segunda-feira, 1 de agosto de 2011

NÃO SE PREOCUPE, NADA VAI DAR CERTO

Antonio Carlos Egypto

NÃO SE PREOCUPE, NADA VAI DAR CERTO. Brasil, 2010. Direção: Hugo Carvana. Com Tarcísio Meira, Gregório Duvivier, Hugo Carvana, Ângela Vieira, Flávia Alessandra, Herson Capri, Antonio Pedro, Mariana Rios. 99 min.

“Não se preocupe, nada vai dar certo” é o novo trabalho de Hugo Carvana, ator de 90 filmes do cinema brasileiro, em sua oitava atuação como diretor. Aqui, ele faz uma comédia policial, como sempre leve e alegre, em que o que está em pauta é, em primeiro plano, o trabalho do ator.

O ator é, por excelência, aquele que pode viver muitas vidas, desempenhando os mais diversos e variados papéis. Ele pode ser um guru indiano, realizando workshops no Brasil, um frade que borrifa a água da juventude nas pessoas, em troca de donativos, um diplomata de um país distante, um advogado, um delegado, e convencer, desde que atue bem. Para ele, a rigor, tudo é possível. A realidade comporta inúmeras construções, criações e mudanças, contanto que as pessoas acreditem nelas. O filme é a elegia da importância do trabalho do ator.

Do mesmo modo como enaltece esse trabalho, é triste e nostálgico, ao abordar a hora da aposentadoria. O velho ator não lamenta tanto a falta de dinheiro quanto a falta do palco e, com ele, o prestígio e a alegria de viver. O próprio Carvana, como o ator aposentado Zinha, encarna esse papel com toda a clareza e a dimensão que ele tem, enquanto faz um contraponto por ocasião do seu retorno do refúgio dos atores à cena, irradiando a alegria da volta. E reservando para o plano final do filme essa alegria e o agradecimento pelo aplauso recebido.
A trama da fita se estabelece a partir da relação de dois atores: o pai, um veterano trambiqueiro, sempre aprontando e fazendo bobagens, e seu filho mais careta, que tenta se livrar da influência paterna, sem sucesso, e vive de espetáculos mambembes de humor stand up Brasil afora. O veterano ator que dá o tom da narrativa é Ramon Velasco, papel vivido por Tarcísio Meira, voltando ao cinema após vinte anos. O filho é o jovem ator Lalau Velasco, vivido por Gregório Duvivier. Essa dupla funciona muito bem no filme. Ambos, na verdade, representam atores mambembes sem sucesso ou glamour e muito parecidos, apesar das diferenças. O filme está interessado em mostrar os atores que circulam por aí, em busca de representar, convencer e receber aplausos. E sobreviver como puderem. Daí o expediente da velha malandragem, da picaretagem, associado às suas atividades.

Quem vive convincentemente outra vida, com a indumentária adequada, ilude a ponto de sofrer as consequências desse êxito. E Carvana, desta vez, constrói um enredo policial para tratar dessas consequências e fazer rir. Aproveita para dar uma bicada nas malandragens da política. Há uma tramoia na licitação de uma usina, apresentada como solução para o problema energético de uma região do Ceará. Envolvidos com isso estão um empresário e sua mulher, que prepara uma candidatura ao Senado. Herson Capri e Ângela Vieira vivem o casal. Também há uma jornalista, para quem a ética não conta muito: a que contrata o guru indiano de araque. É o papel de Flávia Alessandra.

Numa trama policial, o delegado tem papel importante. É Antonio Pedro o que encarna as investigações do caso. E a belíssima Mariana Rios, envolvida por uma praia paradisíaca, faz a namorada de Lalau.

A história é boa e flui bem, em busca de um cinema popular, de cujo estilo marcante Hugo Carvana já nos deu bons exemplos, nos anos 1970, com filmes como “Vai trabalhar, vagabundo” e “Se segura, malandro”, e especialmente em “Bar Esperança”, de 1982, que dialoga com a produção atual, retomando a temática da arte produzindo a vida.

Aqui, há um certo abuso de situações clichê, apresentadas como farsa. Até aí, tudo bem. Já a repetição do bordão que dá título ao filme se desgasta e perde a graça. A insistência com o termo cagada, para se referir a tudo que não dá certo ou que se supõe que não dará certo, é excessiva e acaba se tornando meramente vulgar, não engraçada. Mesmo na boca de Tarcísio Meira, que conhecemos como um ator elegante, que destoa do ator decadente e picareta que ele encarna muito bem no filme, a graça se dissipa logo. Um pouco mais de sutileza só faria bem ao filme.

Por se tratar de uma busca de cinema popular, não é preciso apelar para palavrões, linguagem vulgar ou excessos para conquistar o público. Mas se o filme derrapa um pouco por esse lado, tem méritos que compensam isso. A contribuição de Hugo Carvana ao cinema brasileiro é inegável e a produção atual amplia o legado já construído pelo ator e diretor.

Ressalte-se também a trilha sonora, composta por Edu Lobo, de um bom gosto digno do grande talento do compositor. A música tema “Corda Bamba” tem letra de Paulo César Pinheiro, outro grande compositor da MPB. Aliás, Carvana costuma colocar belas trilhas musicais nos seus filmes. Chico Buarque já compôs grandes músicas para os filmes dele, como agora faz Edu Lobo.

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