tropicalismo, inundando a MPB com guitarras elétricas, introduzindo Os Mutantes com Rita Lee e os Beat Boys, num desafio às convenções que chacoalharia novamente a música popular brasileira. Aconteceria, então, a aproximação com o rock brasileiro da Jovem Guarda de então, e a síntese que Jorge Ben seria capaz de fazer. Haveria o resgate de clássicos da música popular brasileira e a retomada de belas canções que a bossa nova deixara para trás, ampliando o gosto crítico e popular.

Nesse festival, Chico Buarque também iria brilhar, com sua magnífica “Roda Viva”, em que o ritmo, a letra e o andamento realizam a idéia da canção de forma cada vez mais envolvente. E Roberto Carlos cantaria um samba (muito bem, por sinal), “Maria, Carnaval e Cinzas”, de Luiz Carlos Paraná, recebendo vaias.

Foi também nesse festival que Sérgio Ricardo, bossanovista que assumia uma música de resistência política declarada, após compor a trilha do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha, tentava uma canção que falasse de futebol como expressão de cultura popular, até então pouco cantado na MPB. Seu “Beto Bom de Bola” foi mal recebido e muito vaiado. Sérgio Ricardo, descontrolado, quebra o violão e o joga para a platéia. Lembro-me até hoje da manchete do jornal “Notícias Populares” do dia seguinte, seguindo no seu estilo sensacionalista: VIOLADA NA PLATEIA.

Esse clima, essas músicas maravilhosas, essa paixão toda, está presente em “Uma Noite em 67”, contagiando o público como nos velhos tempos dos festivais. Os depoimentos colhidos contextualizam as questões envolvidas e o momento histórico. O resultado é digno do nosso melhor aplauso. Quem viveu, se emocionará em rever tudo isso. Quem não viveu, poderá entender o que era tudo aquilo e, certamente, vai curtir.

Foi uma festa bonita, inesquecível. Parabéns aos diretores, por nos trazê-la de volta em toda sua beleza e com todas suas urgências e contradições.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

À Prova de Morte


Tatiana Babadobulos

À Prova de Morte (Death Proof). Estados Unidos, 2007. Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Com Kurt Russell, Zoe Bell, Rosario Dawson, Vanessa Ferlito, Rose McGowan. 114 min.

Apresentado aos cinéfilos de plantão que se acotovelaram para conseguir um ingresso durante a 30ª Mostra Internacional de São Paulo, realizada em 2007, o filme “À Prova de Morte” (“Death Proof”), de Quentin Tarantino, finalmente vai estrear nos cinemas brasileiros. Após tanto tempo, o filme até virou motivo de chacota, quando a referência era um filme que demorava (literalmente) anos para entrar em cartaz.

A princípio, sua estreia fora prometida para março de 2008, mas começou a ser postergado até o fim de 2009, quando o diretor havia anunciado a sua vinda ao Brasil para o lançamento do grande sucesso "Bastardos Inglórios" se sentir cansado, Tarantino não veio e seu filme foi, novamente, para a gaveta. Após a mudança de distribuidor, uma vez que o filme pertencia à Europa Filmes, a PlayArte vai colocá-lo no circuito a partir desta sexta-feira, 16 de julho.

Nos Estados Unidos, onde o filme foi produzido, por exemplo, foi exibido nos cinemas ao lado da obra de Robert Rodriguez, “Planeta Terror” (filme que estreou no Brasil ainda em 2007, após a Mostra). Os dois, juntos, formaram o projeto “Grindhouse”.

Mas vamos ao que interessa. Na fita, Stuntman Mike (Kurt Russell) é um ex-dublê de corridas de carros em Hollywood que persegue mulheres com seu carro “à prova de morte”. Mas é no Texas que ele começa a seguir um grupo de mulheres conhecidas: a DJ e modelo Jungle Julia (Sydney Tamiia Poitier), que está saindo com suas amigas para a balada, a modelo Arlene (Vanessa Ferlito), a bad-girl Shanna (Jordan Ladd) e a hippie Pam (Rose McGowan). Depois do Texas, ele segue para o Tennessee, onde escolhe outro grupo de mulheres, todas que atuam no cinema: a maquiadora e figurante Abernathy (Rosario Dawson), a atriz (Mary Elizabeth Winstead), a dublê Kim (Tracie Thoms) e a também dublê Zoe (Zöe Bell), que vive na Nova Zelândia.

Mais uma vez, Tarantino, que é autor do roteiro, brinca com a câmera, abusa dos planos-sequências que o consagraram como diretor, principalmente após "Pulp Fiction – Tempo de Violência" (1994). A violência também é outro fator marcante na fita, tal como em "Kill Bill", volumes um e dois, produzidos respectivamente em 2003 e 2004, e novamente em “Bastardos Inglórios”.

Destaque para a atuação de Kurt Russell, que usa, na mesma proporção, seu charme para convencimento e seu sarcasmo para conquistar, seduzir e provocar medo entre as mulheres escolhidas.

Uma das cenas mais marcantes da fita e que valem destaque é a sequência na qual uma das mulheres é ameaçada de morte enquanto está no capô do carro. Ainda que a história seja bastante violenta, só esta sequência já vale o ingresso do cinema, principalmente para os fãs do diretor. Imperdível!

sexta-feira, 2 de julho de 2010

15 ANOS E MEIO


Antonio Carlos Egypto

15 ANOS E MEIO (15 Ans e Demi). França, 2008. Direção: François Desagnat e Thomas Sorriaux. Com Daniel Auteil, Juliette Lamboley, François Damiens, Julie Ferrier. 97 min.

Um cientista de reconhecido talento na sua área de atividades ou, mais do que isso, famoso e reverenciado por seus pares, se afasta da família, em função de pesquisas no exterior, por cerca de dez anos.

Se a relação conjugal já não se sustenta, resta uma filha desse casamento. Ele deixou de conviver com ela, quando ela tinha entre 5 e 6 anos de idade, e determinadas circunstâncias do momento vão fazê-lo retomar a função de pai, quando a filha terá os 15 anos e meio do título da película. Essa volta é bastante forçada na trama do filme, mas o mote da história é, inegavelmente, muito bom.

Se já é difícil ser pai de uma adolescente acompanhando seu crescimento e desenvolvimento, que dirá se essa responsabilidade se colocar abruptamente? Quem é essa menina agora, o que faz, do que gosta? Como conversar e se relacionar com ela? E mais: cuidar dela, educá-la. Certamente muitas confusões podem ser esperadas dessa situação.

A escolha da comédia para retratar tal desafio também parece adequada. Afinal, por meio do humor, de situações engraçadas e inusitadas, pode-se perceber como seria possível lidar de maneira mais adequada com o que se apresenta nessa relação pai e filha. Colocar a mãe fora de cena ajuda a ressaltar os problemas e dificuldades. Portanto, até aí, tudo bem.

O que não funciona é que tudo é apresentado de forma caricata. Possível, mas improvável do modo que é apresentado. Não que não haja algumas boas ideias e alguns toques interessantes para os pais despreparados para “entender” as adolescências da atualidade (assim, no plural, mesmo).

Um cientista prima pelo rigor e racionalidade no seu trabalho, mas nem por isso ele precisa ser um sujeito emocionalmente ignorante e totalmente despreparado para os relacionamentos humanos. E, muito menos, ser um trapalhão, sem noção do que faz.

O espírito crítico do personagem do cientista parece ter tirado férias e sua capacidade de lidar com gente chegou ao ponto zero. Não só com a filha adolescente, mas com seus colegas de menor status, sua “cobaia”, uma mulher que o admira e lança todas as dicas de que deseja algo mais com ele. Ele nada enxerga e simplesmente não sabe como agir. A ponto de precisar da ajuda de um amigo, que faz workshops de autoajuda, que beiram o ridículo total. Aí, já é demais. O filme vai ”tirar sarro” da autoajuda. Mas, com isso, desqualifica ainda mais o personagem do cientista. Ninguém erra tanto, e tão grosseiramente, na vida real. Ainda que muitas das situações e conflitos apresentados façam muito sentido.

A caricatura, o exagero, o estereótipo, inviabilizam a reflexão. De clichê em clichê, o mote proposto e as ideias interessantes que ele contém se perdem num todo, que se torna raso. E que, nem por isso, produz boas risadas. Afinal, se o humor não consegue ser inteligente, acaba não tendo mesmo muita graça. Até no exagero é preciso haver sutileza. E isso, infelizmente, falta ao filme.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A FLOR DO DESERTO



Antonio Carlos Egypto

A FLOR DO DESERTO (Desert Flower). Inglaterra, 2009. Direção e roteiro: Sherry Hormann. Com Liya Kebede, Sally Hawkins, Timothy Spall, Juliete Stevenson. 124 min.

Waris Dirie, nascida na Somália, se tornou uma belíssima top model de grande prestígio internacional, contrariando o que o destino parecia ter-lhe reservado. “A Flor do Deserto” é um filme é baseado na autobiografia da modelo, que conta uma história por um lado, fascinante, por outro, grotesca, revoltante.

Nascida numa família de criadores de gado nômades, na Somália, aos 13 anos, Waris foi comprada por um homem de posses, de meia idade, com quem estava destinada ao casamento arranjado. Para fugir a essa sina, a mirrada menina atravessa o deserto a pé, durante vários dias, até chegar à casa da avó, em Mogadishu, capital da Somália. De lá, vai a Londres, trabalhar como empregada na embaixada do país, ficando assim protegida da guerra que assolava sua pátria. E conseguindo escapar da sina que rejeitava.

Apesar das enormes dificuldades por que passou, a sorte acabou chegando quando, numa lanchonete em que veio a trabalhar, sua beleza encantou um famoso fotógrafo de moda. E a Gata Borralheira virou Cinderela. Se fosse só isso, já seria fascinante, mas nada de novo. Todo mundo conhece os contos de fadas.

É a coragem de Waris em revelar toda sua história que faz toda diferença. Estimulada pela mídia a contar sua trajetória, ela fala do dia em que sua vida mudou e, para surpresa de todos, revela que tinha pouco mais de 3 anos quando isso aconteceu. Ela estava se referindo à extirpação de seu clitóris e o corte dos pequenos e grandes lábios de sua vulva, costurada sem qualquer cuidado ou assepsia, num ritual tribal, à espera do marido que lhe coubesse. Uma marca definitiva e grotesca. O máximo da opressão à mulher que se possa imaginar. Um horror! Não há justificativa possível em qualquer traço cultural de nação ou etnia para que se possa aceitar uma barbaridade dessas.

Waris Dirie acabou se tornando uma militante do combate à prática da mutilação genital feminina, ocupando posição na ONU para essa atividade. Essa bárbara tradição ainda persiste em alguns rincões do globo, infelizmente. Por isso é importante o papel que o filme exerce, ao divulgar essa história, colaborando nessa causa humanitária.

Dizer que “A Flor do Deserto” é, por isso, uma grande obra de arte seria exagero. Não é. Mas é um trabalho que merece ser visto, conhecido, debatido. E, de quebra, tem uma mulher lindíssima e boa atriz, no papel da top model Waris: Liya Kebede. Só a presença dessa moça já ilumina o filme e encanta. Mas, mais do que tudo, o tema abordado é de vital importância e merece a atenção de todos.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O PROFETA


Antonio Carlos Egypto



O PROFETA (Un Prophéte). França, 2009. Direção: Jacques Audiard. Com Tahar Rahim, Niels Arestrup, Adél Bencherif. 150 min.


Há quem rejeite filmes muito violentos, com cenas de crueldade explícitas, que vertem sangue. Dá para entender tal ojeriza, pelo mal estar que causam, pelo que incomodam. E, certamente, a atração pela violência, seja de que forma for, não é uma coisa a ser valorizada.

No entanto, a violência faz parte do cotidiano, nos desafia e põe à prova. Parece impossível apartar-se dela. É provável que quem não tenha muito estômago para essas coisas deixe de ver “O Profeta”, o filme de Jacques Audiard, que levou o grande prêmio do júri no Festival de Cannes, nove prêmios César, o BAFTA, e indicações ao Oscar de Filme Estrangeiro e ao Globo de Ouro. O problema é que perderá um belo trabalho cinematográfico.

“O Profeta” conta a história de um jovem prisioneiro árabe, que não entende nada do que se passa ali na prisão onde foi colocado, sofre discriminação e humilhações ao penetrar nesse universo para o qual não está preparado. Ele tenta se defender, se isolando, passando ao largo das situações. Mas não há saída, ele precisa de proteção e isso tem um preço alto. Ele paga e aprende. Aprende tanto que vai acabar se tornando um dos agentes da violência à moda da Máfia.

O aprendizado de Malik, vivido pelo ótimo ator Tahar Rahim, é a famosa escola do crime, que, cada vez mais, se organiza e se torna ultraviolento. No jogo de vida ou morte que é o confronto de gangues do tráfico e de outras modalidades de ação criminosa, não há lugar senão para a crueldade, para a agressão desmedida, para o domínio totalitário e absoluto dos “protegidos”. O confronto está sempre no ar e a desconfiança está na base de todas as relações que se estabelecem.

“O Profeta” mostra isso muito de perto, com detalhes, de modo tenso e envolvente. Muito, muito real. As cenas são muito bem construídas, o ritmo é perfeito e tudo o que se mostra compõe um painel ao qual é impossível se ficar indiferente. O filme é longo, o sofrimento do protagonista é permanente, mas, apesar disso, o tempo passa depressa. E fica uma sensação de termos vivido algo tão intenso e assustador, que será difícil esquecer. E que, de alguma forma, nos modifica, nos transtorna.

Não é agradável, por certo. Mas não é preciso ser masoquista para valorizar a experiência vivida no cinema. Rejeitá-la, pura e simplesmente, pode significar apenas que estamos querendo dar as costas a uma situação que atinge todos, de uma forma ou de outra. Sensibilizar-se com ela pode nos ajudar a ser um pouco mais proativos no mundo, quem sabe?

No confronto prisional exposto pelo filme, um árabe se aproxima dos corsos, em busca de sobrevivência e atua contra a própria vontade, matando um muçulmano. Este sobreviverá como interlocutor fantasmagórico de Malik, numa das belas soluções que o filme apresenta.

Os muçulmanos, na cadeia, de minoria passam, com o tempo, a ser maioria, adquirem poder e serão capazes de dar as cartas, que sempre estiveram em mãos dos corsos. A alegoria com o crescimento da importância e do poder dos muçulmanos hoje no mundo parece muito clara.

E por que “O Profeta”? Isso não é tão claro. Mas profetas são os que vêm à frente, enxergam antes, antecipam eventos e situações. Daí advém o seu poder, religioso ou não. É o profeta que acaba dominando a cena e isso pode ser interpretado tanto no sentido individual quanto no sentido grupal.

Neste filme, as imagens falam por si, com tal intensidade, como se espera do melhor cinema, que vale a pena sair transtornado da sala de projeção. Mas, se puder, evite a pipoca e a coca-cola, para não engasgar, nem passar mal.

Toy Story 3

Tatiana Babadobulos

Toy Story 3. Estados Unidos, 2010. Direção: Lee Unkrich. Roteiro: Michael Arndt. Com vozes de Tom Hanks, Tim Allen. 103 min.

É inevitável: um dia as crianças crescem e os seus brinquedos precisam de um destino. Eles podem ficar de herança para o irmão ou irmã mais novo, podem ser dados a alguém da família ou doados a um orfanato. Há ainda os adultos que crescem, mas ainda conservam alguns de seus melhores brinquedos como recordação de uma época incrível ou até mesmo para, quem sabe, dar ao herdeiro que um dia pode chegar.

E é exatamente este o enredo de “Toy Story 3”, longa-metragem de animação que estreia nesta sexta-feira, 18. Os brinquedos que ganham vida quando os donos viram as costas, criados por John Lasseter em 1995 (e que marcou a história do cinema de animação, uma vez que foi o primeiro longa feito totalmente por computador, ou seja, em três dimensões), ganha agora a terceira sequência, sendo desta vez também em 3D (que necessita de uso dos óculos especiais).

Na trama, dirigida por Lee Unkrich (codiretor de “Toy Story 2” e “Procurando Nemo”) e com roteiro de Michael Arndt (a partir de argumento de Lasseter, Unkrich e Andrew Stanton), o cowboy Woody (dublado por Tom Hanks, na versão original), convoca os amigos Buzz Lightyear (dublado por Tim Allen), Senhor e Senhora Cabeça de Batata e toda a turma para ver como chamar a atenção de Andy, o garoto que os ganhou na infância mas agora, se prepara para ir para a faculdade. Sua mãe, então, sugere que ele e sua irmã, uma adolescente que fica ouvindo música em seu iPod, separem os brinquedos que não querem mais para levar para outras crianças, ou seja, para uma creche. A partir de então, começa a diversão e a correria, pois os brinquedos (que atualmente vivem dentro de um baú) vão tentar achar um jeito de continuar com os donos que tanto amam.

Há, claro, os mesmos personagens das dus histórias anteriores, mas há os novos, que são apresentados ao decorrer da trama, como Barbie e o Ken, que protagonizam cenas hilárias. Ken, aliás, faz o tipo metrossexual exagerado, ou seja, fica naquela linha tênue que separa o homem que gosta de se cuidar do homessexual. Há também ursos de pelúcia.

Mais uma vez, a Pixar (que foi comprada pela Disney em 2006) acerta a mão e apresenta um longa-metragem embasado na verossimilhança. Ainda que seja um absurdo os brinquedos saírem andando e conversando, as cenas convencem, basta ter imaginação. O humor vem em pitadas generosas e é capaz de agradar crianças e adultos, já que esses também um dia tiveram seu brinquedo favorito e com certeza vão se lembrar daquele boneco que não quiseram dar.
Uma vez, John Lasseter contou que a ideia de fazer um filme com os brinquedos que ganham vida partiu do momento em que viu o que as crianças faziam com seus bonecos: colocavam na boca, jogavam no chão etc. E, se no primeiro filme, havia um menino que maltratava os bonecos, tirava suas cabeças etc., aqui podem ser vistas cenas parecidas.

“Toy Story 3” é um filme sensível, que mistura uma boa história, alta tecnologia, mas também mexe com o emocional das pessoas. Há pelo menos duas sequências fortes, nas quais pode-se dizer que foram feitas para que o espectador chore. A música tensa ajuda a criar o clima e o resultado é bem-sucedido.

Ainda que o longa tenha versões em 3D (como a que eu assisti), é só uma questão de profundidade que se altera, pois não há cenas que ultrapassam os limites entre a tela e a plateia. A não ser para o bolso, uma vez que o ingresso para a versão 3D é mais caro que a tradicional, acredito que o espectador que assistir à versão 2D não deve ter prejuízo em qualidade de imagem. Prepare o lenço, pegue as crianças e boa diversão!

terça-feira, 15 de junho de 2010

A JOVEM RAINHA VITÓRIA


Antonio Carlos Egypto

A JOVEM RAINHA VITÓRIA (The Young Victoria). Inglaterra/Estados Unidos, 2009. Direção: Jean Marc Vallée. Com Emily Blunt, Rupert Friends, Paul Bettany, Miranda Richardson. 100 min.

As histórias da monarquia britânica sempre renderam produções atraentes, com grande potencial comercial. As figuras reais, suas histórias, seus amores, seus gostos, seus hábitos, suas vestes, suas idiossincrasias, suas insanidades, tudo parece interessar muito ao público. E, na forma de jornalismo, literatura, teatro, música, pintura e, obviamente, cinema, sempre foram largamente consumidos esses produtos artísticos. Ou nem tanto, já que revistas de fofocas não almejam esse status, por exemplo. E tabloides sensacionalistas poderiam ser considerados jornalismo?

Bem, seja como for, o cinema sempre se fartou desse tipo de drama histórico, muitos filmes se esmerando em produções requintadas, que recriam o clima e o ambiente da época e as extravagâncias dos espaços das realezas, em todas as épocas.

“A Jovem Rainha Vitória” não é nada diferente disso. É mais do mesmo. Retrata a meninice e a adolescência da futura rainha, protegida pela mãe, que a obrigava a receber apoio até mesmo para descer prosaicas escadas do palácio. A mãe era manipulada por seu companheiro, padrasto de Vitória, que tinha ambições de poder e tentou instalar-se como regente, sem sucesso. Vitória já sabia o que queria e não assinou a cessão da regência. Sobreveio a morte do tio, o rei Guilherme IV, quando ela tinha de 17 para 18 anos. E por aí vêm os primeiros turbulentos anos da rainha Vitória, que teve o mais longo reinado do Reino Unido (viveu até os 80 anos). E, é claro, o seu arrebatador e eterno romance com o príncipe Albert.

Essa história já foi contada muitas e muitas vezes, incluindo-se o cinema entre os seus veículos. Por que voltar a ela outra vez? Quem sabe, para exercer uma análise crítica desse longo período vitoriano, sua prosperidade, suas repressões e controles que marcaram o espírito inglês? Ou para reciclar a figura da rainha e de seu amado príncipe consorte, possibilitando uma revisão histórica do período? Nada disso, a rigor. É mesmo mais do mesmo, com detalhes sutis na caracterização dos personagens.

A figura de um príncipe Albert discreto, delicado, escrupulosamente respeitador, e uma Vitória que oscila entre o despreparo da imaturidade e uma certa consciência feminina dominadora, que deve ter marcado o seu caráter e o período do seu reinado, aparecem nessa caracterização. Mas nem por isso o filme se presta a maiores reflexões históricas.
Jean Marc Vallée, que dirigiu antes o simpático “CRAZY”, fez aqui um filme bonito, a produção é caprichadíssima. Mas o que se destaca é a direção de arte, assim como a maquiagem e os figurinos, os três com indicações ao Oscar. Levou o de figurino, lindíssimo, merecido.

É um filme convencional, leve, que se vê com prazer, se se deixar de lado qualquer pretensão maior. Afinal, pode ser muito repousante passar um tempo circulando pelos palácios e belezas da realeza. É ou não é?

quinta-feira, 10 de junho de 2010

DZI CROQUETTES



Antonio Carlos Egypto

DZI CROQUETTES. Brasil, 2009. Direção: Tatiana Issa e Raphael Alvarez. Documentário. 110 min.

Uma menina pequena, por conta do trabalho de seu pai, conheceu e conviveu de perto com um grupo artístico de homens que, para ela, eram os palhacinhos. Diversão pura. Essa menina, 40 anos depois, é a cineasta Tatiana Issa, que conta essa história, junto com Raphael Alvarez. Eles são os diretores do filme que homenageia o grupo. Mais do que homenagear, refaz a trajetória daquele grupo num momento crucial da história política brasileira.

Que grupo era esse? Os fantásticos “Dzi Croquettes”, uma troupe de 13 homens, liderados por Lenie Dale e Vagner Ribeiro, que dançavam, cantavam, faziam cenas teatrais vestidos de mulher, com muita purpurina, roupas extravagantes, nudez, um deboche e uma ironia capazes de implodir o moralismo oficial do período, combater os tabus e preconceitos e alegrar o público num momento triste do país.

Vivíamos o auge da ditadura militar quando eles se projetaram e fizeram um sucesso enorme nos palcos do Rio, São Paulo e de todo o pais, nos anos 1970 e, depois, em Paris. Só não conquistaram Nova York porque não quiseram, já que o apoio entusiasmado de Liza Minelli, que tanto abriu portas para eles na França, valeria ainda mais nos Estados Unidos.

O que o documentário nos mostra é o ineditismo do grupo: eles faziam um show que poderia ser visto como um show de travestis ou um espetáculo gay, mas não era isso. Ou era muito mais do que isso. Primeiro, porque aqueles homens peludos e barbados, vestidos de mulher, não correspondiam ao figurino tradicional dos travestis e não se apresentavam em lugares gays, mas em teatros que se dirigiam a um público muito mais amplo. Além disso, críticos e politizados, faziam do deboche sua arma contra uma ditadura que censurava a cena cultural, perseguia artistas e ficara perplexa diante daquilo que não conseguia entender ou classificar. E que levava grandes plateias aos teatros. Era algo perigoso, certamente. Mas por quê? Alguma nudez ou palavrões poderiam ser censurados, mas não mudava nada. Até que em algum momento tudo foi censurado.

Os “Dzi Croquettes” agitaram a cena cultural brasileira e deixaram influências muito fortes, o que o documentário resgata por meio de depoimentos, como os de Miéle, Nelson Motta, Ney Matogrosso, Betty Faria, Gilberto Gil, Cláudia Raia, Pedro Cardoso, Norma Benguel e outros mais. Cenas do espetáculo do grupo são resgatadas e esse é o maior mérito do filme, já que o tempo apagou da memória aquele trabalho incrível, que os jovens de hoje não chegaram a conhecer.
A figura de Lenie Dale associa-se à cena musical do período, porque um bailarino norte-americano, apaixonado pela música brasileira, com espírito inovador e francamente revolucionário, foi capaz de influir em pessoas-chave da MPB da época e incrementar espetáculos com muita dança e movimento corporal. Uma das maiores beneficiárias do talento de Lenie Dale foi Elis Regina, que ganhou uma força no palco do tamanho do seu talento musical incomum.

“Dzi Croquettes” nos faz relembrar que já houve no Brasil um idealismo na cena cultural carregado de muita urgência de fazer coisas e de muita bravura, também.

Os palhacinhos eram, na verdade, revolucionários que pareciam ter saído de um bloco de carnaval, mas paradoxalmente não estavam para brincadeira, não. Dos 13 integrantes originais, 8 morreram dizimados pela Aids ou outras doenças ou por assassinatos que poderiam ter sido melhor explicados pelo filme. O legado dos “Dzi Croquettes” está muito vivo nos muitos artistas que beberam daquela fonte e estão produzindo belos trabalhos, hoje. Mas faltava recuperar a memória perdida, o que se fez agora, com muita justiça, nesse documentário tão competente.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Robin Hood

Tatiana Babadobulos

Robin Hood. Estados Unidos/Grã Bretanha, 2010. Direção: Ri­dley Scott. Roteiro:Brian Helgeland. Com Russell Crowe, Cate Blanchett, Max von Sydow, William Hurt, Mark Strong, Oscar Isaac, Danny Huston. 140 min.

Ambientado na Inglaterra do século 12, “Robin Hood”, longa-metragem dirigido por Ri­dley Scott, se pro­põe a contar a história que antecede a lenda do famoso arquei­ro fora-da-lei que “rouba dos ricos para dar aos po­bres”. Algo como “Batman Begins”. Isso por­que muito já se filmou o personagem desde 1922, inclusive com Kevin Costner no longa “Robin Hood, O Príncipe dos Ladrões”, de Kevin Reynolds.

Quem encara o personagem-título desta vez é o australiano Russell Crowe e, qualquer déjà vu em relação ao diretor e ao ator não terá sido mera coincidência. Tampouco se o espectador achar que está vendo “Gladiador”.

Voltemos à trama com roteiro escrito por Brian Helgeland (de “Zona Verde”) que, vá lá, pode ser outra história sobre o persona­gem. No entanto, como tudo é especula­ção (uma vez que não se sabe se ele existiu mesmo ou não), não dá para afirmar quem está contando a verdadeira. Pois bem, após a primeira batalha, morre o rei Ricardo Coração de Leão durante uma de suas cru­zadas, desta vez na França. A partir de então, Robin Longs­tride (Crowe) assume o comando e, se fazendo passar pelo fi­lho de sir Walter Loxley (Max Von Sydiw), de Nottingham, cruza o Canal da Man­cha e volta para a Inglaterra.

Depois que João (Oscar Isaac) é coroado rei, as pessoas passam a ser cobradas de impostos cada vez maio­res. João, no entanto, é um rei apático, sem o ca­risma do irmão (e sem o apoio da mãe) e quer aparecer de alguma maneira. Quando assume o lugar do filho de Loxley, Robin comanda seus soldados para se defender da Co­­roa e se apaixona pela viúva Marion (Cate Blanchett), uma guerreira que vai dar força a ele e ajudá-lo a defender o local onde vivem, principalmente depois da presença de um perfeito judas, Godfrey (Mark Strong).

É mais ou menos neste pedaço que a fita se torna previsível e oferece a sensação de déjà vu, uma vez que a câmera rápida, os cortes secos de Ridley Scott fazem com que a estética seja a mesma do épico anterior. E, utilizando o artifício de palavras escritas na tela, o filme se vale para contar o iní­cio (e o fim, quando começa a lenda).

Russell Crowe, com seu jeito truculento, sabe conduzir a batalha, usar o arco (e acertar as flechas), mas não convence o fato de estar em outra trama. E Cate traz a graça e o pulso firme que sua personagem pede. A fita, falada em inglês e em francês, tem locações na Inglaterra e na França, mas a Torre de Londres, o palácio real, foi replicada para a produção, uma vez que a verdadeira ainda existe, mas hoje parte dela é um museu aberto para visitas – a outra guarda as joias da coroa.

Tal como em outras grandes produções, em “Robin Hood” a música alta não para, ou seja, ela não fica alta apenas nos momentos de batalhas, de modo que o espectador se cansa do barulho.

O longa estreia nos cinemas do mundo todo dois dias após participar da Seleção Oficial do Festival de Cannes. Sem preconceitos quando o assunto é cinema, vale a pena conferir.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Mademoiselle Cham­­bon


Tatiana Babadobulos

Mademoiselle Cham­­bon. França, 2009. Direção e roteiro: Stéphane Brizé. Roteiro: Florence Vignon. Com Vincent Lindon, Sandrine Kiberlain, Aure Atika, Jean-Marc Thibault, 101 min.

“Mademoiselle Cham­­bon”, dirigido e escrito por Stéphane Brizé, ao lado de Florence Vignon, é um drama francês que mistura romance e o desejo contido. O longa-metragem, que estreia sexta, 14, começa com a apresentação dos personagens no núcleo familiar: pai e mãe no jardim ensinam a lição para o filho pequeno, que pergunta sobre verbos transitivos, complementos do objeto...

Jean (Vincent Lindon, o trei­nador de “Bem-Vindo”) é pedreiro, casado com Anne-Marie (Aure Atika) e pai do pequeno Jérémy (Ar­thur Le Houérou). Ele vive tranqui­la­mente com a família em algum lugar da França e sempre visita o pai (Jean-Marc Thibault). No entanto, depois que sua esposa sofre um acidente no local de trabalho e fica de “molho” em casa, começa a ir buscar o filho na escola e conhece sua professora, Véronique Chambon (Sandrine Kiberlain).

A partir de então, o drama, com base no livro homônimo de Eric Holder, começa a virar romance e o longa se torna previsível. Isso porque se torna óbvio que os dois vão se envolver: ela pede que ele faça uma explanação aos alunos sobre sua profissão e depois para que ele vá olhar a janela de sua casa, que está quebrada. Então, os dois se aproximam, ela toca violino para ele e passam a se ver com regula­ridade.

A cena do início sobre a lição de casa mostra também o des­pre­paro dos pais, que não sabem di­zer, de prontidão, a resposta correta ao filho, mostrando que a educação pode não ser apenas um problema que existe nos países de terceiro mundo, mas também nos de pri­meiro.

Ainda que “Mademoiselle Chambon” seja belo e intimista, não consegue emocionar o espectador (pois ele fica dividido, sem saber para qual dos personagens torcer) e há um quê de artificial: o pedreiro que vai de carro para o trabalho (ok, estamos na França); que não se suja enquanto trabalha (embora o ator mostre que esteja colocando tijolos, janela etc.); a mulher que se envolve fácil demais com um homem casado (e espera algo mais dele).

“Mademoiselle Chambon” ven­ceu o César 2010 (o Oscar fra­ncês), de Melhor Adaptação para Stéphane Brizé e Florence Vignon.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

ANTES QUE O MUNDO ACABE

Antonio Carlos Egypto

ANTES QUE O MUNDO ACABE. Brasil, 2009. Direção: Ana Luiza Azevedo. Com Pedro Tergolina, Eduardo Cardoso, Caroline Guedes, Eduardo Moreira, Janaína Kremer e Bianca Menti. 102 min.


“Antes que o mundo acabe”, o filme dirigido por Ana Luiza Azevedo, é uma produção da Casa de Cinema de Porto Alegre e conta, entre seus roteiristas, com Jorge Furtado, Giba Assis Brasil e Paulo Haim, além da própria diretora. Um handicap e tanto.

Jorge Furtado dirigiu um dos melhores curtas de toda a história do cinema brasileiro: “Ilha das Flores”. Dirigiu também um ótimo filme para adolescentes: “Houve uma vez dois verões”. É responsável ainda por filmes como: “Meu tio matou um cara” e “O homem que copiava”, películas que dialogam muito bem com o público, inclusive o público adolescente. “Saneamento básico, o filme” é o mais recente trabalho do diretor e reafirma o seu talento para se comunicar de modo inteligente e divertido com diversos tipos de espectadores, entre eles, os mais jovens.

São os filmes dirigidos principalmente às crianças e aos adolescentes aqueles que podem construir plateias mais identificadas e afinadas com a produção nacional, superando preconceitos atávicos que permeiam a nossa história cinematográfica. “Antes que o mundo acabe” é um exemplo muito bem acabado desse diálogo do cinema brasileiro com os adolescentes.

Numa narrativa fluente, envolvente, com diálogos inteligentes e bem humorados, Ana Luiza Azevedo conta a história de Daniel (Pedro Tergolina), 15 anos, a partir da ótica de sua irmã menor, Maria Clara (Caroline Guedes).

Eles vivem na cidade de Pedra Grande, um município interiorano do Rio Grande do Sul, que não fica muito longe de Nova York, outra cidadezinha gaúcha, que aprendemos que existe, pelas conversas dos adolescentes da cidade. Daniel vive sua vida pacata, de jovem do interior, mas as questões típicas da idade do crescimento são problemas que mexem muito com ele. Por exemplo, a namorada Mim (Bianca Menti), que não sabe bem o que quer, o triângulo amoroso à “Jules e Jim”, de Truffaut, e que envolve seu maior amigo e ele e uma acusação de roubo no colégio que atinge o amigo Lucas (Eduardo Cardoso), sendo que ele está bem envolvido na história.

O mau humor típico do adolescente é narrado por Maria Clara com sutileza e graça, a cada chegada em casa do irmão, ora agressivo, ora chato, ora insuportável, ora apaixonado, ora decepcionado, ora deprimido, ora crente de que vai morrer. São mostradas as relações de Daniel em casa, não só com a irmã mas com a mãe e o padrasto, estes, compreensívos e negociadores. A vida dos jovens e suas relações em Pedra Grande, em viagem a Porto Alegre e na escola, estão presentes na história. Mas a melhor sacada da trama é o pai distante, também chamado Daniel (Eduardo Moreira). Ele vive agora na Tailândia e resolve se comunicar com o filho que não conhece e que não o conhece, enviando cartas e fotos pelo correio.

O pai é fotógrafo e vive pelo mundo, registrando-o como ele é, antes que a globalização faça tudo virar shopping. É no amor pela diversidade e pelo idealismo aventureiro que ele terá possibilidade de conquistar o respeito e a admiração de seu filho Daniel.

O adolescente descobre, por meio desse pai distante, que o mundo é muito maior do que ele pode imaginar. E se ele sabe onde fica Nova York, não tem ideia da existência das tribos poliândricas da Malásia e o que isso possa ter a ver com as questões vividas por ele neste momento.

As fotos das paisagens e pessoas da Tailândia ganham uma importância que ele jamais poderia imaginar. Afinal, é preciso fazer “algo antes que o mundo acabe”. Belíssima abordagem para os adolescentes que precisam aprender a parar de olhar só para o próprio umbigo. O mundo é muito maior do que os nossos pequenos problemas. Há muito mais coisas em jogo, se formos capazes de olhar para a diversidade humana e cultural. Isso vai muito além de apenas reclamar do mundo ou denunciar coisas.

O filme tem todo esse enfoque, amplo e generoso, passa muita afetividade, tem uma veracidade notável, valoriza muito bem a fotografia e o grafismo. E faz tudo isso a partir de personagens e situações singelas, recheadas de humanismo. Assim como “Houve uma vez dois verões”, de Jorge Furtado, de 2002, um filme altamente recomendável para os adolescentes e para os educadores.

O filme é baseado em livro homônimo, de Marcelo Carneiro da Cunha, e conta com um elenco afiado, onde ninguém destoa. Ótima pedida.