Antonio Carlos Egypto
ORWELL: 2 + 2 = 5. França, 2025. Direção: Raoul Peck. Narração: Damian Lewis. Documentário.
119 min.
O documentário “Orwell: 2 + 2 = 5”, do diretor
Raoul Peck (de “Eu Não Sou Seu Negro”, de 2016, “O Jovem Karl Marx”, de 2017, e
“Ernest Cole: Achados e Perdidos”, de 2024), nascido em Porto Príncipe, Haiti,
de quem se poderia esperar muito, pelo que já fez, decepciona um pouco. Não porque não seja bem-feito, nem por falta
de uma ampla pesquisa de textos e imagens, menos ainda pelas boas intenções da
proposta.
O problema é que o filme, ao questionar o mundo
atual, opressor, mentiroso, manipulador e cheio de excessos, padece exatamente
de um desses pecados: o absoluto excesso de informações que até dificulta a
compreensão e não nos permite usufruir e refletir sobre o que nos é mostrado.
Para começar, porque a proposta é ambiciosa
demais. Centra-se na figura do grande
escritor George Orwell (1903-1950), apresentado como uma espécie de profeta do
mundo atual, a partir do que criou e escreveu sobre o autoritarismo e sua
capacidade de nos manipular e produzir crenças majoritárias baseadas nas
mentiras apresentadas como verdades absolutas, impostas pelos tiranos e sua
tecnologia.
A partir daí, o filme tenta mostrar que os fatos
ligados ao autoritarismo, não só dos nossos tempos como do passado, vinculam-se
a Orwell de algum modo. E desfila um
colosso de fatos informativos e imagens atuais e de época sendo narrados ao
mesmo tempo em que, muitas vezes, são exibidos também palavras e números
escritos na tela. Para um filme
legendado a ser visto por aqui, não dá nem para acompanhar as duas coisas
juntas. As legendas duplas nem cabem na
tela. Assim, o que seria uma denúncia
para lá de justa e uma justaposição de situações diferentes revela-se exagerada
e irritante.
Quem já não se queixou de ser invadido por um
turbilhão de imagens e mensagens impossíveis de se processar? E que pelo
excesso passam a incomodar muito mais do que contribuir com alguma informação
relevante? Infelizmente, é isso que
acontece com “Orwell: 2 + 2 = 5”, na minha opinião.
Uma edição mais enxuta, seletiva e menos agitada,
poderia ter dado origem a um documentário excelente. Mas não aconteceu.

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