quinta-feira, 27 de agosto de 2026

2 LONGAS NACIONAIS

Antonio Carlos Egypto

 


MUITO PRAZER.  Brasil, 2026.  Direção e roteiro: Jorge Furtado.  Elenco: Daniel de Oliveira, Luísa Arraes, Samantha Jones, Felipe Velozo, Drica Moraes.  98 min.

 

Jorge Furtado, fundador da Casa de Cinema de Porto Alegre, que existe desde dezembro de 1987, é um dos grandes realizadores do cinema brasileiro, além de um trabalho relevante na TV.

 

Ele tem uma grande capacidade de lidar com o humor de forma leve e bastante crítica ao mesmo tempo.  Denuncia, ironiza e nos faz sorrir, às vezes, até mesmo gargalhar.  Se você não estiver lembrando do trabalho dele, eu posso citar alguns dos filmes que ele fez, que eu acho sensacionais: “Ilha das Flores” (1989), “O Homem que Copiava” (2003), “Saneamento Básico, o Filme” (2007), “Mercado de Notícias” (2014), “Rasga, Coração” (2018).

 

Em “Muito Prazer”, Jorge Furtado acerta a mão novamente.  Como sempre, com um olhar dirigido aos mais vulneráveis e aos mecanismos limitadores e cruéis dos mercados e do capitalismo.  Ele aqui focaliza as relações que envolvem intimidade, privacidade e tecnologia, associadas às diretrizes de mercado.  E também, por que não?, ao voyeurismo individual e àquela tendência de explorar os demais, mesmo que, cuidadosamente, ele a aplique nos personagens do filme com moderação.  A consciência de ações que são, ou podem ser, criminosas, está lá, mas não é capaz de impedir que elas aconteçam.  E aí resta reparar os danos, por consciência, culpa ou medo das punições.

 

Jorge Furtado e o trio de atores

O universo abordado é o do sexo.  A narrativa é toda desenvolvida no decadente Motel Pérola, recebido de herança de um tio por Rubem (Daniel de Oliveira), motoboy sem perspectivas e sem grana.  A herança vem, naturalmente, carregada de dívidas.  Entre elas, a da jovem Grace (Luísa Arraes), que sobrou morando por lá, esperando receber os atrasados de pelo menos quatro anos por seu trabalho no Motel.  Ela é solta, desinibida e dona do seu pedaço.  Não se sente amarrada às convenções.  Desse encontro resulta a recuperação do Motel e a busca por tecnologias, que, por serem invasoras, podem resultar em bom dinheiro, mas também em problemas sérios.  É aí que entra Nalva (Samantha Jones), que tem o domínio dessa tecnologia e participa da parceria.

 

O que vem daí vai resultar em boa, inteligente comédia, com toques eróticos, que chega a provocar boas risadas e não ofende ninguém.  Bem, hoje em dia com tanto retrocesso nunca se sabe...

 

O elenco formado pelo trio Luísa Arraes, Daniel de Oliveira e Samantha Jones está ótimo, afinadíssimo.  E ainda tem o “bonitão do Motel”, Felipe Velozo, e a participação especial da grande atriz Drica Moraes, como D. Mariana, a mãe de Grace, que fica famosa pelos vídeos pornôs.  Mas o amor terá sua vez e sua hora também.  Assim, tudo fica melhor.

 




NOSSO SEGREDO.  Brasil, 2026.  Direção e roteiro: Grace Passô.  Elenco: Robert Frank, Ju Colombo, Efraim Santos, Jéssica Gaspar, Flip, Marisa Revert.  103 min.

 

Grace Passô, reconhecida e respeitada atriz de cinema e teatro, lança o seu primeiro longa-metragem como diretora, que já sai premiado como melhor filme do Festival de Gramado 2026.

“Nosso Segredo” mostra que Grace sabe filmar boas sequências e situações estranhas.  Na verdade, realiza uma filmagem experimental, em que mostra talento na concepção das cenas, nos enquadramentos e na direção de atores.  O conjunto do filme é inegavelmente bem realizado.  Com boa fotografia e direção de arte, também premiadas em Gramado.

 

O problema é que “Nosso Segredo” não é apenas o nome do filme que procura gerar interesse por algo a ser descoberto.  Sua narrativa é toda calcada em segredos, mistérios, coisas que nunca estão claras.  E que podem dar margem a todo o tipo de interpretações.  Ou até nenhuma.  Isso do começo ao fim.  É uma obra aberta?  Tudo bem.  Mas aberta demais, eu diria.

 

Convive-se com uma família negra em Belo Horizonte, que vive em luto por uma perda muito recente e em suspenso por conta de uma estranheza que está sempre presente, embora haja afeição, solidariedade e bom convívio humano entre eles.  No entanto, um bicho parece que pode comê-los e destruí-los a qualquer momento.  Ou não.  A criança lida melhor com tudo isso do que os adultos.  Pois é.  E daí? 



 

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