quarta-feira, 17 de abril de 2024

ZONA DE EXCLUSÃO

          

Antonio Carlos Egypto

 

 


ZONA DE EXCLUSÃO (Zielona Granica).  Polônia, 2023.  Direção: Agnieszka Holland.  Elenco: Jalal Altawil, Maja Ostaszewska, Behi Djanati Atai, Tomasz Wlosok.  147 min.

 

O título em português do filme de Agnieszka Holland, “Zona de Exclusão”, parece abrangente o suficiente para tratar de uma questão que se torna cada vez mais grave na Europa e em todo o mundo: a imigração dos refugiados de guerra, da fome e de perseguições políticas e religiosas.  As fronteiras são verdadeiras zonas de exclusão, como é o caso da que fica entre Belarus e a Polônia, em que uma família de refugiados sírios, uma senhora e um professor do Afeganistão são jogados de um lado para o outro da fronteira porque ninguém os quer.  Isso após terem chegado de avião a Belarus, com um esquema aparentemente montado para passar a viver na Polônia.  Foram vítimas de uma fraude.

 

Ativistas trabalham para ajudar os refugiados que ficam acampados nas florestas, expostos a tudo, sem saber como agir.  Há efetivamente uma zona de exclusão máxima, por onde eles teriam de passar para alcançar seus destinos.  Lá eles não podem receber qualquer tipo de ajuda e estão sujeitos à morte, com grandes possibilidades de isso ocorrer.  Quem se arrisca nessa zona joga no tudo ou nada.  E os ativistas que se aventurarem também arriscam sua liberdade e a própria vida.

 

Esse grupo de refugiados que veio da Síria encontra apoio de uma psicóloga ativista, que mora perto da fronteira, e de seus colegas. Enfrenta a polícia de fronteira em que até um jovem guarda começa a perceber o absurdo daquela perseguição toda.

 

A situação alcança uma dramaticidade visceral na narrativa em preto e branco adotada pelo filme.  Ela parece nos dizer que um tenebroso passado continua intacto por aí.  E que alguns valem mais do que outros na escala da humanidade.  Enquanto a Polônia repele as vítimas da guerra na Síria, acolhe os ucranianos que fogem da guerra com a Rússia.  Não há racionalidade possível diante da violência dos Estados e diante do absurdo maior que é a própria guerra, qualquer guerra.

 


Assistir à longa duração de “Zona de Exclusão” é se dispor a viver a tragédia da imigração “ilegal” nos nossos dias, passo por passo.  Sofrimento administrado em doses homeopáticas, a maior parte do tempo.  Em momentos ultradramáticos, não, a câmera se agita loucamente e nos arrasta para a tragédia.

 

Um filme tenso, bem construído, com um bom roteiro e um elenco empenhado, tratando de uma questão muito importante e muito grave da atualidade.

 

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Gostaria, ainda, de lembrar dois outros filmes que estão em cartaz, que merecem atenção.

 

20000 ESPÉCIES DE ABELHAS, o filme espanhol de 2023 da diretora Estibaliz Urresola Solaguren, pode parecer, mas não é documentário.  É um drama sobre uma criança trans, mostrado com bastante sutileza, delicadeza e respeito aos sentimentos humanos, em meio a abelhas, colmeias, rainhas e uma feminilidade que esse expressa de diferentes formas e estilos.  Destaque para a atriz mirim Sofia Otero. 125 min.

 

O filme francês, de 2023, TUDO OU NADA, da diretora Delphine Deloget, no original Rien à Perdre (Nada a Perder), aborda uma questão bem relevante, a atuação do Estado em relação à vida privada. Quando o Serviço Social Público atua para proteger uma criança de acidentes domésticos, acaba agindo de forma autoritária, impositiva, burocrática e insensível em relação aos afetos.  Provoca uma reação visceral e justa de uma mãe determinada a vencer uma dura batalha judicial, apesar de suas limitações.  Destaque para a atuação de Virginie Efira.  112 min.

 

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