domingo, 25 de março de 2018

SOLDADOS DO ARAGUAIA


Antonio Carlos Egypto




SOLDADOS DO ARAGUAIA.  Brasil, 2017. Direção: Belisário Franca.  Documentário.  73 min.


A historiografia brasileira tem muitos esqueletos no armário.  Aspectos importantes são deixados de lado, relegados ao esquecimento, como se nunca tivessem existido.  O diretor Belisário Franca já havia mexido numa ferida antiga, no documentário “Menino 23”, acompanhando a investigação do historiador Sidney Aguiar, que descobriu tijolos confeccionados com suásticas nazistas, numa fazenda no interior de São Paulo.  E acabou revelando a escravização de crianças nos anos 1920 e 1930, promovida por empresários de pensamento eugenista.  O vínculo entre elites brasileiras e crenças nazistas se revela por inteiro, no depoimento de uma vítima sobrevivente: menino 23, já que eles tinham que abdicar de seus próprios nomes.  Belo documentário.

Agora, Belisário Franca volta à carga, remexendo na proscrita guerrilha do Araguaia, que aconteceu entre 1967 e 1975, na selva amazônica.  Foi um movimento de resistência armada à ditadura militar no campo, visando a atingir comunidades ribeirinhas e rurais na organização da resistência.

Acabou sendo dizimada por forças do exército, que recrutavam soldados da própria região, que se apresentavam para o serviço militar e eram treinados para enfrentar a guerra, desconhecendo por completo suas reais motivações.




O tal treinamento, revela-se no filme, era de uma crueldade incrível para aqueles recrutas, que sofriam verdadeira tortura física e psicológica, para aprenderem a endurecer com os “subversivos” comunistas, que seriam capturados e barbaramente torturados, mortos, jogados ao mar de helicópteros e todo tipo de excessos.  Não havia lei nem nenhum tipo de garantia constitucional ou dos direitos humanos.  Tudo podia, na ditadura civil-militar que vigorou por 21 anos no Brasil, especialmente contra a resistência armada, no campo ou na cidade.

A partir de um trabalho de apoio aos ex-soldados do Araguaia, que vivem traumas permanentes, relacionam-se com fantasmas e culpas por toda a vida, o documentário “Soldados do Araguaia” resolve ouvi-los, contar suas agruras, suas impressões, suas memórias, os medos que persistem, a opressão que ficou dentro deles, como agentes e vítimas de uma violência inaudita. 

O que se ouve e se vê é estarrecedor.  Quem ainda hoje pensa em restaurar dias como aqueles só pode ser um louco desumano ou um completo desinformado sobre aquele período.  Daí a importância de um filme como esse, para que não desejemos repetir atrocidades como aquelas.




Quando se quer apagar da história os eventos que não interessa recordar, que comprometem pessoas e instituições de poder, o que nos resta é um limbo perigoso, que pode nos levar a reviver barbaridades, desumanidades, que não se justificam em nome de nenhuma ideia política, seja à direita, seja à esquerda.  Combater a opressão ao ser humano se sobrepõe a todas as ideologias ou sistemas de poder.

Para que isso seja possível, encarar a verdade dos fatos é essencial.  O documentário é um meio, um dos caminhos de concretizar isso e alcançar o público.  O problema é a distribuição e exibição dos filmes, que acaba relegando-os a poucos e raros espaços, por pouquíssimo tempo.  Os serviços de TV paga, streaming e a disponibilização na Internet podem ajudar.  Pode ser incômodo, mas é importante saber dessas coisas.



2 comentários:

  1. Francisco Monteagudo26 de março de 2018 13:41

    O penúltimo parágrafo expõe com muita clareza as mazelas que ocorrem nos regimes autoritários. Os regimes ditatoriais se mantém como? Oprimindo, matando, proibindo. Felizmente no Brasil esse regíme se foi, embora na America Latina, só para citar um continente, há muitos regimes ditatoriais escabrosos, que são amplamente elogiados por pessoas que seguem a mesma ideologia. Presos, assassinados? Mereceram, pois são opostos a nosso "heroi"... E assim vai a vida...

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  2. Aquele regime se foi, mas tem gente gestando o ódio, chocando o ovo da serpente. O momento é grave. Pinochets e Videlas sempre podem ressurgir

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