domingo, 10 de julho de 2011

OUTUBRO

Antonio Carlos Egypto

OUTUBRO (Octubre). Peru, 2010. Direção: Daniel Vega e Diego Vega. Com Bruno Odar, Gabriela Velasquez, Carlos Gasols. 83 min.


O protagonista de “Outubro” é Clemente (Bruno Odar), cuja profissão seria prestamista. É isso que é falado no espanhol original do filme e mantido nas legendas em português. Prestamista não é expressão usual hoje em dia. Remete, por exemplo, à letra de um grande samba de Noel Rosa, de 1932, “Coisas Nossas”:

“... Baleiro, jornaleiro,
Motorneiro, condutor e passageiro,
Prestamista e vigarista.
E o bonde, que parece uma carroça,
Coisa nossa, muito nossa!...”

E, pelo jeito, não é só coisa nossa daquela época, mas do Peru até os dias de hoje.

Prestamista é o cidadão que empresa dinheiro a juros. No caso, ao povo mais simples, do qual ele também faz parte. Agiota, pequeno explorador dos humildes. Já os bancos são os grandes. Bem, voltemos ao filme.

Clemente é uma figura tímida, solitária, alguém que leva uma vidinha nada invejável. Logo no início da película, se vê que uma refeição para ele pode se resumir a um ovo cozido e um pedaço de pão. Ele mora numa casa velha, descuidada, que revela pobreza. Guarda seu dinheiro, e eventuais relógios e joias dados como garantia de empréstimo, logo abaixo do forno defeituoso de um fogão em péssimo estado.

Sua relação com os clientes é dura, sem afeto nenhum e sem envolvimento com o drama dos endividados. Lembra o papel de Selton Mello em “O Cheiro do Ralo”, mas levado de um modo mais seco. Não há parentes, amigos ou mulheres de uma relação afetiva verdadeira. Seu hábito é frequentar prostitutas em lugares também sujos e decadentes. De uma delas vem a bomba: um bebê deixado numa cesta em sua casa, para ele cuidar. E a prostituta sumiu. Basta uma ou duas cenas para que se possa ver que ele não é capaz de cuidar de uma criança.

Sofia (Gabriela Velasquez), vizinha de Clemente, é devota do culto de Nosso Senhor dos Milagres, que acontece em outubro. E o milagre parece estar para acontecer: acaba sobrando para ela a tarefa de cuidar do bebê e, com isso, a possibilidade de fisgar o prestamista e melhorar de vida.

O filme vai acompanhando a procura da mãe prostituta, o empenho de Sofia, a relação que se estabelece e todo o entorno social que cerca essas figuras, que vivem em busca de um teto e de comida, em que o agiota é um sobrevivente ligeiramente melhor sucedido. Apenas isso.

A realidade aqui apontada por meio da vida e do relacionamento dos personagens que vão aparecendo ao longo do filme é inequívoca. As imagens e os comportamentos dizem tudo. A desesperança está no ar. Mas não há discursos ou teorias a expor. Tudo parece estar já determinado.

Até as tentativas de entrada de algum afeto na história são canhestras ou mal sucedidas. Cada um tenta sobreviver como pode, o que inclui alguma malandragem ou roubo entre eles, mas que incomoda, porque estão todos tão desgraçados que essas coisas só agravam ainda mais o quadro.

Não há surpresa nesse tipo de retrato, nem na proposta de uma estética da fome, em que os lugares estão todos desmoronando junto com os próprios personagens, falta respiro, as cores são esmaecidas, tudo é sério, estranho, às vezes, mas sem humor. É um cinema feito para incomodar e que leva isso a sério. Demais, talvez.

“Outubro” fará parte do 6º Festival Latino-americano de São Paulo, de 12 a 17 de julho de 2011, em vários cinemas e nas salas da Cinemateca Brasileira, um espaço que precisa ser mais conhecido e melhor aproveitado pela população paulistana. Em seguida a essa participação no Festival, o filme está previsto para ser lançado no circuito comercial.

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