Antonio Carlos Egypto
O cinema
brasileiro tem estado muito ativo com grande número de lançamentos que têm
muita dificuldade em alcançar o público, numa realidade de mercado complicada,
dominada pelo cinema estrangeiro. Aí vão
algumas dicas de filmes bem diversos da produção nacional atual.
O documentário VIVA MARÍLIA, 2025, dirigido por Zelito
Viana, de longa contribuição ao cinema desde os anos 1970, com roteiro de
Nelson Motta, trata da vida e da arte da grande atriz Marília Pêra. Com uma vasta
obra, que ela mesma comenta e apresenta ao longo das décadas de 1960, 1970 e
1980, reflete o próprio país e a força das mulheres na cultura brasileira. Isso
foi possível graças ao vasto acervo de imagens e vídeos raros de Marília que
foram preservados. 87 min.
MORTE E VIDA MADALENA, 2025, direção e roteiro de Guto Parente, é um
filme sobre cinema. Ou sobre o desafio de se fazer cinema independente no
Brasil. Porém, isso se dá de modo
caótico numa comédia e drama que se alternam e se complementam de forma
histriônica. A personagem que conduz a
narrativa é Madalena (excelente trabalho de Noá Bonoba), uma produtora de
cinema que tem de lidar com a morte recente do pai, tocar um roteiro dele de um
filme de ficção científica, está grávida de 8 meses e o diretor do filme, e
marido dela, Davi (Marcus Curvelo), simplesmente desaparece. Ela conta com o bom senso de Natasha (Nataly
Rocha), mas escolhe para diretor Oswaldo (Tavinho Teixeira), um ator que se
comporta de um jeito totalmente desequilibrado e fora dos eixos. Mas se diz medicado e apoiado por um
psiquiatra. Já viram para onde isso vai,
não é? É muitas vezes engraçado. Mas é tudo over demais, cheio de clichês e improbabilidades. Quem gosta de filmes louquinhos, como alguns
que eu conheço, vai curtir muito. 85
min.
PRECISAMOS FALAR, 2024, thriller
psicológico, dirigido por Pedro Waddington e Rebeca Diniz, inspirado no
livro “O Jantar”, do escritor holandês Herman Koch, trata de um tema importante
e moralmente desafiador. O filme começa
com uma filmagem tosca e tremida de um crime, uma moradora de rua é assassinada
por um grupo de três adolescentes, porque estava dormindo num caixa eletrônico,
impedindo o uso da máquina. Agressões,
estouros e essa filmagem dão conta da seriedade do ocorrido. O principal responsável foi o que filmou a
cena. Mas todos estavam comprometidos e
envolvidos nesse crime bárbaro. Além do
comportamento errático e desencontrado dos garotos, incluindo um irmão adotivo
pardo numa família de brancos e um sobrinho racista, a narrativa se concentra
num jantar marcado pelos pais dos jovens adolescentes, para decidir como agir
diante dessa gravíssima questão. Por
trás de toda essa crueldade, há pais e mães preocupados com os filhos, amando e
protegendo e/ou se sentindo abalados por qualquer decisão que tomem. A identificação dos criminosos não havia
acontecido. Para complicar, o pai dos
dois irmãos, incluindo o adotado, é político, está em processo eleitoral e as
pesquisas o mostram muito bem na disputa.
Que efeito isso terá sobre a sua candidatura? Temos aqui uma questão de classes sociais, de
como as coisas andam diante da enorme desigualdade encontrada na
sociedade. O livro que deu origem ao
roteiro de Sérgio Goldenberg vem de um escritor europeu. Mas a questão, além de universal, cai como
uma luva na realidade brasileira. O
filme poderia até ter sido inspirado por notícias de jornais brasileiros, como
fazia Hitchcock em alguns de seus filmes.
Elenco: Marjorie Estiano, Alexandre Nero, Hermila Guedes, Emílio de
Mello. 101 min.



Nenhum comentário:
Postar um comentário