quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

2 FILMES DE OSCAR

Antonio Carlos Egypto

 




MARTY SUPREME (Marty Supreme).  Estados Unidos, 2025.  Direção: Josh Safdie.  Elenco: Timothée Chalamet, Gwineth Paltrow, Odessa A’zion, Abel Ferrara, Tyler Okonma, Fran Drescher.  140 min.

 

“Marty Supreme” enfoca um jovem personagem ultra talentoso e ambicioso do esporte do tênis de mesa.  Esse assunto anima você a ir ao cinema?  A mim também não animou, porém, o filme já consagrou o trabalho do ator Timothée Chalamet com prêmios importantes como o Globo de Ouro de ator/comédia.  E o filme deve estar na lista dos indicados ao Oscar.

 

Acompanhando o filme, a gente vê que o trabalho é mais inteligente do que se poderia esperar sobre o tema.  Acredite, as cenas das disputas no tênis de mesa são muito bem feitas e chegam a empolgar.

 

O rumo da trama mostra um personagem disposto a tudo, inclusive muitos desvios éticos, para chegar a ser campeão mundial da categoria.  Ocorre que, antes de tudo, na verdade, ele se autossabota.  Faz as piores escolhas, nos piores momentos, convive com quem ele não gosta e tem relacionamentos confusos e conflitantes.  Tanto ele não respeita seus eventuais parceiros ou adversários, como pouco se incomoda com a legalidade das ações e eventos de que participa.

 


Se há uma mulher à sua espera em qualquer circunstância, porque o conhece bem e o aceita, apesar de tudo, há outra que vê nele um parceiro de ocasião para minorar suas insatisfações.  O jeito de lidar com elas e com a própria mãe também está longe de ser satisfatório. 

 

Com uma figura central assim, a trama não poderia levar a um bom cabo e o filme adota isso de forma correta, ainda revelando os bastidores sórdidos das disputas esportivas.  Marty entra nesse jogo em busca de dinheiro para, pelo menos, ir a Tóquio competir pelo mundial e em busca de prestígio e sucesso internacionais.  Mas faz tudo ao contrário do que poderia render-lhe melhores resultados.  Autoengano?  Sabotagem?  Mau caráter?  Tudo isso e a lógica binária e simplória da obsessão por vencer, dos winners e loosers, que vigora nos Estados Unidos desde sempre.  Mas que aqui passa por alguma revisão do olhar sobre o tema.

 

O desempenho de Timothée Chalamet como o tenista Marty Mauser, segundo se diz, inspirado vagamente num jogador real dos anos 1950 em Nova York, é visceral e muito intenso.  Denota o empenho que parece que ele costuma dedicar aos seus personagens.  No caso aqui, ele diz que aprendeu e praticou tênis de mesa durante sete anos como preparação e que fazia isso até quando estava em outras filmagens.  Inspiração e transpiração aos borbotões.

 

O filme dirigido por Josh Safdie é agitado, como seu personagem central, tem um bom elenco de apoio, mas é todo focado na figura de Marty Mauser.  Isso sustenta bem o filme.  Há trapalhadas, exageros e excessos desnecessários, que não chegam a ser engraçados, mas não deixa de ser uma boa diversão.


 


UMA BATALHA APÓS A OUTRA (One Battle Aflter Another).  Estados Unidos, 2025.  Direção: Paul Thomas Anderson.  Elenco: Leonardo Di Caprio, Teyana Taylor, Sean Penn, Chase Infiniti, Benício del Toro.  162 min.

 

A julgar pela recente premiação do Globo de Ouro, “Uma Batalha Após a Outra” pavimentou suas grandes possibilidades no Oscar.  O filme venceu como melhor comédia, com prêmios de melhor roteiro e direção para Paul Thomas Anderson.  E ainda o prêmio de atriz coadjuvante para Teyama Taylor.

 

O consagrado cineasta P.T.A. tem entusiastas do seu trabalho e gente que torce o nariz para suas provocações e o mundo distópico que ele retrata.  Geralmente a crítica aprova mais a sua obra do que o público.

 

A trama do filme focaliza Bob Ferguson (Leonardo Di Caprio), um ex-revolucionário que vai em busca da filha adolescente sequestrada por seu inimigo, o coronel Lockjaw (Sean Penn).  Vive uma jornada caótica, retomando seu passado para salvar a filha Willa (Chase Infiniti) e ainda tem de enfrentar a dissonância geracional dos tempos de crise em que vivemos.

 

Poder, confronto, embate ideológico, mudanças radicais, polarização extrema, a sociedade tomada pela violência e pelo desencontro, são alguns dos elementos de “Uma Batalha Após a Outra” que, na verdade, é antes de tudo um filme de ação, irônico, com muito humor e muito questionamento.




 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

BRASIL no Globo de Ouro

 Fizemos história no Globo de Ouro com os  Prêmios de Melhor Filme de Língua Não Inglesa para O AGENTE SECRETO de KLEBER MENDONÇA FILHO e de Melhor Ator Drama para WAGNER MOURA. Depois da premiação em Cannes, em tantos outros festivais e o reconhecimento da crítica e da imprensa internacionais, agora só falta o Oscar (mais uma vez) e ele virá. Estou certo disso.

Antonio Carlos Egypto





sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

VALOR SENTIMENTAL

Antonio Carlos Egypto

 


VALOR SENTIMENTAL (Affeksjonsverdi/Sentimental Value).  Noruega, 2025.  Direção: Joachim Trier.  Elenco: Stellan Skarsgard, Renate Reinsve, Elle Fanning, Inga Ibsdotter Lilleaas.  133 min.

 

“Valor Sentimental” começa com um personagem importante, a casa onde sempre viveu a família do cineasta Gustav Borg (Stellan Skarsgard).  Uma casa bela e tradicional em sua concepção arquitetônica.  Mas, segundo a imaginação de Nora (Renate Reinsve), a casa sente a falta das pessoas que se vão e a deixam mais leve ou transformam o barulho das brigas em silêncio.  Isso tudo diz respeito às complicações familiares e, sobretudo, à ausência frequente do pai na vida das filhas, Nora e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas).  E ao que Nora sente sobre isso.  É importante que se diga que Nora é atriz, mas seu pai aparentemente nunca a viu atuar e nem tem interesse pelas escolhas que ela faz.  Enquanto isso, Agnes, na condição de atriz, já atuou em filme de Gustav há muitos anos.

 

No entanto, Gustav Borg retorna e tem um roteiro para filmar justamente na casa da família.  Um roteiro ficcional, mas muito baseado nas experiências familiares, que algumas aparentemente devem ter lhe escapado, pelas ausências.  O problema é que seu projeto inclui Nora como atriz principal da história.  O que é assustador para ela e que ela prontamente rejeita.

 

O projeto do filme avança, obtendo financiamento, e Gustav escolhe, então, uma atriz famosa para substituir Nora, Rachel Kemp (Elle Fanning).  Só que toda a filmagem prosseguirá na casa, onde continuam vivendo Nora e Agnes.

 

O desenvolvimento dessa história vai revelar as questões familiares profundas aí envolvidas, num estilo que lembra a grande referência escandinava: o sueco Ingmar Bergman (1918-2007).  Ao mesmo tempo, a questão que se coloca é a relação entre a realidade e a ficção.  Até que ponto é possível tratar ficcionalmente, com realismo, a trajetória familiar penosa e conflitiva?  É possível tentar resolver pela via ficcional as coisas que ficaram para trás, travadas, encalacradas ou como tabus?

 


Uma atriz distante dos fatos como Rachel poderá incorporar o papel pensado e concebido para a filha do diretor?  E Nora, como poderá conviver com as filmagens que representam a sua própria história?  Ou a história, tal como seu pai a vê? 

 

Como se percebe, um filme de muitas camadas de relações que dá margem a muitos questionamentos e situações humanas fundamentais.  Tem densidade e emoções à flor da pele, sem sentimentalismos e sem evoluir para o melodrama.  Novo trabalho do diretor Joachim Trier, nascido na
Dinamarca, atuando na vizinha Noruega.  Mostra a força de suas obras, sendo a que conheço e comentei aqui no cinema com recheio “A Pior Pessoa do Mundo”, de 2021, um filme muito bom.

 

O grande ator sueco Stellan Skarsgard tem brilhante atuação, discreta e verdadeira, no papel central de “Valor Sentimental” e o retorno da atriz norueguesa Renate Reinsve, após o papel central em “A Pior Pessoa do Mundo”, reafirma seu grande talento e se destaca novamente aqui.

 

O filme está indicado a vários prêmios  no Globo de Ouro e no Oscar, sendo um provável forte concorrente a melhor filme internacional com o nosso “O Agente Secreto”.




quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O CINEMA É O TEMA

Antonio Carlos Egypto

 

O cinema é o tema de dois filmes muito bons em cartaz.  Um verdadeiro presente em época de festas de fim de ano para os cinéfilos.  Confira.

 


LUMIÈRE, A AVENTURA CONTINUA!  (Lumière, l’Aventure Continue!).  França, 2024.  Direção e roteiro: Thierry Frémaux.  Documentário.  104 min.

 

Os irmãos Louis e Auguste Lumière deram início à aventura do cinema, em 28 de dezembro de 1895, com a primeira projeção pública, e paga, de filmes realizados com o cinematógrafo, no subsolo do Grand Café, Boulevard des Capucines, em Paris. O cinematógrafo coroava os esforços de um grande número de inventores e pesquisadores que buscaram o sonho de criar a fotografia animada, ou em movimento.  Entre eles, estava Thomas Edison que, com seu cinetoscópio, associado ao fonógrafo, tentou criar o cinema com imagem e som em paralelo, uma espécie de precursor do cinema falado, em 1892.  Só que isso se dirigia a um espectador por vez, que precisava olhar num visor.

 

Antoine Lumière, o pai de Louis e Auguste, proprietário de uma fábrica em Lyon, trabalhava com fotografia e película, conheceu o equipamento e teria dito que era preciso libertar as imagens daquela caixinha e pô-las para que todos as vissem simultaneamente.  Estimulou seus filhos a encontrar a solução técnica para isso.  Estamos diante, portanto, de uma família de criadores, inventores, técnicos.  Com a patente do cinematógrafo, também negociantes.  Embora isso já seja uma coisa fantástica, é muito mais do que isso.

 

Thierry Frémaux, diretor do Instituto Lumière e do Festival de Cannes, com seu novo filme, nos mostra, mais uma vez de forma inequívoca, que os irmãos foram grandes cineastas, responsáveis não só pela criação e difusão do cinema como pelo estabelecimento da linguagem cinematográfica tal como a conhecemos hoje.  E com grande talento. “Lumière, a Aventura Continua” retoma a compilação dos filmetes de 50 segundos de duração dos Lumière e de seus operadores, de 1895 a 1905.  No filme, composto e comentado por ele, desfilam cerca de 120 filmes, selecionados da coleção de milhares realizados.  Parece um milagre, foram encontrados mais de 1400 filmes deles, que estão sendo restaurados e cujo material serve de base ao conceito de que os Lumière sabiam usar e posicionar uma câmera, fazer o enquadramento preciso, trabalhar lindamente com a luz, com o tempo e a agilidade do filme, com as pessoas que estão à frente da câmera e com a impressão que as imagens podem causar.

 

A fotografia é esplêndida, de um preto e branco bem contrastado, perfeito.  A nitidez da fotografia é uma surpresa.  A profundidade de campo já era explorada, é tão nítida na frente quanto no fundo.  Eles também produziram o travelling e a filmagem bem de perto, o zoom.  Tudo isso com uma câmera sem visor, com os recursos técnicos dos primeiros tempos.  Limitadíssimos, portanto.  O texto, em off, de Frémaux, é uma preciosidade.  Ele aponta para tudo o que foi a criação dos Lumière, os registros individuais e coletivos, os eventos, as paisagens humanas urbanas, os detalhes e muitas coisas que a gente não veria, se não fosse alertado para elas. Se ‘Lumière, a Aventura Começa”, de 2016, já foi uma aula obrigatória para quem gosta de cinema, a sequência dessa experiência é um aprofundamento na leitura desses grandes pioneiros da arte cinematográfica. Indispensável.





NOUVELLE VAGUE (Nouvelle Vague).  França, 2025.  Direção: Richard Linklater.  Elenco: Guillaume Marbek, Zoey Deutsch, Aubry Dullin, Adrien Rouyard, Antoine Besson, Jodie Ruth-Forest.  105 min.

 

“Nouvelle Vague”, como o nome já indica, é uma homenagem ao movimento cinematográfico francês que modernizou o cinema nos anos 1960, na vanguarda dos demais movimentos de renovação do cinema, entre eles, o cinema novo brasileiro.  Seus maiores expoentes estão em evidência em São Paulo.  François Truffaut (1932-1984) está sendo reexibido na íntegra numa mostra de 26 filmes no Cinesesc e é um dos personagens do filme de Richard Linklater, naturalmente.  Mas o destaque do filme “Nouvelle Vague” é Jean-Luc Godard (1930-2022) e a sua obra-prima “Acossado” (A But de Souffle), de 1960, que é um dos mais importantes trabalhos da história do cinema.  E que aconteceu depois do êxito extraordinário de “Os Incompreendidos”, de 1959, de Truffaut.

 

No filme do cineasta norte americano Richard  Linklater, destaca-se a figura do diretor Godard (Guillaume Marbek) e do casal de atores centrais de “Acossado”, Jean-Paul Belmondo (Aubry Dullin) e Jean Seberg (Zoey Deutsch) e o clima especial da juventude daquela filmagem, para lá de inovadora e surpreendente.

 

Naturalmente quem conhece e curte o filme e já o viu algumas vezes vai se empolgar de conhecer essa narrativa, os detalhes dela, especialmente.  Para quem não conhece o filme original, sua história ou importância, fica mais difícil aproveitar a experiência e se divertir com “Nouvelle Vague”.  Nesse caso, no entanto, valeria a pena assistir ao filme atual e, em seguida, ver “Acossado”, ou vê-lo antes, se for possível.  Servirá para cobrir uma lacuna importante do cinema mundial.

 

Destaco que a dupla central de ator e atriz do filme é um achado, são talentosos, lembram muito os originais e a química entre ele e ela.  Isso acontece também com os personagens de Godard, Truffaut e outros.  Houve um cuidado especial na procura das figuras que deveriam representar esses grandes nomes do cinema francês e mundial da época.  Praticamente todas as grandes figuras da nouvelle vague e seus contatos aparecem ou são citadas no filme.  Gente como Claude Chabrol, Eric Rohmer, Jacques Rivette, Alain Resnais, Roberto Rossellini, Agnès Varda, Jacques Demy, Jean-Pierre Melville.  A lista é enorme.  Vale a pena lembrar deles.  Deixaram um legado extraordinário para a história do cinema.

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E para finalizar, deixo aqui um abraço a todos e todas que estiverem me lendo neste momento e que costumam acompanhar o cinema com recheio.  Meu desejo de Boas Festas e um novo início de ano estimulante e esperançoso para todos nós.  Viva 2026 e Viva o Cinema!

 

 

 

 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

CASTIGO e MILONGA

Antonio Carlos Egypto

 

 


O CASTIGO (El Castigo). Chile, Argentina, 2022.  Direção: Matías Bize.  Elenco: Antonia Zegers, Néstor Cantillana, Catalina Saavedra, Yair Juri.  88 min.

 

“O Castigo”, dirigido pelo cineasta chileno Matías Bize, é um drama psicológico que envolve suspense e mistério numa questão aparentemente prosaica.  Que casal não aplicou um castigo desproporcional a um filho de 7 anos de idade e não se arrependeu do que fez?  Mas parece que aqui não é bem o caso.  O menino foi abandonado na estrada, perto da floresta, pelos pais durante apenas alguns minutos, mas quando eles retornaram ele havia sumido.  No entanto, ambos admitem que o que a criança fez foi muito sério, muito grave e teria até justificado a ação.  A mãe acredita, o pai concorda em parte, acha que exageraram na dose, o que não foi legal.  Mas, afinal, o que de tão grave um menino poderia ter feito para que os pais pensassem assim?  O mistério vai se ampliando, quando ao chamarem a polícia mentem sobre o fato.  Estabelece-se um conflito muito forte dentro do casal, que também revela uma questão de gênero: as renúncias que às mulheres acabam sendo impostas socialmente.  E como os homens lidam com elas. O confronto que vive o casal com seus desdobramentos, mágoas e acontecimentos do passado, ocupa o centro da narrativa dramática.  O suspense se mantém, devido à insegurança da situação e à perda que se deu.  E, claro, à culpa que corrói pai e mãe.  Após essa experiência traumática, não se pode voltar ao que se era.  Tudo mudou e algo novo terá de surgir.  Por alguma razão, aconteceu e, pode-se dizer, talvez fosse mesmo inevitável que acontecesse.  O filme mantém a tensão psicológica e o suspense na ação por conta de sua narrativa enxuta, dos silêncios, das introspecções, do diálogo escasso e do turbilhão emocional que precisa ser contido.  O que nem sempre é possível.  Os dois atores chilenos que protagonizam o filme, Antonia Zegers e Néstor Cantillana, dão densidade aos seus personagens e mantêm a situação com brilho. 


 

 


MILONGA (Milonga).  Uruguai, Argentina, 2023.  Direção e roteiro: Laura González.  Elenco: Paulina García, César Trancoso, Laila Reys, Paolo Venditto, Jean Pierre Noher.  106 min.

 

“Milonga”, da diretora uruguaia Laura González em seu primeiro longa-metragem, é um drama psicológico centrado na personagem Rosa, interpretada pela ótima atriz chilena Paulina García.  Rosa é uma mulher aprisionada pela vida e por sua história familiar. É viúva, perdeu o marido, mas a sombra dele está presente em tudo o que ela pensa e faz.  Percebemos o que há de doentio nessa fixação no marido morto, mas o filme não dá pistas sobre isso.  Da mesma forma que não entendemos o que acontece na sua relação com a nora, de quem ela procura se aproximar e a rejeita, afastando o neto.  Sabemos também que seu filho está preso e ela não consegue vê-lo há tempos.  Tudo parece desmoronar à sua volta, mas ela não busca reconstruir sua vida, nem suas relações.  Está presa ao passado nostalgicamente.  No entanto, coisas começam a acontecer, quando ela recebe, com relutância, uma antiga amiga que mostra vigor e entusiasmo, frequentando uma academia de danças de tango.  E a estimula a buscar novos ares.  A venda de um carro que foi do marido também acaba pondo-a em contato com um homem ativo e produtivo, Juan, papel do grande ator uruguaio César Trancoso.  Ele vai pintar um muro da casa dela, aceita sua comida e se interessa pelo apelo do tango.  O que poderia representar um novo sopro em sua vida e nas relações afetivas e amorosas, no entanto, parece um estorvo, que ela rejeita.  E se refugia dentro de casa, como numa prisão.  A sequência em que ela assiste escondida Juan circular o jardim da residência cortando a grama é muito marcante para representar isso.  O que ela faz é olhar para trás e tentar restaurar as relações familiares, fazendo bolos e levando presentes que não reconstróem nada.  Os mistérios da história se revelarão de forma pouco sutil, com a evolução das situações.  Fundamentalmente, numa conversa em que os fatos e os sentimentos são explicados verbalmente.  O mais importante, porém, é o processo que vive Rosa, o labirinto sem saída em que ela se coloca.  E se o tango costuma ser a expressão da tragédia, sua dança também poderia ser uma porta de saída da depressão.



domingo, 7 de dezembro de 2025

LIVROS RESTANTES

                        

 Antonio Carlos Egypto

 



LIVROS RESTANTES.  Brasil, Portugal, 2025.  Direção: Marcia Paraiso. Elenco: Denise Fraga, Augusto Madeira, Renato Turnes, Wanderléia Will, Andrea Buzato.  104 min.

 

“Livros Restantes” é uma produção Brasil/Portugal, rodada no bairro da Lagoa, Florianópolis, e na cidade portuguesa de Aveiro, contando com atores e atrizes catarinenses e portugueses, protagonizado por Denise Fraga.

 

Denise representa Ana Catarina, uma mulher que decide fazer uma grande mudança de vida em torno dos 50 anos de idade, indo viver, trabalhar e desenvolver-se profissionalmente em Portugal.  Como a mudança, em princípio, será definitiva, ela tem de despedir-se dos familiares e amigos e dos bens materiais que deixará para trás.

 

Após doar seus livros, entre os demais pertences, cinco deles são retidos, referem-se a livros presenteados a ela, ou por ela a outro, que contêm dedicatórias que trazem memórias, lembranças.  Ana resolve, então, devolvê-los a seus amigos, amigas ou parentes, marcando um encontro para falar sobre eles, rever as pessoas e despedir-se de cada uma delas.

 

Aí é que muitas coisas inesperadas acontecem.  Há quem a receba de braços abertos e lisonjeado, há quem estranhe dada a distância que se criou, há quem mudou muito e não quer nem saber de lembrar de coisas que ficaram para trás.  O laço via literatura pesa, para o bem ou para o mal.  E até gera desentendidos ou falsas expectativas. Quem sabe aquela mulher que eu desejei finalmente vai me querer?

 

Enfim, o filme explora essas possibilidades que a mudança traz nas relações.  No caso da família, os reencontros para despedida reabrem contatos difíceis, problemáticos, velhas questões e preconceitos, como a homofobia, por exemplo.  E questões apagadas, tabus, como o abuso sexual em família, que seria preciso enfrentar um dia.  Torna-se indispensável revirar o passado para poder seguir em frente.  A perspectiva do futuro muda o presente, transforma as relações humanas e amorosas.

 

O que seria um encerramento de um ciclo marcado pela afetividade e proximidade aos livros, pode levar a conflitos complicados, doença e morte.  A vida vale a pena, mas também nos surpreende.

 

“Livros Restantes” segue uma narrativa clássica, linear, mas é bem realizado, explora bem as belezas de Floripa, em Santa Catarina, e também o charme de Aveiro, em Portugal, locações bem escolhidas e bem fotografadas, filmadas pela diretora e roteirista Marcia Paraiso, com um elenco muito bom e o destaque óbvio, e conhecido de todos nós, do talento de Denise Fraga, num papel dramático, mas que também lhe dá a chance de expressar sua simpatia, seu humor, sua alegria.  E viver seu ódio e sua indignação, além das surpresas que a situação lhe reserva a cada encontro humano dessa história.

 

A trilha sonora do filme destaca “Não Fique Só”, de Zininho, Cláudio Alvim Barbosa (1929–1988), considerado o maior compositor popular de Florianópolis e autor do hino da cidade, interpretada por diferentes cantoras e inclui “Fé”, de Iza, com Caetano Veloso e Maria Bethânia.


 


MOSTRA TRUFFAUT POR COMPLETO

Uma dica imperdível é acompanhar a “Mostra Truffaut Por Completo”, com 26 títulos de um dos maiores cineastas da história do cinema: François Truffaut (1932-1984), pioneiro da nouvelle vague francesa e um criador cinematográfico absolutamente extraordinário.  A mostra começa no dia 11 de dezembro de 2025 no Cinesesc, São Paulo, depois de ter sido exibida com grande sucesso no Rio de Janeiro.

 

 

  

domingo, 23 de novembro de 2025

GUARDE O CORAÇÃO...

Antonio Carlos Egypto

 


GUARDE O CORAÇÃO NA PALMA DA MÃO E CAMINHE.  França/Palestina/Irã, 2025.  Direção: Sepideh Farsi.  Documentário com Fatma Hassona.  112 min.

 

A gente vê as imagens das reportagens televisivas sobre os bombardeios e a destruição que está acontecendo na Faixa de Gaza e uma guerra desse tamanho se torna incompreensível.  Não há reação à ação terrorista do Hamas que explique, muito menos justifique, crimes de guerra e a atuação genocida por parte do governo de Israel contra o povo palestino.  Como é possível viver num local onde todas as casas vão sendo destruídas, os edifícios, escolas, hospitais, tudo se transforma em ruínas?  A morte iminente por ação de mísseis, por deslocamentos forçados ou pela fome.

 

Tentando registrar o que é isso na realidade, a cineasta iraniana Sepideh Farsi se conectou por contatos digitais em vídeo com uma fotojornalista palestina de 24 anos de idade, Fatma Hassona, que continuava em Gaza com a família que lhe restou, após perder 13 pessoas queridas entre familiares e amigos.  Os encontros digitais marcados pela instabilidade da Internet e dos diferentes locais onde Fatma se encontrava, no entanto, duraram 200 dias, de maio de 2024 a 16 de abril de 2025, quando Fatma morreu em sua casa bombardeada, dando um fecho trágico ao trabalho. 

 

As conversas realizadas nesse período foram gravadas por Sepideh Farsi e associadas às imagens do bairro de Gaza, realizadas pela fotojornalista, em sua “prisão” a céu aberto, compõem o filme.  É impressionante e emocionante acompanhar a jovem palestina, com seu sorriso radiante a princípio, mesmo naquela situação absurdamente inumana e perigosíssima.

Quando a gente se debruça sobre a situação civil dessas guerras e olha para a população, a coisa muda totalmente de figura.  E o mal se revela em toda a intensidade.  Assim como o absurdo de qualquer guerra.  O documentário “Guarde o Coração...”, que entra em cartaz nos cinemas agora e está indicado ao The Gothams Awards, depois de ser exibido em Cannes, e talvez seja indicado ao Oscar de documentários, merece ser visto, porque é realidade na veia. 

 

Poema de Fatma Hassona: O HOMEM QUE VESTIA SEUS OLHOS

Talvez eu esteja anunciando a minha morte

agora

Antes que a pessoa a minha frente carregue

Seu fuzil de elite

E tudo acabe

E eu termine. Silêncio.

 

“Você é um peixe?”

Não respondi quando o mar me perguntou

Não sabia de onde vieram os corvos

Que avançaram sobre minha carne.

Teria parecido lógico?

__Se eu dissesse: Sim,

Deixe esses corvos avançarem

no fim

Sobre um peixe!

Ela atravessou

E eu não atravessei.

Minha morte me atravessou

E uma bala afiada de atirador

Fez de mim um anjo

Por uma cidade

Imensa.

Maior que meus sonhos

Maior que esta cidade.

 

                                            QUEM AINDA ESTÁ VIVO    



Outro filme que não está disponível no momento, mas que vi na Mostra 49, sem conseguir escrever a tempo sobre ele durante o período da Mostra, é “Quem Ainda Está Vivo” (Qui Vit Encore) de Nicolas Wadimoff, produção Suíça, França, Palestina, 2025.  O documentário conversa com 9 refugiados palestinos, que perderam tudo, mas escaparam do inferno de Gaza, chegando ao Egito, e que contam suas histórias.  Aí se destaca a perda de uma vida simples, de trabalho, num local bonito, à beira-mar, sem que nada justificasse o desmoronamento de vidas civis absolutamente normais, ainda que numa região reconhecida por seus conflitos políticos.  Se vier a ser novamente exibido, lançado nos cinemas ou em streaming, procure ver.  115 minutos.