segunda-feira, 1 de outubro de 2018

UMA NOITE DE 12 ANOS


Antonio Carlos Egypto





UMA NOITE DE 12 ANOS (La Noche de 12 Años).  Uruguai, 2017.  Direção: Alvaro Brechner.  Com Antonio de la Torre, Alfonso Tort, Chino Darín, Soledad Villamil.  123 min.



Nos anos 1960, 1970 e 1980, pipocaram ditaduras militares por toda a América Latina.  Contavam com apoio civil relevante, internamente, e apoio decisivo, internacional, em especial dos governos dos Estados Unidos, que atuavam como financiadores e capacitadores das ações de repressão.  O que se viu no Brasil por longos 21 anos aconteceu no mesmo período, ainda que por menos tempo, na Argentina, no Chile, no Uruguai.  Os níveis de violência, tortura e morte, dos opositores variam bastante, mas os métodos se assemelham.  Vivíamos o mesmo período de trevas e supressão da democracia, em todos os lugares.

Assim como havia o terrorismo de Estado, também se desenvolveu a luta armada de resistência.  O padrão de resposta à opressão também variou muito, mas com elementos comuns.  No caso uruguaio, foram de 12 para 13 anos de ditadura, de 1972 a 1985, e a resistência armada foi protagonizada por um forte e ousado grupo de guerrilheiros urbanos, do movimento de libertação nacional, conhecido como Os Tupamaros.




O filme “Uma Noite de 12 Anos” trata da prisão e sequestro de três membros dos Tupamaros, que estiveram nas mãos dos militares nesse período.  A saber: José Mujica, o Pepe (Antonio de la Torre), que acabaria sendo eleito presidente do Uruguai em 2010, Eleuterio Fernandez Huidoro (Alfonso Tort), que depois foi senador e ministro, e o jornalista e escritor Maurício Rosencof (Chino Darín).

A prisão que eles amargaram por esses 12 anos é algo absolutamente inominável, como mostra o filme do diretor uruguaio, que vive na Espanha, Alvaro Brechner.  A opressão é absoluta, desmedida.  As condições de encarceramento em isolamento, desumanas e degradantes, sem nenhum respeito aos direitos humanos.  Numa situação tal que é um milagre conseguir sobreviver sem elouquecer.

O filme mostra claramente esse dia a dia abominável, em que a tortura psicológica atua e complementa a tortura física, nas condições mais humilhantes que o ser humano pode conceber.  Também mostra os poucos respiros que surgem na convivência humana, mesmo nessas condições.  Inclui imagens de memória, sonho ou imaginação, que aliviam a carga dramática.  Mas faz um retrato da desumanidade que é assustador.

Como foi possível que todo aquele sofrimento pudesse gerar uma figura tão cativante quanto o presidente Pepe Mujica?  É absolutamente incrível!




Assistir a “Uma Noite de 12 Anos” é politicamente recomendável, para entendermos a que ponto pode chegar o autoritarismo de um regime de força.  Ainda que o filme seja sofrido e pesado e não tenha uma intenção de exploração histórica do período, nem faça referência ao que estava acontecendo tão perto quanto o regime de terror de Pinochet no Chile, por exemplo.

 A entrega dos atores às filmagens das condições do cárcere ilegal compõe um retrato realista, que acaba tornando tudo muito claro e didático.  Por se tratar de uma situação extrema, a que nenhum ser humano pode ser submetido.  Mas que continua acontecendo pelo mundo, em meio às guerras e perseguições de toda ordem.  Resta-nos lutar pela preservação da democracia, para que, ao menos, possamos usufruir de um convívio civilizado que respeite a vida, a integridade e a dignidade das pessoas.



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