domingo, 23 de novembro de 2025

GUARDE O CORAÇÃO...

Antonio Carlos Egypto

 


GUARDE O CORAÇÃO NA PALMA DA MÃO E CAMINHE.  França/Palestina/Irã, 2025.  Direção: Sepideh Farsi.  Documentário com Fatma Hassona.  112 min.

 

A gente vê as imagens das reportagens televisivas sobre os bombardeios e a destruição que está acontecendo na Faixa de Gaza e uma guerra desse tamanho se torna incompreensível.  Não há reação à ação terrorista do Hamas que explique, muito menos justifique, crimes de guerra e a atuação genocida por parte do governo de Israel contra o povo palestino.  Como é possível viver num local onde todas as casas vão sendo destruídas, os edifícios, escolas, hospitais, tudo se transforma em ruínas?  A morte iminente por ação de mísseis, por deslocamentos forçados ou pela fome.

 

Tentando registrar o que é isso na realidade, a cineasta iraniana Sepideh Farsi se conectou por contatos digitais em vídeo com uma fotojornalista palestina de 24 anos de idade, Fatma Hassona, que continuava em Gaza com a família que lhe restou, após perder 13 pessoas queridas entre familiares e amigos.  Os encontros digitais marcados pela instabilidade da Internet e dos diferentes locais onde Fatma se encontrava, no entanto, duraram 200 dias, de maio de 2024 a 16 de abril de 2025, quando Fatma morreu em sua casa bombardeada, dando um fecho trágico ao trabalho. 

 

As conversas realizadas nesse período foram gravadas por Sepideh Farsi e associadas às imagens do bairro de Gaza, realizadas pela fotojornalista, em sua “prisão” a céu aberto, compõem o filme.  É impressionante e emocionante acompanhar a jovem palestina, com seu sorriso radiante a princípio, mesmo naquela situação absurdamente inumana e perigosíssima.

Quando a gente se debruça sobre a situação civil dessas guerras e olha para a população, a coisa muda totalmente de figura.  E o mal se revela em toda a intensidade.  Assim como o absurdo de qualquer guerra.  O documentário “Guarde o Coração...”, que entra em cartaz nos cinemas agora e está indicado ao The Gothams Awards, depois de ser exibido em Cannes, e talvez seja indicado ao Oscar de documentários, merece ser visto, porque é realidade na veia. 

 

Poema de Fatma Hassona: O HOMEM QUE VESTIA SEUS OLHOS

Talvez eu esteja anunciando a minha morte

agora

Antes que a pessoa a minha frente carregue

Seu fuzil de elite

E tudo acabe

E eu termine. Silêncio.

 

“Você é um peixe?”

Não respondi quando o mar me perguntou

Não sabia de onde vieram os corvos

Que avançaram sobre minha carne.

Teria parecido lógico?

__Se eu dissesse: Sim,

Deixe esses corvos avançarem

no fim

Sobre um peixe!

Ela atravessou

E eu não atravessei.

Minha morte me atravessou

E uma bala afiada de atirador

Fez de mim um anjo

Por uma cidade

Imensa.

Maior que meus sonhos

Maior que esta cidade.

 

                                            QUEM AINDA ESTÁ VIVO    



Outro filme que não está disponível no momento, mas que vi na Mostra 49, sem conseguir escrever a tempo sobre ele durante o período da Mostra, é “Quem Ainda Está Vivo” (Qui Vit Encore) de Nicolas Wadimoff, produção Suíça, França, Palestina, 2025.  O documentário conversa com 9 refugiados palestinos, que perderam tudo, mas escaparam do inferno de Gaza, chegando ao Egito, e que contam suas histórias.  Aí se destaca a perda de uma vida simples, de trabalho, num local bonito, à beira-mar, sem que nada justificasse o desmoronamento de vidas civis absolutamente normais, ainda que numa região reconhecida por seus conflitos políticos.  Se vier a ser novamente exibido, lançado nos cinemas ou em streaming, procure ver.  115 minutos.




segunda-feira, 17 de novembro de 2025

MODIGLIANI E A QUEDA DO CÉU

                             

 Antonio Carlos Egypto




MALDITO MODIGLIANI (Maledeto Modigliani).  Itália, 2020.  Direção: Valeria Parisi.  Elenco: Chloe Aridjis, Ariana Marelli, Valeria Parisi, Paolo Vírzi, John Myatti.  97 min.

 

O pintor e escultor italiano Amedeo Modigliani (1884-1920), nascido em Livorno, Toscana, é um reconhecido gênio das artes plásticas.  Também cercado de muitas polêmicas e julgamentos, do tipo mulherengo, alcoolista, consumidor de drogas, etc..  Tratado como escandaloso e vivendo uma vida curta e atormentada, é uma espécie de mito.  Abordá-lo num documentário biográfico não é uma tarefa fácil.   Mostrar a sua obra, considerando o impressionante número de falsificações e dúvidas ainda existentes sobre a autenticidade de muitas de suas obras, é outro problema.

 

A diretora Valeria Parisi, que também atua no filme, contornou o problema, colocando no centro da narrativa, a nos guiar sobre a vida e a obra de Modigliani, a sua última e jovem esposa, Jeanne Hébuterne, que se suicidou dois dias após a morte do pintor.  É por meio de suas impressões, registros e sentimentos, que adentramos a obra retratada.  Isso dá um fio condutor bastante eficiente para falar um pouco de tudo da vida de Modigliani.  Inclusive de suas mulheres anteriores: a poetisa russa Anna Achmatova e a jornalista inglesa Beatrice Hastings, figuras marcantes não só da vida dele, mas da época em que viveram.  Onde se destaca Paris, do início do século XX, da belle époque.  Modigliani partiu para lá em 1906 e conviveu com o ambiente artístico esfuziante da cidade nesse período.  Todo mundo estava lá, inclusive o contemporâneo Pablo Picasso (1881-1973), com quem Modigliani conviveu bastante e de cuja arte se aproximou.  Sua bela e amada cidade natal, Livorno, que ele nunca esqueceu, também é bem mostrada no filme.

 

O documentário inclui sequências encenadas de episódios importantes, vividos por Jeanne, mas também dá o espaço tradicional aos especialistas, que comentam o trabalho tão marcante de Modigliani.  Sua obra é mostrada, passando por inúmeros museus no mundo, e incluindo a questão das falsificações.  O filme nos revela esse grande legado artístico, o que é fundamental num trabalho desse tipo.  Seus nus femininos, suas figuras humanas de longos pescoços e os contornos dos rostos e corpos tão característicos estão lá, nos exibindo todo o talento e originalidade do artista. É um belo filme para curtir ou conhecer Amedeo Modigliani.

 


A QUEDA DO CÉU (Kutumosi Kerayumi).  Brasil, 2024.  Direção: Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha.  Elenco: Davi Kopenawa, Povo Yanomami e Comunidade de Watoriki.  108 min.

 

“A Queda do Céu” é um trabalho que se baseia na escrita e no testemunho do xamã e líder yanomami Davi Kopenawa e acompanha o ritual Reahu, que mobiliza a comunidade Watoriki, no esforço coletivo para segurar a queda do céu.  Marcada por fortes nuvens negras e uma chuva torrencial, anunciam a queda do céu, trazida pelo que Davi chama de povo da mercadoria, o pessoal do garimpo ilegal, as doenças e epidemias xawara, que vêm por meio dos forasteiros, numa crítica contundente a esse mundo dos brancos.

 

O filme é um mergulho na vida e na cultura dos yanomami, mostra a beleza da cosmologia do povo, dos espíritos xapiri e da força manifestada pelos sonhos, que dirigem e orientam a vida.  Adverte a todos sobre a vingança da Terra.  E aborda a crença no xamanismo como elemento indispensável para curar o mundo. 

 

“A Queda do Céu” teve sua estreia no Festival de Cannes, já recebeu muitos prêmios, com exibição na COP30, em Belém do Pará, e agora em cartaz nos cinemas brasileiros.  Segundo Gabriela Carneiro da Cunha, “o filme é um convite para ver, ouvir e sonhar com os yanomami um outro projeto de Brasil”.  O filme traz ainda a beleza da natureza das terras yanomami, numa filmagem sedutora, que reforça a ideia do sonho como fio condutor.  Um trabalho que merece ser conhecido e apreciado.

 

FESTIVAIS PARA TODO LADO   

 

Durante a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo pouca coisa acontece, além dos lançamentos normais do circuito comercial, mas depois dela uma série de mostras saem da toca.  Simplesmente não dá para acompanhá–las após a maratona cinematográfica da Mostra.  Mas não custa registrar que ainda está em andamento o Festival de Cinema Italiano, com filmes on line de fácil acesso, atuais e clássicos, até 29 de novembro.

https://festivalcinemaitaliano.com,

 

A Mostra Mix Brasil, de diversidade sexual, já está terminando sua 33ª. edição, mas tem programação até 23 de novembro, em vários espaços da cidade, com ingressos pagos e gratuitos. https://mixbrasil.org.br

 

A 11ª. mostra Mosfilm de Cinema Soviético e Russo acontece até 23 de novembro, no Centro Cultural São Paulo, com ingressos gratuitos.  Tem ainda um Festival de Cinema Israelense, até 19 de novembro, on line e gratuito.  E vem aí o Festival de Cinema Francês do Brasil (ex-Varilux), de 27 de novembro a 10 de dezembro, pelo Brasil afora.

Será que me esqueci de algum?  Pode ser, sim. É coisa demais.  Mas se puder aproveitar, faça isso, porque ao longo de dezembro não vai sobrar muita coisa para ver nos cinemas.                            



terça-feira, 4 de novembro de 2025

O AGENTE SECRETO

 

Antonio Carlos Egypto

 


O AGENTE SECRETO.  Brasil, 2025.  Direção: Kleber Mendonça Filho.  Elenco: Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Tânia Maria, Gabriel Leone, Alice Carvalho, Hermila Guedes, Udo Kier.  140 min.

 

“O Agente Secreto” é um filme em que o cinema se expressa com toda a inteireza e complexidade que ele tem. Começando pela justaposição e fusão de seus gêneros. É um filme de suspense, aventura, de caráter policial, político, que tem comédia, ou seja, muito humor e personagem engraçada, mas envolve também tiroteios à bang bang, fantasia e terror.  Como é possível amalgamar tudo isso?

 

E tem mais: o filme aborda o próprio cinema, a sua história, por meio de produtos que se destacaram e a história das salas de espetáculos, no caso,  da cidade de Recife, onde se passa a ação.

 


Tudo isso está a serviço de retratar, compreender o Brasil em um momento decisivo de sua trajetória: o ano de 1977, em que vigorava a ditadura militar no país.  E esse clima é captado com perfeição de detalhes, ainda que a palavra ditadura sequer seja citada.

 

É um trabalho do diretor brasileiro Kleber Mendonça Filho, pernambucano, mas isso é apenas um detalhe, não uma perspectiva de regionalismo, que ele definitivamente não tem.  Seus filmes anteriores comprovam isso muito bem: “Bacurau” (2019), “Aquarius” (2016), “O Som ao Redor” (2012), “Retratos Fantasmas” (2023), falam a partir de Recife para o mundo.

 



O personagem Marcelo/Armando, vivido magistralmente por Wagner Moura no filme, é o centro dessa narrativa de muitas camadas, em que ele é monitorado, perseguido, marcado para morrer, envolvido pelo clima abrangente de opressão política que não deixa espaço para respirar, viver a tranquilidade dos momentos de felicidade. Convive com diferentes personagens com características que ajudam a definir a variedade de situações e climas que compõem a trama e as diversas etapas da história contada.

 


Um elenco incrível, diversificado e competente, compartilha com Wagner Moura esse grande filme do cinema brasileiro atual, já tão premiado e com muito mais ainda por acontecer.  Não dá para deixar de apontar, no entanto, a grande figura que é, em “O Agente Secreto”, a atriz Tânia Maria, natural do Rio Grande do Norte, que brilha com sua veia cômica aos 78 anos.

 

Outro grande trunfo do filme é a reconstrução de época, que é precisa e detalhada.   Assim, convivemos com os fuscas e os carros coloridos, os orelhões têm todo o destaque, as roupas com as calças bocas de sino.  E também, um detalhe bem importante, os codinomes, que têm papel decisivo no desenrolar da ação e é algo tão característico e necessário da resistência no período.

 

Em suma, o filme nos mergulha por inteiro naquele momento histórico. Quem não o viveu vai conhecê-lo, com certeza.  “O Agente Secreto” é também uma reflexão sobre o esquecimento, a necessidade de preservar e restaurar a memória de um povo.  E da arte como uma ferramenta fundamental dessa restauração indispensável.

 


Há muito mais a se dizer sobre “O Agente Secreto”, um filme poderoso, para se ver mais de uma vez.  Mas é importante mergulhar nessa aventura e descobrir as pepitas de ouro que ela tem a oferecer.  Além de sua dimensão global e abrangente.

 

Após os prêmios em Cannes, participações  e prêmios em outros festivais e exibições no exterior, o filme está em cartaz nos cinemas brasileiros, já tendo tido lançamentos em Recife, Salvador, nos Festivais de Brasília, do Rio e na Mostra 49, em São Paulo.






domingo, 2 de novembro de 2025

PREMIADOS DA MOSTRA 49

  

Prêmio do Júri | Melhor Filme

“The President’s Cake”, de Hasan Hadi (Iraque, EUA, Catar)

 

Prêmio Especial do Júri

“DJ Ahmet”, de Georgi M. Unkovski (Macedônia do Norte, República Tcheca, Sérvia, Croácia)

 

Prêmio do Júri | Menção Honrosa

“A Luta”, de Jose Alayón (Espanha, Colômbia)

 

Prêmio do Júri | Melhor Atuação

Doha Ramadan pelo filme “Feliz Aniversário”, de Sarah Goher (Egito)

 

Prêmio do Público | Melhor Filme de Ficção Brasileiro

“Criadas”, de Carol Rodrigues (Brasil)

 

Prêmio do Público | Melhor Documentário Brasileiro

“Cadernos Negros”, de Joel Zito Araújo (Brasil)

 

Prêmio do Público | Melhor Filme de Ficção Internacional

“Palestina 36”, de Annemarie Jacir (Palestina, Reino Unido, França, Dinamarca, Noruega, Catar, Arábia Saudita, Jordânia)

 

Prêmio do Público | Melhor Documentário Internacional

“Yanuni”, de Richard Ladkani (Áustria, Brasil, EUA, Canadá, Alemanha)

 

Prêmio da Crítica | Melhor Filme Internacional

“A Sombra do Meu Pai”, de Akinola Davies Jr. (Reino Unido, Nigéria)

 

Prêmio da Crítica | Melhor Filme Brasileiro

“A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo (Brasil, Chile)

 

Prêmio Brada | Melhor Direção de Arte

Jennifer Anti e Pablo Anti pelo filme “A Sombra do Meu Pai”, de Akinola Davies Jr. (Reino Unido, Nigéria)

 

Prêmio Abraccine de Cinema Brasileiro

“O Pai e o Pajé”, de Iawarete Kaiabi, codirigido por Felipe Tomazelli e Luís Villaça (Brasil)

 

Prêmio Netflix

“Virtuosas”, de Cíntia Domit Bittar (Brasil)

 

Prêmio Paradiso

“Coração das Trevas”, de Rogério Nunes (Brasil, França)

 

Prêmio Prisma Queer | Melhor Filme Internacional

“Queerpanorama”, de Jun Li (EUA, Hong Kong, China)

 

Prêmio Prisma Queer | Melhor Filme Brasileiro

“A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo (Brasil, Chile)

 

Prêmio Prisma Queer  | Prêmio Especial do Júri

“Morte e Vida Madalena”, de Guto Parente (Brasil, Portugal)

 

Prêmio Humanidade
Euzhan Palcy
Jafar Panahi
Jean-Pierre e Luc Dardenne

 

Prêmio Leon Cakoff
Charlie Kaufman
Mauricio de Sousa

 

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

JAFAR PANAHI NA MOSTRA 49

    

 Antonio Carlos Egypto

 

Renata de Almeida e Jafar Panahi

Jafar Panahi, o mais importante e premiado diretor de cinema do Irã na atualidade, além de um grande artista, é um batalhador incansável, pela cultura e pela liberdade.  Foi agraciado na Mostra 49 com o prêmio Humanidade e aqui compareceu para receber a honraria e exibir FOI APENAS UM ACIDENTE, o filme que levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2025.  Recebê-lo aqui foi uma vitória da Mostra, que há muitos anos tenta trazê-lo, inclusive lhe concedeu o prêmio Leon Cakoff em 2018.

 

A Mostra exibe seus filmes desde “O Balão Branco”, de 1995, passando por “O Espelho”, de 1997, “O Círculo”, de 2000, “Ouro Carmim”, de 2003, “Fora do Jogo”, de 2006, “Isto Não é Um Filme”, de 2011, “Cortinas Fechadas”, de 2013, “Táxi Teerã”, de 2015, “3 Faces”, de 2018, até “Sem Ursos”, de 2022.  Uma filmografia impecável, realizada por um cineasta que foi muito perseguido e censurado no seu país, que impede que seus filmes sejam lá exibidos e não permitia que ele viajasse ao exterior para receber os prêmios que conquista nos festivais mais importantes do mundo.  Impediu-o até de fazer filmes no Irã.  Ele foi preso e condenado a 8 anos de cadeia e foi libertado em 2023, após uma greve de fome.  Pela primeira vez pôde vir ao Brasil, a São Paulo, atendendo ao convite da Mostra.

 


O seu filme FOI APENAS UM ACIDENTE (Yek Tasadef Sadeh) é uma produção cinematográfica como sempre modesta em recursos, mas absolutamente notável como criação.  É um suspense permanente, que nunca se resolve por completo, deixando o público na expectativa o tempo todo.  A situação não pode ser revelada sem prejudicar o aproveitamento do filme pelo público.  O que dá para dizer é que ele mexe numa ferida importante das sociedades que enveredam pelo caminho do autoritarismo, ao abordar um caso de alguém sobre quem existe dúvida em relação à sua identidade, mas não em relação aos atos abomináveis que cometeu.  E então coloca-se um dilema moral, que se desdobra em diferentes aspectos e exige decisões a cada passo, com consequências importantes.  Não dá para perder uma cena sequer, tudo ali é essencial, ao longo de seus 102 minutos de projeção.  O elenco composto por Vadih Mobasseri, Maryam Afshari, Ebrahim Azizi, Hadis Pakbaten, Majid Panahi, é muito bom.  Garante a tensão ao longo de toda a narrativa, que passa da tranquilidade à exasperação e revela as mudanças de humor que ocorrem ao longo da história, em que cabem ternura, solidariedade e até doçura num tema tão desafiador.  É uma obra de mestre.  Deve ser lançada nos cinemas, oportunamente, pela Imovision. 

 

@mostrasp

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quarta-feira, 29 de outubro de 2025

VALTER HUGO MÃE NA MOSTRA 49

 

                          Antonio Carlos Egypto

 


O escritor Valter Hugo Mãe, também artista plástico e músico, foi um dos principais destaques da Mostra 49.  A começar pelo belíssimo pôster que ele criou para a Mostra. 

 

Valter Hugo Mãe

Na programação cinematográfica, pude ver um belo documentário, de 81 minutos, concebido e dirigido por Miguel Gonçalves Mendes, que acompanhou Valter durante cerca de 7 anos, em viagens pela Islândia, pelo Brasil, por Portugal, pela Colômbia e até por Macau, China, DE LUGAR NENHUM.  Esse documentário integra um projeto ambicioso do cineasta, ‘O Sentido da Vida”, que incluiu “José e Pilar” sobre Saramago.

 

Aqui, a questão da solidão, da alteridade como condição de vida, mas também da liberdade, da perda e do pertencimento, dão uma dimensão da discussão que se apresenta.  A participação da cartunista Laerte Coutinho, bem intensa no filme, faz um contraponto fundamental para algumas dessas questões. 

 

Valter Hugo Mãe, português, nascido em Angola, se mostra mesmo não só como um homem que amplia a visão de seu tempo, mas como alguém que prescinde dos limites geográficos da identidade.  É esse homem de lugar nenhum que vi no filme e pude acompanhar no seu encontro ao vivo com o público, na Cinemateca, após a exibição do filme, ao lado do diretor Miguel e da cartunista Laerte. Um papo delicioso, inteligente, informal, profundo.

 


Outro filme lançado na Mostra 49 foi O FILHO DE MIL HOMENS.  É produção brasileira, dirigida, roteirizada e, como ele mesmo diz, sonhada, de Daniel Rezende, a partir do romance homônimo de Valter Hugo Mãe.  Com uma linda fotografia de Azul Serra e que contou com um elenco espetacular: Rodrigo Santoro, Rebeca Jamir, Johnny Massaro, Miguel Martines, Juliana Caldas, Grace Passô, Tuna Dwek.  Esse elenco foi de uma competência incrível para viabilizar o clima diáfano e onírico da narrativa.  O que exigiu, por exemplo, de Rodrigo Santoro largas cenas interagindo apenas com um boneco, com o mar, com as pessoas, sem falar.  Todos, dos pequenos aos longos papéis, estão muito bem.  O “sotaque” de Grace Passô nem sempre é compreensível, mas como ele é a razão de ser da personagem, tudo bem.

 


Em 128 minutos de filme, assistimos a uma bela poesia visual, marcada por personagens intensos, diversos, surpreendentes e verdadeiros.  Do homem solitário da caverna ao menino abandonado, da anã que engravida ao filho trancado a chave no quarto, tudo ali é um chamado à vida, ao afeto, ao reconhecimento do humano.  A solidão como fio condutor, a tentativa de compreender sem precisar nem falar.  O caminho da negação ao encontro.  O filme é um estímulo maravilhoso para quem se dispõe a ver, ouvir, perceber, com tempo, aberto ao que existe no mundo, nas pessoas.  É uma produção da Netflix, que deve ser exibida nos cinemas após a Mostra.

 

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sexta-feira, 24 de outubro de 2025

DESTAQUES DA MOSTRA 49

Antonio Carlos Egypto



Jovens Mães


 
JOVENS MÃES, de Luc e Jean-Pierre Dardenne, aborda cinco adolescentes num abrigo para mães que acabaram de ter seus bebês.  Ou seja, a gravidez que foi a termo, a despeito dos muitos problemas vividos até que essa decisão se estabelecesse.  E se a gravidez na adolescência já é um enorme problema para a maior parte das que engravidam, o início da vida como mãe é algo bem complexo e dramático.  O cinema humanista dos irmãos Dardenne mostra sua força, ao tratar desse tema com realismo e evidenciando as emoções envolvidas em cada uma das personagens retratadas e as relações que estabelecem, tanto na sociedade, com as pessoas, como entre elas.  Mostra também a diversidade das situações.  Coloca questões familiares, de gênero, de saúde pública, de programas sociais governamentais e da sociedade civil, que tem muita importância nessa questão.  Bélgica/França, 105 min.  Tem previsão de chegar aos cinemas no início de janeiro de 2026.

 

PAI MÃE IRMÃ IRMÃO, produção Estados Unidos/Irlanda/França, dirigido pelo veterano e brilhante cineasta Jim Jarmusch, levou com muitos méritos o Leão de Ouro em Veneza.  O filme trata de relacionamento familiar, pais e filhos e irmãos, por meio de três histórias, uma nos Estados Unidos, outra, na Irlanda, em Dublin, e outra em Paris, na França.  Em comum, o clima estranho e irônico que Jarmusch imprime às situações.  Aqui, as coisas não fluem, o formalismo impede a espontaneidade, a sem-graceza toma conta dos relacionamentos familiares.  Tudo soa estranho, algo inesperado, falso, de aparências.  Muito curioso.  Mostra o diretor em plena forma, fiel a seu estilo.  Apoiado por um elenco espetacular: Tom Waits, Adam River, Charlote Rampling, Cate Blanchet, Mayin Bialik e outros.  Comédia muito inteligente e crítica.  110 min.


A História do Som

A HISTÓRIA DO SOM, produção Estados Unidos/Reino Unido/Itália, dirigido por Oliver Hermanus, nascido na África do Sul.  Em Boston, em 1917, Lionel e Davi, estudantes de música, se conhecem e, apaixonando-se pelas folksongs, percorrem os Estados Unidos registrando canções para serem reproduzidos no gramofone.  Essa longa viagem os aproxima muito e daí surge uma paixão também entre eles, para além da música.  Eles se separam ao final da viagem, tomando rumos distintos, mas o vínculo que construíram jamais morrerá.  O que construíram juntos pela história da música, também não.  Bela e cuidadosa produção, com boa música e uma dupla de protagonistas ótima: Paul Mescal e Josh O’Connor.  127 min.

 

MIRRORS No. 3, da Alemanha, dirigido por Christian Petzold, já bem conhecido dos cinéfilos por aqui, é um trabalho muito interessante.  Mostra uma estudante berlinense que sofre um acidente de carro com o namorado, no campo, e sobrevive milagrosamente.  Se ela já não estava bem, agora, então, está muito abalada, ainda que fisicamente praticamente ilesa.  As circunstâncias a levam a Betty, que a acolhe próxima ao local do acidente, onde mora, a mantém por lá e se afeiçoa por ela.  Marido e filho distantes se aproximam para um convívio em que os traumas de uma perda deixaram marcas e uma separação entre eles quase intransponível.  Do convívio entre desgraças, no entanto, algo de novo resultará, transformando todos e cada um, do jeito que for possível.  No final das contas, um filme muito realista, mas esperançoso também.  86 min.

 

URKIN, do Reino Unido, dirigido por Harris Dickinson, nos mostra o personagem Mike (Frank Dillane) como morador de rua, conseguindo um albergue por um tempo, na prisão, em alguns trabalhos na limpeza urbana ou na cozinha de um restaurante.  Ou, ainda, roubando de alguém que pretendia ajudá-lo.  O que fica evidente no filme é que o que vivemos depende de nossas escolhas e da resiliência necessária para viabilizá-las.  Claro que a ausência de recursos materiais ou educacionais influi muito, mas não é determinante para o insucesso.  No caso de Mike, ele é jovem, branco, sem nenhuma deficiência aparente e vive num país que lhe provê alguma ajuda na sobrevivência, seja pelo Estado, seja por entidades beneméritas.  Mas ele não consegue sair da situação em que está porque não sabe como agir, atua com destempero, sem pensar, sem planejar nada para sua vida (exceto sonhos vagos).  Assim, não consegue tirar proveito de nada e ainda estraga o que lhe concederam.  Se algo se apresenta, é preciso lutar por conquistar, senão nada muda. Ou melhor, piora.  O filme é bem construído, tem elementos visuais ricos, uma boa narrativa, que não conta uma história, mas explora bem um personagem.  Da competição Novos Diretores.  99 min.

 

Feliz Aniversário

FELIZ ANIVERSÁRIO, do Egito, dirigido por Sarah Goher, tem uma pegada social relevante.  Retrata uma menina na faixa de 8 ou 9 anos, Toha, que trabalha como empregada doméstica e batalha para que sua amiga Nelly, a filha da patroa, possa realizar sua festa de aniversário.  E ela própria possa, também, soprar a vela do bolo e realizar um desejo.  Nesse processo, o filme mostra, com toda a clareza, que uma coisa é ser filha da patroa e outra, ser filha da empregada.  A rejeição é patente na pobreza e de um consumismo tolo, na riqueza.  O trabalho infantil é tolerado e explorado, apesar da evidente ilegalidade.  O filme é muito eficiente em focar toda a sua trama na figura da menina pobre e na sua luta para estar na festa de aniversário, para a qual não foi convidada.  A menina protagonista, Doha Ramadã, é muito boa, muito expressiva.  91 min. Competição Novos Diretores.

 

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