terça-feira, 8 de abril de 2014

HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO


Antonio Carlos Egypto



HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO.  Brasil, 2013.  Direção: Daniel Ribeiro.  Com Guilherme Lobo, Fábio Audi, Tess Amorim, Lúcia Romano, Eucin Souza, Selma Egrei.  96 min.


É inegável que a adolescência é um período de grandes e pequenas descobertas, tanto sobre o mundo quanto sobre nós mesmos. Frequentemente, estão presentes os conflitos que acompanham o processo de amadurecimento e a sofrida conquista da autonomia.  Varia muito, segundo as circunstâncias históricas, geográficas, culturais e de classe social.  Mas que é um período desafiador da vida, lá isso é.

O longa brasileiro “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” se debruça sobre as questões da adolescência, no universo da classe média, a partir da amizade muito próxima de Leonardo (Guilherme Lobo) e Giovana (Tess Amorim).  Ele, por ser cego de nascença, precisa dela para voltar para casa da escola.  Esse talvez tenha sido o ponto de partida para uma amizade que se solidificou com o tempo.



A chegada de um novo garoto na classe onde ambos estudam, no entanto, vai mexer em muitos sentidos com essa amizade.  O aluno novo é Gabriel (Fábio Audi), que vai compor um trio com Leonardo e Giovana, tornando-se grande amigo e objeto de desejo de ambos, além de ser paquerado por uma outra menina da escola.

O fio condutor da narrativa é Leonardo e as suas questões da adolescência, mescladas à sua deficiência visual.  Essa limitação dificulta muito o seu processo de rompimento com a dependência dos pais, principalmente da mãe, que é, compreensivelmente, preocupada com ele e superprotetora.  O pai tenta entender o anseio de liberdade e autonomia do filho, mas também avalia os riscos.  O filme mostra como essa dificuldade se amplia, no caso de Leonardo, ao mesmo tempo em que reconhece que a necessidade do personagem equivale à de qualquer outro jovem.



Se Giovana não tem problemas para lidar com a cegueira do amigo, os demais adolescentes têm.  Gabriel, por exemplo, propõe programas como ir ao cinema ou ver o eclipse da lua.  O seu despreparo, porém, abre novas portas para a vida de Leonardo. A imensa maioria dos colegas de escola não só não consegue ter sensibilidade para se colocar no lugar do outro, como procura brincar, zoar, com a deficiência de Leonardo, exercendo aquela crueldade característica de muitos jovens nessa fase da vida. 

Todas essas questões e outras tão típicas desse período são contempladas com sutileza, delicadeza e humor, ao longo da narrativa de “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”.  Como se não bastasse, o roteiro do próprio diretor, Daniel Ribeiro, coloca Leonardo na condição de lidar com um desejo homossexual, o que introduz uma nova e forte variável, que, no caso, só poderia complicar mais a história.



Como os três adolescentes – Leonardo, Giovana e Gabriel – vão lidar com tudo isso e com os colegas da escola?  Que papel exercerão os pais de Leonardo e os professores que estarão envolvidos nisso? 

Daniel Ribeiro consegue dar um fluxo tão positivo e envolvente a seu filme, extraindo o melhor de seus jovens e dedicados atores, que o resultado é emocionante.  A dimensão humana que brota daí é admirável e vai além da discussão do desejo homossexual ou da deficiência visual.  Eles aparecem como elementos de uma dimensão maior, que são o desenvolvimento humano, a capacidade de encarar e promover mudanças e o combate aos preconceitos.



“Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, entusiasmante trabalho desse jovem cineasta que é Daniel Ribeiro, já foi exibido, reconhecido e premiado no Festival de Berlim.  Sua origem vem do curta “Eu Não Quero Voltar Sozinho”, em que o diretor trabalhou com esses mesmos três personagens principais e seus respectivos atores, em 2010, filme que está disponível na Internet e já teve mais de 3 milhões de visualizações.




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