domingo, 19 de outubro de 2014

A GANGUE


Antonio Carlos Egypto



A GANGUE (Plemya).  Ucrânia, 2014.  Direção e roteiro: Myroslav Slaboshpytskiy.  Com Grigory Fesenko, Yana Novikova, Rosa Bably, Alexander Dsiadevish, Yaroslav Biletsky.  132 min.


Na 38ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, está sendo exibido o filme vencedor do grande prêmio da crítica no Festival de Cannes, o ucraniano “A Gangue”.

Trata-se de um filme sem diálogos, sem narração nem legendas.  Na verdade, há diálogos, sim.  Poucos, mas há.  Só que eles se dão na linguagem dos sinais.  O universo tratado é o dos surdos-mudos.  Você pode me perguntar: mas dá para assistir a um filme assim, sem entender a linguagem dos sinais?  Na realidade, sim.  Perfeitamente.  Os diálogos parecem ser banais, corriqueiros.  Pelo menos, é o que eu suponho.  E as imagens, os sons ou a ausência deles, suprem muito bem o que está acontecendo.



 A dificuldade em ver o filme é de outra ordem.  É que ele é pesado, carregado, pessimista.  Relata um mundo opressor, hostil e criminoso, que parece refletir a realidade atual da Ucrânia, em grave crise e confrontos com a Rússia.

Em todo caso, aqui o ambiente retratado não é o macro do país, mas o microcosmos de um internato para surdos-mudos, onde visceja o crime e a prostituição entre os estudantes, a denominada tribo.




Sergey, um jovem surdo-mudo que vai parar nesse internato, é forçado a seguir as regras do grupo, praticando assaltos e agenciando meninas na prostituição.  Ele próprio está descobrindo a sexualidade, mas tudo se dará no contexto dessa gangue que domina todo o ambiente.  Enquanto ele fizer o jogo exigido, terá sobrevivência garantida.  Mas a hora em que ele violar qualquer regra, ainda que informal, não explicitada, o céu cairá sobre a sua cabeça, como dizia aquele personagem dos quadrinhos de Asterix: o chefe Abracurcix.




“A Gangue” é um filme duro, desencantado, mas que apresenta um amplo domínio do primado da imagem.  Por isso, a gente vive com o personagem Sergey e seu mundo silencioso todas as vicissitudes da sua chegada, rejeição e adaptação a esse ambiente criminoso juvenil, acompanha suas descobertas do amor e do ódio.  E da sordidez humana, já tão estabelecida em pessoas jovens.

Em 132 minutos, que se veem com interesse, o filme mostra sua força e, claro, originalidade: contar essa história do ponto de vista de um garoto surdo-mudo.  A trama não é novidade, outros filmes vindos da Rússia e da Ucrânia têm abordado esse desencantado mundo em que a violência e o crime dão as cartas impunemente.  Mas é o primeiro que o faz só por meio da imagem  e da linguagem dos sinais.


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