quinta-feira, 18 de abril de 2013

HOJE

                                
Antonio Carlos Egypto



HOJE.  Brasil, 2011.  Direção: Tata Amaral.  Com Denise Fraga, Cesar Trancoso, João Baldasserini, Pedro Abhull, Lorena Lobato.  82 min.

O que sabemos sobre as pessoas que viveram a luta clandestina e armada de resistência à ditadura brasileira, no seu período mais tenebroso?   Que marcas a tortura deixou nas pessoas que sobreviveram?  E quanto aos desaparecidos?  Como ficaram as relações pessoais e familiares?  Qual foi o custo dessa história toda? São perguntas que remetem ao passado?  Segundo a diretora Tata Amaral, não.  Trata dessas pessoas hoje.  Daí o nome do filme.

Qual é o sofrimento que existe hoje?  O que fica entranhado na vida de alguém que foi torturado, resistiu heroicamente ou delatou, e sobreviveu?  E os filhos e companheiros ou companheiras que sumiram?  Porque é preciso abordar questões como essas, abrir a caixa-preta, na expressão de Denise Fraga, é que é muito oportuna a história contada em “Hoje”, com base em ótimo roteiro de Jean-Claude Bernardet, Rubens Rewald e Felipe Sholl, a partir do livro “Prova Contrária”, de Fernando Bonassi.



Vera, que já teve o codinome de Ana Maria, quando viveu em aparelhos clandestinos, interpretada por Denise Fraga, teve seu companheiro desaparecido: Luiz, ou Carlos, como codinome, o papel de Cesar Trancoso.  Quando Vera é reconhecida como viúva, obtém legalmente uma reparação em dinheiro, o que lhe permite ter, pela primeira vez na vida, um apartamento comprado a vista. Pode usufruir agora de algum conforto.  É o que se mostra nas características do velho mas espaçoso imóvel.  Vemos sua mudança, que decorre ao longo de todo o filme.

Com o apartamento, vêm as culpas, o medo da verdade, os fantasmas.  Eles sempre estiveram aí, estão aí, mas potencializados pela concretude da moradia, consequência trágica da perda.  Mas, e se o desaparecido aparecer de repente? 

Ao relatar essa história íntima, Tata Amaral põe Vera em contato com Luiz e também Ana Maria em contato com Carlos, enquanto os carregadores vão trazendo as caixas da mudança que terão de ser postas em algum lugar e abertas depois.  Clara metáfora das caixas-pretas que continuam por aí, esquecidas ou negadas.  Hoje elas parecem destinadas à Comissão da Verdade, enfim criada há um ano.  Mas pertencem a todos, a toda a nação.  Como é possível viver sem abri-las, organizá-las, dispor de seu conteúdo pela casa?  Mesmo que a caixa destinada à saleta vá parar no quarto, ou a do escritório fique na sala.  É fundamental abri-las, conhecê-las.



Denise Fraga é reconhecidamente uma das grandes atrizes brasileiras da atualidade.  Tão competente nos papéis cômicos, desenvolve aqui um papel dramático, trágico, cheio de nuances, sentimentos fortes abafados, ambiguidades.  Ela tem um admirável desempenho, que dá força e significado à temática que “Hoje” abraça.

Cesar Trancoso, o ator uruguaio, protagonizou “Infância Clandestina”, o filme argentino que representou a nação portenha na disputa do Oscar de filme estrangeiro.  Já havia participado, também, da divertida produção uruguaia e brasileira, “O Banheiro do Papa”.  É um excelente ator e também faz um belo trabalho.  Não deixa de ser curioso constatar a escolha de alguém de origem estrangeira e forte sotaque para viver um personagem que luta contra a ditadura brasileira.  Busca dar uma dimensão mais ampla, ultrapassar a própria realidade nacional?  Será uma forma de relacionar os dramas vividos por aqui com os da Argentina, Uruguai, Chile?  Uma alternativa para dar ao personagem a possibilidade de ter sumido do país?  Creio que tudo isso pode caber.  Faz sentido, pelo menos.



Tata Amaral escapa à situação teatral a que a história conduz, toda ela vivida num apartamento vazio, que vai sendo preenchido.   Ela se vale de projeções e de planos diversos, que sempre mostram o apartamento sob ângulos e aspectos diferentes.  Funciona bem.

“Hoje” foi o grande vencedor do Festival de Brasília de 2011, recebendo o prêmio da crítica de melhor filme e prêmios para atriz, fotografia, direção de arte e roteiro.



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