quinta-feira, 5 de março de 2026

EM CARTAZ

Antonio Carlos Egypto

 


KOKURO, O PREÇO DA PERFEIÇÃO (Kokuro).  Japão, 2025.  Direção: Lee Sang-il.  Elenco: Ken Watanabe, Ryusei Yokohama, Keitasu Koshiyama, Min Tanaka.  176 min.

 

“Kokuro”, representante do Japão no Oscar 2026, conseguiu apenas duas indicações, nas categorias maquiagem e cabelo.  Poderia ter sido indicado também para figurino, já que são deslumbrantes os trajes exibidos.  O filme como um todo é bastante irregular, tem um roteiro que se desdobra e se dispersa e é desnecessariamente longo, sem qualquer necessidade disso.  Repete o erro de muitas das produções cinematográficas atuais, que se estendem à toa e que, em vez de se aprofundar, apenas tornam-se repetitivas.

 

“Kokuro” é interessante para nós, pelo tema de que trata: o teatro tradicional japonês do kabuki, que remonta ao século XVII, mas é uma manifestação cultural forte e expressiva até hoje.  Vale a pena conhecer um pouco mais sobre ela.  Começando pela curiosidade do fato de que ali as mulheres não podem representar nos palcos.  Cabe, portanto, aos homens assumirem os papéis femininos.  Esses atores são chamados de onnagatas.  Mas eles têm de encarar a persona feminina nos palcos.  O que implica muita maquiagem, penteado, atingir a beleza das mulheres com suas roupas tradicionais, seus gestos e mesuras típicos, no caso orientais, e a voz.  O preparo que isso implica é imenso e o julgamento, pelo que se vê no filme, é implacável por parte dos preparadores e do público.

 

O filme do cineasta Lee Sang-il não se furta de nos mostrar cenas muito bonitas de palco, desempenhos notáveis desses atores e roupas maravilhosas.  Por aí é um espetáculo estético admirável.   É o que vale no filme.  É o que prende a nossa atenção, além das informações sobre esse universo artístico que ainda conhecemos pouco.

 

Mesmo com essa beleza toda, há bastante repetição de cenas e textos, já que ele está contando uma história que atravessa gerações, passa de pai para filho, já vindo dos avós e bisavós e remetendo aos netos e bisnetos.  A tradição se repete e, até na beleza, cansa.

 

A trama não importa tanto, remete à competição que se estabelece entre o herdeiro natural na concepção kabuki e um novo elemento vindo de fora, até ligado pelo pai à máfia yakusa, mas que tem um talento indiscutível para onnagata. E como tudo vai acontecendo ao longo da vida deles, junto às famílias e ao mestre kabuki, o que um deles acabará se tornando no futuro.

 




A VIDA SECRETA DE MEUS TRÊS HOMENS.  Brasil, 2025.  Direção: Letícia Simões.  Elenco: Nash Laila, Guga Patriota, Giordano Castro, Murilo Sampaio.  75 min.

 

O filme de Letícia Simões “A Vida Secreta de Meus Três Homens” é uma reflexão sobre a vida pessoal e a vida do país numa perspectiva documental.

 

A cineasta busca entender, reviver, explicar, a experiência de três homens importantes com quem conviveu: o avô Arnaud, o pai Fernando e o padrinho Sebastião.  E, como se fossem fantasmas, conversar com eles por meio de atores que os representam, com base nas informações disponíveis.  Em comum, uma história que parece normal, familiar, mas que envolve silêncios, memórias apagadas e violência.

 

O avô viveu uma experiência de justiceiro, junto ao cangaço, o que nos leva aos primórdios de um Brasil que faz justiça com as próprias mãos, distribuindo migalhas aos pobres. 

 

O pai, boêmio, frequentador de prostíbulos, subiu na vida com cinco empregos públicos, porque se tornou informante civil da ditadura militar, junto ao SNI, responsável por muitas mortes.  Um autoritarismo que continua ainda dando sustentação a um fascismo repugnante. 

 

O padrinho Sebastião, fotógrafo negro e gay perdeu o amor de sua vida num sofrimento que o levou a um final trágico, em um país que até hoje é recordista de mortes de homossexuais e transexuais por serem eles quem são.  Assim como um campeão de feminicídios, crimes que atingem a mulher por ser mulher.

 

Esse paralelo identidade pessoal-passado-estruturas violentas dá ao filme uma discussão muito interessante e fértil.

 




                     PEDRO ALMODÓVAR
                                       

E, por último, mas muito importante: é bom lembrar a todos que a Cinemateca Brasileira está apresentando até 15 de março de 2026 uma retrospectiva dos filmes de Pedro Almodóvar, um dos mais importantes diretores da história do cinema mundial, em parceria com a Embaixada da Espanha e com o Instituto Cervantes, exibindo 20 títulos em sessões gratuitas.  Confira a programação aqui: https://cinematecabrasileira.org.br

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário