quinta-feira, 16 de abril de 2026

DOCS NACIONAIS


Antonio Carlos Egypto

 

O documentário brasileiro vem mostrando sua força na 31ª. edição do É TUDO VERDADE 2026, que vai até 19 de abril, em novos trabalhos e revisitando êxitos que já se tornaram clássicos.  Vou comentar mais alguns docs nacionais que vi no Festival.

 

com Baby do Brasil

Começando por APOCALIPSE SEGUNDO BABY, de Rafael Saar.  Baby do Brasil (ex-Baby Consuelo) é uma cantora muito boa, expressiva, talentosa.  E que tem uma audácia que é reveladora de uma autoconfiança e de uma autoestima que ela atribui a Deus, ao seu misticismo, à sua dimensão cósmico-telúrica.  Tudo bem.  Crenças cada um tem as suas.  Só que a figura forte, exibida, exagerada, às vezes ofusca o talento musical.  O presente documentário procura dar conta desses dois aspectos.  E se sai bem.  Não deixa de enfatizar o que foi o brilho dos Novos Baianos, que ela integrou, da dupla com Pepeu, nem o de sua carreira solo, posterior.  Importante: mostra o seu relacionamento musical com a nata da música brasileira, de Ademilde Fonseca a João Gilberto, passando por Elza Soares, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal, Bethânia e muitos mais.  Além do espírito de Janis Joplin.  São muitas e ótimas influências.  Quanto aos excessos, deixa pra lá.  Mas vai aqui um exemplo.  Pedi a ela uma pose para uma foto que ilustraria essa matéria.  Foi essa.  110 min.

 


Carlos Adriano dirigiu um longa radical e experimental, que eu achei magnífico, sobre, vejam só, Marcel Proust (1871-1922) e a possibilidade ou impossibilidade de filmar sua obra monumental “Em Busca do Tempo Perdido”, escrita entre 1906 e 1922.  E faz uma colagem bem trabalhada de imagens de arquivo, inclusive do próprio Proust e da alta burguesia francesa a que ele pertencia.  Faz superposições, avanços e recuos, montagem com filmes famosos, letras em preto e branco e coloridas na tela, um caleidoscópio rodante, etc.. E muitas frases, citações e pequenos textos, não só de Proust, mas de outros autores que, com as ideias dele, se acoplam.  Aliás, trabalhou bastante a associação de ideias, conceitos, imagens e até manuscritos da época.  Vai encontrando soluções para que Proust possa ser filmado, lido e compreendido, com humor também.  Tem uma sequência longa com Carmem Miranda e o seu bananal hollywoodiano.  Tem “Um Corpo que Cai”, Orson Welles, Deleuze, Machado de Assis, Roberto Machado, Drummond...  Enfim, uma mistura e associação fenomenais.  Claro que é um filme para poucos, mas PROUST PALIMPSETO: PASTICHES E MISTURAS é um belo trabalho.  103 min.

Do mesmo diretor, também foi exibido o curta SEM TÍTULO#11: UM ANACLETO À MULA, em que uma mula é o centro da ação, assim como o filme de Robert Bresson, de 1966, que tinha como protagonista um burro.  Também aqui Carlos Adriano acopla frases, textos literários e combinações de imagens de forma bem criativa.  27 min.

 

Carlos Adriano ao microfone

RETIRO, A CASA DOS ARTISTAS, de Roberto Berliner e Pedro Bronz, visita a instituição centenária do Rio de Janeiro que acolhe trabalhadores da cultura brasileira na velhice.  E nos mostra como são, como vivem, o que pensam diversas figuras que lá estão, usufruindo de uma vida digna, ainda que com poucos recursos materiais.  O toque do artista faz toda a diferença, transforma a simplicidade em poesia e beleza.  E os sonhos em cenários teatrais deslumbrantes, como lembrou Stepan Nercessian, dirigente da casa.  95 min.

 

Gostaria de mencionar também o curta ARCOS DOURADOS DE OLINDA, de Douglas Henrique, que com humor e ironia nos relata a disputa entre duas mulheres pela prefeitura da cidade, em 2000, vencida pela comunista, do PCdoB, Luciana Santos, depois reeleita, enquanto o McDonald’s se instalava na cidade, provocando inicialmente filas, como aconteceu no resto do mundo.  Porém, Olinda foi, segundo o filme, a única cidade do mundo onde o McDonald’s faliu.  Por isso mesmo, Olinda, a capital do centro do Brasil, Pernambuco, se revelou uma cidade extraordinária no mundo.  Mas o Douglas garante que não é bairrista.  24 min.

 

Missão 115

Para terminar, eu gostaria de citar e recomendar um dos grandes documentários já feitos no Brasil, MISSÃO 115, de Sílvio-Da-Rin, de 2018, que se debruça sobre o período em que, por meio de bombas enviadas pelo correio e com o atentado ao show de 1º. de maio de 1981, no Rio Centro, revelou-se por inteiro o terrorismo de Estado praticado durante a ditadura militar.  Afinal, a bomba explodiu no colo do militar que faria o atentado, planejado para produzir um caos, com portas fechadas a cadeado, para ser imputado à esquerda.  Essa era a tal missão.  Quem não viu, não perca.  Fundamental para entender a história brasileira recente e mesmo atual.  87 min.

www.etudoverdade.com.br

 



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