Antonio Carlos Egypto
REFÉM POR UM FIO (Dead Man’s Wire). Estados Unidos, 2025. Direção: Gus Van Sant. Elenco: Bill Skarsgard, Drace Montgomery,
Colman Domingo, Al Pacino. 105 min.
Gus Van Sant é um cineasta inovador, atento aos sinais que o mundo lhe
envia, especialmente nos Estados Unidos, onde ele nasceu, mora e trabalha. Ele costuma se interessar em filmar a partir
de fatos realmente ocorridos, que nos dizem algo sobre o nosso mundo violento e
disruptivo. Mas faz isso com ênfase na
comunicação com o público, buscando realizar filmes que também envolvam e
entretenham o espectador.
“Drugstore Cowboy” (1989), “Garotos de Programa” (1981), “Gênio
Indomável” (1997), “Paranoid Park” (2007), “Milk: a Voz da Igualdade” (2008),
mas sobretudo “Elefante” (2003) são exemplos de seu trabalho reflexivo e
provocador que fisga a atenção do público.
Seu mais recente filme, “Refém por um Fio”, também se nutre de uma
história real, ocorrida em 1977, em Indianápolis, EUA, que tem características
tão marcantes que seria difícil imaginá-la a partir de um roteiro puramente
fictício.
Tony Kiritsis (Bill Skarsgard), um trabalhador, fez uma hipoteca na
empresa em que atuava, buscando saldar uma dívida. Em vez disso, ele acusa a
empresa de tê-lo prejudicado deliberadamente e provocado sua ruína
financeira. Resolve ir atrás do que “lhe
pertence”, sequestrando o filho do dono da corporação, Richard Hall (Drace
Montgomery) e criando um mecanismo mortal que o prende por um fio a uma arma de
fogo que dispararia automaticamente se fosse abordado. Liberdade, o bem material devido e desculpas
públicas são as condições para libertar o sequestrado. Condições que o pai, o patriarca da empresa, Mr.
Hall (Al Pacino) não aceita e refuta toda a argumentação de Tony. Mas o caso envolve também o famoso DJ Temple
da rádio da cidade, ídolo do sequestrador.
A dimensão das coisas cresce muito, tomando grande impacto midiático e
gerando muitas coisas inesperadas.
Por meio dessa narrativa, o diretor cria um suspense envolvente e que
surpreende em muitos momentos. O ritmo
do filme é ágil, mas também dá o que pensar.
Como isso foi acontecer? O que
ele está nos dizendo a respeito de nossas vidas e da vida financeira que nos
cerca e domina? O que leva alguém
aparentemente sensato e calmo a trilhar caminhos tão arriscados? Afinal, o que nos encaminha para os extremos
de conduta? E como é possível que
criemos becos sem saída para nós mesmos em algumas situações-limite?
“Refém Por Um Fio” não é uma simples história de suspense. É algo mais sofisticado. Busca um caminho para entender os seres
humanos dentro de uma engrenagem que não conseguem dominar e têm de enfrentar o
imponderável.
As sequências são muito bem realizadas, o filme é muito bom de se
acompanhar pela agilidade e pelo talento do diretor. Também pela trilha sonora, que inclui uma
seleção de canções de sucesso da época, o que nos remete facilmente aos anos
1970.
O elenco é muito bom, todos os papéis estão bem desenvolvidos, mesmo os
menores. Bill Skarsgard sustenta o filme
muito bem, ao longo de todo o seu desenrolar, no papel do sequestrador. Drace Montgomery mantém o pânico controlado
da situação do sequestrado todo o tempo.
Al Pacino, o dono da grana, tem o ar do mafioso que ele já desfilou por
aí muito bem. O DJ Temple, mediador da
ação, vivido por Colman Domingo, é fascinante, uma atuação humanista e tão
verdadeira com quem é fácil a gente se identificar. O conjunto é bem harmonioso e eventuais
falhas passam despercebidas.


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