Antonio Carlos Egypto
O ESTRANGEIRO (L’Étranger”). França, 2025.
Direção: François Ozon. Elenco:
Benjamin Voisin, Rebecca Marder, Pierre Lotin, Swann Arlaud. 122 min.
O Estrangeiro, importante romance
existencial de Albert Camus (1913-1960), já se tornou filme em 1967, sob a
direção de Luchino Visconti, com Marcello Mastroianni no papel principal. Retomar essa obra-prima da literatura pelo
cinema agora parece, então, uma atitude no mínimo muito ousada.
Quem encarou isso foi François Ozon, que não é nenhum Visconti, mas é um
dos mais importantes cineastas franceses da atualidade. Seu protagonista é o jovem e talentoso
Benjamin Voisin. Mas ninguém vai querer
compará-lo com Mastroianni, um dos maiores atores do cinema de todos os tempos.
Bem, então, vamos ao personagem
principal, Mersault, apático, que não expressa emoções, vive num mundo interior
árido, sem entusiasmo ou interesse pelo amor, pela vida e mesmo pela
morte.
Nada o abala, nem a morte da mãe, de que ele vai cuidar sem sofrimento
aparente, dor ou choro. Ou do encontro
afetivo -- sexual – que o une momentaneamente a Marie (Rebecca Marder), o que
entusiasma mais a ela do que a ele. No
entanto, esse personagem vai cometer um assassinato, de um árabe, numa praia de
Argel, sem motivo aparente. Isso
acarretará um julgamento em tribunal, em que Mersault, como na vida, jamais
mentirá.
Um francês na Argélia dos anos de 1930, envolto pelo colonialismo, está
sendo julgado. E, com ele, o ambiente
político da época. Quanto às mulheres,
elas assumem um protagonismo maior no filme de Ozon. E para que tudo soe verdadeiro, nada melhor
do que a filmagem em preto e branco, que o diretor escolheu acertadamente.
O filme é bonito, tem o ritmo certo para que possamos viver a experiência
com o protagonista bem de perto. Com
calma e sorvendo as surpresas dessa personalidade tão intrigante e
introspectiva.
Vale a pena conferir a nova versão de “O Estrangeiro”, mas não deixe de
ver também a versão de Luchino Visconti, caso você não a conheça.
DOCS VENCEDORES
Os documentários, vencedores oficiais pela definição dos júris do
Festival É TUDO VERDADE 2026, estão automaticamente classificados para a
disputa do Oscar de docs, curta e longa metragem. Foram eles:
Internacionais
Longa: UM FILME DE MEDO (Una
película de miedo), Espanha, Portugal.
Dirigido por Sérgio Oksman. 72
min. Um documentarista e seu filho de 12
anos experimentam o medo, mas as relações pais e filhos, atuais e passadas,
tomam conta da narrativa. Bom trabalho.
Curta: SONHOS DE APAGÃO (Sueña
Ahora), Cuba, Itália, dirigido por Gabriele Luchelli, Francesco Lorusso,
Andrea Settembrini. 20 min. Aborda a vida possível e os sonhos que são
vividos pelos cubanos nos apagões.
Trabalho espetacular com a luz.
Nacionais
Longa: SAGRADO, de Alice Riff, 90 min., sobre uma escola pública
de Diadema,SP, integrada à comunidade por lutas passadas, vista pelos olhos de
seus trabalhadores: professores, merendeiras, seguranças, etc., que emergem
como tipos humanos muito interessantes.
Curta: ARCOS DOURADOS DE OLINDA, o sensacional trabalho de Douglas
Henrique, que, em 24 minutos, conta a história da Guerra Fria refletida em
Olinda, numa disputa acirrada entre duas mulheres pela Prefeitura, enquanto o
McDonald’s entra em falência pela primeira vez no mundo, na histórica Olinda,
em Pernambuco, no centro do Brasil. Irônico e brilhante, venceu, além do prêmio
oficial, mais três prêmios, pela APACI (Associação Paulista de Cineastas),
Canal Brasil e Mistika.
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| Douglas Henrique |



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