quinta-feira, 15 de outubro de 2020

CINEMA...EM CASA (5)

Antonio Carlos Egypto

 

Ficar em casa por um longo tempo, organizando toda a vida a partir disso, é um desafio que a conjuntura nos impõe.  Gostemos ou não.  E quem tem que sair para trabalhar fica mais exposto.  Há quem curta a ideia de uma reclusão, outros saem, não porque precisem, mas porque não conseguem suportar o isolamento ou a solidão.  E há os tolos, que simplesmente negam uma pandemia, que já matou mais do que várias guerras somadas.  Embora, para muitos, os sintomas nem existam, ou sejam leves, e a cura se resuma a um isolamento temporário, sem necessidade de hospitalização.  Seja como for, a necessidade de permanecer em casa é evidente, se pensarmos em termos coletivos.  Só é possível controlar este vírus dificultando a sua circulação, dado o potencial de contaminação que ele tem.  Até que venha a vacina, pelo menos.

 

Vai daí que a gente, quando fica muito em casa, acaba percebendo que o essencial para a vida resume-se a poucas coisas. Nada a ver com o consumismo tão fundamental para a roda do capitalismo girar, gerando necessidades o tempo todo.  E percebemos o quanto essa criação artificial de necessidades compromete a vida no planeta.  Será que aprenderemos a reconhecer e valorizar o que é essencial e a dispensar tantas coisas supérfluas?

 


LIMITE


Percebi que, em várias escolhas de filmes em DVD que separei para assistir na temporada de quarentena, há muito mais filmes essenciais do que atuais.  E que pode ser muito importante rever filmes antigos e históricos. Por exemplo, revi dois filmes brasileiros essenciais: “Limite” (1931), de Mário Peixoto, e “A Hora da Estrela”, (1986), de Suzana Amaral.


O mítico “Limite”, produção do cinema silencioso que ficou desaparecido por muitos e muitos anos, é uma obra cinematográfica poderosa.    Com grande apuro estético, preciosos enquadramentos, cenas que alternam placidez e tédio, com movimentações vertiginosas de câmera de grande impacto, é um filme experimental extremamente atraente e bem sucedido.  Que parte de uma história simples, três náufragos, um homem e duas mulheres, em um barco perdido no oceano, contando suas histórias e enfrentando uma tempestade.

 

A beleza das imagens nos retrata essa situação humana-limite, carregada de conflitos e relacionamentos-problema, num filme extraordinário.  A Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema – realizou um debate e votação entre todos os seus críticos, espalhados pelo Brasil, e escolheu “Limite” como o melhor filme brasileiro de todos os tempos.  Não foi o meu voto, mas reconheço a importância que o filme tem.

 

Meu DVD desse filme veio da Cinemateca Brasileira, que hoje enfrenta um criminoso bloqueio de suas atividades, essenciais à memória do nosso cinema, por parte de um governo que destrói tudo, da educação à Amazônia, das relações internacionais à saúde do seu povo e, de forma sistemática, a cultura.

 

“A Hora da Estrela”, filme de Suzana Amaral, recentemente falecida, com base em crônica de Clarice Lispector, aborda com grande sensibilidade a vida de uma brasileira que quase não existe, não tem qualquer importância para outros, não consegue manter um emprego muito simples e mal remunerado.   Vive subnutrida e maltratada.  Sem amor.  É um retrato maravilhoso da realidade dos que estão na base da pirâmide, vivendo de teimosos.  Essa não-cidadã é vivida com maestria por Marcélia Cartaxo, ao lado de um belo elenco que tem José Dumont, Fernanda Montenegro, Tamara Taxman e Umberto Magnani.  Deu margem à realização de uma obra fundamental, cruel e única.  O DVD, da Versátil, faz parte da coleção Folha “Grandes Livros no Cinema”.

 


A HORA DA ESTRELA


Também revi o documentário “O Sal da Terra, Uma Viagem com Sebastião Salgado”, de Wim Wenders e Juliano Ribeiro Salgado, filho do retratado.  O filme é um mergulho na figura humana e na obra excepcional do fotógrafo Sebastião Salgado e traz profundas reflexões sobre questões sociais pungentes, o meio ambiente, a nossa existência no planeta e a esperança de ainda encontrarmos soluções para o nosso mundo.  Um belo trabalho, de 2014, lançado em DVD pelo selo SESC.

 

Aproveitei, ainda, a programação de documentários da TV Cultura, aos sábados, para ver “Guarnieri”, filme de 2017, de Francisco Guarnieri, neto do grande autor e ator do teatro, do cinema e da TV, Gianfrancesco Guarnieri, de “Eles Não Usam Black-Tie” e “Arena Conta Zumbi”.  O documentário mostra a ação artística e política dele, sua relação com os filhos, netos e outros familiares, em que se destacam a luta pela causa, artística, cultural e política, de resistência à ditadura militar e as suas convicções socialistas.

 


ADONIRAN


Ainda na programação da TV Cultura, me deleitei com “Adoniran – Meu Nome é João Rubinato”, de 2018, de Pedro Serrano.  A figura e a obra de Adoniran Barbosa, sua enorme importância para a música e a cultura, paulista e brasileira, se sobressaem de tal modo que não deixam margem a dúvida quanto ao seu talento e genialidade.  Na base do samba e da brincadeira, ele vai exercendo a difícil arte de falar errado e nos dizendo coisas como esta: “Pobre quando come galinha, ele está doente, ou a galinha”, no papel de Charutinho.  Ao lembrar da saudosa maloca, nos remete ao drama social dos sem-teto.  Está tudo lá, mas agora chega.  Não posso ficar mais com vocês, senão perco o trem das 11 para o Jaçanã e minha mãe não dorme enquanto eu não chegar.  Tchau!


 

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