sexta-feira, 17 de janeiro de 2014





Associação Brasileira de Críticos de Cinema divulga os vencedores do III Prêmio Abraccine.

A Associação Brasileira de Críticos de Cinema, Abraccine, acaba de anunciar nesta quinta-feira (16/01) os ganhadores de seu terceiro prêmio anual, relativo aos Melhores Filmes de 2013.

Concorreram todos os 398 longas metragens, brasileiros e estrangeiros, lançados em circuito comercial no Brasil de 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2013. 

·        O Som ao Redor”, de Kleber Mendonça, ganhou na categoria melhor Longa Brasileiro.

·        Como melhor Longa Estrangeiro foi escolhido “Tabu”, de Miguel Gomes, uma coprodução Portugal/Alemanha/Brasil/França.

·        Pouco Mais um Mês”, de André Novais, foi escolhido o Melhor Curta Metragem (nesta categoria, concorrem apenas curtas brasileiros).

A eleição da Abraccine é muito mais que simplesmente uma contagem de votos de seus associados: realizada em dois turnos, ela é precedida de um amplo debate, via internet, onde todos os seus membros, de todo o Brasil, têm a oportunidade de defender suas preferências e pontos de vista críticos.
 Fundada em julho de 2011, a Abraccine tem hoje mais de uma centena de associados, em todas as regiões brasileiras. Sua missão é promover formas de pensamento crítico, reflexão e debate sobre o Cinema.

Confira agora as críticas dos dois longas premiados, publicadas no Cinema com Recheio.

                            O SOM AO REDOR
Antonio Carlos Egypto

O SOM AO REDOR.  Brasil, 2012.  Direção e roteiro: Kléber Mendonça Filho.  Com Irandhir Santos, Gustavo Jahn, Maeve Jinkings, Irma Brown, Sebastião Formiga.  131 min.

“O Som ao Redor” se destaca na produção cinematográfica atual por apresentar um produto diferenciado e criativo que, mesmo preocupado com a qualidade artística do trabalho, não deixa de buscar comunicar-se com o público, que não se pretende que seja restrito.

Trata com realismo, e produzindo reflexão, da temática da segurança nas grandes cidades e que atinge as populações mais pobres, mas também a classe média.  No caso, um quarteirão de uma zona residencial central de Recife.  Ficamos conhecendo seus moradores, seus hábitos, dificuldades e riscos.  A violência se apresenta sempre em potencial.  Põe em evidência o papel da segurança privada que, aparentemente por pouco dinheiro, traz tranquilidade aos moradores do local.

Se há um roubo aqui ou ali, há também moradores especiais, com quem não se pode mexer.  Mesmo que indícios claros de roubos levem aos tais moradores poderosos.  Os seguranças particulares, no entanto, vão se inteirando de tudo a respeito de todos.  Situações muito concretas são mostradas: um cachorro que não para de latir e torna a vida de sua vizinha um inferno, por exemplo, parece ser uma questão insolúvel.

Os elementos vão sendo introduzidos com muita perícia e constróem uma história que intriga, traz suspense, surpresa, e impacta ao final.  Um roteiro muito competente e uma filmagem capaz de gerar climas tão realistas quanto estranhos e misteriosos prende o espectador à história que vai sendo armada.  Os detalhes são tão importantes que acabam por se descolar por vezes da trama, como que a gerar novas possibilidades.

Esse clima todo é garantido pelo que o título da película indica: o som ao redor.  Os sons urbanos vão revelando fatos e sentimentos e acabam se tornando não só um personagem, mas o mais importante deles.  É por meio dos sons que construímos os fatos, percebemos suas implicações e consequências.  O som produz medo, suspense, expectativa. 

“O Som ao Redor” é um filme que nos remete ao mundo complexo e potencialmente hostil do ambiente urbano contemporâneo, onde o risco se insinua em qualquer esquina ou espaço escuro das ruas, dos prédios, das casas, do mar.  Sem deixar de levar em conta os conflitos de classe e a história passada, que acabarão por ser determinantes para a trama.

O diretor pernambucano Kléber Mendonça Filho produz uma obra impactante que nos envolve, não só pelas formas convencionais com que o cinema gera medo, tensão, suspense, como porque nos faz olhar para dentro de nós mesmos, esquadrinhando o meio urbano que nos circunda.  Esse realismo, digamos, psicológico, é o que assusta.  Mas não é simples fruto da imaginação.  É sociológico, também.  É real em suas diversas dimensões.

Grande filme, premiado em diversos festivais, está entre os melhores de 2013.  A não perder.  É cinema de primeira.  Abre um caminho muito criativo a ser explorado pelo cinema brasileiro.  Resulta num produto artístico muito bem elaborado e que, ao mesmo tempo, se comunica com um público mais amplo, na medida em que não é hermético, e conduz uma trama que pode interessar a qualquer um que viva em ambiente urbano, pois facilmente se identificará com os personagens ou a situação apresentados.

Como diz a sinopse divulgada do filme “O Som ao Redor”, é “uma crônica brasileira e uma reflexão sobre história, violência – e barulho”.


                                      TABU
Antonio Carlos Egypto

TABU.  Portugal, 2012.  Direção: Miguel Gomes.  Com Teresa Madruga, Laura Soveral, Ana Moreira.  119 min.
“Tabu” é uma história contada em duas partes distintas.  Na primeira, vê-se o ocaso de uma senhora idosa, temperamental, que se comporta de modo estranho e faz referência a coisas incompreensíveis que remetem ao seu passado.  Convive com uma empregada caboverdiana, seca e lacônica, que ela crê que a persegue, e com uma vizinha dedicada a causas sociais.  Até que ficamos sabendo de um seu antigo amor, que será o narrador da segunda parte.  E aí o filme cresce, mostrando uma história de amor e traição, que nos leva à África e remete ao clássico do cinema mudo “Tabu”, de F. W. Murnau ,de 1930 .
A fotografia, em preto e branco, é esmerada e merece destaque.  Mas é o modo como Miguel Gomes conduz sua narrativa e inova ao filmar o que mais interessa no filme.  Há, por exemplo, cenas em que os personagens estão em ação e falando uns com os outros, mas os sons que ouvimos são apenas ruídos de casa ou uma pedra que cai na água.  Músicas modernas contrastam com o que se está vivendo em cena, encobrindo eventos da narrativa ou tornando-a francamente estranha e dissonante.  Mas o sentido não se perde, nem se confunde.  A lente da câmera recebe as gotas da chuva, o que transforma a imagem em algo irreal, que se dissolve em desejo ou sonho.
Um jacaré recém-nascido é um presente exótico dado à personagem Aurora (Murnau sendo lembrado outra vez) pelo marido.  Sua fuga e consequente procura nos revela a atração sexual e a traição.  Aliás, um jacaré sempre estará à espreita, com seus olhos arregalados.
Como se pode ver, é um filme especial.  Pode não agradar ao público em geral, mas deve interessar aos cinéfilos.  E a quem conseguir se despir de conceitos estabelecidos e se abrir à novidade.  Quem assistiu e gostou de “Aquele Querido Mês de Agosto”, o filme do diretor, de 2008, que foi um dos destaques da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo daquele ano, certamente vai curtir o novo filme de Miguel Gomes.  Quem não gostou, ou não gostou tanto, pode dar uma nova chance ao cineasta, agora.  Ele é daqueles talentos que o cinema mundial revela, de tempos em tempos, nos festivais, que tem tudo para permanecer.

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