terça-feira, 21 de abril de 2026

ESTRANGEIRO e VENCEDORES

  Antonio Carlos Egypto

 


O ESTRANGEIRO (L’Étranger”).  França, 2025.  Direção: François Ozon.  Elenco: Benjamin Voisin, Rebecca Marder, Pierre Lotin, Swann Arlaud.  122 min.

 

O Estrangeiro, importante romance existencial de Albert Camus (1913-1960), já se tornou filme em 1967, sob a direção de Luchino Visconti, com Marcello Mastroianni no papel principal.  Retomar essa obra-prima da literatura pelo cinema agora parece, então, uma atitude no mínimo muito ousada.

 

Quem encarou isso foi François Ozon, que não é nenhum Visconti, mas é um dos mais importantes cineastas franceses da atualidade.  Seu protagonista é o jovem e talentoso Benjamin Voisin.  Mas ninguém vai querer compará-lo com Mastroianni, um dos maiores atores do cinema de todos os tempos.

 

 Bem, então, vamos ao personagem principal, Mersault, apático, que não expressa emoções, vive num mundo interior árido, sem entusiasmo ou interesse pelo amor, pela vida e mesmo pela morte. 

 

Nada o abala, nem a morte da mãe, de que ele vai cuidar sem sofrimento aparente, dor ou choro.  Ou do encontro afetivo -- sexual – que o une momentaneamente a Marie (Rebecca Marder), o que entusiasma mais a ela do que a ele.  No entanto, esse personagem vai cometer um assassinato, de um árabe, numa praia de Argel, sem motivo aparente.  Isso acarretará um julgamento em tribunal, em que Mersault, como na vida, jamais mentirá.

 

Um francês na Argélia dos anos de 1930, envolto pelo colonialismo, está sendo julgado.  E, com ele, o ambiente político da época.  Quanto às mulheres, elas assumem um protagonismo maior no filme de Ozon.  E para que tudo soe verdadeiro, nada melhor do que a filmagem em preto e branco, que o diretor escolheu acertadamente.

 

O filme é bonito, tem o ritmo certo para que possamos viver a experiência com o protagonista bem de perto.  Com calma e sorvendo as surpresas dessa personalidade tão intrigante e introspectiva.

 

Vale a pena conferir a nova versão de “O Estrangeiro”, mas não deixe de ver também a versão de Luchino Visconti, caso você não a conheça.

  





DOCS VENCEDORES

Os documentários, vencedores oficiais pela definição dos júris do Festival É TUDO VERDADE 2026, estão automaticamente classificados para a disputa do Oscar de docs, curta e longa metragem.  Foram eles:

Internacionais

Longa: UM FILME DE MEDO (Una película de miedo), Espanha, Portugal.  Dirigido por Sérgio Oksman.  72 min.  Um documentarista e seu filho de 12 anos experimentam o medo, mas as relações pais e filhos, atuais e passadas, tomam conta da narrativa.  Bom trabalho.

Curta: SONHOS DE APAGÃO (Sueña Ahora), Cuba, Itália, dirigido por Gabriele Luchelli, Francesco Lorusso, Andrea Settembrini.  20 min.  Aborda a vida possível e os sonhos que são vividos pelos cubanos nos apagões.  Trabalho espetacular com a luz.

Nacionais

Longa: SAGRADO, de Alice Riff, 90 min., sobre uma escola pública de Diadema,SP, integrada à comunidade por lutas passadas, vista pelos olhos de seus trabalhadores: professores, merendeiras, seguranças, etc., que emergem como tipos humanos muito interessantes.

Curta: ARCOS DOURADOS DE OLINDA, o sensacional trabalho de Douglas Henrique, que, em 24 minutos, conta a história da Guerra Fria refletida em Olinda, numa disputa acirrada entre duas mulheres pela Prefeitura, enquanto o McDonald’s entra em falência pela primeira vez no mundo, na histórica Olinda, em Pernambuco, no centro do Brasil. Irônico e brilhante, venceu, além do prêmio oficial, mais três prêmios, pela APACI (Associação Paulista de Cineastas), Canal Brasil e Mistika.

Douglas Henrique





quinta-feira, 16 de abril de 2026

DOCS NACIONAIS


Antonio Carlos Egypto

 

O documentário brasileiro vem mostrando sua força na 31ª. edição do É TUDO VERDADE 2026, que vai até 19 de abril, em novos trabalhos e revisitando êxitos que já se tornaram clássicos.  Vou comentar mais alguns docs nacionais que vi no Festival.

 

com Baby do Brasil

Começando por APOCALIPSE SEGUNDO BABY, de Rafael Saar.  Baby do Brasil (ex-Baby Consuelo) é uma cantora muito boa, expressiva, talentosa.  E que tem uma audácia que é reveladora de uma autoconfiança e de uma autoestima que ela atribui a Deus, ao seu misticismo, à sua dimensão cósmico-telúrica.  Tudo bem.  Crenças cada um tem as suas.  Só que a figura forte, exibida, exagerada, às vezes ofusca o talento musical.  O presente documentário procura dar conta desses dois aspectos.  E se sai bem.  Não deixa de enfatizar o que foi o brilho dos Novos Baianos, que ela integrou, da dupla com Pepeu, nem o de sua carreira solo, posterior.  Importante: mostra o seu relacionamento musical com a nata da música brasileira, de Ademilde Fonseca a João Gilberto, passando por Elza Soares, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal, Bethânia e muitos mais.  Além do espírito de Janis Joplin.  São muitas e ótimas influências.  Quanto aos excessos, deixa pra lá.  Mas vai aqui um exemplo.  Pedi a ela uma pose para uma foto que ilustraria essa matéria.  Foi essa.  110 min.

 


Carlos Adriano dirigiu um longa radical e experimental, que eu achei magnífico, sobre, vejam só, Marcel Proust (1871-1922) e a possibilidade ou impossibilidade de filmar sua obra monumental “Em Busca do Tempo Perdido”, escrita entre 1906 e 1922.  E faz uma colagem bem trabalhada de imagens de arquivo, inclusive do próprio Proust e da alta burguesia francesa a que ele pertencia.  Faz superposições, avanços e recuos, montagem com filmes famosos, letras em preto e branco e coloridas na tela, um caleidoscópio rodante, etc.. E muitas frases, citações e pequenos textos, não só de Proust, mas de outros autores que, com as ideias dele, se acoplam.  Aliás, trabalhou bastante a associação de ideias, conceitos, imagens e até manuscritos da época.  Vai encontrando soluções para que Proust possa ser filmado, lido e compreendido, com humor também.  Tem uma sequência longa com Carmem Miranda e o seu bananal hollywoodiano.  Tem “Um Corpo que Cai”, Orson Welles, Deleuze, Machado de Assis, Roberto Machado, Drummond...  Enfim, uma mistura e associação fenomenais.  Claro que é um filme para poucos, mas PROUST PALIMPSETO: PASTICHES E MISTURAS é um belo trabalho.  103 min.

Do mesmo diretor, também foi exibido o curta SEM TÍTULO#11: UM ANACLETO À MULA, em que uma mula é o centro da ação, assim como o filme de Robert Bresson, de 1966, que tinha como protagonista um burro.  Também aqui Carlos Adriano acopla frases, textos literários e combinações de imagens de forma bem criativa.  27 min.

 

Carlos Adriano ao microfone

RETIRO, A CASA DOS ARTISTAS, de Roberto Berliner e Pedro Bronz, visita a instituição centenária do Rio de Janeiro que acolhe trabalhadores da cultura brasileira na velhice.  E nos mostra como são, como vivem, o que pensam diversas figuras que lá estão, usufruindo de uma vida digna, ainda que com poucos recursos materiais.  O toque do artista faz toda a diferença, transforma a simplicidade em poesia e beleza.  E os sonhos em cenários teatrais deslumbrantes, como lembrou Stepan Nercessian, dirigente da casa.  95 min.

 

Gostaria de mencionar também o curta ARCOS DOURADOS DE OLINDA, de Douglas Henrique, que com humor e ironia nos relata a disputa entre duas mulheres pela prefeitura da cidade, em 2000, vencida pela comunista, do PCdoB, Luciana Santos, depois reeleita, enquanto o McDonald’s se instalava na cidade, provocando inicialmente filas, como aconteceu no resto do mundo.  Porém, Olinda foi, segundo o filme, a única cidade do mundo onde o McDonald’s faliu.  Por isso mesmo, Olinda, a capital do centro do Brasil, Pernambuco, se revelou uma cidade extraordinária no mundo.  Mas o Douglas garante que não é bairrista.  24 min.

 

Missão 115

Para terminar, eu gostaria de citar e recomendar um dos grandes documentários já feitos no Brasil, MISSÃO 115, de Sílvio-Da-Rin, de 2018, que se debruça sobre o período em que, por meio de bombas enviadas pelo correio e com o atentado ao show de 1º. de maio de 1981, no Rio Centro, revelou-se por inteiro o terrorismo de Estado praticado durante a ditadura militar.  Afinal, a bomba explodiu no colo do militar que faria o atentado, planejado para produzir um caos, com portas fechadas a cadeado, para ser imputado à esquerda.  Essa era a tal missão.  Quem não viu, não perca.  Fundamental para entender a história brasileira recente e mesmo atual.  87 min.

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domingo, 12 de abril de 2026

DOCS EM DESTAQUE

 

   


Antonio Carlos Egypto

 

Quero registrar aqui alguns filmes já vistos no Festival Internacional de Documentários É TUDO VERDADE 2026.  O filme de abertura em São Paulo, BOWIE: O ATO FINAL, dirigido por Jonathan Stiasny, do Reino Unido, faz uma abordagem muito adequada da vida artística de David Bowie (1947-2016).  Mostra sua trajetória marcada pela busca constante de inovações e rupturas, numa inquietação artística muito clara.  O retorno era sempre uma nova expressão musical e artística, em que o cinema teve também papel importante.  O filme deve ter lançamento comercial oportunamente.  90 minutos.

 


Com Luiz Zanin consultando a programação do festival



Gostei muito também do documentário sueco, TÚMULO DE GELO, dirigido por Robin Hunzinger.  Ele conta uma história fantástica que remonta ao final do século XIX, quando, em 1897, três homens encararam uma viagem num balão de hidrogênio gigante, com vistas a alcançar o até então inexplorado e inacessível Polo Norte.  Registraram sua façanha em diários escritos e fotos que sobreviveram no gelo e foram encontrados em 1930, 33 anos depois da jornada histórica.  O filme é esclarecedor e muito bem documentado.  Mostra como foi construído, em plena neve, durante anos, o centro lançador do enorme balão e reconstrói a tentativa de volta dos exploradores.  São imagens que fluem e nos envolvem nessa história espetacular.  78 minutos.

 

Com o documentário brasileiro FERNANDO CONI CAMPOS: CADA UM VIVE COMO SONHA, de Luís Abramo e Pedro Rossi, aprendi sobre esse grande cineasta contador de histórias.  Que nasceu em 1933, mas morreu cedo, em 1988, sem tempo para que sua chama artística pudesse se solidificar e ser melhor reconhecida.  A história desse baiano que circulou pela intelectualidade paulistana e pelos meandros cariocas, deixando também um trabalho como escritor e cineasta que cultivava a dramaturgia popular, soa bela e sedutora neste doc..  E chama a atenção para seus filmes inovadores, como “Viagem ao Fim do Mundo” (1968) e “Ladrões de Cinema” (1977).  89 minutos.

 

Luiz Zanin e Mária do Rosário Caetano na Cinemateca

O documentário polonês DESFECHO já é mais angustiante.  Dirigido por Michal Marczak, acompanha a obcecada busca de Daniel pelo seu filho Chris, desaparecido aos 16 anos.  Entende-se muito bem a sua dor, mas é aflitivo perceber que essa busca se tornou a única causa de sua existência, que nunca pôde parar, ao longo de anos, esquadrinhando o rio Vístula, no sul de Varsóvia, e todas as possíveis pistas por seu encontro.  105 minutos.

 

Já o documentário brasileiro A FABULOSA MÁQUINA DO TEMPO investe na brincadeira.  A diretora Eliza Capai deu vez e voz às meninas de uma pequena cidade do interior do Piauí, que aos 10, 11 anos, pensam sobre as questões femininas e a chegada da adolescência.  Seus pensamentos refletem ainda uma ideia do homem como o gigante da mulher, mas suas reflexões divertidas trazem muita verdade sobre o machismo estrutural, a saída da miséria, Deus, o medo da morte e muito mais.  70 minutos.

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quarta-feira, 8 de abril de 2026

PAI MÃE IRMÃ IRMÃO

 

Antonio Carlos Egypto




                             


PAI MÃE IRMÃ IRMÃO (Father Mother Sister Brother), produção Estados Unidos/ Irlanda/ França, 2025, dirigido pelo veterano e brilhante cineasta Jim Jarmusch, levou com muitos méritos o Leão de Ouro em Veneza.  O filme trata de relacionamento familiar, pais e filhos e irmãos, todos adultos, por meio de três histórias, uma, nos Estados Unidos, outra, na Irlanda, em Dublin, e outra em Paris, na França.  Em comum, o clima estranho e irônico que Jarmusch imprime às situações.  Aqui, as coisas não fluem, o formalismo impede a espontaneidade, a sem-graceza toma conta dos relacionamentos familiares.  Tudo soa estranho, algo inesperado, falso, de aparências.  Muito curioso.  Mostra o diretor em plena forma, fiel a seu estilo.  Apoiado por um elenco espetacular: Tom Waits, Adam River, Charlote Rampling, Cate Blanchet, Mayim Bialik, Vicky Krieps e outros.  Comédia muito inteligente e crítica.  110 min.

 

Com Amir Labaki

 

É TUDO VERDADE.  A oportunidade de acompanhar o Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade (It’s All True) 2026, de 09 a 19 de abril, em São Paulo e no Rio de Janeiro, com todas as sessões gratuitas, é um presente para a população.  O Festival, coordenado por Amir Labaki, tem demonstrado, ao longo de 30 anos (está é a 31ª. edição), um nível de qualidade magnífico.  É uma janela para a compreensão do que anda se passando no mundo e no Brasil também.  A seleção é sempre muito criteriosa.  Basta lembrar o selo de “Qualifying Festival” da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que classifica os filmes vencedores do É Tudo Verdade para a disputa do Oscar de Documentários, longas e curtas.  Pretendo acompanhar essa edição e comentar alguns filmes por aqui.  Mas quem puder já se prepare para ir ao Cinesesc, à Cinemateca Brasileira, ao IMS – Instituto Moreira Salles ou ao Centro Cultural São Paulo, para assistir às sessões ao longo do dia e à noite, em Sampa.  Ou às salas do Estação Net Rio, na Cidade Maravilhosa.  Serão 75 filmes, de 25 países, em exibição. E tem programação infantil também.

etudoverdade.com.br

 

 

 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

DRAMA E GLÓRIA

Antonio Carlos Egypto



 

O DRAMA (The Drama).  Estados Unidos, 2025.  Direção: Kristoffer Borgli.  Elenco: Zendaya, Robert Pattinson, Alana Haim, Hailey Gates, Mamoudou Athie.  106 min.

 

Cansamos de ver e ler dramas a toda hora.  Por que, então, um filme deveria se chamar “O Drama”?  Afinal, é apenas um drama entre milhões.  O fato é que o drama que mobiliza a narrativa desse filme é realmente surpreendente.  Não vou contar qual é, claro.  Mas vamos às circunstâncias que o envolvem.  Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson) estão a poucos dias de se casar, apaixonados e tomando aquelas providências típicas do período: as roupas, a festa, as fotos, a cerimônia.  Um momento de felicidade e boas expectativas.  Num encontro com outro casal de amigos, surge aquela típica brincadeira do jogo da verdade.  E a pergunta: o que você já fez de pior na vida? é respondida por Emma e deixa todos paralisados.  A partir daí, a narrativa foca na quebra de confiança do casal de noivos.  Como se processará a relação deles depois disso?  Será possível seguir com aquela paixão e com o casamento dos sonhos?  É uma situação que prende a atenção, centrada no relacionamento humano e amoroso marcado pela desconfiança, pela dúvida, pela dificuldade de elaborar a questão, da parte de ambos, na verdade.  O casal de protagonistas vive esse drama com muita convicção.  As dificuldades são visíveis no desempenho de Pattinson e Zendaya.  O tema do filme, dirigido pelo cineasta norueguês Kristoffer Borgli, levanta polêmicas e põe em relevo situações importantes, desafiadoras e assustadoras dos nossos dias.

 




RUAS DA GLÓRIA.  Brasil, 2025.  Direção: Felipe Sholl.  Elenco: Caio Macedo, Alejandro Claveaux, Diva Menner, Alan Ribeiro, Jade Sassará, Daniel Rangel.  107 min.

 

Em função de um luto que o abalou, Gabriel (Caio Macedo), jovem gay, professor de português e literatura, sai do Recife para o Rio de Janeiro, em busca de novos horizontes, tanto profissionais, como de relacionamento sexual e amoroso.  Pelas ruas da Glória, no centro do Rio, ele vai encontrando paisagens, pessoas, circunstâncias, e acaba desfrutando de uma família de apoio, ao conhecer Adriano (Alejandro Claveaux), garoto de programas uruguaio, que é uma figura cativante e disruptiva. Vai daí que o filme explora essa relação sexual e amorosa, tóxica e complicada.  Cheia de vais-e-vens, altos e baixos, extremamente difícil de ser vivida e administrada.  Estamos no terreno do imponderável.  Mas que sempre abre espaço para a esperança.  O filme, dirigido ao público LGBTQIA+, tem muito desejo, excitação, envolvimento sexual forte e relações humanas tensas.  Tem um bom elenco já premiado, que inclui também a atriz e cantora trans Diva Menner, e é bem realizado.  Segundo o diretor e roteirista Felipe Sholl, a narrativa reflete vivências dele, o que dá um sentido de autenticidade à história.

 

sábado, 28 de março de 2026

A GRAÇA

 Antonio Carlos Egypto


 

A GRAÇA (La Grazia).  Itália, 2025.  Direção: Paolo Sorrentino.  Elenco: Toni Servillo, Anna Ferzetti, Orlando Cinque, Massimo Venturiello.  133 min.

 

“A Graça”, novo trabalho de Paolo Sorrentino (de “Il Divo”, de 2008, “A Grande Beleza”, de 2013, “A Juventude”, de 2015 e “A Mão de Deus”, de 2021, entre outros), um dos grandes cineastas italianos da atualidade, é um filme cheio de virtudes.  Antes de mais nada, por contar, novamente, com Toni Servillo como protagonista, num desempenho contido, interiorizado, absolutamente perfeito.  Por ser um filme que explora com profundidade as reflexões sobre a velhice, o poder (ou a perda do poder), a paixão, o romance, o luto, a solidão e a morte.  É também um filme político, que discute questões polêmicas da atualidade.  É, ainda, um filme profundamente humanista, que lida com personagens fictícios absolutamente verdadeiros em sua humanidade.

 

Um Presidente da República italiano imaginário chamado Mariano De Santis (Toni Servillo) chega a uma idade avançada que coincide com o final de seu mandato.  Em 6 meses, ele estará fora do poder e vai voltar para casa. É um mandatário querido por seu povo (os aplausos no Scala de Milão são um atestado eloquente disso).  É uma pessoa ponderada, equilibrada, que reflete muito antes de tomar decisões.  Cultiva a dúvida e o tempo a seu favor.  Isso também pode ser interpretado como postergamento de decisões, ficar muito tempo em cima do muro, evitando se expor publicamente.  Na verdade, é um homem discreto, cuidadoso e reflexivo, o que explicaria melhor o respeito de seu povo, em que pese o fato de demandas populares permanecerem não atendidas.

 

Bem, em seus últimos seis meses as principais decisões que ainda podem marcar seu nome na história da Itália dizem respeito a leis que podem regular a eutanásia no país e a dois casos rumorosos de assassinatos de cônjuges, sendo um homem, por um lado, e uma mulher, por outro, como sentenciados, para os quais há pedidos de indulto e um volume de assinaturas e apoios.  Considere-se que o Presidente é um grande jurista, profundo estudioso e conhecedor das leis.

 

Enquanto isso, Mariano vive com a filha Dorotea (Anna Ferzetti), que é também sua assessora, e mergulha numa crise existencial duradoura, desde que está viúvo há oito anos.  Não consegue se livrar não só da imagem de perfeição de sua mulher, Aurora, comentada constantemente ao longo do filme, como dos fantasmas de uma traição que ela teria cometido quarenta anos atrás.  Mas com quem e por que, se se amaram tanto por todo esse tempo?  Para ele, essa lei não perdeu validade.


 

É uma vida que está sendo passada pela memória e pela avaliação dessa figura importante que agora se retira do poder que legitimamente conquistou.  Tudo parece fino, elegante, discreto, nessa trajetória.  Que destoa, de repente, pelo interesse pelo rap enquanto expressão musical e pelo encanto por astronautas que podem viver experiências sem a lei da gravidade.  Elementos que fazem o contraste entre mundos, com o passado tão presente, a atualidade desafiadora e o futuro que parece quase não existir.

 

Com tanta densidade de questões, outra grande virtude do filme está em algumas sequências extraordinárias, como a chegada do velho Presidente de Portugal em meio a uma chuva torrencial que o derruba ou a lágrima do astronauta que se solidifica na cabine.  Mas sequências simples de conversa ou envolvimento afetivo também se destacam. Uma mulher que flerta com o Presidente de forma inesperada ou a sinceridade de alguns de seus interlocutores diante das perguntas que ele dirige a eles.  A descoberta do apelido concreto armado, tão reveladora, soa engraçada.

 

Enfim, há tantos elementos a considerar, num filme tão sutil e complexo ao mesmo tempo, que o espectador atento certamente valorizará.

 

A beleza cinematográfica de “A Graça” também tem de ser apontada, com destaque para cenas esbranquiçadas, em bruma, aviões marcando o céu, detalhes encontrados em frestas, portas e janelas, que contam a história tanto quanto os diálogos e o desempenho dos atores e atrizes em suas expressões, num filme em que o corpo fala.

 

“A Graça” se refere aqui, de um lado, ao instituto do indulto, que cabe ao Presidente da República, mas também à noção mais ampla de justiça e, sobretudo, de perdão, que é uma marca fundamental da trama.

Distribuição MUBI

 

LEMBRETES

A Mostra “FAROL – O Cinema entre a Memória e o Agora” segue no Cinesesc SP até 02 de abril, com filmes como “Dente Canino”, “Slacker”, “Queerpanorama”, “I Will Follow”, “A Sombra de Meu Pai”, “Dolores” “Os Matadores”, “O Riso e a Faca”, “Robocop: o Policial do Futuro”, “Los Domingos” e “Alpha”.

 

O Festival “É Tudo Verdade (It’s All True) 2026” acontece de 09 a 19 de abril também no Cinesesc, além da Cinemateca Brasileira, Centro Cultural São Paulo, IMS, e no Rio de Janeiro, em 4 salas do Estação NET Rio.



quarta-feira, 25 de março de 2026

DITTO e +

 

 Antonio Carlos Egypto

 


DITTO: CONEXÕES DO AMOR (Donggam).  Coreia do Sul, 2022.  Direção: Seo Eun-young.  Elenco: Yeo Jin-goo, Cho Yi-hun, Kim Hye-yoon, Na In-woo, Bae In-hyuk.  114 min.

 

Ditto, ou Donggam em coreano, refere-se ao mesmo sentimento ou “o mesmo vale para mim”.  E, no filme, trata-se dessa possibilidade separada no tempo por vinte anos de distância.  Seria factível uma identificação dessas, ou mesmo empatia, vivida em tempos tão distintos, com muitas diferenças tecnológicas impactando a realidade, de estudantes universitários, no caso?

 

O estudante Kim Young (Yeo Jin-goo) vive em 1995 numa universidade, cursando engenharia mecânica.  Conecta-se por meio de um radioamador com Mu Nee (Cho Yi-hun) que vive em 2022, na mesma universidade.  Essa surpreendente conexão vai revelando um monte de coisas que unirão o rapaz e a moça, tornando-os grandes amigos, que nunca poderão se encontrar.  A menos que ela pudesse encontrá-lo vinte anos mais velho.

 


Kim Young vive uma grande paixão por Seo Han-sol e compartilha suas preocupações, sentimentos e dúvidas, com Mu Nee.  Ela, por seu turno, também faz suas confidências.  As diferenças tecnológicas criam apenas ruídos de comunicação, já que o mundo dos celulares e aplicativos ainda não existia.  E as expressões eram outras ou ganharam novos significados.

 

O filme é marcado por nostalgia e delicadeza.  A diretora e roteirista Seo Eun-young investe na valorização do amor e da amizade, mas ao mesmo tempo conduz uma narrativa inovadora na abordagem da questão amorosa e das questões familiares que permeiam a história.  Uma chuva que acontece cá, mas não lá, delimita territórios, mas um eclipse lunar ata os espaços diversos.

 

A atual produção coreana, que é de 2022, é uma refilmagem da mesma história que alcançou grande sucesso por lá, em 2000.  Mas, ao que consta, de uma forma mais grave e tensa.  Aqui, a direção ao público jovem é clara, pela trama, pelas cores vivas e alegres e, ainda, pelo apelo sentimental.  Embora aqui se dê de uma forma complexa e indireta e chegue a conclusões surpreendentes e inesperadas.

 

As referências cinematográficas amplamente conhecidas se dão em relação à série de filmes “De Volta Para o Futuro” (Back to the Future), dirigida por Robert Zemeckis, em 1985, 1989 e 1990.  Outro filme que inspirou todos eles, de algum modo, é “Em Algum Lugar do Passado” (Somewhere in time), de 1980, dirigido por Jeannot Szwarc.  Esses filmes foram marcantes pelos elencos e por trilhas musicais espetaculares, que sobreviveram ao tempo, como os personagens que eles retrataram.  A trilha sonora de “Ditto” também é bonita.

 

 


NOTRE DAME DE PARIS

Realidade virtual também é cinema.  Um cinema imersivo, em que você vive num mundo paralelo e totalmente ilusório.  Na exposição “Notre Dame de Paris – Eterna e Sagrada” é possível viajar no tempo e na história da famosa catedral, de sua construção à reconstrução que se processou após o incêndio.

 

É possível subir ao topo da igreja, com as gárgulas a seu lado, ver toda a sua estrutura e o panorama que se descortina.  Além de detalhes de sua base em madeira, as grandes obras, esculturas, vitrais e tudo o mais.  Subindo andaimes sem sair do chão.  Mas é fácil acreditar que você está lá em cima.

 

A exposição é, sem dúvida, muito interessante e informativa, porém, a brincadeira e o desviar de pessoas e de muros aparentes ou o medo da altura acabam pesando mais do que as informações históricas ou a análise das obras artísticas.

 

Essa exposição, ao lado de outras similares, como a dos Impressionistas ou de Quéops, acontece no Espaço Cultural de Realidade Virtual, no 2º. subsolo do Shopping Cidade de São Paulo, na avenida Paulista, diariamente, das 10:00 h às 21:20 h.