quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O BESOURO VERDE

                                                  Antonio Carlos Egypto



O BESOURO VERDE (The Green Hornet).  Estados Unidos, 2010.  Direção: Michel Gondry.  Com Seth Rogen, Jay Chou, Cameron Diaz, Tom Wilkinson, Christoph Waltz.  119 min.

O cineasta francês Michel Gondry costuma filmar coisas estranhas, excêntricas ou mágicas, geralmente com base em sonhos e jogando com o tempo e a memória.  Em parceria com o escritor e roteirista Charlie Kaufman, criou um universo que poderemos classificar de “surrealista kitsch”, em que o ilusionismo joga papel central.
“Brilho eterno de uma mente sem lembranças”, de 2004, brinca com o tempo e com o desejo de apagar desilusões amorosas e com as dificuldades funcionais que podem surgir daí. “Sonhando acordado”, de 2006, é o exemplo mais evidente da estética kitsch.  Mostra mãos enormes num corpo pequeno, estúdios de TV montados com embalagens de ovos e outras inúmeras extravagâncias.  Em “Rebobine, por favor”, de 2008, um cidadão desmagnetiza incidentalmente todas as fitas VHS de uma locadora, cujos donos irão refazer os filmes à sua moda.  No episódio de “Tóquio”, de 2009, uma mulher se transforma periodicamente em cadeira.
Nenhum desses filmes é uma obra-prima, mas é possível se divertir com eles e há coisas bastante originais nessas brincadeiras todas.  Gondry não é um cineasta qualquer.  Tem bom humor e criatividade. 
Seu mais recente filme é “O Besouro Verde”, que está sendo exibido em 3D e, com maior destaque, na tela Imax.  Um filme de muita ação e efeitos especiais, na fórmula de mercado que persegue os milhões de dólares que devem ser conquistados por meio de grandes plateias.  E não deu outra: o filme é o campeão de bilheteria atual, nos Estados Unidos.
O Besouro Verde é um herói antigo.  As informações divulgadas dão conta de que ele nasceu em 1936, no rádio, depois foi para os quadrinhos, para a TV, e já teve como parceiro até o lendário Bruce Lee.  É um daqueles heróis que se valem de todos os métodos, dos mais invasivos, violentos e inteiramente fora da lei, a pretexto de combater criminosos.  Ou seja, crime se combate com crime: uma contradição ética.
Nas mãos de Michel Gondry, os personagens ganham muita tecnologia e se almeja a comicidade.  Britt (Seth Rogen), o que se esconde sob a identidade de Besouro Verde, é o herdeiro instantâneo de um grande jornal e conglomerado de comunicação, uma vez que seu pai morre de um dia para o outro, surpreendentemente. 
Irresponsável e imaturo, ele nada quer da vida, a não ser se divertir, de preferência perigosamente.  Descobre em Kato (Jay Chou), empregado do pai,  um gênio, não só das artes marciais ou da inteligência, mas da invenção.  Carros e equipamentos de fazer inveja a James Bond são criados por ele.  A dupla vai barbarizar na cidade.  Não se sabe ao certo se para combater bandidos de verdade ou para se divertir com a brincadeira violenta. E, a partir daí, tudo se destrói e se arrebenta, o tempo todo.  Não fica um vidro para contar a história.  Até numa briga de socos, a casa vai sendo literalmente destruída: móveis, objetos de adorno, computadores, TVs de última geração, tudo se acaba.
O próprio jornal vai sendo destruído, junto com os carros mais do que especiais e seus aparatos de alta tecnologia.  Tudo é muito chique e atualizado.  Para ser literalmente consumido, instantaneamente destruído.  Uma metáfora do capitalismo consumista, que pode acabar com o planeta?
Tudo isso mostrado em 3D, na tela Imax, é de um exagero tal que, ao final das duas horas de projeção, o que resta é o esgotamento e, paradoxalmente, o tédio.  Foi Lampedusa quem disse que “tudo acontece para que nada aconteça”, não é?  Pois é isso.  O resultado de tanta tecnologia e tantos efeitos é o vazio.
Mas aonde foram parar as ideias criativas de Michel Gondry, as excentricidades, as maluquices?  “O Besouro Verde” pretende-se uma comédia de ação. Ação tem até demais.  Quebra-quebra, explosão, porrada. Sem tensão ou violência com cara de coisa real. Não, é brincadeirinha, coisa de gibi. Mas qual é a graça?  Umas poucas frases espirituosas, ditas ao longo da narrativa? Esse ritmo acelerado, vertiginoso, excessivo?   
Qual é a diferença entre assistir a um filme desses e andar numa montanha russa? Quem gostar de curtir essas sensações algo extravagantes e artificialmente produzidas, que aproveite.  Eu disse extravagantes?  Quem sabe é por isso que o diretor desse filme é o Michel Gondry.  Pelo menos isso ainda tem algo a ver com seus trabalhos anteriores.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Bravura Indômita

Tatiana Babadobulos

Bravura Indômita (The Grit). Estados Unidos, 2010. Direção e roteiro: Joel e Ethan Coen. Com: Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon, Josh Brolin. 110 minutos

Foi em 1969, quando John Wayne interpretou o xerife beberrão Rooster Cogburn, em “Bravura Indômita” (“True Grit”), filme dirigido por Henry Hathaway. Nesta semana, porém, estreia um novo “Bravura Indômita”, refilmagem que tem assinatura dos irmãos Joel e Etha­n Coen, em uma iniciativa de fazer um filme de faroeste.

Embora os dois sejam autores de “Onde os Fracos Não Têm Vez”, que se passa no Texas, os diretores informam, no material de divulgação para a imprensa, que não o consideram um longa-metragem de western, uma vez que trata-se de uma história atual. Vá lá que eles têm razão neste aspecto, mas a estética, a história, a interpretação levam a crer que trata-se, sim, de um filme deste gênero também.

De qualquer maneira, o longa que estreia nesta sexta, 11, e que concorre a 10 indicações ao Oscar, tem uma garota de 14 anos, Mattie Ross (a estreante Hailee Steinfeld), como protagonista, e que chega a Fort Smith, no estado do Arkansas, em busca do assassino de seu pai, Tom Chaney, que o teria matado por duas barras de ouro.

Em busca de vingança, a garota oferece dinheiro ao xerife da cidade, Rooster Cogburn (nesta versão vivido por Jeff Bridges), que promete matá-lo, mas não de levá-la consigo, tal como fora acordado. Ao invés dela, porém, prefere a companhia do policial texano LaBoeuf (Matt Damon), que quer encontrar o mesmo bandido em troca de uma gorda recompensa.

Com direção e roteiro dos irmãos Coen, a fita se desenvolve de maneira lenta, mas ao mesmo tempo mostrando os detalhes desta empreitada, já que, uma vez atingido o objetivo, todos irão ganhar. O longa mostra também ótimas interpretações de Bridges, cujas pronúncias em inglês com sotaque texano são incompreensíveis, mas retratam o local em que se passa a narrativa. E a bravura da menina que não mede esforços para alcançar seus objetivos, ou seja, de ver a morte de seu pai vingada. Destaque também para o figurino e para a fotografia do longa.

“Bravura Indômita” talvez não precisasse ser refilmada, uma vez que não faz tanto tempo que foi feita (e recentemente relançada em Blu-ray), mas, mesmo assim, ter uma história contada a partir do olhar dos Coen é sempre um belo presente aos olhos. E à cabeça!

O Discurso do Rei

Tatiana Babadobulos

Da sua filha muito já se falou. No entanto, não havia nenhum filme que contasse a história do rei George VI, do Reino Unido. Tampouco da maneira como o diretor Tom Hooper escolheu para contá-la, em “O Discurso do Rei” (“The King's Speech”), longa-metragem que estreia nesta sexta-feira, 11 de fevereiro, nos cinemas.

De maneira linear, a narrativa traça a trajetória do futuro monarca britânico. E inicia a partir do  momento no qual o duque de York, Bertie (Colin Firth, ótimo!), vai ao estádio de Wembley pronunciar um discurso em nome do seu pai, o rei George V (Mi­chael Gambon, de “Harry Potter”), que está acamado, mas quase não consegue. Isso porque ele não está somente nervoso por conta da transmissão pelo rádio e para a multidão presente, mas também porque ele não sabe falar em público; sofre de problemas com a fala, ou seja, o duque de York é gago. E o foco do roteiro escrito por David Seidler é justamente a sua gagueira.

Sua esposa, Elizabeth (Helena Bonham-Carter), a futura Rainha Mãe, vai atrás de um especialista da fala. É aí que ela encontra Lionel Logue (Geoffrey Rush), um imigrante australiano que garante ter sucesso com pessoas que têm esse tipo de problema.

Entre citações de Shakespeare, gravações de sua voz em aparelhos recém-adquiridos da América, exercícios de “trava-língua”, música, dança (e até palavrão) para não gaguejar, Bertie, como é chamado pela família e também pelo médico para quebrar as formalidades reais, faz de tudo para conseguir vencer.

Embora ele não seja o primeiro herdeiro do trono assim que seu pai morre, assume um ano depois de coroado David, o rei Eduardo VIII (Guy Pearce), pois as formalidades reais não permitem que o rei seja casado com uma mulher divorciada, pois ele é o chefe da igreja. Sendo assim, é Bertie quem assume o trono – mesmo que a contra-gosto.

Dentre os atores britânicos que poderiam interpretar o personagem, entre eles o galã Hugh Grant, foi escolhido Colin Firth, que encabeçou o papel e o interpreta de maneira brilhante. Sim, Firth responde às expectativas do público quanto a sua atuação.

Com filmagens na suntuosa Abadia de Westminster, em Londres, onde acontecem as coroações, passando pelo Palácio de Buckingham, entre outros, a câmera de Hooper, que tem muito mais experiência com televisão que com cinema, é diegética, ou seja, mostra as imagens sob o olhar do personagem que está sendo focado. Assim, insere o espectador na cena.
Outros destaques são o figurino (toda a pompa dos vestidos e das casacas) e as formalidades que os monarcas são obrigados a fazer.

Tal como em “A Rainha”, que contou a história de Elizabeth II, ou seja, a filha do rei George VI, além de outros longas sobre a monarquia britânica, como “Elizabeth”, com Cate Blanchett no elenco, e ainda “A Jovem Rainha Victoria”, lançado em 2009, o longa se passa nos anos 1930 e apresenta uma história simples, mas de maneira sucinta, que prende a atenção e instiga o espectador. De brinde, uma verdadeira aula de história.

Além dos personagens principais que vivem no reino, destaque para Timothy Spall, como o ex-primeiro ministro, Winston Churchill. Apesar de bom ator, está bastante caricato. E, como forma de dar o melhor rumo para a Segunda Guerra Mundial que acaba de explodir, o rei declara guerra contra a Alemanha, em 1939, época na qual Adolf Hitler faz suas crueldades. Há imagens, inclusive, que dão conta da adoração dos alemães pelo ditador – ou pelo menos da demonstração disso.

A fita é baseada em uma história real e de sucesso, uma vez que, como sabemos pela história da realeza britânica, na sequência de rei George VI subiu ao trono Elizabeth II, que ocupa desde 1952. Não é à toa, pois, que há a famosa aclamação do povo: “God save the king” (Deus salve o rei).

Com 12 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Diretor, Ator, AtrizCoadjuvante, a fita agrada pelo fato de ser delicada, intimista e real. Ao mesmo tempo, e por ser simples, o longa torna-se convencional, sem muitos atrativos. A não ser, é claro, a própria história do monarca que, esta sim, é repleta de surpresas.

O DISCURSO DO REI

 
 Antonio Carlos Egypto

O DISCURSO DO REI (The King’s Speech).  Inglaterra, 2010.  Direção: Tom Hooper.  Com Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonham Carter, Guy Pearce, Derek Jacobi.  120 min.


A gagueira é um problema que afeta um grande número de pessoas em todos os cantos do globo.  E em todas as épocas.  Quem não se lembra da história de Demóstenes, fazendo exercícios, falando com pedras na boca?  Pode ser algo passageiro, restrito a algum período da vida, como a infância.  Mas pode permanecer incomodando por uma vida inteira, se tratamentos não conseguirem resolver o problema.

Distúrbios da fala certamente prejudicam o desempenho das pessoas, em todas as profissões, mais especialmente naquelas em que o contato com o público é essencial.  E quando a pessoa dispõe de um poder que, para ser exercido, depende da fala?

Foi o caso de Albert, ou Bertie, como era chamado, o duque de York, que acabaria sendo coroado rei George VI, com a abdicação do irmão mais velho, Eduardo VIII.  O rei George VI era casado com Elizabeth, a futura rainha-mãe, e pai da atual detentora do trono britânico: a rainha Elizabeth.

Sabemos que o poder real, no Reino Unido, é, na verdade, um poder de representação e de união dos países que compõem a coroa britânica.  O poder de decisão, de fato, cabe aos políticos, eleitos pelo regime parlamentarista.  Isso só acentua a importância dos discursos reais, já que é, principalmente por intermédio deles, que se realiza o poder de representação do Estado.

O desafio maior do rei George VI foi enfrentar este problema na comunicação, que se tornaria ainda mais dramático com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939.  Ele reinou de 1936 a 1952, um período muito conturbado para a Europa e para todo o mundo.  O rádio era uma novidade importante, abrindo novos caminhos para a comunicação de massa.  Se Churchill foi a figura maior da Inglaterra, nessa época, o rei também jogava um papel importante.

O filme “O discurso do rei” trata da relação de Bertie, o rei George VI (Colin Firth) com seu terapeuta da fala, o plebeu australiano Lionel Logue (Geoffrey Rush) e da luta do rei para vencer seus problemas com a gagueira, que travava especialmente nos sons “k” e “q”.  Imagine isso para quem tem de pronunciar as palavras “king” e “queen”, frequentemente?

Lionel Logue se destacou no papel de terapeuta da fala pelos resultados que foi conseguindo com métodos pouco comuns na época.  Juntou sua experiência de ator e contador de histórias com atendimento a soldados que sobreviveram à Primeira Guerra Mundial, com muitos distúrbios desse tipo, para desenvolver um método de tratamento mecânico dos problemas da fala que, no entanto, não podia ignorar os componentes emocionais aí envolvidos: medo, ansiedade e insegurança.

Como pode se estabelecer uma relação terapeuta-paciente entre um plebeu australiano e o próprio rei da Inglaterra?  A resposta a isso é o grande achado desse filme.  É dessa relação improvável que resulta o êxito do rei em discursos decisivos, num período determinante para os destinos da humanidade, como foi a Segunda Guerra Mundial.


Tal tratamento da gagueira, além de exigir amplo esforço e determinação do rei, também exigia uma relação horizontal entre terapeuta e paciente, sem títulos, mesuras ou protocolos e sem a pompa e circunstância dos castelos da monarquia britânica.  Mais ainda: sem poder evitar o constrangimento de entrar no terreno perigoso das relações familiares da realeza e dos medos e hesitações do soberano.  Sem adentrar no campo emocional, não há terapia que funcione.  O que é especialmente delicado, no caso dos personagens em questão.

O papel da rainha Elizabeth (Helena Bonham Carter) como apoiadora discreta, torcedora e incentivadora teve destacada importância nessa história toda.  É desses relacionamentos e de sua consequência para a coletividade, que se alimenta “O discurso do rei”, um tema relevante e que extrapola os fatos que retrata, permitindo inúmeras reflexões que podem remeter a muitos outros lugares e épocas.

É um filme simples e, talvez por isso mesmo, tão eficiente e envolvente.  É difícil não se mobilizar com a angústia do rei.  Colin Firth se encarrega de nos comunicar tudo o que o personagem sente, com um desempenho notável.  Geoffrey Rush faz um Lionel Logue forte, abusado e profissional, com uma firmeza que nos faz crer que sua presença era mesmo indispensável ao lado do rei.  E Helena Bonham Carter, outra grande atuação no filme, consegue transmitir a força e ao mesmo tempo a discrição que o papel exige.

O filme tem 12 indicações ao Oscar.  Não lhe faltam méritos para isso.  Pode ser uma boa aposta para melhor filme.  Mas aí é com a Academia de Hollywood.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

SANTUÁRIO

                                   Antonio Carlos Egypto

                                                       
SANTUÁRIO (Sanctum).  Estados Unidos, 2010.  Direção: Alister Grierson.  Com Richard Rokburgh, Rhys Wakefield, Christopher Baker.  109 min.


É muito marketing e muita tecnologia para pouco filme.  Essa foi a sensação que eu tive, ao assistir, em 3D, “Santuário”.  Apresentado como o mais novo êxito de James Cameron, talvez melhor do que “Avatar” e se utilizando da mesma tecnologia inovadora. Pois bem, James Cameron é produtor do filme, que tem direção do australiano Alister Grierson e roteiro de John Gavin e Andrew Wight.  Portanto, vamos com calma.

“Santuário” é uma enorme caverna subaquática, com um grande conjunto de túneis em um lugar remoto, muito distante da chamada “civilização”.  Só uma parte dessa caverna é conhecida pelo ser humano.  A sua parte mais profunda tem seus caminhos inexplorados.  É um lugar aonde nenhum homem, ou mulher, chegou.  Exploradores experimentados buscam o desafio e a grande aventura de conhecer e dominar os caminhos dessa caverna.

O que seria essa grande aventura logo se transforma em uma luta de vida ou de morte, em que a sobrevivência se coloca como a única alternativa possível às pretensões humanas frente ao santuário em forma de caverna.  Brincar de Deus não é coisa para qualquer um.

Embarcamos todos, então, numa expedição aflitiva e prolongada, em que também há beleza e a tecnologia 3D mostra sua eficiência: deixou de ser brinquedinho de ocasião para ser recurso que enfatiza e valoriza a trama.

O problema, porém, é a trama: um tanto banal e sem imaginação para tal teconologia.  Se não se têm uma boa história, um bom roteiro e situações plausíveis, o que sobrevém é o incômodo, o tormento.  Não basta mergulhar no mundo subterrâneo para envolver o espectador.  Ou melhor, para ir além da aflição.  Quem gosta de pôr à prova sua ansiedade pode se fartar em inúmeras cenas (quase todas, aliás) de “Santuário”.  Mas quem se questiona sobre o que tudo isso significa e como se justifica vai ficar decepcionado.

Os personagens da história são mais do que frágeis, não têm consistência psicológica, são rasos e unidimensionais.  O pai, grande explorador de cavernas, e seu filho, aprendiz, são os únicos personagens que apresentam consistência, os demais são meros apêndices.  E, é claro, toda a dinâmica das relações se centra no conflito entre eles, na superação da rivalidade edípica, no amadurecimento do garoto e na flexibilização do pai, até então onipotente.  Mas também não há profundidade nisso.  E algumas atitudes são tão “clichês” que chegam a incomodar.

Belas locações nos arredores de Queensland, na Austrália, podem ser apreciadas e a caverna, vista do alto, é espantosa.  Pena que o filme se concentre tanto em interiores e em ambientes aquáticos.  É para mostrar que é tecnologia até debaixo d’água!

Quando a técnica se destaca muito, isso é mau sinal.  Em “Avatar” isso já se podia notar, mas a história se pretendia complexa, original e com muita ação.  Havia algo mais do que aquela tecnologia toda para apreciar e era possível até debater a sua mensagem.  Aqui, não: é tudo óbvio e bastante previsível, quando não totalmente inverossímel.  Afinal, exploradores experimentados não têm o direito de cometer erros primários.

Não tenho nada contra a tecnologia 3D.  Ela é sedutora, atraente e, no caso aqui, muito bem utilizada.  Não sei se terá o papel que a ela se atribuiu de salvar o cinema ou de popularizar novas engenhocas televisivas para uso doméstico.  Acho que vai cansar e se mostrar supérflua.  Já foi um modismo no passado e, apesar dos óculos hoje muito melhores, pode voltar a sê-lo.

Por ora, o que é legítimo esperar é que a qualidade dos filmes não se resuma à sua tecnologia.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O VENCEDOR

              Antonio Carlos Egypto


O VENCEDOR (The Fighter). Estados Unidos, 2010. Direção: David O. Russell. Com Mark Wahlberg, Christian Bale, Amy Adams, Melissa Leo. 111 min.

O mundo do boxe com frequência está vinculado a histórias, tanto de exploração indevida dos esportistas, quanto de situações de decadência e superação.  Envolvem ainda histórias pessoais e familiares que costumam abordar falta de recursos e pobreza.

Esses elementos estão presentes no novo filme sobre boxe, “O Vencedor”, que já está recebendo prêmios importantes, como o Globo de Ouro, e se credenciando à disputa do Oscar.

Aqui, Micky (Mark Wahlberg) é o irmão mais novo e promessa de títulos de Dicky (Christian Bale), um boxeur decadente que vive de glórias recentes, mas passadas, e está fora dos eixos. Dependente de drogas, sem a menor disciplina para o exercício de uma atividade esportiva, ele pretende ser o mentor e treinador do irmão, a quem procura passar todos os truques do ofício. Ele e a mãe, assim como toda a família, decidem tudo sobre a carreira de Micky. E aí é que começa o problema.

Almejar sucesso numa carreira esportiva pressupõe, além de técnica e disciplina, muito profissionalismo, tomar as decisões adequadas no melhor tempo e lugar. Os laços familiares tanto ajudam no plano afetivo quanto atrapalham no plano racional. Essa será umas das questões de que se ocupará o nosso protagonista em suas frustrações, fracassos e superação de obstáculos.

Um desafio muito sério será o de tentar corresponder a expectativas de êxito, seguindo o caminho do irmão. E mais: resgatando a sua imagem e o seu prestígio perdidos. É um peso enorme e, em alguns casos, uma impossibilidade.

As questões colocadas pelo filme são muito interessantes e a história, apresentada como “baseada em fatos reais” (qual não é?) pretende reconstruir a trajetória factual que envolveu os pugilistas e sua família.

Christian Bale emagreceu muito para o papel do boxeur drogado e algo abobalhado e faz uma caracterização que rouba a cena. O seu personagem é o mais forte da trama. Seu insucesso, seu jeito errático e inconsequente de viver, são marcantes. Um peso, um estorvo e, ao mesmo tempo, um apoio ao personagem de Mark Wahlberg, aquele que foi talhado para ser campeão, se souber lidar com todas as pressões que o esperam. Até a relação com a namorada (Amy Adams) estará intensamente envolvida no drama familiar e profissional do boxeador.
O “Vencedor” é uma boa produção, um filme bem dirigido e com elenco de peso. Com os prêmios da indústria cinematográfica de Hollywood, tem tudo para uma carreira de sucesso. O tema do boxe talvez afaste muitas pessoas, sobretudo parte do público feminino.Mas quem gosta do esporte vai vibrar muito. As cenas das lutas são empolgantes, até para quem não curte muito a pancadaria do pugilismo, imagine para os aficionados.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Cisne Negro

Tatiana Babadobulos

Cisne Negro (Black Swan). Estados Unidos, 2010. Direção: Darren Aronofsky. Roteiro: Mark Heyman, Andrés Heinz e John McLaughlin. Com: Natalie Portman, Vincent Cassel, Mila Kunis, Winona Ryder. 108 minutos.

Cisne Negro” (“Black Swan”), longa-metragem que concorre a cinco indicações ao Oscar (incluindo Melhor Filme, Diretor e Atriz), tem o balé como foco. No entanto, não se trata de um musical, tal como “All That Jazz”, de Bob Fosse, ou “Dirty Dancing”, entre outros, mas de um drama psicológico sobre os bastidores, as disputas e intrigas que acontecem quando as bailarinas almejam determinado destaque na companhia de dança.

Na fita, que estreia nesta sexta-feira, 4, nos cinemas, Natalie Portman (“Closer – Perto Demais”) é Nina, uma dedicada e obsessiva bailarina que quer ser a Rainha dos Cisnes, no espetáculo “O Lago dos Cisnes”. Para isso, porém, precisa se soltar e fazer os dois papéis: a do cisne branco e a do negro. Enquanto o primeiro requer técnica, delicadeza e perfeccionismo no desenvolvimento da dan­ça, o segundo exige que a dançarina seja mais solta, sombria e agressiva.

Quem vai escolher qual das meninas do corpo de baile da companhia de Nova York substituirá a rainha, que até então era o lugar de Beth (Winona Ryder), é o diretor artístico Thomas Leroy, vivido pelo ator francês Vincent Cassel (“Inimigo Público Nº 1 – Instinto de Morte”, “À Deriva”). Segundo o personagem, a história é “batida”, mas ele pretende fazer um novo espetáculo e, portanto, precisa de um novo rosto. Assim, as meninas vão ter de mostrar seus talentos, passar por cima dos problemas pessoais e, enfim, viver, de fato, a personagem que o balé requer.

Dirigido por Darren Aronofsky (“O Lutador”), o longa mostra, sobretudo, como vive Nina, uma garota que mora com a mãe (Barbara Hershey), uma ex-bailarina. Seu quarto, onde se passam muitas cenas, é recheado de ursinhos de pelúcia – um contraponto para mostrar que a “menininha” também quer ser mulher, quando se masturba, por exemplo. É também no seu quarto que ensaia as piruetas (seu ponto franco quando vai dançar o cisne negro).

Sem namorado e obedecendo às ordens da mãe controladora, Nina passa a maior parte do tempo ensaiando. É para lá também que vai a câmera de Aronofsky: a academia onde estão as bailarinas (cujas coreografias são do francês Benjamin Millepied).

As lentes do diretor também têm foco nas sapatilhas e nos pés detonados de tanto subir na ponta, sempre acompanhado da valsa dramática de Clint Mansell, autor da trilha sonora. Ao mesmo tempo em que Nina é dedicada no balé, tem pudor ao falar de sexo com o professor e sofre de uma alergia que faz suas costas sangrarem de tanto coçar.

A obsessão de conseguir o que quer lembra um pouco “Billy Elliot”, o garoto inglês que sonha em ser o bailarino do Royal Ballet. Mas o problema de Nina não é o preconceito, tal como enfrenta Elliot, mas sua insegurança de fazer bem-feito e lidar com as desavenças da sua maior concorrente, Lily (Mila Kunis), que está sendo bastante elogiada por Leroy, já que tem as características que o cisne negro exige.

É quando o longa se desenvolve de maneira incrível, principalmente porque começa a mesclar sonho e realidade, e ela tem visões sinistras, uma vez que o excesso de ensaios começa a fazer mal à bailarina. Repare nos pés que viram pés de pato, ou melhor, de cisne.

Ao mesmo tempo em que conquista o papel, ganha inúmeros inimigos, pois vive a pressão obsessiva para atingir a perfeição – custe o que custar.

Com roteiro de Mark Heyman, Andrés Heinz e John McLaughlin, a partir de história Heinz (em sua estreia em longas), a fita prende a atenção do espectador e, de alguma maneira, mexe com a plateia a partir de seus jogos psicológicos, intrigas, além de fazer mal ao estômago em algumas cenas cheias de sangue.

A pontada mais dolorida, porém, é causada pelas cenas finais, que fazem o espectador perder o fôlego ao sair da sala do cinema.

Natalie Portman, que dançou quando criança e depois ensaiou para o filme, mostra a evolução da personagem e o emaranhado psicológico em que vive dia após dia. Por sua performance, ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz.

Neste ambiente competitivo, o espectador não vai precisar conhecer sobre o balé, ainda que há duas referências, como o russo Bolshoi e o inglês Royal. Porém, aquele que estiver atento, talvez seja capaz de decorar a coreografia, já que elas são incessantemente repetidas durante as quase duas horas de projeção.

Entre as difíceis fouettés (tipo de pirueta) na ponta e as constantes brigas entre as colegas, “Cisne Negro” é um drama tenso, que ganha reforço com as músicas. E, ao final do primeiro ato da temida apresentação, depois de ter acompanhado tanto esforço e dedicação da bailarina, a vontade é de também levantar e aplaudir a dança, tal como fazem os figurantes que foram assistir no teatro.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O Amor e Outras Drogas


Tatiana Babadobulos

O Amor e Outras Drogas (Love and Other Drugs). Estados Unidos, 2010. Direção: Edward Zwick Roteiro: Charles Randolph e Edward Zwick. Com: Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway. 112 minutos

Sabe quando você está no consultório médico à espera do atendimento e sai da sala do especialista um homem ou uma mulher com uma malinha? Trata-se de um representante de alguma indústria farmacêutica, que vai apresentar ao profissional seu lançamento para que ele conheça e, claro, receite o tal medicamento.

“O Amor e Outras Drogas” (“Love and Other Drugs”) fala um pouco sobre esse universo (indústria farmacêutica), mas também do relacionamento que acontece entre um desses representantes e uma artista, que, aos vinte e poucos anos, sofre de Parkinson.

Na trama, quem vive os personagens é Jake Gyllenhaal (de “O Segredo de Brokeback Mountain”) e Anne Hathaway (de “O Diabo Veste Prada”). Os dois, aliás, já estiveram juntos no primeiro filme, mas não eram o centro das atenções, tal como são aqui.

Para contar a história, baseada no livro “Hard Sell: The Evolution of a Viagra Salesman”, o diretor Edward Zwick (de “Diamante de Sangue”) começa apresentando o protagonista, Jamie (Gyllenhaal), que nos anos 1990 trabalha em uma loja de eletrônicos e, com seu charme e beleza, tenta convencer as pessoas dos benefícios da câmera filmadora, do microsystem, entre outros lançamentos da época. Até que perde o emprego e busca uma recolocação como representante de medicamentos, já que é ali, segundo ele, que está o dinheiro.

A partir de então, ele vai ter de convencer os médicos a lhe atenderem para dar a oportunidade de mostrar os benefícios do medicamento da Pfizer, empresa para qual trabalha (e cujo merchandising é enorme, assim como da Novartis e outras gigantes do setor), e parar de receitar Prozac.

É aí, caro leitor, que a plateia do cinema vai conhecer o que é feito para o médico indicar determinado medicamento (em detrimento do concorrente ou de remédios manipulados). E vale tudo: conquistar a secretária, jogar as amostras do outro fora, pagar para o médico... Uma lista de “sujeiras” sem fim.

Mas tudo começa a mudar de rumo quando Jamie conhece Maggie (Anne), mais de 15 minutos depois do início do filme. É quando o longa-metragem muda o foco, de maneira que agora passa a ser o relacionamento dos dois, embora ambos prefiram não tratar como tal, mas como sexo casual, sem compromisso. Outra mudança radical é quando Jamie passa a vender o Viagra, medicamento que representa o que poderíamos chamar de “segunda revolução sexual” -- depois da pílula anticoncepcional.

Do título do filme, aí está o amor. E as outras drogas, como o espectador poderá ver, são os remédios, mas também a maconha que Maggie fuma (provavelmente por conta da dor que sente), a bebida das festas, e o que mais pode-se chamar de droga, como as brigas com o concorrente, a patifaria...

Com uma química que funciona, os dois jovens atores (que concorreram ao Globo de Ouro, mas não ganharam) dão ritmo ao filme e prendem a atenção do espectador, em cenas quentes, mas sem ser vulgar. Junte-se a isso a trilha sonora, que tem Regina Spektor, Spin Doctors, Bob Dylan.

A sensibilidade do longa é reforçada pela doença da moça, mas o que só dá um ânimo a mais para ver qual será a atitude do rapaz. Sem ser piegas, mas com final de deixar os olhos cheios de lágrimas, “O Amor e Outras Drogas” cumpre o que promete: ser uma comédia romântica com humor inteligente, jovem, além de escancarar críticas à indústria farmacêutica que, cá entre nós, continua faturando alto -- sabe-se lá em quais condições.

sábado, 29 de janeiro de 2011

INVERNO DA ALMA

           Antonio Carlos Egypto



INVERNO DA ALMA (Winter’s Bone). Estados Unidos, 2010. Direção: Debra Granik. Com Jennifer Lawrence, John Hawkes, Dale Dickey, Lauren Sweetser e Tate Taylor. 100 min.

Quem está acostumado a acompanhar o cinema europeu e de todo o mundo não se surpreenderá com uma história que se centra nas carências humanas, tais como a fome, o abandono familiar e a violência dos produtores de droga, envolvendo uma comunidade rural. Pois esse é o contexto de uma produção norte-americana independente, de baixo orçamento, que tem indicações, inclusive a de melhor filme, na premiação do Oscar: “Inverno da Alma”.

A protagonista da ação é a jovem Ree (Jennifer Lawrence), de 17 anos, que se torna responsável por sua família, quando os pais a abandonam. O pai sumiu, esteve preso. Estaria morto? Envolvido por sua participação na indústria local de drogas (cocaína, maconha, metanfetaminas) é a figura insistentemente procurada por todos, especialmente por ela.

A mãe está fisicamente presente, mas mentalmente ausente. Vive uma existência autista, imprestável para qualquer coisa. É um peso a mais na vida da adolescente Ree, que tem de cuidar da casa e alimentar e educar seus irmãos menores, um garoto de 12 anos e uma menina de 8 anos. E desde que soube pelo xerife que sua própria casa foi dada pelo pai em fiança, para poder sair da cadeia, está à procura dele, passando por provações incríveis, que ela enfrenta com muita coragem. Não tem outra escolha? Pode ser. Ainda assim, é demais para uma garota dessa idade.

O personagem Ree acaba sendo perfeito demais. O contraste é ainda maior com o personagem Sonny, o irmão de 12 anos, que é infantil, dependente e sem qualquer iniciativa, exceto em uma única cena, fugaz. Quem vive nas circunstâncias de penúria em que ele vive já teria de ter aprendido a se virar. Enquanto Ree sabe de tudo aos 17 anos, Sonny não sabe de nada. Na verdade, ambos personagens improváveis.

Os adultos, até mesmo o tio dela, irmão do pai sumido, estão muito comprometidos para conseguir ajudar e acabam relegando as crianças e a adolescente à sua própria sorte. Restam os vizinhos, dispostos à solidariedade diante da fome.

Um retrato do interior dos Estados Unidos sem moldura dourada. As carências e tragédias da chamada “América profunda”. Ou o avesso da América da classe média, da tecnologia e do consumo. “Inverno da Alma” é um filme que pega pesado e é corajoso no retrato que faz de uma realidade bem pouco ou quase nada mostrada por Hollywood. Tem cenas desagradáveis de se ver, mostra lugares pobres, numa estética suja, ausente qualquer glamour e, é claro, nos faz refletir sobre essa crua realidade que também faz parte da América.

Eu diria que se distancia bastante da produção hollywoodiana típica, tendo mais parentesco com a produção alternativa que se produz pelo mundo afora, embora Hollywood também comporte tragédias humanas realistas, como foi o caso de“Preciosa”, de 2009. Devidamente oscarizada, inclusive (Mo’Nique, como atriz coadjuvante, e roteiro adaptado). Só que “Preciosa” cultivava uma esperança com a qual “Inverno da Alma” não compartilha.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Um Lugar Qualquer

 

Tatiana Babadobulos

Um Lugar Qualquer (Somewhere). Estados Unidos, 2010. Direção e Roteiro: Sophia Coppola. Com: Stephen Dorff e Elle Fanning. 97 minutos


Sophia Coppola não tem medo. Apesar do sobrenome que carrega (ela é filha de Francis Ford Coppola, diretor, por exemplo, da trilogia “O Poderoso Chefão”), ela não tem receio de dar sua cara à tapa. Depois de fazer filmes como “Encontros e Desencontros” e “Maria Antonieta”, e mostrar, neste último caso, sua visão sobre a vida da rainha francesa, agora ela chega ao cinema mostrando mais uma obra que escreveu, produziu e dirigiu: “Um Lugar Qualquer” (“Somewhere”), longa-metragem que passou pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no ano passado, e estreia nesta sexta-feira, 28, nos cinemas.

Ronco do motor, câmera parada e o carro preto fica dando voltas em uma estrada vazia. O carro, na verdade, é um supercarro: trata-se de uma Ferrari, e está sendo dirigida por Johnny Marco (Stephen Dorff, de “Inimigos Públicos”), um ator que mora no Chateau Marmont, o lendário hotel de Hollywood.

Tal como outros atores, Marco vive à deriva: não tem mulher, só uma filha adolescente; toma pílulas para dormir, recebe mensagens anônimas e agressivas em seu BlackBerry, bebe cerveja, fuma e reveza as companhias (tem muitas mulheres, mas vive sozinho), além de apreciar shows de pole dance feitos por irmãs gêmeas vestindo trajes, digamos, sumários...

E é justamente por conta da filha Cleo (Elle Fanning, de “Babel”), principalmente após passar um tempo com ela na Itália, para onde foi participar do lançamento de seu filme, que ele começa a se dar conta da vida que leva: nada é levado como proveito para a cabeça ou para o coração, é tudo descartável, volátil.

As cenas se passam principalmente no apartamento onde Johnny Marco vive, mas também no hotel em Milão onde vai passar uns dias. Há também muitas cenas nas largas ruas de Los Angeles. Uma das cenas tocantes é quando Cleo vai fazer sua apresentação de patins no gelo e o pai vai acompanhá-la.

Com poucos diálogos e filme lento, aos poucos Sophia vai falando sobre a vida do rapaz e mostrando a sua rotina. Ou seja: a diretora insere cenas do cotidiano em sua história intimista, e inclui o espectador nela. Afinal de contas, embora se trate de um ator hollywoodiano, o personagem criado por ela poderia ser qualquer outra pessoa da plateia.

A atualização também é clara no filme: a menina usa iPhone para anotar a placa do SUV que provavelmente segue o pai, seu notebook é um iMac e, na hora da diversão, é o videogame de última geração que ela usa para brincar. Referência atual também quando ela cita o livro que está lendo e conta a história de um vampiro...

“Um Lugar Qualquer” é sobre a futilidade e a percepção que o protagonista tem ao ver o quão vã é a sua vida: nada tem de bom para o coração. Cerveja, mulheres a hora que quiser, além da Ferrari, símbolo do luxo e da ostentação. No longa-metragem, Sophia mostra a simplicidade da vida com a filha versus o jeito largado dele e a glamourização de Hollywood na vida dessas pessoas, que sai da entrevista coletiva com perguntas patéticas e cai na festa.

Com poucas palavras, 99 minutos de imagens e rock'n'roll (assim como em “Maria Antonieta”, que é o principal ritmo da trilha sonora de seu filme), Sophia Coppola dá o seu recado. Simples assim.

TIO BOONMEE QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS

                   
Antonio Carlos Egypto

TIO BOONMEE QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS (Lung Boonmee Raluek Chat). Tailândia, 2010. Direção: Apichatpong Weerasethakul. Com Thanapat Saisaymar, Jenjira Pongpas, Sakda Kaewbuadee. 113 min.

Apichatpong Weerasethakul é o nome impronunciável de um diretor de cinema que vem se destacando nos principais festivais ao redor do mundo, até conquistar a Palma de Ouro em Cannes, em 2010. E é da Tailândia que vem esse talento.

Quem acompanha mostras e festivais de cinema que escapem ao circuito comercial pode ter visto longas-metragens dele, como “Eternamente Sua”, de 2001, “Mal dos Trópicos”, de 2004, ou “Síndromes e um Século”, de 2006. Ou pode ter visto alguns de seus curtas. Mas pela primeira vez um filme dele pode ser apreciado em sessões regulares de cinema por aqui. É Cannes abrindo portas a novidades asiáticas, em meio à enxurrada de agitação, efeitos especiais e 3D, que vem dando o tom do mercado cinematográfico.

O filme premiado é “Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”, um produto um tanto inusitado para os nossos padrões e algo difícil de assimilar ou entender, considerando os modos de ser e viver que nos distinguem dos povos orientais e das referências culturais da Tailândia.Provavelmente, quem entender de budismo vai curtir melhor o clima do filme.

Mas todo mundo poderá ver que ali está sendo gestado um cinema inovador e criativo. Um cinema fantástico, capaz de nos remeter ao mais simples do cotidiano, mas em busca de transcendência. E sem qualquer preocupação com o realismo, a forma clássica de narrar histórias ou a continuidade das ações.

Imaginação, sonho, suposição, experimentação, delírio: esses são alguns dos ingredientes do cineasta. Não há, portanto, qualquer necessidade de entender racionalmente o filme. Melhor é mergulhar nele de cabeça e se deixar levar pelas belas imagens, enquadramentos perfeitos, surpresas e “non sense”. A experiência resultará enriquecedora e artisticamente relevante. Mas é preciso se deixar levar por novas formas de usufruir da película e do cinema em geral.

Em todo caso, vamos a uma possível sinopse do filme. Tio Boonmee, outro nome um tanto impronunciável para nós, está à beira da morte, tem insuficiência renal. Decide passar seus últimos dias de vida na floresta que ele ama, ao lado de pessoas que o amam. Bem, pessoas não é bem a palavra. Quem está lá com ele é o fantasma de sua falecida mulher e seu filho, que desapareceu há tempos e volta, em forma animal, uma espécie de macaco. Não os macacos bonitos e animados, que fazem a festa das crianças no zoológico, nem os gorilas ameçadores, do tipo “King Kong”. Até o macaco de Apichatpong é original: preto, estranho, com olhos luminosos.


Nessa floresta, tio Boonmee relembrará suas vidas passadas como homem ou animal, até chegar ao lugar de origem de sua primeira vida. Em outras palavras: tio Boonmee repassa sua existência, recriando figuras que dela fizeram parte ao longo dos tempos, emoldurado por uma floresta misteriosa e acolhedora. A floresta é a casa que aninha, uma espécie de útero, fonte da vida.

Vagar pela floresta traz surpresas. Que tal uma princesa que se relaciona com um peixe? Será uma lenda tailandesa, do tipo da do nosso boto amazônico? Vai saber... De qualquer modo, é uma fábula, como todo o filme. Que, ao contrário do que possa parecer, não vende peixe nenhum, concepções de mundo, crenças esotéricas. Explora possibilidades, fantasias, climas. Estamos no terreno da arte contemplativa, assim como tio Boonmee contempla e recria a sua existência.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O Turista

Tatiana Babadobulos

O Turista (The Tourist). Estados Unidos, França, 2010. Direção:Florian Henckel von Donnersmarck. Roteiro: Florian Henckel von Donnersmarck e Christopher McQuarrie. Com: Johnny Depp e Angelina Jolie. 103 minutos.

Johnny Depp e Angelina Jolie juntos em um thriller que começa em Paris e termina em Veneza. Ora, o que mais o espectador que vai atrás de diversão no cinema pode querer ver na tela grande? Ele, que já foi eleito o homem mais sexy do mundo, e ela, bom, sem comentários...

Em “O Turista” (“The Tourist”), Angelina Jolie faz o papel de Elise, uma mulher misteriosa e envolvente, que atrai os olhares por onde passa. Neste caso, porém, não é apenas a sua beleza estonteante que faz os homens admirá-la, mas, sim, como veremos adiante, ela está sendo espionada. O objetivo é descobrir o paradeiro de seu amante, Alexander Pearce, que está sendo procurado pela polícia internacional por uma dívida tributária (e por ter roubado milhões de um gângster).

Enquanto toma um chá em um dos simpáticos cafés da capital francesa, Elise recebe uma carta e, após queimá-la assim que termina de lê-la, sai em direção ao metrô. E é no trem, rumo a Veneza, na Itália, que conhece Frank (Johnny Depp).

A partir daí, começam sequências de jogos de mentiras e o espectador é convidado a participar de ambos os lados, sempre com, agora, sim, Veneza como pano de fundo. Seja em lanchas que cruzam o canal da cidade, seja no hotel de luxo por onde passaram famosos escritores do início do século 20, os cenários são magníficos.

A química dos dois atores funciona, embora eles nunca tivessem se visto antes. Mas o que incomoda, claro, é o modo arrumadinho como as coisas acontecem, de maneira que o plano de ambos os lados começa a dar certo.

Enquanto Angelina, que é norte-americana, tenta fazer um sotaque britânico, Depp, também americano, mas que vive na Inglaterra, tenta fazer o sotaque americano e ambos ficam forçados. Uma das passagens engraçadas da fita acontece justamente por conta do idioma. É quando Depp, hospedado no hotel italiano, se comunica em espanhol ao invés da língua nativa, e derrapa ao responder o cordial “bom dia” (buongiorno, no caso), pois ele diz “Bon Jovi”...

Acostumada a fazer longas de perseguição, tal como “Sr. e Sra. Smith” e “Salt”, Angelina  convence no papel que interpreta. E Johnny Depp, que ultimamente é visto em papéis de personagens esquisitos, como o Chapeleiro Maluco, em “Alice no País das Maravilhas”, ou o capitão Jack Sparrow, em “Piratas do Caribe” (só para citar dois...), também está ótimo como o sedutor que é pego de surpresa em uma correria policial.

O problema no filme dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck (de “A Vida dos Outros”), é que, ainda que o longa-metragem seja repleto de diversão, o suspense que tenta criar não funciona, pois, a um dado momento, se torna bastante previsível.