sábado, 28 de março de 2026

A GRAÇA

 Antonio Carlos Egypto


 

A GRAÇA (La Grazia).  Itália, 2025.  Direção: Paolo Sorrentino.  Elenco: Toni Servillo, Anna Ferzetti, Orlando Cinque, Massimo Venturiello.  133 min.

 

“A Graça”, novo trabalho de Paolo Sorrentino (de “Il Divo”, de 2008, “A Grande Beleza”, de 2013, “A Juventude”, de 2015 e “A Mão de Deus”, de 2021, entre outros), um dos grandes cineastas italianos da atualidade, é um filme cheio de virtudes.  Antes de mais nada, por contar, novamente, com Toni Servillo como protagonista, num desempenho contido, interiorizado, absolutamente perfeito.  Por ser um filme que explora com profundidade as reflexões sobre a velhice, o poder (ou a perda do poder), a paixão, o romance, o luto, a solidão e a morte.  É também um filme político, que discute questões polêmicas da atualidade.  É, ainda, um filme profundamente humanista, que lida com personagens fictícios absolutamente verdadeiros em sua humanidade.

 

Um Presidente da República italiano imaginário chamado Mariano De Santis (Toni Servillo) chega a uma idade avançada que coincide com o final de seu mandato.  Em 6 meses, ele estará fora do poder e vai voltar para casa. É um mandatário querido por seu povo (os aplausos no Scala de Milão são um atestado eloquente disso).  É uma pessoa ponderada, equilibrada, que reflete muito antes de tomar decisões.  Cultiva a dúvida e o tempo a seu favor.  Isso também pode ser interpretado como postergamento de decisões, ficar muito tempo em cima do muro, evitando se expor publicamente.  Na verdade, é um homem discreto, cuidadoso e reflexivo, o que explicaria melhor o respeito de seu povo, em que pese o fato de demandas populares permanecerem não atendidas.

 

Bem, em seus últimos seis meses as principais decisões que ainda podem marcar seu nome na história da Itália dizem respeito a leis que podem regular a eutanásia no país e a dois casos rumorosos de assassinatos de cônjuges, sendo um homem, por um lado, e uma mulher, por outro, como sentenciados, para os quais há pedidos de indulto e um volume de assinaturas e apoios.  Considere-se que o Presidente é um grande jurista, profundo estudioso e conhecedor das leis.

 

Enquanto isso, Mariano vive com a filha Dorotea (Anna Ferzetti), que é também sua assessora, e mergulha numa crise existencial duradoura, desde que está viúvo há oito anos.  Não consegue se livrar não só da imagem de perfeição de sua mulher, Aurora, comentada constantemente ao longo do filme, como dos fantasmas de uma traição que ela teria cometido quarenta anos atrás.  Mas com quem e por que, se se amaram tanto por todo esse tempo?  Para ele, essa lei não perdeu validade.


 

É uma vida que está sendo passada pela memória e pela avaliação dessa figura importante que agora se retira do poder que legitimamente conquistou.  Tudo parece fino, elegante, discreto, nessa trajetória.  Que destoa, de repente, pelo interesse pelo rap enquanto expressão musical e pelo encanto por astronautas que podem viver experiências sem a lei da gravidade.  Elementos que fazem o contraste entre mundos, com o passado tão presente, a atualidade desafiadora e o futuro que parece quase não existir.

 

Com tanta densidade de questões, outra grande virtude do filme está em algumas sequências extraordinárias, como a chegada do velho Presidente de Portugal em meio a uma chuva torrencial que o derruba ou a lágrima do astronauta que se solidifica na cabine.  Mas sequências simples de conversa ou envolvimento afetivo também se destacam. Uma mulher que flerta com o Presidente de forma inesperada ou a sinceridade de alguns de seus interlocutores diante das perguntas que ele dirige a eles.  A descoberta do apelido concreto armado, tão reveladora, soa engraçada.

 

Enfim, há tantos elementos a considerar, num filme tão sutil e complexo ao mesmo tempo, que o espectador atento certamente valorizará.

 

A beleza cinematográfica de “A Graça” também tem de ser apontada, com destaque para cenas esbranquiçadas, em bruma, aviões marcando o céu, detalhes encontrados em frestas, portas e janelas, que contam a história tanto quanto os diálogos e o desempenho dos atores e atrizes em suas expressões, num filme em que o corpo fala.

 

“A Graça” se refere aqui, de um lado, ao instituto do indulto, que cabe ao Presidente da República, mas também à noção mais ampla de justiça e, sobretudo, de perdão, que é uma marca fundamental da trama.

Distribuição MUBI

 

LEMBRETES

A Mostra “FAROL – O Cinema entre a Memória e o Agora” segue no Cinesesc SP até 02 de abril, com filmes como “Dente Canino”, “Slacker”, “Queerpanorama”, “I Will Follow”, “A Sombra de Meu Pai”, “Dolores” “Os Matadores”, “O Riso e a Faca”, “Robocop: o Policial do Futuro”, “Los Domingos” e “Alpha”.

 

O Festival “É Tudo Verdade (It’s All True) 2026” acontece de 09 a 19 de abril também no Cinesesc, além da Cinemateca Brasileira, Centro Cultural São Paulo, IMS, e no Rio de Janeiro, em 4 salas do Estação NET Rio.



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