domingo, 13 de outubro de 2019

DOCS NA MOSTRA 43

Antonio Carlos Egypto


Quatro críticas sobre documentários da 43ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.



HONEYLAND


HONEYLAND.  Macedônia do Norte, 2019.  Direção e roteiro: Ljubomir Stefanov e Tamara Kotevska.  Doc.  85 min.
Um documentário de grande beleza plástica, esse “Honeyland”.  Começa por panorâmicas e filmagens do alto de uma região isolada da Macedônia do Norte, onde vive Hadtidze, uma mulher de cerca de 50 anos, que cuida de uma colônia de abelhas e da mãe já idosa e doente.  Uma mulher forte e firme, que sabe o que faz e como se relacionar com a natureza e com os animais, especialmente as abelhas.  Para preservar a produção e a natureza, ela divide sua coleta de mel meio a meio com as abelhas, 50% para cada lado.  A simples exposição dessa vida, desse povoado, dessa beleza natural, com uma fotografia primorosa, já valeria o filme.  E como.  Mas os três anos que foram consumidos em sua produção permitiram testemunhar a chegada de uma família de vizinhos, com muitos filhos, 150 cabeças de gado e muito ruído.  Além de uma disposição de produzir mais, que acabará pondo em risco o equilíbrio do lugar e da vida de Hadtidze.  Cada qual tentando viver à sua maneira, porém, descobrindo os limites possíveis.  Conta-se essa história, claro, incluindo encenações, mas revelando algo muito palpável de uma vida real.  Não parece documentário, mas é.  E espetacular.  “Honeyland” concorre ao Oscar de filme internacional, depois de haver vencido o Grande Prêmio do Júri em documentários, em Sundance.  É o primeiro filme da Macedônia do Norte que estamos vendo, já que, com esse nome, o país só passou a existir em 2019.  Consequência do litígio perdido frente à Grécia, que reivindicou o nome Macedônia para a região que pertence àquele país.

A BOIA.  Argentina, 2018.  Direção: Fernando Spiner.  Doc.  98 min.
No documentário “La Boya”, o diretor Fernando Spiner retorna à sua pequena cidade litorânea e focaliza o amigo nadador e poeta Aníbal, que lá permaneceu.  Nessa investigação, que envolve seu próprio passado, Fernando constrói um filme que é pura poesia, como o seu retratado.  A poesia é o centro da narração e por onde avançam as ideias e as emoções, os modos de ser e experimentar as coisas.  Mas é também uma bela poesia visual, que se vale do mar, do nado e do significado simbólico de uma boia, para produzir belas e intensas sequências marítimas.  O filme, de fato, envolve e sensibiliza pela sutileza, pelos detalhes, por aquilo que é menos evidente.  O que remete ao reino do poético.




HÁLITO AZUL.  Portugal, 2018.  Direção: Rodrigo Areias.  Doc.  79 min.
O documentário português “Hálito Azul” aborda o mar, da perspectiva de sua beleza natural e dos ventos que o acompanham, na vila Ribeira Quente, na ilha de São Miguel.  Mas o fio condutor é a vida dos pescadores, seus trabalhos, seus hábitos e os riscos associados à pesca e à sua escassez, que podem detonar a própria existência deles.  Há quem até desdenhe das belezas naturais do lugar, por sentir a opressão desse mar, desse vento e dessa existência isolada e distante.  A vida, porém, tem de continuar, seguir seu rumo, mesmo que não possamos ter controle sobre ela.

CÃES DO ESPAÇO. Áustria, 2019.  Direção e roteiro: Elea Kremser e Levin Peter.  Doc.  90 min.
Foi Laika, uma cachorra de rua de Moscou, o primeiro ser vivo a ser lançado ao espaço.  O que aconteceu com ela?  E com um chimpanzé, duas tartarugas e muitos outros cães, que serviram para testar os riscos de o ser humano se aventurar na conquista espacial?  O documentário trata do assunto com ótimo material de arquivo e também acompanha cães de rua de Moscou em suas andanças, caçadas, brigas ou simples busca de comida, em seu dia a dia. Aí os cães dominam toda a cena e a câmera parece invisível para eles.  A questão de como o ser humano se utiliza do animal para seus fins, sem muito pudor, é importante.  O filme, porém, se tornou cansativo para mim, ao passar um longo tempo filmando cães de rua.  O tempo de 90 minutos parece excessivo, ou faltou uma discussão maior da tese principal.




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