quinta-feira, 12 de março de 2009

ENTRE OS MUROS DA ESCOLA


Antonio Carlos Egypto


O filme de Laurent Cantet “Entre os muros da escola” (Entre les murs), França, 2008, se insere na tendência da atualidade cinematográfica que borra as fronteiras entre ficção e documentário. Algo que o cinema iraniano explorou bem e que teve um ponto alto em “Jogo de Cena”, de Eduardo Coutinho. Afinal, o que estamos vendo é real ou representação?

O texto foi escrito por um educador (François Bégaudeau), que é o protagonista do filme, um professor tarimbado. Seus colegas de trabalho e sobretudo seus alunos são tão verdadeiros e tão facilmente reconhecíveis que nos fazem crer que a realidade está lá, sem produção ou disfarce. Como se fosse possível filmar sem alterar os comportamentos das pessoas.

Quem trabalha, ou trabalhou, em escola e se envolveu genuinamente com o ato de aprender e ensinar imediatamente se identifica com o filme. E com a escola como instituição, suas possibilidades, seus limites, suas decepções e sua vitalidade.

A tarefa educativa é complexa, cheia de meandros e, por mais consciência que se tenha do processo, domínio de si mesmo e a melhor das intenções, é fácil escorregar e arriscar pôr muita coisa a perder. O que é justo e ético comporta frequentemente grandes questionamentos no dia-a-dia escolar. Qual o limite entre o acolhimento, a compreensão, o investimento no crescimento do educando e o descumprimento de normas, o enfrentamento, a agressividade e o descomprometimento de alguns alunos? Com um complicador a mais: o trabalho é coletivo, não individual. Muitas vezes, a decisão do grupo pode estar equivocada. E como saber qual seria a melhor alternativa, quando as há?

Tudo isso e muito mais está presente, e com muita força, no filme de Cantet. Situações muito bem colocadas, diálogos ótimos, conflitos apenas esboçados ou claramente explicitados, o manejo delicado de cada momento exposto em cada cena, compõem um conjunto que nos leva a vivenciar o que é realmente a educação. Mostrar a grandeza desse trabalho no cotidiano, sem se valer de verdades estabelecidas nem pregações de nenhuma espécie, produz o que é a essência do processo educativo: o fazer pensar, a reflexão. O que o professor protagonista realiza todo o tempo na sua sala de aula é o que o filme constrói para o espectador.

Bem, mas e as especificidades da situação francesa, a diversidade de culturas e etnias que se vê ali, naquela sala de aula que, segundo o diretor do filme, é um microcosmo da sociedade? Esse é também um aspecto importante da película, mas a revelação do processo educativo, tal como ele se dá, quando há empenho e dedicação nessa atividade, não apenas interesses comerciais ou falta de opções, é o que faz o filme ser tão convincente e o que dá a dimensão maior do trabalho cinematográfico aqui realizado.

Africanos, chineses, antilhanos, árabes, judeus, muçulmanos e toda a diversidade possível que encontramos enriquecendo a convivência social, apesar de todos os conflitos que podem produzir, acabam por se equiparar no cotidiano educativo às infinitas variações que encontramos em cada aluno ou aluna, ainda que possam pertencer ao mesmo extrato cultural ou econômico. O desafio de lidar com a diversidade está na essência da ação de cada educador. Assim como as frustrações pelos inevitáveis insucessos. Quem não suporta frustrações ou quer resultados imediatos não consegue ser educador. O processo é longo e demorado. Penoso e desanimador, tantas vezes. Mas é aí que está a chave para a promoção do desenvolvimento humano e a conquista de uma vida melhor, numa sociedade mais harmônica e equilibrada.

Em “Ser e Ter” (Être et Avoir), de Nicolas Philibert, de 2002, vimos um documentário que mostrava o encanto de educar, com um método inovador e um professor especialmente hábil para lidar com grandes diferenças de idade, conhecimento e vivências, ensinando as mais variadas matérias. Estávamos numa escola rural, de classe única, com professor polivalente. Ali havia uma proposta a ser entendida e, talvez, avaliada. Em “Entre os muros da escola”, de Laurent Cantet, não há propriamente uma proposta ou um método. O que se vê é a essência do fazer educativo numa boa escola, parecida com todas as suas congêneres pelo mundo, onde os professores enfrentam inevitavelmente os problemas de sempre. Não há respostas nem soluções definitivas, mas há uma profunda crença no ato cotidiano de educar.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Sexualidade e Transgressão no Cinema de Almodóvar

Tatiana Babadobulos

Cinéfilo desde sempre, frequentador assíduo da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, pós-graduado em Crítica de Cinema pela Faap e um dos autores do blog Cinema com Recheio, Antonio Carlos Egypto será o professor responsável pelo curso “Sexualidade e Transgressão no Cinema de Almodóvar”, que acontecerá no Planeta Tela, de 18 de março a 20 de maio.

Psicólogo educacional e clínico e sociólogo, Egypto conta, em entrevista, um pouco sobre o curso indicado “a todas as pessoas que gostem de cinema, especialmente do cinema do espanhol Pedro Almodóvar”, autor de filmes como “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, “Má Educação”, “Fale com Ela”, “Tudo Sobre Minha Mãe”.

Mais informações sobre o curso podem ser encontradas no site do Planeta Tela.


Como surgiu a ideia do curso sobre a sexualidade e a transgressão na obra de Pedro Almodóvar?
Foi em decorrência de dois anos de estudos sobre o cinema de Pedro Almodóvar, que é um grande autor da contemporaneidade cinematográfica e que sempre me interessou muito. Esse estudo resultou na monografia de conclusão do curso de pós-graduação em “Crítica de Cinema”, na Faap, e pretendo publicá-la em livro, assim que encontrar editora.

Como será o curso?
Tratará da obra cinematográfica de Almodóvar em todos os longas-metragens do diretor lançados comercialmente, focalizando a sexualidade e a transgressão no seu cinema, por meio da apresentação e debate de cenas de seus filmes, distribuídas em 10 aulas semanais, às quartas-feiras, à noite.

Quais os filmes serão estudados?
Trataremos de toda a sua filmografia, enquanto isso ainda é possível, já que são 16 filmes e outro está a caminho. Acredito que o trabalho dele é absolutamente coerente, desde os primeiros, produzidos na efervescência do movimento cultural da movida madrilenha que se seguiu à morte de Franco, até hoje.

Por meio de personagens surpreendentes, tramas improváveis e misturando gêneros cinematográficos, ele celebra a diversidade sexual e humana, combate tabus e preconceitos e descarta todos os tipos de moralismo, com muito humor e uma perspectiva positiva diante da vida, sem ingenuidade e com consciência clara dos problemas a enfrentar. Sua postura ideológica permanece ao longo de toda a sua obra, que amadurece, se sofistica e ganha em ternura e profundidade. Mas pretendo mostrar que o autor Almodóvar de “Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón” ou “Labirinto de Paixões” tem a mesma visão de mundo do autor de “Tudo Sobre Minha Mãe” ou “Volver”. Só que com a idade a gente enxerga outras coisas, avalia melhor o peso que as coisas têm e isso acaba produzindo um trabalho mais maduro e com mais densidade.

Além de sexualidade e transgressão, você também aponta a relação entre a obra de Almodóvar e o franquismo. Por quê?
Na verdade, a transgressão almodovariana é filha do franquismo, foi gestada como reação radical e absoluta ao obscurantismo e à opressão que o ditador impôs à Espanha durante 36 anos. Para entender bem o cinema de Almodóvar, é preciso compreender o que foi o regime de Franco e tudo o que ele produziu de consequências, que ainda estão lá, na Espanha democrática e pluralista de nossos dias, cuja história ainda está se buscando resgatar e envolve milhares de mortos sem sepultura.

A quem o curso é destinado?
A todas as pessoas que gostem de cinema, especialmente do cinema de Pedro Almodóvar. E que gostem de conversar e trocar ideias sobre cinema, sem necessitar de conhecimentos específicos prévios. Pretendo que o curso seja bem participativo, não algo meramente expositivo. É dessa troca que acho que podem sair coisas boas, reflexões interessantes.

Vamos tratar também da metalinguagem, ou seja, o cinema dentro do cinema em Almodóvar. Essas cenas também serão objetos de análise no curso.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Faça as suas apostas para o Oscar

Tatiana Babadobulos

Ainda que os fãs de cinema de arte não deem importância ao Oscar, não é possível ignorá-lo. Na semana passada, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anunciou os filmes que irão concorrer ao prêmio que será entregue no dia 22 de fevereiro, direto de Los Angeles.

O filme com mais indicações é “O Curioso Caso de Benjamin Button”, que concorre em 13 categorias (Filme, Ator, Atriz Coadjuvante, Diretor, Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Fotografia, Edição, Direção de Arte, Figurino, Maquiagem, Mixagem de Som, Efeitos Especiais) seguido por “Quem Quer Ser um Milionário”, indicado 10 vezes (Filme, Diretor, Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Canção Original duas vezes, Fotografia, Edição, Mixagem de Som, Edição de Som).

“Batman – O Cavaleiro das Trevas” foi indicado a oito (embora tenha sido esquecido como Filme e Diretor: Coadjuvante, Fotografia, Edição, Direção de Arte, Maquiagem, Mixagem de Som, Edição de Som, Efeitos Especiais) e a animação da Pixar, “Wall-E”, recebeu seis indicações (Filme de Animação, Roteiro Original, Canção Original, Trilha Sonora, Mixagem de Som, Edição de Som).

Ainda não assisti ao filme de Danny Boyle, que é um dos favoritos, mas a contar do filme de David Fincher, o Oscar não deve surpreender. Queria muito que “Wall-E” levasse muitos prêmios, de modo que mostraria que a Academia deixou de ter um leve preconceito contra animação, ainda que o filme merecesse a indicação de Melhor Filme.

Se o Globo de Ouro é considerado um termômetro para o Oscar, vale lembrar que o grande vencedor foi “Quem Quer Ser um Milionário”, que venceu nas principais categorias: Melhor filme dramático, Melhor diretor, roteiro, trilha sonora. Faça a sua aposta.


Melhor Filme
O Curioso Caso de Benjamin Button
Frost/Nixon
Milk: A Voz da Igualdade
The Reader
Quem Quer Ser um Milionário?

Melhor Ator
Richard Jenkins - The Visitor
Frank Langella - Frost/Nixon
Sean Penn - Milk: A Voz da Igualdade
Brad Pitt - O Curioso Caso de Benjamin Button
Mickey Rourke - O Lutador

Melhor Atriz
Anne Hathaway - O Casamento de Rachel
Angelina Jolie - A Troca
Melissa Leo - Rio Congelado
Meryl Streep - Dúvida
Kate Winslet - The Reader

Melhor Ator Coadjuvante
Josh Brolin - Milk: A Voz da Igualdade
Robert Downey Jr. – Trovão Tropical
Philip Seymour Hoffman - Dúvida
Heath Ledger - Batman: O Cavaleiro das Trevas
Michael Shannon - Foi Apenas um Sonho

Melhor Atriz Coadjuvante
Amy Adams - Dúvida
Penélope Cruz - Vicky Cristina Barcelona
Viola Davis - Dúvida
Taraji P. Henson - O Curioso Caso de Benjamin Button
Marisa Tomei - O Lutador

Melhor Diretor
David Fincher - O Curioso Caso de Benjamin Button
Ron Howard - Frost/Nixon
Gus Van Sant - Milk: A Voz da Igualdade
Stephen Daldry - The Reader
Danny Boyle - Quem Quer Ser um Milionário?

Melhor Roteiro Original
Rio Congelado - Courtney Hunt
Simplesmente Feliz- Mike Leigh
Na Mira do Chefe- Martin McDonagh
Milk: A Voz da Igualdade - Dustin Lance Black
Wall-E - Andrew Stanton &, Jim Reardon, baseado em uma história de Andrew Stanton & Pete Docter

Melhor Roteiro Adaptado
O Curioso Caso de Benjamin Button - Eric Roth e Robin Swicord
Dúvida - John Patrick Shanley
Frost/Nixon - Peter Morgan
The Reader - David Hare
Quem Quer Ser um Milionário? - Simon Beaufoy

Melhor Filme Estrangeiro
The Baader Meinhof Complex (Alemanha)
The Class (França)
Departures (Japão)
Revanche (Áustria)
Waltz with Bashir (Israel)

Melhor Curta-Metragem
Auf der Strecke (On the Line)
Manon on the Asphalt
New Boy
The Pig
Spielzeugland (Toyland)

Melhor Filme de Animação – Longa-Metragem
Bolt – Supercão
Kung Fu Panda
WALL-E

Melhor Filme de Animação – Curta-Metragem
La Maison en Petits Cubes
Lavatory – Lovestory
Oktapodi
Presto
This Way Up

Melhor Documentário – Longa-Metragem
The Betrayal (Nerakhoon)
Encounters at the End of the World
The Garden
Man on Wire
Trouble the Water

Melhor Documentário – Curta-Metragem
The Conscience of Nhem En
The Final Inch
Smile Pinki
The Witness

Melhor Canção Original
“Down to Earth” – Wall-E (Peter Gabriel e Thomas Newman)
“Jai Ho” - Quem Quer Ser um Milionário? (A.R. Rahman e Gulzar)
“O Saya” - Quem Quer Ser um Milionário? (A.R. Rahman e Maya Arulpragasam)

Melhor Trilha Sonora
O Curioso Caso de Benjamin Button
Defiance
Milk: A Voz da Igualdade
Quem Quer Ser um Milionário?
WALL-E

Melhor Fotografia
A Troca
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman: O Cavaleiro das Trevas
The Reader
Quem Quer Ser um Milionário?

Melhor Edição
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman: O Cavaleiro das Trevas
Frost/Nixon
Milk: A Voz da Igualdade
Quem Quer Ser um Milionário?

Melhor Direção de Arte
A Troca
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman: O Cavaleiro das Trevas
A Duquesa
Foi Apenas um Sonho

Melhor Figurino
Austrália
O Curioso Caso de Benjamin Button
A Duquesa
Milk: A Voz da Igualdade
Foi Apenas um Sonho

Melhor Maquiagem
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman: O Cavaleiro das Trevas
Hellboy II: O Exército Dourado

Melhor Mixagem de Som
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman: O Cavaleiro das Trevas
Quem Quer Ser um Milionário?
Wall-E =
O Procurado

Melhor Edição de Som
Batman: O Cavaleiro das Trevas
Homem de Ferro
Quem Quer Ser um Milionário?
Wall-E
O Procurado

Melhores Efeitos Especiais
O Curioso Caso de Benjamin Button
Batman: O Cavaleiro das Trevas
Homem de Ferro

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

DESTAQUES CINEMATOGRÁFICOS DO ANO DE 2008


Antonio Carlos Egypto

Repassando os filmes lançados comercialmente nos cinemas de São Paulo, capital, no ano passado, fiz uma lista dos que eu mais gostei, daquilo que me pareceu mais interessante e relevante.
4 meses, 3 semanas e 2 dias -- Cristian Mungiu
Luz silenciosa -- Carlos Reygadas
Paranoid park -- Gus van Saint
Leonera -- Pablo Trapero
Longe dela -- Sarah Polley
Canções de amor -- Christophe Honoré
Lemon tree -- Eran Riklis
Estamos bem, mesmo sem você -- Kim Rossi Stuart
Linha de passe -- Walter Salles e Daniella Thomas
Juno -- Jason Reitman
O maior destaque, no entanto, fica para a permanência em cartaz, no cinema, por cerca de um ano e meio ininterruptos, do brilhante trabalho de Alain Resnais, Medos privados em lugares públicos. O octogenário diretor dos clássicos renovadores Hiroshima, mon amour, de 1959, e O ano passado em Marienbad,de 1961, prova que continua em plena forma.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

MURNAU, O EXPRESSIONISMO ALEMÃO E O CINEMA


Antonio Carlos Egypto


A aventura do cinema tem início em 28 de dezembro de 1895, com a primeira projeção pública, e paga, de filmes realizados pelos irmãos Lumière, no subsolo do Grand Café, Boulevard des Capucines, Paris. Essa primeira sessão do cinematógrafo Lumière coroava os esforços de um grande número de inventores e pesquisadores que, por séculos, buscaram o sonho de reproduzir o movimento por meio de imagens. Entre os muitos que criaram aparelhos que deram origem ao cinema está Thomas Edison, com seu cinetoscópio que, associado ao fonógrafo, quase criou o cinema falado, em 1892, só que isso se dirigia a apenas um espectador por vez.

Se foi difícil tecnicamente encontrar as soluções para criar a fotografia e depois animá-la, o fato é que o cinema uma vez descoberto teve uma evolução muito grande e rápida. Desde "A Chegada do Trem na Estação", de Louis Lumière, ao "Gabinete do Dr. Caligari", de Robert Wiene (e muitos outros criadores), em 1919, só se passaram vinte e quatro anos. Quando o expressionismo estava chegando, com sua originalidade e força criativa, o cinema já havia acumulado muitos trunfos em sua história.

Em 1902, Georges Méliès criava sua famosa "Viagem à Lua", no bojo de produções altamente inventivas e criativas onde a magia, o teatro e os cenários pintados compunham obras de inegável valor artístico. Méliès tinha estado presente à primeira sessão de cinema e incorporou esse invento ao seu teatro de mágicas, descobrindo novos caminhos para sua arte. Com Edwin Porter nos Estados Unidos e o seu "O Grande Roubo do Trem", de 1902, criou-se a história padrão que seria fortemente copiada até os dias atuais. Com Pathé e os filmes de Ferdinand Zecca, o cinema caminha para a indústria, conquistando mais público.

O cinema italiano faria a primeira superprodução histórica em 1914, com "Cabíria", de Giovanni Pastrone. No ano seguinte, nos Estados Unidos, David Wark Griffith sintetizaria a linguagem do cinema no épico "Nascimento de uma Nação", sobre a Guerra de Secessão norte-americana. Em que pese a apologia aberta do racismo que o filme faz, o êxito da empreitada foi total e praticamente criou a narrativa cinematográfica clássica, incluindo a montagem paralela. Em 1916, Griffith fará uma megaprodução de grandes ambições e agora pacifista, para compensar o belicismo anterior, "Intolerância". O filme é um dos grandes marcos da história do cinema, apesar do fracasso comercial e da extensa duração.

Na Suécia, desde 1912, Victor Sjöström já realizava belos filmes silenciosos, com base em adaptações literárias de Henrik Ibsen e Selma Lagerläf. e ao lado de Mauritz Stiller protagonizava a Era de Ouro do cinema sueco. "A Carruagem Fantasma", de Sjöström (1920), foi inspiração do maior cineasta sueco de todos os tempos, Ingmar Bergman, que confessava assistir ao filme pelo menos uma vez por ano.

Nessa mesma época, a comédia muda teve papel fundamental na difusão do cinema como entretenimento e arte. Max Linder, que trabalhava para Charles Pathé, e Mack Sennet, em Hollywood, são precursores do trabalho absolutamente genial que Charles Chaplin legou ao mundo. Os anos 1920 ainda não haviam chegado e Chaplin já havia feito maravilhas, como "O Vagabundo", "Rua da Paz", "Ombro, Armas" e "Vida de Cachorro", para citar só algumas das comédias curtas que estão na memória dos amantes de cinema. Não é pouco o que se pode registrar da história do cinema antes que os anos 1920 trouxessem um grande número de novidades e solidificassem a experiência cinematográfica.

É nesse período que se situa a escola do expressionismo alemão tão bem representada pelo "Gabinete do Dr. Caligari", e que produziu obras muito importantes, além de revelar realizadores do porte de Friedrich Wilhelm Murnau e Fritz Lang.

A Alemanha vivia uma humilhante derrota na Primeira Guerra Mundial, uma crise econômica sem precedentes e buscava reencontrar sua identidade e liderança perdidas. Nessa Alemanha inferiorizada e subjugada, as expressões artísticas teriam de ser intensas, algo lúgubres e inevitavelmente pessimistas. O expressionismo já existia na pintura, na música, na poesia e no teatro. Levado ao cinema, acabou por alcançar um alto grau de sofisticação, deixando uma marca permanente na chamada sétima arte, em seu período silencioso.

Formas pontiagudas, tortas, inclinadas, seres extraordinários, monstros à sombra, a visão deformada do real a partir da subjetividade, são alguns dos elementos constitutivos da arte cinematográfica expressionista. Tratava-se de uma ruptura estética, onde o fantástico assume o primeiro plano e simboliza uma realidade histórica, expressa de forma diferente do naturalismo, que vinha se impondo ao cinema mundial nesse período.

Na concepção nazista de arte que passaria a vigorar com a ascensão de Hitler ao poder, a partir de 1933, o expressionismo seria classificado como arte degenerada, ao lado de outras manifestações artísticas, e inteiramente desqualificado e rejeitado na Alemanha. O documentário de Peter Cohen, de 1992, "Arquitetura da destruição", mostra o processo de imposição da arte ariana, de características clássicas e naturalistas, em oposição aberta à chamada arte degenerada, atribuída principalmente aos judeus. Seres extraordinários, deformados, tortos ou distorcidos, como os utilizados pelo expressionismo, são abertamente condenados pelo Estado e pela figura que o representa naquele momento: Hitler, ele próprio, um artista plástico mediano, porém, cheio de certezas.

Hollywood, ao contrário do nazismo, buscou seus realizadores, recuperou e difundiu as obras do cinema expressionista alemão, prestando um inestimável serviço à arte cinematográfica. Hollywood também ganhou muito ao incorporar essa experiência. A estética do claro-escuro do cinema noir é um nítido exemplo disso, assim como a obra de Orson Welles e de muitos outros cineastas norte-americanos do cinema sonoro, em preto e branco. Fritz Lang, um dos mais destacados cineastas do período expressionista alemão, desenvolveria longa e brilhante carreira, tanto no cinema silencioso como no cinema falado, deixando filmes notáveis, como "Metrópolis", "M – O vampiro de Dusseldorf", "Fúria", "O diabo feito mulher" e a trilogia Mabuse.

Como em todas as escolas e tendências, há aqueles que as superam e as ultrapassam, colocando sua marca pessoal na produção artística. É o caso de Friedrich W. Murnau (1888-1931). Originário do teatro, onde foi assistente de Max Reinhardt, fez filmes como "Satanás" ou "Nosferatu", que se situam claramente na corrente do expressionismo alemão da época. Aliás, "Nosferatu" não só criou escola como permanece um clássico de grande beleza plástica, cujo fruir das imagens encanta em pleno século XXI. Não menos gratificante é a experiência de assistir hoje a "Fausto", uma adaptação do personagem mítico da literatura da obra de Goethe. O filme flui magnificamente, revelando uma tal beleza de imagens que encanta o espectador e nem exige que este tenha uma postura contemplativa, dado o dinamismo da narrativa.

O filme de Murnau da fase alemã que mais me entusiasma, no entanto, é "A Última Gargalhada". Aqui já estamos na concepção do Kammerspiel (peças de câmara), onde o intimismo, o simbolismo e o realismo têm lugar.
O esplendor visual de "A Última Gargalhada" é equivalente aos outros trabalhos de Murnau. Destaque-se a reconstituição em estúdio da rua do hotel, com pedestres na chuva, carros e até um trem passando. Há belas e significativas fusões de imagens. As imagens de sonho e fantasia que povoam a mente da personagem no momento da bebedeira, provocada pelo declínio, mas atribuível ao casamento que se está celebrando, são muito elaboradas. O jogo de luzes e sombras se destaca na caracterização das situações que estão sendo mostradas no filme. Um exemplo: quando ele volta para casa com o uniforme que já não lhe pertence, a sombra mostra antes o seu arquejamento, mas ele se recompõe e agora a sombra antecipa a postura empertigada que o caracterizava perante a sua comunidade.

A sensibilidade com que o filme expõe a decadência do orgulhoso porteiro do hotel e seu vistoso uniforme, que impressionava a comunidade onde ele vivia, é notável para um filme silencioso. Ainda mais se considerarmos que Emil Jannings, o protagonista da ação, se vale de uma interpretação de gestos e expressões exacerbadas que nos parece excessivamente teatral na atualidade. Ela nos leva, porém, ao âmago do sentimento. Expressa a dor da perda do lugar, do status, da respeitabilidade, ao mesmo tempo em que acentua a vergonha e a depressão da personagem. Igualmente importante é a expressão social de sua decadência, o pouco espaço que sobra para a pobreza, especialmente na velhice. O que seria um gesto de aparente solidariedade patronal ao inevitável declínio físico do empregado, que até pode manter seu emprego é, na verdade, uma sentença de morte psíquica. As profundas diferenças entre as classes sociais são expostas ao longo de todo o filme. A ausência de intertítulos integra o filme, tornando mais eficaz o envolvimento emocional com o espectador, num espetáculo que valoriza o aspecto intimista da história.

O final é irônico, ao redimir uma personagem que não teria mesmo nenhuma saída àquela altura. Hoje pode ser vista pelo ridículo dos finais felizes forçados, tal é o artificialismo da solução. Mas o diretor aproveita esse desfecho para revelar o mundo fútil dos ricos, enfatizando a gratidão e o desprendimento, tocantes apesar de ingênuos. Tocante, aliás, é uma boa definição para um filme que lida com o social e o emocional de forma tão simples e tão integrada. É dessa simplicidade com requintes técnicos de bom cinema que se compõe essa obra-prima de Murnau.

O diretor ainda faria quatro filmes nos Estados Unidos, entre eles "Aurora" e "Tabu". "Aurora" é considerado outra obra-prima, mas que não cabe comentar aqui e agora.

O cinema falado estava chegando e Murnau, um diretor extraordinário do cinema silencioso, poderia acrescentar novas e importantes obras ao cinema, não tivesse falecido tão precocemente aos 43 anos, num acidente automobilístico. O cinema deve ter perdido muito com isso.

FILMOGRAFIAA ÚLTIMA GARGALHADA (Der Letzte Mann), Alemanha, 1924.
Direção: Friedrich W. Murnau. Com Emil Jannings, Maly Delschaft, Emilie Kurz. 91 min.

NOSFERATU (Nosferatu), Alemanha, 1922.
Direção: Friedrich W. Murnau. Com Max Schreck, Gustav von Wangenheim, Greta Schroeder. 81 min.

FAUSTO (Faust), Alemanha, 1926.
Direção: Friedrich W. Murnau. Com Emil Jannings, Camilla Horn, Wilhelm Dieterle. 116 min.

O GABINETE DO DR. CALIGARI. (Das Kabinet des Dr. Caligari). Alemanha, 1919.
Direção: Robert Wiene. Com Werner Krauss, Conrad Veidt. 78 min.

O GOLEM (Der Golem), Alemanha, 1920.
Direção: Paul Wegener. Com Paul Wegener, Henrik Galeen. 88 min.

A ARQUITETURA DA DESTRUIÇÃO (Undergägens Arkitektur), Suécia, 1992.
Direção: Peter Cohen. Narração: Bruno Ganz. 121 min.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

FAVORITOS DA MOSTRA

Antonio Carlos Egypto

Neste ano, pude assistir a mais de 70 filmes da 32a. edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, incluindo algumas pré-estréias de filmes que já estão entrando em cartaz nos cinemas e que devem sair também em DVD.

Fiz uma lista do que eu gostei mais. O que fica patente é o valor da diversidade no cinema mundial contemporâneo. O olhar para o outro, para as diversas expressões culturais, os conflitos que se produzem e as respostas que se podem encontrar e também as grandes questões que desafiam a humanidade hoje e cujas respostas ninguém parece ter. Além disso, há o resgate de aspectos históricos e sociais esquecidos, desconhecidos ou que exigem novas reflexões. Tudo isso faz parte dessa cena cinematográfica que chega até nós por meio de festivais, como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

HANAMI - CEREJEIRAS EM FLOR, de Doris Dörrier, Alemanha.
LIÇÕES PARTICULARES, de Joachim Lafosse, Bélgica-França.TULPAN, de Sergey Dvortsevoy, Cazaquistão.LEONERA, de Pablo Trapero, Argentina.O ESTRANHO EM MIM, de Emily Atef, Alemanha.AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO, de Miguel Gomes, Portugal.ALEXANDRA, de Alexander Sokurov, Rússia.
KATYN, de Andrzej Wajda, Polônia.PALERMO SHOOTING, de Wim Wenders, Alemanha.O'HORTEIN, de Bent Hamer, Noruega.CIDADE MARAVILHOSA, de Aditya Assarat, Tailândia.
A FLORESTA DOS LAMENTOS, de Naomi Kawase, Japão.
O SILÊNCIO DE LORNA, de Jean-Pierre e Luc Dardenne, Bélgica.
SONATA DE TÓQUIO, de Kiyoshe Kurosawa, Japão.
NUVEM 9, de Andreas Dresen, Alemanha.
LA BOHEME, de Robert Dornheim, Áustria.
THREE MONKEYS, de Nuri Bilge Ceylan, Turquia.
O MENINO DO PIJAMA LISTRADO, de Mark Herman, Reino Unido.
MACHAN, de Uberto Pasolini, Sri Lanka.
EU QUERO VER, de Khalil Joreige e Joana Hadjithoams, Líbano.

As sessões de cinema mudo, com acompanhamento de pequena orquestra, ao vivo, e composições originais para os filmes O HOMEM QUE RI, de Paul Leni, de 1925, Estados Unidos, e POIL DE CAROTTE, de Julien Duvivier, de 1928, França, foram espetaculares. Mas quem perdeu só pode lamentar, já que foram eventos únicos. Já boa parte dos filmes que citei acima poderão ser vistos oportunamente, ainda que leve um tempo para que isso aconteça.

O CINEMA ALEMÃO SE DESTACA NA 32a. MOSTRA

Antonio Carlos Egypto


Na edição de 2008 da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, destacaram-se alguns representantes do cinema alemão, como o belíssimo HANAMI - CEREJEIRAS EM FLOR, da diretora Doris Dörrier, uma sensível história sobre sonho, envelhecimento e morte, tratada com humanismo, com direito a um mergulho em paisagens e expressões artísticas japonesas. Perfeito para um centenário de imigração japonesa no Brasil, esse talentoso filme alemão.

O vencedor do troféu Bandeira Paulista, destinado aos filmes de novos diretores, coube merecidamente a O ESTRANHO EM MIM, de outra diretora alemã, Emily Atef. O tema, tratado com muita competência, é o da depressão pós-parto. É preciso coragem para lidar com o avesso do estereótipo da maternidade, e talento para nos envolver nesse drama. O filme já foi comprado para exibição no Brasil, aliás, o primeiro país a adquiri-lo, segundo a diretora.

Outra grande surpresa foi NUVEM 9, também alemão, de Andreas Dresen. Trata-se de um triângulo amoroso - e sexual - na velhice. Protagonistas da faixa dos 70 a 80 anos são mostrados vivenciando desejos intensamente, o que inclui cenas de nudez e sexo, que contrariam os padrões estabelecidos de mostrar corpos jovens e sarados nos filmes. A densidade dos sentimentos é também mostrada, com sutileza.

Além disso, ainda alemão, o novo filme de Wim Wenders, PALERMO SHOOTING, é bonito, original, com uma forma cativante e surpreendente, além de revelar as belezas da cidade de Palermo a quem não a conhece, como é o meu caso.

O representante do Cazaquistão, TULPAN, de Sergey Dvortsevoy, nos remete a um universo rural onde as mulheres são mais raras do que as ovelhas. O que fazer quando a única pretendente possível não quer saber do nosso personagem, porque ele tem orelhas grandes demais? Já o representante do Sri Lanka, MACHAN, nos põe em contato com a inexistente seleção de handebol do país, que terá que se apresentar num torneio na Bavária. São filmes que encantam, pela simplicidade e pela diversidade que nos trazem. E também são co-produções alemãs.

É justo, portanto, chamar a atenção para o cinema que está sendo produzido pela Alemanha na atualidade. A amostra que chegou em São Paulo em outubro foi saborosa.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Ainda há tempo

Tatiana Babadobulos

Quem não aproveitou a 32ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, pode aproveitar a repescagem neste final de semana. Confira a programação:
31/10, sexta
“A Hora do Lobo” (“Vargtimmen”), de Ingmar Bergman. Cinemateca, 21h
“Absurdistan”, de Veit Helmer. Cinesesc, 16h
“Aquele Querido Mês de Agosto”, de Miguel Gomes. Cine Bombril, 18h
“As Lágrimas de Minha Mãe - Berlim-Buenos Aires” (“Die Tränen Meiner Mutter”), de Alejandro Cardenas Amelio. Cine Bombril, 14h
“Bode Rei, Cabra Rainha” + Curtas. Cine Bombril, 15h50
“Che”, de Steven Soderbergh. Cinesesc, 18h10
“Crise” (“Kris”), de Ingmar Bergman. Cinemateca, 14h
“Il Divo”, de Paolo Sorrentino. Cine Bombril, 22h30
“Maldeamores”, de Carlitos Ruiz Ruiz e Mariem Perez Riera. Cine Bombril, 20h50
“Música na Noite” (“Musik I Mörker”), de Ingmar Bergman. Cinemateca, 19h10
“Prisão” (“Fängelse”), de Ingmar Bergman. Cinemateca, 15h50
“Sede de Paixões” (“Törst”), de Ingmar Bergman. Cinemateca, 17h30
“Trato é Trato” (“A Deal is a Deal”), de Jonathan Gershfield. Cinesesc, 14h
01/11, sábado
“Conhecendo Andrei Tarkovsky” (“Meeting Andrei Tarkovsky”), de Dmitry Trakovsky. Cinemateca, 14h
“El Regalo de la Pachamama”, de Toshifumi Matsushita. Cinesesc, 20h
“Estranhos” (“Strangers”), de Erez Tadmor e Guy Nattiv. Cine Bombril, 14h
“Fanny e Alexander” (“Fanny Och Alexander”), de Ingmar Bergman. Cinemateca, 19h40
“Formidável” (“Formidable”), de Dominique Standaert. Cine Bombril, 15h40
“Fuera de Carta”, de Nacho Velilla. Cinemateca, 14h
“Fumando Espero”, de Adriana Dutra. Cinesesc, 18h
“Gomorra” (“Gomorrah”), de Matteo Garrone. Cine Bombril, 19h
“Jodhaa Akbar”, de Ashutosh Gowariker. Cinesesc, 22h
“KFZ-1348”, de Gabriel Mascaro e Marcelo Pedroso. Cinemateca, 16h10
“La Boheme”, de Robert Dornhelm. Cinesesc, 15h50
“Loki - Arnaldo Baptista”, de Paulo Henrique Fontenelle. Cine Bombril, 21h30
“Machan”, de Uberto Pasolini. Cinemateca, 21h10
“Mais Sapatos” (“More Shoes”), de Lee Kazimir. Cine Bombril, 17h30
“Mais Tarde Você Entenderá” (“Plus Tard Tu Comprendras”), de Amos Gitai. Cinesesc, 14h
“No Limiar da Vida” (“Nära Livet”), de Ingmar Bergman. Cinemateca, 15h50
“Of All The Things”, de Jody Lambert. Cinemateca, 17h50
“Quando as Mulheres Esperam” (“Kvinnors Väntan”), de Ingmar Bergman. Cinemateca, 17h30
“Só Dez Por Cento É Mentira”, de Pedro Cezar. Cinemateca, 19h30
“Titãs, A Vida Até Parece Uma Festa”, de Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves. Cine Bombril, 23h50
02/11, domingo
“Cinzas do Passado Redux” (“Dongxie Xidu”), de Wong Kar Wai. Cinesesc, 21h30
“Crianças da Pira” (“Children Of The Pyre”), de Rajesh S. Jala. Cinemateca, 17h50
“Formidável” (“Formidable”), de Dominique Standaert. Cinemateca, 21h20
“Harrison Montgomery”, de Daniel Dávila. Cinemateca, 15h50
“Manda o Diabo Para o Inferno” (“Pray The Devil Back To Hell”), de Gini Reticker. Cinemateca, 15h40
“Meu Winnipeg” (“My Winnipeg”), de Guy Maddin. Cine Bombril, 21h20
“O Amigo” (“Der Freund”), de Micha Lewinsky. Cine Bombril, 14h
“O Estranho em Mim” (“Das Fremde In Mir”), de Emily Atef. Cinemateca, 21h20
“O'Horten”, de Bent Hamer. Cine Bombril, 17h20
“Recurso Intangível Número 82” (“Intangible Asset Number 82”), de Emma Franz. Cinemateca, 14h
“Sidney Poitier: Um Estranho em Hollywood” (“Sidney Poitier: Un Outsider À Hollywood”), de Catherine Arnaud. Cine Bombril, 15h50
“Sneakers - Entrando de Sola na Cultura Urbana” + Curtas. Cine Bombril, 19h10
“Sob Controle” (“Surveillance”), de Jennifer Lynch. Cinesesc, 16h10
“The Bluetooth Virgin”, de Russell Brown. Cinemateca, 14h
“Three Monkeys” (“Üç Maymun”), de Nuri Bilge Ceylan. Cinesesc, 14h
“Tulpan”, de Sergey Dvortsevoy. Cinemateca, 19h20
“Verônica”, de Maurício Farias. Cinesesc, 18h10

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

32ª. MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA

Antonio Carlos Egypto

A Mostra Internacional de Cinema, que chega agora à sua 32ª. edição, é o mais importante evento cinematográfico da cidade de São Paulo e tem revelado a cada ano aos cinéfilos paulistanos novos cineastas de todo o mundo. Ao mesmo tempo, traz retrospectivas de grandes diretores de todos os tempos, filmes históricos, resgate até mesmo do cinema silencioso, (este com acompanhamento musical ao vivo). Daí a expectativa que cada Mostra provoca em todos os que gostam do cinema de qualidade e da diversidade de perspectivas e de linguagem.

Na edição deste ano, há destaques na programação de cineastas conhecidos, como o novo filme dos irmãos Dardenne, “O silêncio de Lorna”, com um clima que já se tornou marca registrada deles. O mais recente filme de Alexandre Sokúrov, “Alexandra”, é original na trama e traz a habilidade de captar imagens de rara beleza e adequação ao tema tratado. Em que pese o fato de que Sokúrov é uma espécie de cineasta ahistórico, de direita, que muitas vezes irrita ao tratar de personagens como Lenin ou Hitler, é um talento respeitável.

Lá também se poderá ver o filme de José Padilha, “Garapa”, que ganha especial interesse por tratar em espaço micro do tema da fome, documentalmente, após o êxito estrondoso de “Tropa de Elite” e do não menos brilhante “Ônibus 174”. Por falar nisso, o filme de Bruno Barreto, “Última Parada, 174”, vai ser exibido na Mostra. A conferir. E tem “Che”, de Steven Soderbergh, e mais 400 filmes que abarcam a cinematografia de 75 países.

A competição de novos diretores é uma excitante exploração pelo que de novo se está fazendo mundo afora e sempre traz surpresas agradáveis e, é claro, decepções também. Mas vale muito garimpar essa seleção.

A não perder são os filmes menos vistos, menos conhecidos, de Ingmar Bergman. Tudo o que ele fez desde seu primeiro filme, “Crise”, tem grande interesse agora que, definitivamente, ele se foi. Um mestre como ele não tem substituto, nem nunca terá. E que tal conhecer ou revisitar a obra do cineasta Kihachi Okamoto, que tem sua retrospectiva na 32ª. Mostra?

E quem não viu, na 9ª. Mostra, “Berlin Alexanderplatz”, de Rainer Werner Fassbinder, com suas 15 horas de duração, se puder vê-lo agora, em cópia de 35 mm, vai se fartar de amor ao cinema. É papa fina, mesmo.

Ainda tem o show de encerramento, com Maria de Medeiros, muitos convidados importantes, entre eles, Wim Wenders e Pablo Trapero. O cartaz é de Tomie Ohtake. Como se vê, tem muito a oferecer esta nova edição da Mostra Internacional de Cinema, que Leon Cakoff e Renata de Almeida organizaram uma vez mais. É hora de usufruir desse banho de cultura cinematográfica anual.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

"Blindness"

"Blindness" ("Ensaio Sobre a Cegueira"), e a máscara cai.

Roseli Costa

Filme de Fernando Meirelles, baseado na obra de José Saramago

Mais claro que isso, impossível. O filme nada tem a ver com cegueira física e muito menos retrata o deficiente visual como depravado. Depravados somos nós, que enxergamos e vivemos em completa falta de luz por pura hipocrisia. Este é o filme. Fala sobre o egocentrismo e a degeneração humana provocada por nós em prol de puro narcisismo.

Sempre fui apaixonada por cinema e sou eclética, nada de títulos, patamares, escolas ou outros rótulos, gosto do que gosto. E para os que me conhecem, quando gosto, me apaixono. Uma vez na escuridão das salas de cinema, deixo-me levar pela história e não me permito ser influenciada antecipadamente por opiniões, porque de toda a obra sempre escapa um olhar que pode ser uma verdade. Afinal, Nietzsche já dizia que a verdade não é nada além de um ponto de vista.

Como sempre faço, completamente desarmada de argumentos, sinopses e bagagem histórica fui ao cinema para verificar o filme de Fernando Meirelles, baseado na obra do Nobel José Saramago, “Blindness”, Ensaio sobre a Cegueira. Me fisgou. É um dos filmes mais profundos que já senti. Digo senti, porque tive que vendar todos os meus olhos, físicos e alma, para tentar mergulhar na história, desta vez não como espectadora, mas como ser vivo que procura algo em meio à obscuridade que momentaneamente envolve o planeta. No trocadilho, pela minha visão, pude olhar a obra e o ser sem pudor, subterfúgios, conceitos e outros artifícios que insistentemente utilizamos para explicar nossas atitudes. Essa produção que fala da degeneração humana, da insaciedade humana com relação a vida, a conquistas, a futuro e a desejos.

Em meio a tanta hipocrisia, eu, apenas mais uma na multidão, pude conceber quão imperfeitos todos somos e seremos, porque simplesmente, a perfeição, mesmo que exista, não tem valor.

O quão fúteis e descartáveis são nossos super valorizados preceitos e sem falar no julgamento que é totalmente desprovido de qualquer tentativa de analisar, mas sim, totalmente munido da intenção objetiva de denegrir e piorar o outro diante de nós.

O narcisismo, disfarçado em cada um de nós pelas roupas, títulos, posições, bens e outros tantos alienados conceitos atrelados às nossas vidas em uma tentativa estúpida de encobrir o instinto de sobrevivência que nos move.

“Ensaio sobre a cegueira” mostra pelo excesso de luz o quão somos mais cegos do que os que nasceram sob ou adquiriram uma deficiência visual.

Ditados
antigos que ouvimos desde crianças como “O pior cego é aquele que não quer ver” ou “Em terra de cego quem tem um olho é rei” são retratados no filme de maneira inversa. O primeiro no personagem que é o único cego de nascença que vive no confinamento. Ele se adapta em um mundo onde ele tem que sobreviver sozinho e em constante vantagem. Ele não percebe que a única maneira de sobrevivência entre os seres é a convivência desinteressada e que não há luz para quem caminha sozinho.

O segundo, o velho que já perdera um olho e mesmo com a cegueira momentânea, foi sábio e impediu o movimento de medo gerado pela morte do “rei” de outra ala que propunha entregar aos lobos, a única mulher que enxerga e que por sobrevivência tira a vida do “rei”. Sobrevivência? Ou ego, vaidade, por se sentir massacrada e impotente por um macho que se intitulou dono das alas. Ou apenas por se engrandecer perante a condição de única com visão onde todos dependem dela o que a coloca em um patamar de superioridade.

O filme de Meirelles é uma análise de quanto de degeneração podemos agüentar em prol de sobrevivência e o quanto nos despojamos de integridade, orgulho, vaidade, delicadeza e conceitos quando somos submetidos a provações e desordens que nos tiram do nível de segurança. Como vítimas desta cegueira branca e fictícia se transformam em figuras inseguras e vulneráveis e terminam por seguir qualquer um que lhes estenda uma mão guia, forte, que tome decisões em seus lugares. É a fraqueza humana que retira o ser do seu papel principal e o transforma em figurante, com ou sem fala, submetido à vontade alheia, isento de responsabilidade de qualquer coisa que aconteça em meio a velocidade e proporção que transcendam as modificações.

Fernando Meirelles me emociona em um momento de mudanças cinematográficas no mundo e principalmente no Brasil onde a maturidade e a confiança começam a despontar. Mas ao mesmo tempo, me choca. Pois, a verdade implícita em seu filme é conhecida por todos nós e ainda não consegui vislumbrar, além de discursos bem intencionados, o menor movimento em prol da recuperação do equilíbrio humano rumo ao desenvolvimento.

Como nada é perdido e a luz sempre volta com menos brilho e mais claridade no final, onde alguns, após alguma provação, já começam a imaginar o que poderia ser modificado em nossos intocáveis conceitos. “Ensaio sobre a cegueira” banaliza de vez o velho discurso sobre a ética que na verdade só é respeitada até a página nove que é da nossa temperança; passou daí, afogam-se estes velhos conceitos e entra a lei do mais forte, da sobrevivência, do interesse.

O filme de Meirelles nos coloca em nosso lugar, como um velho quadro na parede, cuja moldura é o antagonismo, ou seja, a necessidade de ser o oposto, contraditório e contraposto de tudo o que nos é apresentado ou oferecido como verdade. O ego não permite a complacência e a abstenção de uma discussão, pois é necessário lutar, nem que seja por banalidades. Essa luta e que nos impulsiona a querer transpor o limite imaginário que nos colocamos a todo o momento na intenção de nos presentearmos com uma magnitude de algo que nos valorize.

A cegueira branca, no final, dá lugar à luz. E a visão da única personagem, dá lugar a impotência gerada pela retirada do santuário a que ela fora colocada. De mera coadjuvante sem grandes atrativos intelectuais ou profissionais, a personagem interpretada com maestria por Juliane Moore, passa a ser arrimo de um grupo completamente diversificado e aleatório com pessoas de todos os níveis, raças e complexidades.

Ela é a maioria de nós, pois não seguimos nossas vidas pautadas nos sonhos e conquistas por diversas razões, e para não nos sentirmos mutilados, nos transformamos em soldados que lutam batalhas alheias apenas para satisfazer o ego.

Este filme me fez lembrar de uma cena em um outro produzido pelo México e Estados Unidos onde um cego pede a uma moça que descreva como está o dia em New York. E ela começa a falar que é aquele é um dia comum na cidade, muitas nuvens, pessoas caminhando rapidamente, uma árvore que começa a florir e ele pergunta a cor das flores e fica admirado com as respostas que para ela não passavam de banais pois o dia era banal, mas para ele era um prêmio e ainda completa com um sorriso e a frase:..puxa, eu adoraria ver isso.

A nossa cegueira é medo que não nos permite ver e valorizar o belo, o comum e o simples, assim como, nos afasta de pequenas batalhas, que apesar de verdadeiras, nos retiraria de tantas ostentações. Quando uma obra cinematográfica é capaz de mudar conceitos, a arte se fez. E em seu papel principal.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

CARLOS REYGADAS, LUZ SILENCIOSA E O CINEMA CONTEMPORÂNEO

Antonio Carlos Egypto













Luz Silenciosa (Stellet Licht), México, França, Holanda, 2007. Direção: Carlos Reygadas. Com: Cornelio Wall Fehr, Miriam Toews e Maria Pankratz. 127 min.

"Luz Silenciosa", o filme do mexicano Carlos Reygadas, é um belo exemplar do que poderíamos chamar de cinema contemplativo. Os primeiros minutos, assim como o tempo final, equivalem a assistir ao pôr do sol, ao anoitecer e ao raiar do dia serenamente no campo. Com o domínio do tempo, que só o cinema pode fazer, pelos recursos de montagem e decupagem, o deslumbramento das imagens toma conta da tela grande e arrebata. Pelo menos, aqueles que não se deixaram viciar pelos ritmos frenéticos hollywoodianos.

Os tempos de "Luz Silenciosa" e sua estrutura narrativa remetem ao clássico dinamarquês de Carl Dreyer, "A Palavra", de 1955. Este filme, assim como a obra de Dreyer como um todo, foi fonte de inspiração para Ingmar Bergman, o maior cineasta sueco de todos os tempos.

"Gritos e Sussurros", de 1972, uma verdadeira obra-prima de Bergman, também dialoga com "A Palavra" e está fortemente presente em "Luz Silenciosa". Reygadas bebeu dessas fontes, procurando refazer o caminho antes trilhado por eles, não em busca de parodiá-los, mas enquanto exercício de estilo, metalingüístico, que pode ser chamado de imitativo, de tão colado que está nessas referências do cinema moderno, que são Dreyer e, sobretudo, Bergman. Por isso mesmo, rigorosamente alinhado ao cinema contemporâneo. O caráter imitativo presente no cinema contemporâneo não é mero plágio, ou repetição. É muitas vezes citação do que merece ser lembrado ou rediscutido, mas também o que merece ser reconstruído, seja enquanto reflexão, seja enquanto linguagem cinematográfica. Ou, ainda, como refacção de outras manifestações artísticas, como a pintura ou o teatro.

Os valores e estilos de vida praticados pelos protestantes, seus conflitos com a realidade e entre eles próprios, são tão caros à visão religiosa de Dreyer quanto ao questionamento de Deus e das religiões de Bergman. Para penetrar neste mundo mais convincentemente nos dias atuais, Reygadas recorreu a uma comunidade protestante, isolada dos valores contemporâneos: os menonitas. Vivendo num mundo à parte, que rejeita o progresso e professa um pacifismo radical, eles estão muito próximos das vivências e conflitos das comunidades focalizadas por Dreyer e das experiências e observações que preencheram a infância de Bergman.

Verdades rígidas em oposição a paixões que escapam ao controle e modificam as pessoas, trazendo sofrimento, mas também avanços, fazem parte da estrutura narrativa da obra, tanto de Reygadas, como dessas grandes referências que ele buscou. A cena da morta que volta à vida é emblemática e entrelaça os três diretores, com sentidos distintos, porém, similares: é uma questão transcendental, de algum modo “espiritual”, que ali está colocada.

É do significado da morte, da relação que estabelecemos com os mortos e do que muda com a partida deles, que se trata. E, ainda, do que aconteceria se houvesse o retorno. A refacção por Reygadas da mesma cena do “milagre” de Dreyer, que inspirou Bergman a realizar uma das cenas mais fortes e tocantes sobre a dor e a incapacidade de viver afetos profundos, mesmo após a morte, é uma referência lingüística que ultrapassa o seu significado.

É o cinema reverenciando o que o cinema já produziu de melhor, mostrando que ser contemporâneo não significa, necessariamente, se opor às tradições, mas comporta até mesmo cultuá-las, a partir das próprias experiências subjetivas (no caso, as de cinéfilo), na busca de um sentido universal, único. Em última análise, em busca do essencial.

Reygadas, ao realizar um filme tão contemplativo, também questiona o cinema frenético e acelerado que se tornou hegemônico, procurando levar o espectador a recuperar uma possível dimensão esquecida, ou pouco experimentada na atualidade.

Não por acaso, o mexicano Carlos Reygadas faz parte da lista dos sessenta cineastas contemporâneos, destacados pelo Cinema Now. Ele, sem dúvida, tem grandes méritos para figurar nesta lista dos cineastas, nascidos após 1950, que realizam um trabalho de peso para a história do cinema contemporâneo, que agora se constrói. Certamente ele faz parte deste cinema que se refaz e se recicla na contemporaneidade. São filmes que aspiram a ser mais do que um simples filme, ou seja, que querem ir além do contar histórias, mesmo que de forma não linear ou em ordem inversa.

Os recursos que o cinema tem hoje permitem muito mais experimentação, relacionamento com outras formas de arte, busca de significados, idéias-força, questionamentos e renovação da sua linguagem. Cada filme contemporâneo poderia ser o germe de uma dessas buscas, ressignificando o próprio cinema, em especial num momento em que a tecnologia digital democratiza o acesso de todos à sua linguagem.

"Luz Silenciosa" é um trabalho artístico respeitável de um cineasta que não chega a alcançar o talento de seus grandes inspiradores. Mas não é pouco oferecer um belo filme contemplativo com base em referências como Dreyer, Bergman (e, também, Tarkovsky), aos cinéfilos da atualidade.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Críticos - Neusa Barbosa

Tatiana Babadobulos

A jornalista, crítica e pesquisadora paulistana Neusa Barbosa, que trabalhou no jornal "Folha de S. Paulo" e na revista "Veja S. Paulo". Atualmente, ela edita o site "Cineweb" (www.cineweb.com.br), especializado em cinema, e colabora com as revistas "Bravo" e "Wish Report".

Especialista em crítica de cinema, a jornalista também costuma participar da cobertura de festivais internacionais, como Cannes e Veneza, e nacionais, como Brasília, Recife e Gramado. Além disso, dedica-se a cursos sobre cinema. Seus livros publicados são: "Gente de Cinema – Woody Allen" (Editora Papagaio, 2002), "John Herbert – Um Gentleman no Palco e na Vida" (Imprensa Oficial SP, 2004), "Rodolfo Nanni – Um Realizador Persistente" (Imprensa Oficial SP, 2004) e "Críticas de Luiz Geraldo de Miranda Leão: Analisando Cinema" (Imprensa Oficial SP, 2006).

Em sua opinião, qual deve ser a formação de um crítico de cinema?
Acredito que um crítico deva ter uma formação universitária e, de preferência, o jornalismo. Entendo que seja válido um outro tipo de reflexão sobre o cinema dentro da universidade, mas, em minha opinião, ela obedece a outros moldes. Acho fundamental que o crítico seja também um jornalista, não um teórico, porque isso pertence a uma esfera diferente (no caso, a universidade ou a docência).

Fora a formação universitária, propriamente dita, o crítico deve certamente acumular uma cultura bem ampla. Não só ver muitos filmes, mas também conhecer profundamente a história do cinema, ler muito, freqüentar exposições de arte, ir ao teatro, assistir a espetáculos de dança. Quanto mais o crítico de cinema tiver uma visão multidirecional, tanto melhor ele vai exercer o seu trabalho – até porque o intercâmbio entre as artes, que sempre existiu, está cada vez maior.

Acho muito importante também que o crítico de cinema seja informado em áreas diferentes, como história, sociologia, psicanálise, filosofia, política etc. Tudo vem somar. Um crítico centrado somente no conhecimento do cinema pode vir a bitolar-se em algum momento. Ou perder de vista novas interpretações do mundo que o ajudarão a exercer melhor seu próprio trabalho.

Qual é a função da crítica cinematográfica?
A crítica é o espaço da reflexão sobre a obra de arte, não meramente um indicador de estrelinhas, como muitas vezes acontece nos meios de comunicação (e não só no Brasil, é bom lembrar). Por “reflexão”, entendo uma interpretação, uma tentativa de ler as idéias, os sentimentos, as intenções, as contribuições que um determinado filme traga à sociedade, naquele momento em que está sendo feito. Fora isso, uma avaliação estética de como ele foi feito é sempre essencial.

Um crítico tem de ter um razoável conhecimento técnico (de roteiro, fotografia, montagem) para poder fazer isso. Acredito que a função crítica cinematográfica também seja uma forma de intercâmbio de idéias com o leitor. Uma visão possível, entre muitas. Não acredito em ditar o que o leitor deve assistir, deve gostar, embora recomendações sejam cabíveis, é claro.

A internet, especialmente, vem se mostrando um bom campo para essa troca. Se bem que ela ainda pode ser mais cordial, mais inteligente, mais fértil, mais produtiva. Muita gente usa a internet para expressar sua raiva, o que é válido, desde que fique dentro dos limites da boa educação. Podemos discordar, até radicalmente, diante de um filme, sem nos ofendermos mutuamente. Um mínimo de civilidade e respeito é preciso.

Quais os critérios que o crítico deve adotar ao exercer a sua profissão?
Ao exercer a profissão, o crítico deve ser atento, informado, conhecer a história do cinema, inclusive do nacional, ver todos os filmes. Esses são os pré-requisitos mínimos. Para se tornar profissional, o gosto do crítico fica em segundo plano. É preciso também despir-se de preconceitos, de idéias pré-concebidas sobre cineastas, atores, gêneros. Não raro somos surpreendidos por mudanças radicais dentro das carreiras das pessoas, para o bem ou para o mal. É preciso também manter os olhos abertos para o novo, sem nos viciarmos em uma espécie de ansiedade, que é muito comum ao crítico, que espera sempre a nova revolução que mudará o cinema a cada filme. Para concluir, o crítico nunca, nunca deve perder a paixão pelo cinema. Se isto acontecer por algum motivo, é melhor mudar de ramo. Parece óbvio dizer isto, mas não é.

O que é cinema?
Cinema é uma arte, um olhar múltiplo para a realidade, um sonho acordado, um caminho de ida e volta entre o imaginário e a razão do cineasta, dos atores e do público. É um ritual de exposição, de comunicação, de troca de emoções. Senão, não é nada.

Qual é a sua opinião a respeito do cinema nacional e suas sugestões para a produção brasileira?
O cinema nacional é muito rico, competente, sensível, diversificado. Somos capazes de uma produção em quantidade e qualidade altamente respeitáveis. Não temos nenhum motivo para ter complexo de inferioridade, muito menos de ficarmos preocupados demais com essa “falta de um Oscar”. Isto é bobagem. No entanto, o cinema nacional precisa ainda preocupar-se mais na formação de seu próprio público de amanhã. Ou seja: fazer mais e melhores filmes infantis, infanto-juvenis e juvenis. É preciso conquistar esse público, que fica muitas vezes cativo de grandes produções internacionais – que são altamente competentes, talvez, mas podemos ganhar uma parte do mercado deles. Para isso, é só encontrar a nossa originalidade, não copiar modelos que funcionam lá fora, em um esquema de produção completamente diferente.

Sobre o que você falou da prática de crítica na internet, o que você poderia acrescentar a respeito da interatividade? Os leitores participam das suas opiniões, costumam expressar os seus sentimentos a respeito daquilo que você escreveu, por exemplo? Tente oferecer alguns exemplos.
Os leitores (de internet, principalmente) sempre querem manifestar seus sentimentos e opiniões – em geral, quando são diferentes da opinião do crítico (e textos na internet favorecem a interatividade). Acho que a reação mais forte de que me lembro foi contra a crítica do filme "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson. Fui bem veemente contra a produção, que considero péssima e manipuladora, desonesta mesmo. Um leitor, certamente ultra-religioso, mandou mensagens me detonando e perguntando se eu tinha lido a Bíblia. O que não vem ao caso. Eu até tenho formação católica, estudei emcolégio de freiras, mas nada disso importa. Eu fiz uma crítica do filme, não da fé. O leitor não entendeu isso. Há pessoas que escrevem também para elogiar uma determinada crítica, manifestar que descobriram um filme por conta de alguma coisa que a gente escreveu. Isso é bem agradável.

Quais são as suas preferências estéticas?
Não sei se tenho preferências estéticas tão rígidas. De escolas de cinema, certamente não. Meus diretores favoritos são muitos: Orson Welles, David Lynch, Stanley Kubrick, Paul Thomas Anderson, Federico Fellini, Emanuele Crialese, Robert Altman, Ken Loach, Billy Wilder, Wim Wenders, Jean Renoir. Dos brasileiros, Walter Salles, Beto Brant, Karim Ainouz, Tata Amaral, Ana Carolina. Estou esquecendo muitos...

Entre as suas preferências estéticas, você mencionou alguns cineastas brasileiros e estrangeiros. No entanto, não citou Woody Allen, um cineasta sobre quem você já escreveu um livro. Embora uma coisa não tenha nada a ver com a outra, eu me lembro que, ao final da exibição de "Ponto Final - Match Point", durante uma cabine destinada a jornalistas, você comentou que já o tinha visto em Cannes e que gostava muito do filme. Lembro até que você falou assim: “É um mestre, né?”. De alguma maneira, ele entraria em sua seleção de melhores diretores?
Listas são injustas porque sempre deixamos de fora alguns nomes essenciais. Woody Allen sempre entra na minha lista dos dez mais, até porque ele é um dos mestres da comédia, autor de algumas das tramas mais originais (aí, não só as cômicas) e de vários dos melhores diálogos da história do cinema. Ele é um mestre (conforme comentário feito após a sessão do filme) e "Ponto Final - Match Point" é uma das provas disso.

No entanto, ele não entrou na lista, como assim ficaram de fora outros dos meus mestres, que aproveito para acrescentar agora: Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Jia Zhang-Ke, Hirokazu Koreeda, Denys Arcand, Jane Campion, Ang Lee e, dos brasileiros, não podem faltar João Moreira Salles e Eduardo Coutinho, dois mestres do documentário mundial (Santiago e Jogo de Cena estão entre os melhores filmes de todos os tempos neste gênero) e, claro, Glauber Rocha. Como esquecer Charles Chaplin? Não dá.

O que você pensa sobre escolas de cinema? Um bom cineasta precisa ter freqüentado a escola?
Em geral, um bom cineasta precisa ter freqüentado a escola. Acho que ela, pra qualquer profissão, dá um mínimo de ferramentas, inclusive um pouco de cultura geral. Sem contar a convivência com um grupo que gosta das mesmas coisas. Esse intercâmbio é fundamental. Até porque o contrário seria um diretor genial, que nascesse pronto magicamente. De maneira geral, isso não existe.

Qual é o papel da imprensa/mídia especializada em cinema?
A mídia especializada em cinema deve oferecer textos inteligentes, bem-escritos, bem-fundamentados, que levem à descoberta dos filmes, que incitem os cineastas a pensar em coisas que não pensaram quando fizeram os filmes, contribuindo, assim, para o aperfeiçoamento da atividade cinematográfica como um todo. Uma coisa que muita gente não lembra é que os críticos vêem muitos filmes, e por isso têm muita bagagem para comparações. Alguns cineastas não podem dizer o mesmo, pois eles mesmos não conhecem tanto os filmes dos colegas como deveriam. Em geral, os bons cineastas são também cinéfilos.

Qual, na sua opinião, deve ser o papel do Estado na atividade cinematográfica?
O Estado deve estimular a produção cinematográfica de todas as maneiras, diretamente, indiretamente, por todos os mecanismos que forem viáveis. Também deve contribuir para a distribuição e exibição, dois pontos críticos no caso do cinema brasileiro. Muito se produz no Brasil, mas os filmes não chegam a todos os espectadores potenciais. Seria preciso haver mais salas populares no Brasil. Só o Estado pode estimular isso, já que as grandes redes internacionais não querem saber disso.

Você poderia selecionar os melhores momentos de filmes e de diretores? Dê alguns exemplos.
No quesito melhores momentos de filmes e de diretores seria outra lista interminável, mas cito alguns poucos: a chuva de sapos de "Magnólia", de Paul Thomas Anderson; a conversa do filho com a mãe “no céu” de "Édipo Arrasado", de Woody Allen, parte de "Contos de Nova York"; a seqüência em que o ator desce na tela em "A Rosa Púrpura do Cairo", também de Woody Allen; as seqüências em que os anjos descem sobre a Berlim dividida sobre o muro no início de "Asas do Desejo", de Wim Wenders; a fala final de "Quanto Mais Quente, Melhor", de Billy Wilder; a dança dos pãezinhos na mesa de "A Corrida do Ouro", de Charles Chaplin.

De acordo com a história do cinema, o que se pode esperar do futuro do cinema nacional e mundial?
Não dá para prever o futuro do cinema mas, tanto para o cinema nacional como internacional, é fato que a revolução tecnológica, como sempre, desde o começo da história do cinema, está produzindo uma grande renovação. Se as pessoas, como parece, vão assistir a filmes em mídias móveis, como palms e celulares, com certeza isto afetará sua estética. Os cineastas vão ter de mudar completamente seu modo de trabalhar. As câmeras digitais já estão propiciando muitas mudanças, especialmente por sua agilidade e redução de custos. Falta agora os cineastas se ligarem num fato: nem tudo é estética. Tem de haver uma boa história para contar e contá-la de maneira original. É a velha história da câmera na mão e da idéia (aliás, muitas idéias) na cabeça.

Qual é, na sua opinião, o papel do circuito de cinema? E das produções alternativas?
As mídias digitais vieram para ficar, não tenho dúvida disto. E, com elas, a pirataria, infelizmente, também ficou mais fácil. De um lado, sou realista – acho que não há como evitar algum nível de pirataria. Mas ela pode ser reduzida se as empresas produtoras e distribuidoras criarem mecanismos mais eficientes para download pago (a preço bem acessível), legal e controlado em seus sites, por exemplo. Sem contar medidas mais duras contra os piratas. Isto cabe a governos e à polícia. O “circuito de cinema” é a produção que sustenta a própria idéia do cinema como indústria. Isso existe desde sempre e é um tremendo desafio. Criar produções que falem com todos os públicos e de todos os países é uma ambição imensa e cara. Depende de uniformização das informações e do gosto, o que Hollywood tem feito com muita agressividade, usando inclusive mecanismos políticos do governo americano para impor o seu “padrão de qualidade”.

O domínio mundial de Hollywood cria algumas distorções – em prejuízo dos filmes locais. Alguns países se dão melhor nesse enfrentamento, criando leis locais de proteção (França, Coréia, Índia). Mas não é fácil. O Brasil ainda não encontrou um modelo para essa grande produção comercial fora das novelas – esse sim, nosso grande produtor de entretenimento comercial que deu muito certo e é, inclusive, exportado. Acho que o nosso cinema não pode viver disso, pois o modelo televisivo é empobrecedor. Precisamos, no entanto, criar novos modelos de comunicação com o público, comédias (não deu certo com a Atlântida nos anos 1940?), musicais e filmes infanto-juvenis – é preciso criar platéias para o cinema nacional desde pequenas...

As “produções alternativas” são aquelas de menor porte – mas não necessariamente de menor criatividade –, que rompem o cerco da indústria dominante (sempre é Hollywood, exceto em países que conseguiram dominar seu mercado interno, caso da Índia). Elas são fundamentais até para oxigenar o mercado, que se enche rapidamente de filmes que procuram imitar o padrão que fez sucesso algum dia, o que fatalmente leva a uma estagnação. Pode-se ver que Hollywood está sempre comprando os direitos para refilmar alguns sucessos, especialmente franceses. Há uma desesperada busca de novas idéias no grande mercado competitivo mundial.