terça-feira, 15 de novembro de 2011

CAVERNA DOS SONHOS ESQUECIDOS

Antonio Carlos Egypto


CAVERNA DOS SONHOS ESQUECIDOS (Cave of Forgotten Dreams).  Estados Unidos, França, Alemanha, 2010.  Direção: Werner Herzog.  Documentário.  90 min.

A caverna Chauvet, na região sul da França, abriga os mais antigos desenhos rupestres de que se tem notícia.  Descoberta em 1994, a coleção de representações artísticas que suas paredes conservam remonta a 32 mil anos de idade.  A caverna foi fechada por causa de um terremoto e esteve protegida de interferências exteriores, o que garantiu a preservação de sua estrutura e a conservação de suas paredes, solo, permitindo que os maravilhosos desenhos que ela contém ficassem intocados.

A gruta continuará sendo mantida fechada, sendo permitido somente o acesso por tempo limitado de uma pequena equipe de cientistas que estudam o local.  O conceituado cineasta alemão Werner Herzog conseguiu autorização do Ministério da Cultura da França para filmar na caverna em condições estritamente controladas de movimentação, tempo rigidamente estipulado e uma equipe mínima.  Os equipamentos escolhidos foram câmeras 3D especiais, que filmaram à luz de tochas e lanternas, a uma distância estabelecida, caminhando sobre plataformas metálicas.

O resultado é espantoso.  Entra-se em contato com o nascimento da representação artística na humanidade, por meio de desenhos realistas de animais, como mamutes, bisões, cavalos, leões. Representações extraordinariamente belas e intrigantes, produzidas por indivíduos, a julgar pela continuidade dos traços.  São criadores que detalham formas, as colorem e procuram representar os movimentos dos animais, numa espécie de busca ancestral da expressão cinematográfica.  Há apenas uma figura humana, meio mulher, meio animal, que não chega a ser vista completamente, apesar dos esforços que Herzog faz para alcançá-la com a câmera.

A arte da era paleolítica se revela deslumbrante, na caverna Chauvet.  O registro do documentário resgata a importância e a dimensão desse achado.  Ele mostra o ambiente que circunda a caverna, também de grande beleza natural, mostra a proximidade de uma usina nuclear e o risco que essa maravilha pode estar correndo, além de ouvir os especialistas e especular sobre a origem do homem, de sua vida e sua arte, sem pretender concluir com base em nenhuma verdade que já esteja na cabeça das pessoas.  Levanta muitas dúvidas e questionamentos, emoldura o belo mistério e nos transporta a uma época e um mundo distantes que, no entanto, estão tão próximos e têm tamanha importância.

Para isso, o equipamento 3D tem grande relevância.  Ele enfatiza, destaca, acentua essa preciosidade, à qual ninguém terá acesso de outra forma, realizando um registro notável, favorecido pelas formas curvas e ondulantes da caverna.

Herzog e sua pequena equipe participam ativamente do filme, mostrando-se em ação, como, quando e onde puderam filmar.  Segundo o diretor, sem poder esconder-se, pelo espaço exíguo da caverna e os locais delimitados para filmar.  Mas havia também a intenção de revelar o processo de realização. 

É um filme que se vê sendo construído e impactando a todos que entram em contato com aquela realidade.  Isso amplia a dimensão do trabalho cinematográfico e a transcendência do que pode significar um registro desse porte.  Convence a todos de que estamos diante de algo raro, especial, espetacular, que nos remete à nossa origem longínqua, mas reveladora da humanidade e do papel que a arte sempre representou para essa humanidade.  Ainda que seus sonhos esquecidos sigam sendo algo insondáveis para nós.

“Caverna dos sonhos esquecidos” foi um dos principais destaques da 35ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.  Esperemos que seja logo exibido nas salas de cinema comercial, com a indispensável tecnologia 3D, neste caso.

2 comentários:

  1. FRANCISCO MONTEAGUDO16 de novembro de 2011 13:00

    Imagino a frustração de todos os que lerem seu excelente comentário sobre A CAVERNA DOS SONHOS ESQUECIDOS e não assistiram o filme. Agora, me junto a sua torcida para que o filme seja lançado comercialmente, obviamente em terceira dimensão, para que todos tenham acesso a êsse belíssimo e interessante filme (e que eu possa revê-lo...).
    FRANCISCO MONTEAGUDO

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  2. Finalmente chegou a hora.Em São Paulo o filme estreará em 25 de janeiro de 2013 no Cinesesc, em 3D.

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