domingo, 15 de julho de 2012

O MOINHO E A CRUZ

   Antonio Carlos Egypto


O MOINHO E A CRUZ (The Mill and The Cross).  Polônia, 2011.  Direção: Lech Majewski.  Com Rutger Hauer, Charlotte Rampling, Michael York.  91 min.


O pintor Pieter Bruegel (1525?-1569) nasceu numa localidade que provavelmente se situa hoje na Holanda.  A data de nascimento é também incerta. É fato que morreu em Bruxelas.  Homem do Renascimento, retratou em suas telas toda a vida rural de pequenas aldeias, num mundo marcadamente medieval.  Seus quadros pareciam querer abarcar tudo o que se fazia e se vivia naquele pequeno mundo, inclusive os medos, as fantasias, a insegurança, o terror.  Mas a vida produtiva, as festividades, a comida, os trajes, os rituais religiosos, a vida compartilhada com os animais, as contendas, crueldades e o ser humano dentro da paisagem natural, sendo pequeno frente a ela, são características de sua obra.

É importante situar isso para falar do filme “O Moinho e a Cruz”, porque sua proposta é bem original.  Ela parte de um quadro de Bruegel para recriá-lo no cinema, enfocando tudo o que tem nele e, dessa forma, descrevendo a sociedade rural do século XVI, tal como o artista a via e percebia.  O quadro se move e se subdivide em suas múltiplas partes.  Outras informações pertinentes à época retratada são utilizadas.


A ideia é perfeita, justamente porque o pintor buscava mesmo retratar a vida do povo flamengo nessas pequenas aldeias, com todos os seus elementos constitutivos.  É curioso, porém, que a tela escolhida para o filme seja A ida ao calvário ou A procissão e o calvário, um tema religioso aparentemente deslocado de seu tempo.  Sim, porque todas as características da sociedade que ele descrevia pictoricamente estão lá, assim como nas outras telas dele.  O homem que carrega a cruz no centro do quadro não se destaca, nem se pode afirmar categoricamente que seja Jesus Cristo.  O que está em jogo aí talvez seja mais a banalidade desse tipo de crueldade, assim como a de uma roda altíssima em que é posta uma vítima para ser mutilada pelos corvos ou mulheres enterradas vivas, como o filme acrescenta.  O fato é que, na película, a crucificação desta figura é Cristo, com direito aos dois ladrões, aos clássicos trovões e à proximidade da mãe, a Virgem Maria, papel de Charlotte Rampling.  No quadro, a figura equivalente existe, mas não está próxima da vítima.  Reflete a dor por seu martírio mas não a vê.

Deixando de lado, porém, o tema religioso, a caracterização da aldeia do século XVI é magnifíca.  O visual do filme é tão caprichado e fiel ao que retrata Bruegel que tudo fica muito bonito e remete àquele tempo que podemos conceber a partir das pinturas.


O ritmo do filme é aquele em que supostamente viviam as pessoas, há muito pouca fala e a tela do cinema fica povoada de personagens grande parte do tempo, como se vê nos quadros de Bruegel.  A recriação da paisagem é muito fiel.

Uma característica da tela em questão é muito bem explorada no filme: o moinho.  Ele está a uma altura desproporcional à paisagem.  Bem no alto, no ponto mais alto possível.  O pintor, que é personagem do filme, construindo sua tela, diz que o moinho precisa estar no alto, porque ele concebeu o moleiro como representação de Deus, aquele que vê tudo de cima.  Esse ponto de vista é explorado pela câmera, além de que o filme concebe o interior de tal moinho, sua enorme escadaria interna, suas engrenagens, as pás que o movem, dando uma dimensão que transcende a realidade concreta.


Bruegel, vivido pelo veterano ator Rutger Hauer, desenhando e concebendo o quadro, vivendo e observando tudo o que acontece, é também um ótimo recurso.  “O Moinho e a Cruz” é, inegavelmente, um belo filme, sofisticado na sua concepção, plasticamente irretocável.  É um filme dirigido a um público pequeno, mas que certamente saberá apreciar a sua estética.

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