Antonio Carlos Egypto
HAMNET: A VIDA ANTES DE HAMLET (Hamnet). Estados Unidos, 2025. Direção: Chloé Zhao. Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Joe
Alwin, Emily Watson, Jacobi Jupe, Noah Jupe.
125 min.
Hamnet foi o único filho homem de William Shakespeare (1564-1616) e Agnes
ou Anne Hathaway (1566-1623), fruto do casamento deles em 1582. Tiveram três filhos. Ela estava grávida de Suzanna quando se
casou. O menino foi gêmeo de Judith. Isso está registrado e confirmado assim como
as grafias intercambiáveis de Hamnet e Hamlet, que seriam variações do mesmo
nome, à época. E que Hamnet morreu aos
11 anos de idade, provavelmente em decorrência da peste e que a peça “Hamlet”
foi escrita quatro anos depois dessa trágica morte para a família. Em que pese o fato de que a mortalidade
infantil era, então, altíssima.
Bem, daí a fazer a conexão entre a morte do filho e a peça “Hamlet” já
envolve uma interpretação. Talvez fosse
mais simples considerar pelas falas da peça a influência do fato na escrita,
mas não necessariamente a inversão de pai e filho como a personificação da
própria história pessoal do autor. Mesmo
com a coincidência de nomes.
A partir daí, o que o filme “Hamnet”, baseado no livro do mesmo nome da
escritora Maggie O’Farrell, também roteirista do filme da diretora chinesa
Chloé Zhao, descreve é a vida familiar ficcional de Shakespeare e Agnes.
É verdade que o bardo inglês pouco ficava em casa, desde que iniciou sua
vida nos palcos em Londres, saindo de sua aldeia natal. E que mesmo tendo depois adquirido uma bela
casa em Stratford-upon-Avon continuava viajando a trabalho e não teria podido
comparecer ao funeral do próprio filho a tempo.
Mas, se isso significava um casamento infeliz ou pouco interesse no
convívio com a esposa e os filhos, é mera especulação. Shakespeare pode ter sido um apaixonado que
não podia se dar ao luxo de ir para casa dado o êxito do seu trabalho no
teatro. Afinal, foram casados por 34
anos, até a morte dele. De qualquer
modo, o que Shakespeare sentia não se pode saber.
Não há dúvida de que o apelo do filme “Hamnet” se escora no prestígio do
clássico shakespeariano. Tanto que o seu
final emocionante bebe das águas férteis da peça “Hamlet”. E por meio dela explora o papel da arte na
resolução de questões emocionais tensas e sofridas e na ligação entre as
pessoas. A recriação da cena da exibição da peça na época e da suposta presença
de Agnes assistindo-a ao vivo é muito bem concebida e realizada.
A narrativa do filme, porém, é toda centrada na figura de Agnes, em
brilhante interpretação de Jessie Buckley, premiada como atriz/drama no Globo
de Ouro. Até a parte final, o que se
acompanha é uma dinâmica familiar cheia de problemas e dificuldades que
descamba para o dramalhão em vários momentos.
É um filme feito para chorar. Não
precisava.
Paul Mescal faz um Shakespeare muito adequado. O mais curioso é que o nome do personagem só
aparece no filme em seu terço final.
Como a dizer que essa história poderia ser de qualquer pessoa daquela
época. De qualquer família, também. Mas a protagonista é Agnes, nome utilizado
por seu pai ao lhe deixar bens em testamento.
Anne é o nome que, provavelmente, ela usava informalmente.
Ela é uma mulher forte, trabalhadora, misto de feiticeira da floresta e
especialista em ervas e poções medicinais.
Provavelmente sabia ler e escrever e não seria apenas uma camponesa
analfabeta. O filme aposta nisso, numa
leitura obviamente moderna, que é criação artística.
“Hamnet” é bonito, bem filmado, com locações de natureza e elementos de
época bem caracterizados. A diretora
Chloé Zhao já nos havia dado o premiado “Nomadland”, em 2020, um filme superior
a esse que agora deve disputar o Oscar.


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