sábado, 23 de março de 2013

A CAÇA

                           
Antonio Carlos Egypto



A CAÇA (Jagten).  Dinamarca, 2012.  Direção e roteiro: Thomas Vinterberg.  Com Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkoop, Lasse Fogelstrom.  115 min.

Thomas Vinterberg é o cineasta dinamarquês que realizou, em 1998, o brilhante “Festa de Família”.  Ali, num evento preparado para homenagear os 60 anos do patriarca, vem à tona um histórico de abuso sexual dentro da família, que vira do avesso a festividade e derruba todas as convenções e aparências.  O acobertamento e a impunidade do agressor foram pontos marcantes dessa trama.
Abuso sexual é uma coisa muito séria e demolidora para quem é vítima e até para o abusador, geralmente abusado na infância, que repete o comportamento por falta de elaboração, por não tê-lo superado.  Algo como uma vingança inconsciente.  Esse filme foi, e é, uma referência para a discussão do tema, pela qualidade do trabalho apresentado.

Pois bem, Thomas Vinterberg agora focaliza o outro lado do mesmo problema.  Se praticar abuso sexual é terrível, ser acusado de tê-lo praticado, sem que isso seja verdade, é igualmente terrível.  O acusado é julgado e condenado moralmente pela comunidade, sem que se deem a ele condições reais de se defender.  Na verdade, ninguém quer ouvi-lo.  Ele já foi condenado por simples indícios, a partir da fantasia de uma menina pequena, de 5 anos, do jardim da infância.  Perde o emprego, sumariamente.  É alvo da desconfiança de seus entes mais próximos: a nova namorada, o grande amigo, o filho adolescente.  Faz lembrar os personagens de Hitchcock, culpados até que provem sua inocência, tudo conspirando contra eles.
Mas eu gostaria de enfatizar aqui o fato de que o mesmo diretor olhe pelo outro lado do problema e tenha sensibilidade para apresentar um drama de proporções similares.  Quando alguém julga e condena e isso se torna uma avalanche no ambiente social, o que quer que o acusado possa dizer ou mostrar será sempre utilizado contra ele.  A comunidade mergulha numa histeria coletiva.  Não importa se não há provas ou se elas não são suficientes ou conclusivas.  Isso, colocado na mídia, torna-se algo monumental, sem saída.

Não custa lembrar o famoso caso da Escola de Base, de São Paulo, acusada em 2005 da prática de abusos sexuais em seu interior, com ampla repercussão em todos os tipos de mídia.  Ela foi depredada, financeiramente destruída, seus donos foram ameaçados de morte, até que se chegasse à conclusão da sua inocência.  Impossível reparar o que se perdeu.
“A Caça” mostra todo o processo de acusação que destrói a vida do personagem Lucas, o ótimo ator Mads Mikkelsen, premiado em Cannes, que já atuou em muitas produções nórdicas de qualidade, inclusive o recente “O Amante da Rainha”.  Ele, acuado, percebendo que qualquer fala ou reação só faz incriminá-lo ainda mais, suporta o inferno até o seu limite.  A interpretação do ator nos dá toda a dimensão do sofrimento e da injustiça que ele vive.  Mais um grande filme do diretor Thomas Vinterberg.  Grande pelo seu talento e brilho, apesar da produção modesta.  Em todo caso, nem tão modesta quanto a de “Festa de Família”, que pertencia ao movimento Dogma 95, que buscava realizar filmes com pobreza, dentro de recursos intencionalmente limitados.  O movimento não foi avante, mas o cineasta fez o melhor filme dentro dele e agora faz o seu reverso, com rara competência.  Admiro quem é capaz de ver em profundidade, por diversos ângulos, uma mesma questão.  Tem mais chances de alcançar a complexidade dos fatos e do conhecimento.  Agora, “A Caça” torna-se também uma referência importante na discussão do tema do abuso sexual.


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