quarta-feira, 10 de agosto de 2011

MELANCOLIA

Antonio Carlos Egypto

MELANCOLIA (Melancholia). Dinamarca, 2011. Direção: Lars Von Trier. Com Kristen Dunst, Charlotte Gainsbourg, Alexander Skarsgard, Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling, John Hurt. 136 min.

Melancolia é tristeza, um estado de espírito que diz respeito à condição humana ou às vicissitudes da vida às quais estamos sempre sujeitos. Também pode ser encarada como uma doença, no caso, a depressão, mal recorrente dos nossos tempos. Tempos medicalizados que elencam patologias e cada vez mais buscam respostas farmacológicas, soluções químicas para um mundo que tem pressa, muito pressa.

O filme de Lars Von Trier se denomina melancolia, não depressão, e nos remete mais ao estado de espírito do que à doença. Estado de espírito incapaz de usufruir de momentos de prazer, de contatos afetivos genuínos, ainda que possam estar pautados por expectativas sociais. Incapaz de usufruir daqueles momentos fugazes e fugidios, em que a felicidade parece existir. Insatisfação, estranhamento, incômodo de viver, destrutividade e autodestrutividade. Isso tudo é o que se pode ver, com todas as letras, no comportamento de Justine (Kristen Dunst) em seu suntuoso e atormentado casamento.

Para o cineasta, Melancolia é também o nome de um planeta, que corre o risco de se chocar com a Terra e pôr fim à nossa existência. Uma ameaça a todos, o que torna a questão da melancolia não só um estado de espírito individual, que pode refletir seu tempo, mas um determinante coletivo.

A irmã de Justine, Claire (Charlotte Gainsbourg) não suporta viver com a angústia da possibilidade dessa finitude total e exala uma ansiedade que não envolve nem comove Justine. Enquanto Claire pensa no que fazer se o momento fatal viver a ocorrer, Justine fica indiferente, como se aquilo simplesmente fosse a ordem natural das coisas.

Quem procura ter controle racional sobre as coisas, tenta o caminho da objetividade científica, que pode desembocar no suicídio, ou seja, na tentativa desesperada de continuar no controle.

Em duas partes distintas e complementares, Lars Von Trier constrói um filme de grande beleza plástica, em que dramaticidade e alheamento se alternam, para tratar, de forma pessimista, de dimensões pessoais e planetárias que estão à deriva. Se vale da intensidade e da força da música de Wagner para acentuar certos momentos dramáticos. Mas a dimensão de possíveis tragédias não aparece de forma intensa na atuação dos personagens. Bem ao contrário, as emoções são contidas, as demonstrações de raiva, escárnio, ansiedade, medo e desespero, parecem encontrar uma espécie de barreira (social? cósmica?) que as impede de se exprimir mais amplamente. Tudo está claro, mas nada se mostra como tal.

O prólogo do filme reúne algumas das mais belas imagens e enquadramentos espetaculares, antecipando o que virá. Mas, ao contrário de “Anticristo”, que começou esplendoroso, mas se perdeu na grosseria do terror repulsivo, aqui ele mantém o pulso e o bom gosto até o fim. E se sai muito melhor no suspense, que se mantém ao longo de toda a fita.

Uma espectadora da sessão em que assisti a “Melancolia” comentava no elevador com uma amiga: “Eu queria ir embora há muito tempo, mas acabei ficando porque queria saber como ia acabar”. Ou seja, mesmo não gostando do filme, ele a prendeu. Mostra que o suspense realmente funcionou.

O que não funcionou e está prejudicando a carreira mundial de “Melancolia” foram os comentários idiotas que o diretor fez a respeito de entender Hitler e o nazismo, em pleno Festival de Cannes, que sempre serviu para promover seus trabalhos. De tanto querer fazer da polêmica o seu marketing, acabou colhendo o resultado oposto ao que pretendia. E o filme não tem nada a ver com tais declarações.

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