quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

TEMPOS MODERNOS

                                                             Antonio Carlos Egypto


TEMPOS MODERNOS (Modern Times), Estados Unidos, 1936. Escrito, dirigido, musicado e produzido por Charles Chaplin. Com Charles Chaplin, Paulette Goddard, Henry Bergman, Stanley Sandford. 83 min.

Tempos Modernos, de Charles Chaplin, é um dos maiores clássicos de toda a história do cinema. Realizado nos anos de 1934 e 1935 e após uma longa viagem de dezoito meses de Chaplin pelo mundo, iniciada em 1931, reflete as preocupações do cineasta com os efeitos da Grande Depressão que se seguiu à crise da Bolsa de Nova York de 1929. O filme coloca em cena, com gags notáveis, a realidade então vivida pelos trabalhadores, desempregados e excluídos, com a mítica figura de Carlitos, o vagabundo, que viria a se despedir nesse filme, após vinte anos de estrondoso êxito, que repercute até os dias de hoje.

Uma parte dos problemas apresentados por meio da comédia, com características de cinema mudo mesmo aos dez anos de existência do cinema falado, permanece atual, porque é de produção capitalista que se trata. Mas a denúncia que o filme apresenta tem significado histórico mais definido. Fala de automação, do homem-máquina, do controle do tempo pela fábrica, da organização racional do trabalho (taylorismo), das linhas de montagem (fordismo). De um tempo em que o rendimento do trabalho aumentava, a produção crescia, os preços dos produtos baixavam, trazendo grandes novidades, ao mesmo tempo em que o trabalho de desumanizava. Com a primeira grande crise mundial do capitalismo industrial, esses avanços também produziram desemprego em massa, fome, desabrigados, revolta social e violência, urbanização explosiva e é também a época de ouro das drogas estimulantes que embalam a agitação moderna. Nada disso escapa à sensibilidade de Chaplin e tudo está contemplado em Tempos Modernos: “uma história sobre a indústria, a iniciativa privada e a humanidade em busca de felicidade”, como diz o prólogo do filme.

A justaposição de imagens dos carneiros com a ovelha negra (Carlitos?) e os operários indo para a fábrica é eloqüente por si só. A aglomeração urbana é mostrada sob ângulos inusitados, que se distinguem do restante do filme. Entram as máquinas e o presidente da fábrica faz quebra-cabeças (trabalho X capital)).

O controle absoluto do tempo, que foi implantado pela administração científica que propunha a organização racional do trabalho (Taylor, Fayol) é satirizado pelos telões que controlam até o tempo no banheiro (Carlitos instado a voltar rapidamente ao trabalho); a máquina de comer, que poderia reduzir o tempo do almoço e é um desastre absoluto, as gargalhadas que a cena produz são demolidoras. O relógio de ponto que não é esquecido, nem quando Carlitos é perseguido por um policial, é outro ícone dessa forma racional de administrar. Racional para quem? pergunta Chaplin. Certamente não para os operários.

A linha de montagem, implantada com grande propaganda por Henry Ford em suas fábricas modernas, otimizou a produtividade e pretendeu reduzir a fadiga do trabalhador, fazendo com que a esteira rolasse, em vez de a pessoa ter de mover-se. Chaplin demole essa idéia, mostrando de forma hábil e hilariante seu contraponto – o esforço exaustivo e repetitivo do apertar parafusos que estressa, aliena e enlouquece.

Carlitos não consegue segurar a sopa, sai apertando tudo que parece parafuso, como os botões dos vestidos. Sai da linha de montagem, dança, espirra óleo na cara de todos e é perseguido. Para se defender, ele liga a máquina, que aciona os operários, desumanizados pelo ritmo da produção e sua velocidade constante e controlada. Só é possível ser um indivíduo e expressar-se fora da linha de montagem (ou acionando loucamente todas as manivelas e botões, explodindo os mecanismos da fábrica). O homem se torna parte da mecânica, um objeto. Carlitos vira ao mesmo tempo engrenagem da máquina, na seqüência mais marcante e antológica de Tempos Modernos.

Mas há mais: a fome, o desemprego e a revolta, nas cenas com a bandeira vermelha dos consertos de rua que acaba liderando uma passeata, que termina em prisão (onde a cocaína é mostrada como estimulante capaz de enfrentar os bandidos) e dá ensejo ao romance com a garota que luta contra a fome, cujo pai desempregado é assassinado em confrontos de rua. Na loja de departamentos, eles compartilham alguns sonhos de consumo inalcançáveis para os que estão à margem. Juntos, eles continuam a luta até o fim, mesmo depois de perder todas as oportunidades.

Antes de pegar a estrada, na cena final, ambos sonham com um mundo mais simples e rural – onde se colhem frutas no pé e se tira leite da vaca ao pé da porta. São os tempos modernos da indústria e do cinema falado, que Chaplin questiona com insuperável talento.

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