sexta-feira, 18 de setembro de 2026

DICAS DE BRASILEIROS

Antonio Carlos Egypto

 

O cinema brasileiro tem estado muito ativo com grande número de lançamentos que têm muita dificuldade em alcançar o público, numa realidade de mercado complicada, dominada pelo cinema estrangeiro.  Aí vão algumas dicas de filmes bem diversos da produção nacional atual.

 


O documentário VIVA MARÍLIA, 2025, dirigido por Zelito Viana, de longa contribuição ao cinema desde os anos 1970, com roteiro de Nelson Motta, trata da vida e da arte da grande atriz Marília Pêra. Com uma vasta obra, que ela mesma comenta e apresenta ao longo das décadas de 1960, 1970 e 1980, reflete o próprio país e a força das mulheres na cultura brasileira. Isso foi possível graças ao vasto acervo de imagens e vídeos raros de Marília que foram preservados. 87 min.

 


MORTE E VIDA MADALENA, 2025, direção e roteiro de Guto Parente, é um filme sobre cinema. Ou sobre o desafio de se fazer cinema independente no Brasil.  Porém, isso se dá de modo caótico numa comédia e drama que se alternam e se complementam de forma histriônica.  A personagem que conduz a narrativa é Madalena (excelente trabalho de Noá Bonoba), uma produtora de cinema que tem de lidar com a morte recente do pai, tocar um roteiro dele de um filme de ficção científica, está grávida de 8 meses e o diretor do filme, e marido dela, Davi (Marcus Curvelo), simplesmente desaparece.  Ela conta com o bom senso de Natasha (Nataly Rocha), mas escolhe para diretor Oswaldo (Tavinho Teixeira), um ator que se comporta de um jeito totalmente desequilibrado e fora dos eixos.  Mas se diz medicado e apoiado por um psiquiatra.  Já viram para onde isso vai, não é?  É muitas vezes engraçado.  Mas é tudo over demais, cheio de clichês e improbabilidades.  Quem gosta de filmes louquinhos, como alguns que eu conheço, vai curtir muito.  85 min.

 


PRECISAMOS FALAR, 2024, thriller psicológico, dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, inspirado no livro “O Jantar”, do escritor holandês Herman Koch, trata de um tema importante e moralmente desafiador.  O filme começa com uma filmagem tosca e tremida de um crime, uma moradora de rua é assassinada por um grupo de três adolescentes, porque estava dormindo num caixa eletrônico, impedindo o uso da máquina.  Agressões, estouros e essa filmagem dão conta da seriedade do ocorrido.  O principal responsável foi o que filmou a cena.  Mas todos estavam comprometidos e envolvidos nesse crime bárbaro.  Além do comportamento errático e desencontrado dos garotos, incluindo um irmão adotivo pardo numa família de brancos e um sobrinho racista, a narrativa se concentra num jantar marcado pelos pais dos jovens adolescentes, para decidir como agir diante dessa gravíssima questão.  Por trás de toda essa crueldade, há pais e mães preocupados com os filhos, amando e protegendo e/ou se sentindo abalados por qualquer decisão que tomem.  A identificação dos criminosos não havia acontecido.  Para complicar, o pai dos dois irmãos, incluindo o adotado, é político, está em processo eleitoral e as pesquisas o mostram muito bem na disputa.  Que efeito isso terá sobre a sua candidatura?  Temos aqui uma questão de classes sociais, de como as coisas andam diante da enorme desigualdade encontrada na sociedade.  O livro que deu origem ao roteiro de Sérgio Goldenberg vem de um escritor europeu.  Mas a questão, além de universal, cai como uma luva na realidade brasileira.  O filme poderia até ter sido inspirado por notícias de jornais brasileiros, como fazia Hitchcock em alguns de seus filmes.  Elenco: Marjorie Estiano, Alexandre Nero, Hermila Guedes, Emílio de Mello.  101 min.




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