terça-feira, 27 de outubro de 2020

ANIMAÇÃO NA #44 MOSTRA

Antonio Carlos Egypto

 

A 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que está ocorrendo on line em www.mostra.org, tem também filmes de animação.  No caso, animação para adultos, em que cabem as manifestações sexuais, de hostilidade, a violência, visões críticas do mundo, da política, de personagens históricos.  Enfim, cabe até uma certa erudição.  Pelo menos, no caso dos dois filmes de animação a que eu assisti nesta Mostra de 2020.

 



O primeiro deles já define isso desde o próprio título, MATE-O E DEIXE ESTA CIDADE, embora não se trate de uma história policial ou de suspense.  Mas de superar um mundo de memórias e perdas, da construção de uma cidade imaginária, em que os que se foram continuam por lá.  Trata-se de poder encarar o mundo real, ou seja, matar o mundo imaginário para dar lugar a uma nova dimensão das coisas.

 

O filme é polonês, do diretor Mariuz Wilczyüski, que se vale da criatividade para mesclar imagens, sem preocupação em ser esteticamente bonito, a maior parte do tempo, nem de guardar proporção entre as coisas. Uma cabeça na água pode ser bem maior do que o navio que anda pela mesma água.  Claro, a imaginação está na nossa cabeça. 

 

Como estamos falando de memória, ilusão, fantasia, a narrativa optou pela fragmentação de situações e ideias.  A cidade e o bonde que circula nela são bem mais bonitos do que as figuras humanas que aparecem.  A humanidade não anda muito bem na visão do criador desta animação.  E que há um grande mal-estar no mundo parece um recado evidente do filme.  O resultado é bem interessante.  88 minutos.

 




O outro filme de animação é bem mais sofisticado e elaborado do que o anterior.  É o russo O NARIZ OU A CONSPIRAÇÃO DOS DISSIDENTES, de Andrey Khrzhanovsky.  Valendo-se de uma profusão de recursos, que incluem diversos tipos de desenhos, fotos, vídeos, ilustrações, filmagens com atores e um escore musical sensacional, ele nos leva ao conto “O Nariz”, de Nikolai Gogol (1809-1852), que foi publicado em 1836.  O mesmo conto foi retomado por Dimitri Shostakovich (1906-1975) e virou uma ópera, que está no filme. 

A história do nariz que some do rosto de um oficial importante e passa a ter uma vida independente do seu dono leva às peripécias para encontrá-lo, à confusão do barbeiro bêbado que o teria decepado e, enfim, à volta ao rosto original.  E porque tudo isso teria sucedido.

 

O filme recheia essa história com citações de grandes personagens da arte e literatura russas. Além de mostrar a própria criação acontecendo e como teria se dado no passado. E por conta de Shostakovich adentra no reino do terror de Josef Stalin (1878-1953), na União Soviética, que resultou em fuzilamentos em massa de “dissidentes” culturais e políticos.

 

O herói da Segunda Guerra é também o opressor sanguinário e ridículo nessa animação, em que o medo que ele produzia levava ao “consenso” de suas próprias ideias e ao desmaio dos colaboradores diante de suas ordens.  A opressão, à esquerda ou à direita, é sempre um bom mote para o humor libertário.  Um filme de animação muito mais denso e abrangente do que eu poderia esperar. Talvez porque a ideia de animação ainda siga fortemente associada ao mundo infantil.  89 minutos.

@mostrasp



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