sexta-feira, 20 de abril de 2012

FLOR DA NEVE E O LEQUE SECRETO

Antonio Carlos Egypto



FLOR DA NEVE E O LEQUE SECRETO (Snow Flower and The Secret Fan).  China, 2011.  Direção: Wayne Wang.  Com Bingbing Li, Gianna Jun, Coco Chiang, Vivian Mu, Hu Qing Yun, Shi Ping Cao.  120 min.


Laotong, na tradição chinesa, é uma amiga para o resto da vida, uma irmã.  Nascidas no mesmo dia e ano, ainda que em cidades distintas e provindas de classes sociais diferentes, elas podem firmar um contrato de apoio mútuo afetivo que nunca poderá ser rompido.  Estarão umbilicalmente ligadas, enquanto viverem.  A conjunção astrológica seria uma espécie de garantia de tal contrato.

As laotong adotam uma língua secreta e mensagens nessa língua podem ser guardadas nas dobras de leques.  Daí a referência ao leque secreto, aquele que contém mensagens codificadas entre as irmãs laotong.

O pé perfeito é outra tradição.  À custa de amarrar, doer e sangrar, desde muito cedo se molda um pé pequeno, supostamente perfeito.  Obviamente, nem sempre alcançável ou, pelo menos, não alcançável no grau de perfeição desejado.  A mulher que tiver o tal pé perfeito terá garantia de um bom casamento.  E seus sapatinhos serão alvo de admiração.  Isso remete claramente a uma situação em que a mulher é subalterna, sem voz ativa ou capacidade de sustentar a si própria, sem qualquer possibilidade de independência.


Todas essas tradições terão peso importante na história das laotongs do século XIX, conhecidas como flor da neve e lírio.  Em paralelo a isso, conheceremos uma história similar, dos tempos atuais: a de Nina e Sophia, uma espécie de laotongs do século XXI.

Haverá lugar para tradições como essas na China de hoje?  Especialmente em Hong Kong, onde a contemporaneidade se faz de negócios, bolsas de valores, mercados, vida agitada, tecnologia avançada e, consequentemente, estrutura familiar e vínculos pessoais bem distintos do passado?  Haverá espaço para a fidelidade eterna das laotongs nos tempos atuais?

Por aí é que vai o filme, narrando as histórias tanto de flor da neve e lírio, quando de Nina e Sophia, num vai e vem sem fim, ora, lá, ora, cá, diálogos em mandarim e inglês, a ponto de confundir o espectador que não esteja bem atento à projeção.

Essa quase obrigação, que parece existir atualmente, de sempre montar os filmes numa narrativa não linear e manter a dúvida sobre os acontecimentos descritos e os próprios personagens até o fim, além de cansar e já ter se tornado uma rotina repetitiva, não é a mais adequada a muitas histórias que são contadas pelo cinema.  “Flor da Neve e o Leque Secreto” poderia ter dispensado esse jogo, ou fazê-lo comedidamente.  Só ajudaria a acompanhar melhor a trama e a pensar sobre o assunto proposto.


Em todo caso, a ideia do filme é boa e a reflexão, muito apropriada de se fazer.  Até onde tradições milenares podem resistir ao avassalador processo de mundialização que uniformiza tudo, passando por cima da própria História?  Por outro lado, certas tradições não terão mesmo de acabar, porque se baseiam no domínio de uns sobre outros, apelando para a crueldade e a desumanidade?

Não é fácil encontrar tais respostas, nem se posicionar em um grande número de casos e situações.  “Flor da Neve e o Leque Secreto” tem o mérito de colocar em evidência o problema, sem deixar de apontar os conflitos que cada época e situação podem trazer.  O mal-estar está tanto lá quanto cá.  E há muita coisa boa e genuína, tanto numa época, quanto na outra.  A amizade é o fio condutor de tudo, nos dois casos que se entrelaçam.

Um comentário:

  1. Gostei bastante da sua resenha. Tudo que envolve cultura oriental me atrai, e essa tradição chamada laotong me despertou interesse nesse filme. Se tudo der certo, amanhã irei vê-lo aqui no cinema da minha cidade.

    Abraços.
    :)

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