Antonio Carlos Egypto
LIVING THE LAND (Sheng Xi Zhi Di). China, 2025.
Direção: Huo Meng. Elenco: Wang
Sang, Zhang Yanrong, Zhang Chuwen. 130
min.
O filme “Living the Land” do cineasta chinês Huo Meng, em seu segundo
longa, é uma obra cinematográfica refinada pela beleza das imagens, fotografia,
uso das cores vivas, bom aproveitamento das locações e pelo enquadramento das
ações, sendo que a maior parte delas envolve muitos personagens em
deslocamento.
A obra focaliza uma pequena comunidade rural tradicional chinesa, em suas
múltiplas e variadas ações produtivas de sobrevivência, mas no momento em que
as mudanças socioeconômicas do país o levam aceleradamente para a modernidade:
os anos 1990. Recheada de personagens
típicos das pequenas vilas, com seus problemas, conflitos, dificuldades,
preconceitos, mas que formam uma liga afetiva, praticamente familiar. Consequentemente, o controle social dos
comportamentos é muito intenso.
Em tempos de fortes mudanças, as novas tecnologias e as novas diretrizes
econômicas e sociais alteram radicalmente a vida de todos e o caminho natural é
ir para a cidade, em busca de novas oportunidades. Uma questão muito mais de sobrevivência do
que da própria busca por uma vida melhor.
O filme nos coloca numa imersão na vida em comunidade e nas
transformações que vão ocorrendo, afetando as pessoas. Mostra também a história de personagens
representativos na figura das crianças que ficam, mas precisam partir para
existir no novo modo de vida chinês.
Apesar disso, os personagens não são desenvolvidos ou aprofundados. É o seu conjunto em ação que funciona como
protagonista. Ou seja, o protagonista é
a comunidade. É nesse sentido um filme
sociológico. Ilumina a sociedade, as
pessoas são peça e consequência do coletivo.
Vamos ouvir um pouco do que diz o diretor Huo Meng: “Eu queria retratar
como, quando políticas sociais coletivistas colidiram com tradições moldadas ao
longo de milênios, as pessoas foram forçadas a se adaptar de maneiras que
desafiaram seu próprio modo de vida” e acrescenta: “Também senti que era
importante retratar as imensas pressões que as mulheres enfrentaram... que
deixaram danos duradouros e irreversíveis”.
As personagens femininas são muito claramente as mais afetadas por todo o
processo que subverte a vida familiar tradicional. Isso tudo se percebe ao longo da narrativa
que, apesar dessas palavras do cineasta, é leve, respeitosa e sem julgamento ou
moralismo. O que é, sem dúvida, um
mérito do realizador.
“Living the Land” venceu o Urso de Prata de melhor diretor em Berlim e
recebeu muitas críticas elogiosas mundo afora.
E é, de fato, um belíssimo filme.

