Antonio Carlos Egypto
A GRAÇA (La Grazia). Itália, 2025.
Direção: Paolo Sorrentino.
Elenco: Toni Servillo, Anna Ferzetti, Orlando Cinque, Massimo
Venturiello. 133 min.
“A Graça”, novo trabalho de Paolo Sorrentino (de “Il Divo”, de 2008, “A
Grande Beleza”, de 2013, “A Juventude”, de 2015 e “A Mão de Deus”, de 2021,
entre outros), um dos grandes cineastas italianos da atualidade, é um filme
cheio de virtudes. Antes de mais nada,
por contar, novamente, com Toni Servillo como protagonista, num desempenho
contido, interiorizado, absolutamente perfeito.
Por ser um filme que explora com profundidade as reflexões sobre a
velhice, o poder (ou a perda do poder), a paixão, o romance, o luto, a solidão
e a morte. É também um filme político,
que discute questões polêmicas da atualidade.
É, ainda, um filme profundamente humanista, que lida com personagens fictícios
absolutamente verdadeiros em sua humanidade.
Um Presidente da República italiano imaginário chamado Mariano De Santis
(Toni Servillo) chega a uma idade avançada que coincide com o final de seu
mandato. Em 6 meses, ele estará fora do
poder e vai voltar para casa. É um mandatário querido por seu povo (os aplausos
no Scala de Milão são um atestado eloquente disso). É uma pessoa ponderada, equilibrada, que
reflete muito antes de tomar decisões.
Cultiva a dúvida e o tempo a seu favor.
Isso também pode ser interpretado como postergamento de decisões, ficar
muito tempo em cima do muro, evitando se expor publicamente. Na verdade, é um homem discreto, cuidadoso e
reflexivo, o que explicaria melhor o respeito de seu povo, em que pese o fato
de demandas populares permanecerem não atendidas.
Bem, em seus últimos seis meses as principais decisões que ainda podem
marcar seu nome na história da Itália dizem respeito a leis que podem regular a
eutanásia no país e a dois casos rumorosos de assassinatos de cônjuges, sendo
um homem, por um lado, e uma mulher, por outro, como sentenciados, para os
quais há pedidos de indulto e um volume de assinaturas e apoios. Considere-se que o Presidente é um grande
jurista, profundo estudioso e conhecedor das leis.
Enquanto isso, Mariano vive com a filha Dorotea (Anna Ferzetti), que é também sua assessora, e mergulha numa crise existencial duradoura, desde que
está viúvo há oito anos. Não consegue se
livrar não só da imagem de perfeição de sua mulher, Aurora, comentada
constantemente ao longo do filme, como dos fantasmas de uma traição que ela teria
cometido quarenta anos atrás. Mas com
quem e por que, se se amaram tanto por todo esse tempo? Para ele, essa lei não perdeu validade.
É uma vida que está sendo passada pela memória e pela avaliação dessa
figura importante que agora se retira do poder que legitimamente
conquistou. Tudo parece fino, elegante,
discreto, nessa trajetória. Que destoa,
de repente, pelo interesse pelo rap enquanto expressão musical e pelo encanto
por astronautas que podem viver experiências sem a lei da gravidade. Elementos que fazem o contraste entre mundos,
com o passado tão presente, a atualidade desafiadora e o futuro que parece
quase não existir.
Com tanta densidade de questões, outra grande virtude do filme está em
algumas sequências extraordinárias, como a chegada do velho Presidente de
Portugal em meio a uma chuva torrencial que o derruba ou a lágrima do
astronauta que se solidifica na cabine.
Mas sequências simples de conversa ou envolvimento afetivo também se
destacam. Uma mulher que flerta com o Presidente de forma inesperada ou a
sinceridade de alguns de seus interlocutores diante das perguntas que ele
dirige a eles. A descoberta do apelido concreto armado, tão reveladora, soa
engraçada.
Enfim, há tantos elementos a considerar, num filme tão sutil e complexo ao
mesmo tempo, que o espectador atento certamente valorizará.
A beleza cinematográfica de “A Graça” também tem de ser apontada, com
destaque para cenas esbranquiçadas, em bruma, aviões marcando o céu, detalhes
encontrados em frestas, portas e janelas, que contam a história tanto quanto os
diálogos e o desempenho dos atores e atrizes em suas expressões, num filme em
que o corpo fala.
“A Graça” se refere aqui, de um lado, ao instituto do indulto, que cabe
ao Presidente da República, mas também à noção mais ampla de justiça e,
sobretudo, de perdão, que é uma marca fundamental da trama.
Distribuição MUBI
LEMBRETES
A Mostra “FAROL – O Cinema entre a Memória e o Agora” segue no Cinesesc
SP até 02 de abril, com filmes como “Dente Canino”, “Slacker”, “Queerpanorama”,
“I Will Follow”, “A Sombra de Meu Pai”, “Dolores” “Os Matadores”, “O Riso e a
Faca”, “Robocop: o Policial do Futuro”, “Los Domingos” e “Alpha”.
O Festival “É Tudo Verdade (It’s All True) 2026” acontece de 09 a 19 de
abril também no Cinesesc, além da Cinemateca Brasileira, Centro Cultural São
Paulo, IMS, e no Rio de Janeiro, em 4 salas do Estação NET Rio.
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