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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

PRÊMIO ABRACCINE 2025


 Reproduzo aqui a matéria, publicada no site da Abraccine, que revela a escolha que fizemos dos melhores filmes de 2025. Trata-se do 15o. Prêmio Abraccine, que corresponde aos 15 anos de existência da própria associação.

Antonio Carlos Egypto


Revelados os vencedores do 15º Prêmio Abraccine – Melhores do Ano

“O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, foi escolhido o melhor longa-metragem brasileiro de 2025 pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine). Durante a esperada live do Prêmio Abraccine – Melhores do Ano, ocorrida na noite de  5 de fevereiro, também foram anunciados “Uma Batalha Após a Outra”, dirigido por Paul Thomas Anderson, na categoria melhor longa-metragem internacional, e “A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero”, de Rodolpho de Barros, como melhor curta-metragem. 

Em sua 15ª edição, marca que acompanha a existência da entidade, o Prêmio Abraccine – Melhores do Ano vem se juntar a uma bem-sucedida trajetória comercial e de premiações dos títulos escolhidos. “O Agente Secreto”, visto no Brasil por mais de dois milhões de espectadores, largou no Festival de Cannes do ano passado com os troféus de direção e ator para Wagner Moura, e está indicado a quatro estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme e melhor ator. Terá batalha difícil com o longa de Thomas Anderson, outro dos favoritos para os prêmios da Academia de Hollywood, em disputa por 13 Oscars. Já o longo e curioso título do curta vencedor é um velho conhecido da Associação. Levou o Prêmio Abraccine no Fest Aruanda 2025, entre outros reconhecimentos no mesmo festival.

Além dos três títulos vencedores, a Associação também elegeu o top 10 de cada categoria.

O processo de eleição ocorreu durante a última quinzena de janeiro com a participação dos associados, em quadro composto atualmente por cerca de 180 nomes estabelecidos em todas as regiões do País, entre jornalistas, críticos, acadêmicos, estudiosos, curadores e programadores da área de cinema. 

Confira as listas completas de melhores do ano de 2025 segundo a Abraccine:




Melhor Longa-Metragem Brasileiro

O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho

Top 10 Longas-Metragens Brasileiros (em ordem alfabética)
O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
Baby, de Marcelo Caetano
Os Enforcados, de Fernando Coimbra
O Filho de Mil Homens, de Daniel Rezende
Homem com H, de Esmir Filho
Kasa Branca, de Luciano Vidigal
Manas, de Mariana Brennand
A Natureza das Coisas Invisíveis, de Rafaela Camelo
Oeste Outra Vez, de Erico Rassi
O Último Azul, de Gabriel Mascaro. 



Melhor Curta-Metragem
A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero, de Rodolpho de Barros

Top 10 Curtas-Metragens (em ordem alfabética)
A Arte de Morrer ou Marta Díptero Braquícero, de Rodolpho de Barros
Boiuna, de Adriana de Faria
Casulo, de Aline Flores
Como Nasce um Rio, de Luma Flôres
E Seu Corpo é Belo, de Yuri Costa
O Faz-Tudo, de Fábio Leal
Laudelina e a Felicidade Guerreira, de Milena Manfredini
O Mapa em Que Estão meus Pés, de Luciano Pedro Jr.
O Rio de Janeiro Continua Lindo, de Felipe Casanova
Samba Infinito, de Leonardo Martinelli





Melhor Longa-Metragem Internacional

Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson

Top 10 Longas-Metragens Internacionais (em ordem alfabética)
Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson
Dreams, de Dag Johan Haugerud
Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi
Levados pelas Marés, de Jia Zhang-Ke
The Mastermind, de Kelly Reichardt
Misericórdia, de Alain Guiraudie
Pecadores, de Ryan Coogler
A Semente do Fruto Sagrado, de Mohammad Rasoulof
Sorry, Baby, de Eva Victor
Valor Sentimental, de Joachim Trier

 


quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

2 FILMES DO IRÃ

              Antonio Carlos Egypto

 



A SEMENTE DO FRUTO SAGRADO (Dãne-ye anjir-e ma’ãbed).  Irã/Alemanha, 2024.  Direção: Mohammad Rasoulof.  Elenco: Missagh Zareh, Mahsa Rostami, Soheila Golestani, Setareh Maleki, Niousha Akhshi.  166 min.

 

O título poético “A Semente do Fruto Sagrado” é uma metáfora para se referir àquilo que as pessoas internalizam, aderem, que as destrói e contamina o ambiente em que elas vivem.  E a referência ao sagrado não é aleatória.  É em nome de Deus que se cometem os crimes mais cruéis. Aqui, o contexto coletivo é o da teocracia que vigora no Irã.  O personagem central da trama é Iman (Missagh Zareh), que alcança a condição de Juiz de Instrução nos processos da Polícia da Moral, no mesmo momento em que pipocam manifestações populares nas ruas de Teerã e outras cidades do país, por conta da morte de uma jovem relacionada ao uso inadequado (ou ausente) do véu obrigatório.  E o filme se vale de imagens reais, captadas nas ruas.  A narrativa, então, focaliza a família de Iman, sua mulher e duas filhas, dentro de casa, oprimidas pela situação e tendo de se comportar estritamente segundo as regras do regime, para não prejudicar a carreira do pai.  Ocorre que a revolta invade a casa e atinge uma amiga das meninas, que é fortemente agredida pela polícia, o que era a regra das ruas.  Nesse momento, uma sequência longa e detalhada faz questão de mostrar os ferimentos que afetam seriamente o rosto da moça, sendo cuidada pela mãe das meninas, Najmeh (Soheila Golestani).  Não era necessário esse alongamento, não é isso que convence alguém de que o autoritarismo e a violência vigoram em regimes como esse.  Em seguida, a narrativa vai se concentrar na perda da arma de Iman e nas relações familiares que refletirão, reproduzirão, a opressão e as injustiças da teocracia dominante.  Aí também há um alongamento da situação, mas novos elementos serão revelados.  E sequências que exploram amplamente os espaços externos e os internos até chegar ao labiríntico final são recursos cinematográficos bem empregados.  Assim como a câmera explora o conjunto, também é bastante criativa nos detalhes, como os pingos de uma chuva ou objetos que têm significado na história.  O elenco formado pelas três mulheres da casa, pela amiga e por Iman é muito eficiente, e na contenção expressa o medo.   O medo é o grande mote de toda a ação do filme, na minha visão.  O que bloqueia, o que paralisa, o que move, o que oprime e o que destrói é o medo.  “A Semente do Fruto Sagrado” é a denúncia da opressão pelo medo.  Não surpreende que o cineasta Mohammad Rasoulof tenha fugido do Irã e o filme esteja proibido de ser exibido no país.  Da mesma forma, não chega a ser estranho que esse filme tenha sido o escolhido pela Alemanha para representá–la no Oscar de filme internacional.  O Irã jamais o indicaria.  É um filme corajoso, que toca na ferida, o que nenhum regime opressor pode admitir.  Uma boa razão para que a gente continue cultivando a nossa democracia.

 



MEU BOLO FAVORITO (Keyke Mahboobe Man).  Irã, 2024.  Direção: Maryam Moghadam e Behtash Sangeeha.  Elenco: Lili Farhadpour, Esmaeel Mehrabi, Mansore Ilkani.  96 min.

 

Um filme iraniano simples, de baixo orçamento, consegue alcançar um alto grau de sensibilidade ao tratar de solidão e velhice.  A rotina da solidão pode ser muito cruel, na ausência do ser amado, que se foi, ou de um passado que já ficou para trás, das amigas, amigos ou colegas de trabalho, que envelhecem, perdem força e vigor.  Mas os sonhos e os desejos continuam lá.  A cabeça sonha coisas que o corpo já não dá conta.  O espectro da doença e da morte é um desafio real e concreto.  Acomodar-se ou desistir desses sonhos gera frustração, amargura.  E nem o recurso à ironia alivia o problema.  As respostas individuais, no entanto, variam muito.  Às vezes, um gesto ousado pode gerar esperança, amor.  A repressão e o controle do comportamento feminino são fatores complicadores.  Em especial, numa sociedade autoritária, que controla do uso correto do véu às pessoas que são recebidas em casa.  É contra a lei de Deus, por exemplo, uma mulher receber um homem em casa.  Por qualquer que seja o motivo. Uma sociedade que pulsa e clama por liberdade, mas que está presa a valores arcaicos, sujeita à Polícia da Moral, torna radical a experiência do envelhecer e da solidão.  No filme “Meu Bolo Favorito”, todas essas questões se fazem presentes, bem como o revigorar da vida pela emergência do afeto, do amor e do companheirismo.  Diálogos surpreendentemente claros e diretos revelam o que está envolvido nessa temática. A personagem central da trama, Mahin, papel vivido brilhantemente por Lili Farhadpour, explora uma série de nuances da situação feminina, que remetem ao país, mas vão além dele, com certeza.  Faramarz, papel também de ótimo desempenho de Esmaeel Mehrabi, nos mostra que o poder masculino se esvai, desaparece no viver solitário.  O grupo de homens idosos do bar também remete à perda dessa força, em que pese o modelo social privilegiar tão claramente o homem, frente à liberdade e à capacidade de decidir a própria existência.  O fato é que a vida pulsa na tela com muita verdade nesse simpático “Meu Bolo Favorito”.  O bolo é aquele que é feito na espera de alguém para comer e compartilhar.

 

FILMES EM CARTAZ

Já comentei por aqui vários filmes que estão entrando na programação dos cinemas, quando da 48ª. Mostra Internacional de São Paulo: MARIA CALLAS, TUDO QUE IMAGINAMOS COMO LUZ, SOL DE INVERNO, BABY, MALU e LUÍS MELODIA, NO CORAÇÃO DO BRASIL.  Quem não viu e quiser conferir entre nas postagens da Mostra em outubro e começo de novembro por aqui:  https://cinemacomrecheio.blogspot.com