sábado, 17 de janeiro de 2026

HAMNET : A VIDA ANTES DE HAMLET

Antonio Carlos Egypto

 

 



HAMNET: A VIDA ANTES DE HAMLET (Hamnet).  Estados Unidos, 2025.  Direção: Chloé Zhao.  Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Joe Alwin, Emily Watson, Jacobi Jupe, Noah Jupe.  125 min.

 

Hamnet foi o único filho homem de William Shakespeare (1564-1616) e Agnes ou Anne Hathaway (1566-1623), fruto do casamento deles em 1582.  Tiveram três filhos.  Ela estava grávida de Suzanna quando se casou.  O menino foi gêmeo de Judith.  Isso está registrado e confirmado assim como as grafias intercambiáveis de Hamnet e Hamlet, que seriam variações do mesmo nome, à época.  E que Hamnet morreu aos 11 anos de idade, provavelmente em decorrência da peste e que a peça “Hamlet” foi escrita quatro anos depois dessa trágica morte para a família.  Em que pese o fato de que a mortalidade infantil era, então, altíssima.

 

Bem, daí a fazer a conexão entre a morte do filho e a peça “Hamlet” já envolve uma interpretação.  Talvez fosse mais simples considerar pelas falas da peça a influência do fato na escrita, mas não necessariamente a inversão de pai e filho como a personificação da própria história pessoal do autor.  Mesmo com a coincidência de nomes.

 

A partir daí, o que o filme “Hamnet”, baseado no livro do mesmo nome da escritora Maggie O’Farrell, também roteirista do filme da diretora chinesa Chloé Zhao, descreve é a vida familiar ficcional de Shakespeare e Agnes.

 

É verdade que o bardo inglês pouco ficava em casa, desde que iniciou sua vida nos palcos em Londres, saindo de sua aldeia natal.  E que mesmo tendo depois adquirido uma bela casa em Stratford-upon-Avon continuava viajando a trabalho e não teria podido comparecer ao funeral do próprio filho a tempo.  Mas, se isso significava um casamento infeliz ou pouco interesse no convívio com a esposa e os filhos, é mera especulação.  Shakespeare pode ter sido um apaixonado que não podia se dar ao luxo de ir para casa dado o êxito do seu trabalho no teatro.  Afinal, foram casados por 34 anos, até a morte dele.  De qualquer modo, o que Shakespeare sentia não se pode saber. 

 

Não há dúvida de que o apelo do filme “Hamnet” se escora no prestígio do clássico shakespeariano.  Tanto que o seu final emocionante bebe das águas férteis da peça “Hamlet”.  E por meio dela explora o papel da arte na resolução de questões emocionais tensas e sofridas e na ligação entre as pessoas. A recriação da cena da exibição da peça na época e da suposta presença de Agnes assistindo-a ao vivo é muito bem concebida e realizada.

 


A narrativa do filme, porém, é toda centrada na figura de Agnes, em brilhante interpretação de Jessie Buckley, premiada como atriz/drama no Globo de Ouro.  Até a parte final, o que se acompanha é uma dinâmica familiar cheia de problemas e dificuldades que descamba para o dramalhão em vários momentos.  É um filme feito para chorar.  Não precisava.

 

Paul Mescal faz um Shakespeare muito adequado.  O mais curioso é que o nome do personagem só aparece no filme em seu terço final.  Como a dizer que essa história poderia ser de qualquer pessoa daquela época.  De qualquer família, também.  Mas a protagonista é Agnes, nome utilizado por seu pai ao lhe deixar bens em testamento.  Anne é o nome que, provavelmente, ela usava informalmente.

 

Ela é uma mulher forte, trabalhadora, misto de feiticeira da floresta e especialista em ervas e poções medicinais.  Provavelmente sabia ler e escrever e não seria apenas uma camponesa analfabeta.  O filme aposta nisso, numa leitura obviamente moderna, que é criação artística.

 

“Hamnet” é bonito, bem filmado, com locações de natureza e elementos de época bem caracterizados.  A diretora Chloé Zhao já nos havia dado o premiado “Nomadland”, em 2020, um filme superior a esse que agora deve disputar o Oscar.

 

 

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