sábado, 23 de julho de 2016

MÃE SÓ HÁ UMA


Antonio Carlos Egypto




MÃE SÓ HÁ UMA.  Brasil, 2015.  Direção e roteiro: Anna Muylaert.  Com Naomi Nero, Matheus Nachtergaele, Dani Nefussi, Daniel Botelho, Laís Dias, Luciana Paes, Helena Albergaria.  82 min.



Após o êxito do filme “Que Horas Ela Volta?”, em 2015, Anna Muylaert nos apresenta um novo e bem estruturado trabalho.  E que, mais uma vez, mergulha no universo familiar e o conecta com o contexto social. 

O ponto de partida que serviu de livre inspiração para o filme “Mãe Só Há Uma”, é uma história muito conhecida e divulgada: o caso real do menino Pedrinho, amplamente noticiado e que emocionou o público, em 2002.  Para quem não se lembra, ele havia sido roubado na maternidade, em Brasília, foi educado e amado pela mulher que praticou o sequestro.  Vivia com ela, o marido e uma outra filha, que também se soube ter sido igualmente roubada.  No entanto, a família biológica de Pedrinho continuou à sua procura e acabou encontrando-o, já adolescente, dezesseis anos depois.  Foi uma mudança brusca de vida para todos os envolvidos, porém, tudo aparentemente acabou se encaixando.  A mulher que cometeu o crime foi condenada e presa.




Contar essa história já seria bastante emocionante para um filme.  E seria sempre possível acrescentar ingredientes, questionamentos, incertezas.  Ou apelar para o sentimentalismo, com vistas a levar as plateias ao choro. O filme de Anna Muylaert avança muito mais.  Cria uma ficção que une esse fato gerador à questão da identidade, da aceitação e do convívio com a diversidade, envolvendo os preconceitos que perpassam pelo tecido social, em momento de extrema fragilidade afetiva para os personagens centrais da trama.

Reencontrar e redescobrir um filho perdido só aos 17 anos de idade, após a busca de uma vida, por meio de um exame de DNA, decorrente de uma denúncia anônima, já tem uma dimensão fantástica e desafiadora. Um jovem em pleno processo de afirmação de características de personalidade, desejos e buscas, mudar de nome, de família, de casa e de escola é algo tão mobilizador quanto assustador.  Que pode produzir muito sofrimento e respostas surpreendentes.  Assim como poderia significar uma descoberta gratificante, quem sabe até uma aventura empolgante da juventude.  As possibilidades são imensas.  E imprevisíveis.




O roteiro que Anna Muylaert elaborou para “Mãe Só Há Uma” exacerbou o conflito da situação, trazendo elementos inesperados, como a perspectiva de gênero que o garoto resolve radicalizar justamente quando seu mundo vira de cabeça para baixo.  Para os pais que esperaram por tantos anos pelo filho tão desejado e buscado, como será conviver com um adolescente que eles desconhecem e que gosta de usar vestidos e pintar unhas, por exemplo?

A forma como essas questões se articulam na trama do filme é muito inteligente e mexe com os espectadores.  O final é precioso: o afeto e a aceitação podem vir de onde menos se espera.

O papel complicado desse personagem adolescente às voltas com seus conflitos internos e sua relação com duas histórias, duas famílias, o preconceito e a rejeição social, coube ao jovem ator Naomi Nero.  Ele se entrega ao personagem e convence.




Dani Nefussi vive muito bem o papel duplo das mães Glória e Aracy, enquanto Matheus Nachtergaele interpreta o pai, com elementos de machismo, de preconceito e de opressão, ao mesmo tempo que de insegurança, de impotência e até de subserviência.  Ele é um ator que consegue transitar por universos de personagens e situações muito diversos, sempre com grande habilidade.

Não só esses protagonistas, como todo o elenco, estão muito bem, valorizando em cada personagem essa narrativa tão propícia à reflexão, em um exemplo de grande qualidade do cinema brasileiro atual.

  

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