segunda-feira, 14 de outubro de 2013

GRAVIDADE

                         

Antonio Carlos Egypto



GRAVIDADE (Gravity).  Estados Unidos, 2013.  Direção: Alfonso Cuarón.  Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris.  91 min.


Lançamento muito badalado, e apontado como o grande filme da temporada, é “Gravidade”, superprodução norte-americana, dirigida pelo mexicano Alfonso Cuarón. Se o enfoque for a tecnologia empregada no filme e a capacidade de gerar sensações nos espectadores, podemos concordar.  Muito esforço, muito dinheiro empregado e muito tempo, soluções criativas e até inovadoras em efeitos especiais, são alguns trunfos que podem ser creditados a essa produção.



Belas imagens remetem à imensidão do espaço e à relação do ser humano com um ambiente, onde é impossível sobreviver na ausência dos recursos gerados pela humanidade para a exploração espacial.  Na tela IMAX e em 3D, a dimensão do espaço sideral tem grande impacto.  Penetra-se no cosmos e vive-se a aventura e o risco da missão espacial que envolve dois astronautas, interpretados por Sandra Bullock e George Clooney.  Se eles ficam à deriva no espaço, nós ficamos também.  Esse é o maior interesse que o filme pode despertar, o espectador participa da aventura.  Isso pode ser ainda mais impactante numa sala 4D, como a do Shopping JK Iguatemi, em São Paulo, em que a poltrona balança, ventos atingem o espectador e o ambiente fica nublado, acompanhando o que o filme mostra.

Fantástico, porém, fica com cara de parque de diversões, como os de Orlando.  Entretenimento, aventura, medo e calafrios, dentro e fora da tela.  Pode ser um motivo para que algumas pessoas possam finalmente decidir sair de frente da TV para ir ao cinema.  O que é muito bom!  Mas não significa que estejamos diante de um grande filme, muito menos do melhor da temporada.



O roteiro é frágil, as situações tão inusitadas, que é difícil avaliar as próprias interpretações dos atores, exceto pela sua entrega ao papel.  A Dra. Ryan (Sandra Bullock) é a protagonista, a cientista tão perdida no espaço quanto na própria vida terrena.  Isso pode se relacionar à pequenez do ser humano diante do cosmos, mas também, diante de suas perdas pessoais e, no fim das contas, diante de si mesmo.

O papel de George Clooney, o astronauta experiente Matt, é pequeno e passa ao largo dessas questões.  Ele dá o toque de humor e trivialidade que se pretende possível até mesmo nas situações mais dramáticas e que se relacionam à morte iminente.



  O gênero de “Gravidade” é muito mais o disaster movie do que o filme filosófico.  Mas tem sacadas interessantes, quando move a cientista americana rumo às estações espaciais russa e chinesa.  Mesmo com treinamento na operação dos equipamentos russos, fica difícil apertar botões quando eles aparecem grafados em chinês.  Mesmo compartilhando o universo, a humanidade não chega a se entender.  Uma chuva de detritos, decorrente da destruição de um satélite por um míssil russo, atinge o ônibus espacial dos Estados Unidos.  Algo puramente casual, improvável e sem intenções bélicas.  Mas remete à Guerra Fria, que estimulou e potencializou a corrida espacial.

O maior número de espectadores desse filme, no entanto, não vai se preocupar com questões como essas.  Vai mergulhar nas sensações e pronto.  Se não fosse assim, iria rever “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, na retrospectiva dedicada a Stanley Kubrick, na 37ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ao invés de se entusiasmar por uma aventura espacial com Sandra Bullock.


Um comentário:

  1. FRANCISCO MONTEAGUDO18 de novembro de 2013 23:13

    Acabei de assistir o filme. Não foi 3 D, nem IMAX e muito menos 4D - exibição normal mas com som e projeção de alta qualidade, como são os cinemas do Jardim Sul-UCI. Assim, ví um filme com ação dramática sem toques de parque de diversões e nem lembranças de guerra fria - um homem e. uma mulher fazendo o possível e o impossível para se manterem vivos no espaço sideral. Está longe de ser um filme filosófico, mas aos poucos vai retratando a protagonista, como ressalta o Egypto, tão perdida no espaço como na vida terrena. Apenas dois atores competentes em cena, mais uma parte técnica sensacional, e temos um filme com boa dose de suspense a que se assiste com prazer. Evidentemente, não é um "2.001-Uma Odisseia no Espaço"; mas um filme como este só se milagrosamente surgir outro Kubrick.

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